Terça-feira, Junho 30, 2009



BEIJANDO JESSICA STEIN de Charles Herman-Wurmfeld


I

- Há quanto tempo?
- Não sei precisar o tempo. Meses, semanas, não sei. O que eu sei é que quase todos os dias eu desço a rua e a gente se encontra na mesma esquina meio afobados, na correria dos minutos. A gente se encontra e desce a rua juntos, no mesmo horário. A gente caminha próximo um do outro até chegar à estação do metrô. E uma vez na plataforma, nós entramos no mesmo vagão. Quase sempre. Até que depois de vinte minutos, trinta, eu não sei do tempo, o Centro da cidade nos separa mais uma vez e nos perdemos pelo dia.
- Nunca houve contato? Você nunca se apresentou?
- Não.
- ele nunca disse nada?
- Nada.
- No mesmo vagão do metrô, uma vez, nós ficamos tão próximos. Tão cheio, tantas pessoas. Nós tão próximos, se eu me concentrasse um pouco eu poderia perceber o movimento da respiração dele. O perfume da barba por fazer. O Cheiro da pele e o ritmo do corpo ao se movimentar dentro do movimento do trem. Tão próximos. Eu percebia ele me encarar sem que eu o encarasse. E quando me enchia de coragem e o encarava, algo fazia com que nosso olhar não se encontrasse. Como as linhas do trem que não podem se cruzar. Como as linhas do trem que fagulham ao maior atrito. Existe algo de impossível entre nós.
- Elabore.
- O nosso olhar não se encontra diretamente, eu falo de olhos nos olhos, o reconhecimento. A retina identificando o outro como uma possibilidade real. Alguém para ancorar. Se a gente se olha, além do atrito, da fagulha, há também o anúncio de um acidente. De um provável acidente de percurso. Então nós nos percebemos e também nos acostumamos a descer a rua todos os dias, confortavelmente interessados um na presença do outro, flertando com a possibilidade, mas não passamos disso.
- De?
- De um desejo.
- Todas as suas relações são platônicas.
- Falar, me apresentar, entrar na vida, tudo isso seria desfazer o novelo.
- Realidade.
- O que eu quero dizer é que eu gosto da sensação que o mistério me causa.
- Você precisa de realidade.

II

Nós caminhamos juntos por quase trinta minutos e não trocamos muitas palavras. O teu telefone em urgência e eu entendo do querer, não compreenda essa observação como um irritado puxão de orelha. Em absoluto. Precisava caminhar, esse inverno carioca de céu azul que a gente se adapta e luta com as armas disponíveis. Mas eu precisava sair do teatro e enfrentar o asfalto, o início da noite, o vento gelado no rosto, as ruas pela frente. Eu precisava caminhar. Traçar um ponto de partida e algum destino e me deixar conduzir. Já sentiu vontade de ir em frente? Sem a preocupação com o horário, com os compromissos ou o universo ao redor? Ir adiante. Caminhar, sentir os músculos em ação, o corpo em movimento, quebrando a inércia. As ruas pela frente.

Eu não sei se você espera de mim alguma palavra. Justamente pelo fato de sempre te deixar muito claro o que penso. Ou quase sempre sinto. Histórias que se repetem me cansam. Cansam tanto a ponto de não querer mais. Porque já conheço os vícios, já decorei as reações, já estou treinado para reagir e nesse momento, tudo o que parece mecânico não me interessa. Sim, eu compreendo. A pessoa é outra, então tudo é diferente porque é outro amontoado de histórias que encontram tuas histórias e nesse encontro, nesse xis da caminhada, o enredo muda, os detalhes tecem novos cursos, a cadência é outra. A cadência sempre será outra porque o dia também é outro. Estou parecendo a Elisa Lucinda com o parem de falar mal da rotina, o que não me incomoda porque o discurso é o mesmo. A rotina não é um problema porque cada minuto é uma novidade, eu sei que estou sendo óbvio, mas ser óbvio justifica os meios, os fins e todo o começo.

Histórias se repetem, meu caro. Os dias, nunca. Além do coração, o que me chamou a atenção antes de chegar até aqui foi o tamanho das tuas asas e o teu amor pela liberdade. A tua relação de intimidade com o momento, o instante de ser quem você é, sem espelhos, farsas ou complicadas tramas. Você, um homem de quase trinta anos, fã da cantora cor de rosa e carvão, tão interessado pela vida – dos grãos e da colheita – e pelas pessoas que se aproximam de mansinho. Tão atento, especialmente cuidadoso. Tão simples no embate entre o teu saber, tua mochila de verbos e o outro. Foi na clareza da simplicidade que pude observar tua liberdade nua, inteira, tão próxima, ao meu alcance. Então quando falo em repetições que me cansam, o mecânico e seus reflexos imediatos, eu quero te dizer para que não se perca de mim. Não se perca, enfim. A gente nunca sabe o que virá.

Não se perca, enfim. Para que se cumpram os retalhos da colcha que delicadamente e muitas vezes de maneira arrebatadora, começamos a tecer. Sem perceber.

III

Perdoe senhor, se teus olhos não me impressionam mais. É que o teu jogo repetiu os vícios. Deu game over e recomeçou sucessivas vezes. Eu busco a segurança da confiança. O abismo da certeza. Preciso ficar bem e estar ao lado de quem me faça bem. Quem me queira bem. Ao teu lado, as paredes afunilam. Ao teu lado, é preciso alimentar lobos a cada minuto. Despistá-los. Não quero ser trampolim. Ou impulso. Quero apenas ser o amigo ou o amor. Ou os dois. Tão inexato assim. Compreendi tuas sugestões mesmo sem as palavras exatas.

É hora do vôo solo.

Game Over.

Fatality.

Sexta-feira, Junho 19, 2009



COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ de Peter Segal

“in me all that fire is repeated,
in me nothing is extinguished or forgotten,
my love feeds on your love, beloved”
If you forget me / Pablo Neruda


Cheguei uma hora antes. Por que eu saí mais cedo do trabalho. Porque eu não queria correr o risco de me atrasar. Porque o metrô é tão rápido que a gente nem sente. Porque um monte de infinitos motivos que coincidiram nesse raro fato de chegar em algum lugar exageradamente adiantado. Eu sou sempre aquele cara que chega em cima da hora, na cola dos minutos finais. Com a testa suada, a respiração ofegante, o fone nos ouvidos, ávido pelo desejo de conseguir chegar antes do tempo marcado atingir a sua perfeição irreversível.

Depois eu sentei no degrau mais alto da escadaria incomparável do Teatro Villa Lobos e o Wesley passou caminhando para casa. Faz tanto tempo que eu não vejo o Wesley. Faz tanto tempo. Ele me deu um beijo no rosto e sentou na minha frente. Nós falamos de tanta gente em tão pouco tempo. Que fulano casou, que a outra foi embora da cidade, que aquele outro já teve um filho, que tantos e tantos nomes e pequenos comentários sobre os rumos que cada um tomou. Ou não tomou. Depois ele se despediu, te deixou um beijo e se misturou ao fluxo intenso de Copacabana.

Então eu comecei a pensar que encontrar alguém de muitos anos atrás, faz com que a gente encontre também outros nomes e outras sensações que a gente deixou por lá. Pessoas das quais nos afastamos. Pessoas que se afastaram. Algumas delas sem motivo algum. Outras delas porque as direções partiam, interrompiam por um momento, a convivência das nossas histórias. E nós dois. Eu pensei em nós dois. Mais uma vez em nós. Que vencemos a distância. Não nos deixamos levar por ela. Ela simplesmente passou e imunes, sem combinar ou dissertar ou sequer nos preocuparmos, ela se foi, como se não nos percebesse.

Eu nunca pensei no futuro sem você para dividir os dias. Talvez por esse motivo, o fantasma da distância não tenha nos deixado medo. Porque nós sabíamos ou pressentíamos que no encontro bacana de dois jovens rapazes estudantes de teatro, havia certezas e havia também imensas dúvidas sobre todas as certezas que a gente viu como um jogo de espelhos, se multiplicar no quarto escuro da adolescência atenta. Então não havia medo de se perder. De partirmo-nos. Oito ou nove anos depois ainda dividiríamos os nossos segredos. Nos escreveríamos cartas gordas. Jantaríamos juntos pelo prazer da companhia. Dormiríamos no mesmo quarto pela felicidade do saber-se juntos. Nos abraçaríamos na felicidade das conquistas para comemorar. Deixaríamos nossos telefones nos informar nossos passos largos pela noite adentro, pela vida afora. As dúvidas, as percepções, as nossas infinitas descobertas, aquele medo tal, aquela angústia outra, aquele pavor do fio da corda que nos arrepia, dividiríamos oito ou nove anos depois com aquela sensação potente do acontecimento inédito. Sorrindo as mesmas diferenças. Renovando o cuidado, a atenção, o carinho da percepção, todos os dias. Para que nos preservássemos do mofo, da poeira, do grande descuido que há por aí, do qual já fomos tantas e tantas vezes protagonistas e coadjuvantes.

Você me ensinou sem dar nenhuma explicação que cuidar exige dedicação. Eu acreditava que essa era uma lição compreendida. Depois você me disse sem usar nenhuma palavra que não é bem assim e que cada encontro é singular. Porque a combinação do outro ao encontrar ou se misturar às suas combinações, vão gerar um tipo de relação tal que nunca será igual em outra pessoa. Eu sempre lembro do filme do Adam Sandler que todos os dias faz com que a Drew Barrymore se apaixone por ele, ao acordar sem memória. Incansavelmente. Movido pelo querer bem que o amor nos brinda. Essa dedicação natural pelo outro, você me ensinou sem estabelecer regras ou regulamentar qualquer patifaria, não só nos renova os laços, mas nos faz melhores cavalheiros. Não no sentido hierárquico do melhor. A escala onde somos melhores, maiores e mais limpinhos que os outros. Melhores cavalheiros, no sentido de nos concedermos um fragmento a mais. Estender o braço para que alguém te puxe enquanto carrega o outro. Sem ter que anunciar, estampar ou fazer um livro de auto-ajuda, feito tola competição, das quais também já fomos protagonistas e coadjuvantes. Alguém melhor para si. E para o outro. Intimamente.

Nós éramos dois jovens rapazes que se descobriram no esbarrão pela cidade. Nos alimentamos da energia, da curiosidade, do desejo um do outro. E sabe-se lá como, permanecemos e viramos homens com barbas e volumes evidentes, confidentes e confiantes em histórias que se realizam. Tristes, apaixonadas, dramáticas ou imensamente divertidas. Mas histórias sempre reais. De carne, osso e quase sempre alguma fotografia para documentar, um porre para alegrar e uma ou outra carta para nos legitimar. Histórias que são escritas em uma escadaria de Copacabana, ao som da avenida movimentada e uma chuvinha fina que começa a se apresentar junto com a tua peça de teatro.

Te vejo no fim. Que sempre recomeça.


Sexta-feira, Junho 12, 2009



SUPERBAD - É HOJE de Greg Mottola

Era uma mão estendida, a palma da mão aberta de uma mulher,
e eu a segurei
”.
(Dez Coisas Verdadeiras/ Miranda July)


- Você topa?
- Se eu topo?
- É, cara. Não ta afim?
- De? Eu não sei do que você está falando, mas de qualquer forma, não muito. Eu só estou acompanhando a minha sobrinha, eu prometi que vinha com ela em fevereiro. Aqui estou, arrependido, com febre e muita dor de garganta.
- Relaxa, vai. Eu só queria saber se você quer fumar um baseado com a gente.
- Então eu tenho cara de maconheiro.
- Não é isso, vai.
- Quem está com você?
- O meu namorado. E a tua sobrinha, onde foi parar?
- Lá na grade, na frente do palco. Com aquela camisa amarela dos Beatles.
- Agora ainda dá pra ver. Daqui a pouco, ela vai sumir com a multidão.
- Certamente.
- Você não vai assistir ao show com ela?
- Ela trouxe duas amigas. Nós combinamos um ponto de encontro, caso ela não se sinta bem.
- Então você não curte?
- O baseado?
- A banda, você não curte os meninos?
- Eu não conheço os meninos.
- Nossa, cara. Em que planeta você vive?
- No planeta onde adolescentes não oferecem drogas a estranhos?
- Eu já tenho dezessete.
- E seu namorado?
- Dezenove. Aliás, foi ele quem insistiu para que eu viesse aqui te convidar.
- Então posso considerar como um convite...
- Você sabe quem ele é, não sabe?
- Quem?
- O meu namorado. Você tava olhando para ele logo que nós entramos.
- Como?
- Tudo bem, eu não me importo. Acho até excitante. Nós somos bem liberais, sabe?
- Sei.
- Então, você topa fumar com a gente? Aqui é super tranquilo.
- Não sei.
- Diz que sim, vai?
- O seu namorado.
- O que tem ele?
- Onde ele está?
- Nós estamos do outro lado, ele está sentado no chão, ali, de camiseta vermelha. Viu?
- Vocês não têm vontade de ficar lá na frente?
- Ah, não. Nós viemos para curtir, sabe?
- Que bom.
- Então, esse negócio de ficar lá na frente se esgoelando, não é com a gente.
- Você são mais calmos.
- Mais reservados. A gente se entende.
- Se entender é importante.
- Então, você compra umas bebidas e encontra com a gente?
- Comprar bebidas?
- É, umas cervejas.
- O seu namorado não é maior? Por que ele não compra as cervejas?
- Você faz muitas perguntas.
- Vocês não têm grana, é isso?
- Dinheiro nós temos.
- Qual a idade dele? Sem mentir ou essa conversa não vai adiante.
- Ele tem dezessete. É que no bar não é como na entrada, que eles olham a identidade na correria. Lá no bar, eles analisam mesmo.
- Se me pegarem comprando bebida para menor de idade, eu posso ir preso. Você sabe disso, não sabe?
- Mas isso não vai acontecer.
- Bebendo cerveja, fumando maconha, quer dizer, para que serve o Código Penal?
- Porra, tu é advogado?
- O que há com a geração de vocês que não respeita a caretice alheia?
- Vamos curtir, vai.
- Desculpa lindona. Hoje eu estou fantasiado de tio responsável.
- Se ele viesse, seria diferente, não seria?
- Eu olhei o seu namorado. Por menos de dois, três minutos, não sei. Olhei como quem observa alguém interessante. Achei ele bonito, o rosto bonito, muito bonito. Depois ele sorriu e eu percebi no detalhe do sorriso aberto que ele era jovem. Jovem demais, agora eu sei. Depois eu o perdi de vista. E ele desapareceu da mesma forma que surgiu. Então se ele viesse me abordar talvez o interesse poderia ser diferente. Quem sabe? E eu me deixaria encantar pela juventude arrebatadora da sedução. Ou diria não, um suave não, da mesma forma, volume e textura como esse que eu te dei.
- Então você deve ser professor.
- Bom show para vocês.
- Peça alguma coisa, qualquer coisa que a gente faz.
- Qualquer coisa mesmo?
- Só pedir.
- Então eu te peço para que você me deixe sozinho.
- Não vale, né?
- Você disse qualquer coisa.
- Sim, mas para tentar te convencer a ficar. Se você pede para eu sair, então eu vou ter que desistir de você.
- Não seria ótimo?
- Para quem?
- Você poderia estar conversando com outra pessoa. O tempo, você deve saber.
- Eu conheço o Cazuza.
- Então?
- Você é difícil.
- Eu compro as cervejas. Sem problemas. Eu compro e te entrego. Depois você some e vai encontrar o teu namorado. Vai lá deixar o álcool atlterar as tuas sensações. Ou pelo menos fingir que o álcool te deu coragem para você fazer um monte de coisas que o plano real nos inibe a maior parte do tempo. Depois vocês acendem o seu baseado e outra vez, fingem que ele acentuou as sensações, deixou a atmosfera mais sensível. E beijam-se loucamente a noite toda, a dois, a três, essa geração de vocês é tão plural. No sentido mais amplo que a palavra alcançar. Vocês não sabem o que ser. É tanta possibilidade. Eu não sou tão velho assim, mas eu não tinha tantas opções. E te confesso que o proibido, que esse grande e perigoso ‘não pode’ era mais saboroso porque a gente desafiava também pela curiosidade, mas muito mais pelo desejo de querer fazer parte.
- Então você vai comprar as cervejas?
- Se você me contar um segredo.
- Um segredo?
- Sim, mas um segredo que ninguém saiba. Nem seu namorado, nem sua melhor amiga ou sua mãe. Um segredo só seu. Que ninguém no mundo soube ou saberá.
- E você não vai me contar nada?
- Eu vou te comprar a bebida.
- As bebidas.
- Sim.
- Não é justo.
- Pois me parece.
- Eu não sei se eu tenho um segredo assim. Eu tenho dezessete anos, cara. Quem tem um segredo aos dezessete anos?
- Eu carregava alguns na sua idade.
- Todas as noites eu pego o metrô. Entre sete e nove horas. Eu moro bem pertinho da estação do Flamengo. Eu pego o metrô e vou até Copacabana. Depois eu volto para casa e vou dormir. Ou fico no computador conversando.
- Ninguém nunca te encontrou?
- Não. Eu gosto de olhar as pessoas. Eu gosto de ver que todo mundo tem um destino. Eu gosto de ver que essas pessoas cumprem os seus destinos. Isso me conforta, me causa alegria, eu não sei. Quando eu era criança...
- Ainda agora.
- Quando eu era criança, eu vi uma mulher de vermelho. Ela usava um vestido vermelho muito sedutor. Um vestido vermelho lindo. Sabe O marido da cabeleireira?
- É um dos meus filmes preferidos.
- Sério?
- Te confesso que me surpreende que você conheça esse filme.
- Então, ela usava um vestido vermelho como a mulher do filme. E ela cheirava bem. Um perfume que eu nunca mais senti. Um perfume... Ela entregava flores dentro do metrô. Ela não vendia, ela oferecia flores. As pessoas fingiam que ela não estava presente. Sabe essa coisa de ignorar o que nos incomoda? Mendigos, meninos na rua, malucos, então. Quase ninguém pegava as flores. E ela tinha um olhar doce, uma suavidade tão forte. A rosa que ela me deu não durou muito. Mas a sensação que ela me causou, eu busco ela todas as noites quando eu entro no metrô.
- Bela história.
- Obrigado. Você tem certeza que não quer ficar com a gente?
- Ficar?
- É, assistir aos meninos, conversar, pular, cantar, essas coisas de gente jovem.
- Eu vou para o bar comprar umas cervejas. Depois eu não sei.
- Nunca sabemos, né?

E me sorriu o sorriso mais lindo.

A gente tem esse dom para o imprevisto que não se explica.


Terça-feira, Junho 02, 2009



DIVÃ de José de Alvarenga Jr.

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.

(Separação / Affonso Romano de Sant’Anna)


Faz um tempo que penso em escrever. Esse texto, eu digo. Não mais uma nova carta esbanjando simpatia e (ou) admiração. Não mais uma velha carta sublinhando a falta nova que você me faz. Penso em te escrever sobre o que sinto por nós dois. Deixando de lado o estilo trágico-sentimental – o que me desarma em absoluto. Me deixa um tanto vulnerável por não ter onde me segurar, caso eu precise te dizer a verdade. Te escrever sempre foi um exercício não só de paixão, mas de amor às palavras. Eu me descobri apaixonado pela maneira de te dizer, escrevendo desse amor. Então eu já abro esse parágrafo dizendo que você foi o homem que me abriu o chão, em terremoto sublime ao perceber que – e foi (e é) o responsável pelo meu exercício da escrita. Pelo amadurecimento dessa tarefa. Pela minha mais íntima dedicação. Meus momentos de intensidade sem medo. Sem sombras.


Quero te escrever sobre nós dois. Mas não quero retroceder o nosso encontro no tempo e dizer tudo o que vivemos de lá para cá. Não. A história de nós dois, nós vivemos. Eu quero te contar das elipses. Quero te participar dos silêncios. Das horas em que não estivemos juntos fisicamente. Da seqüência de acontecimentos que eu experimentei – e também você – quando não estivemos compartilhando. Eu, dentro da minha vida em outro cenário. Você, do seu lado da ponte, entregue ao teu roteiro. Quero te contar desse compromisso que a gente tem de ser um só. Da unidade de ser alguém e conseguir dar continuidade à nossa formação – que muda sempre porque estamos abertos ao que é novidade, ao que nos interessa. Te lembrar da beleza de ser indivíduo. Peça única. Um homem apenas. Que ao encontrar o outro, seja alguém para confiar a amizade, seja alguém para depositar o amor, transforma a vida. Brinca de construir para demolir e depois construir e depois faz de conta o que é realidade, leva a sério a fantasia. Essa soma, do um mais o outro – e sendo especialmente específico – eu mais você e a cidade. Mais o amor.


Faz um tempo em que penso. Sinto muita dificuldade de encontrar a forma, porque falo de um amor que não existe mais da forma como nasceu. Um amor transformado. Que nasceu da unidade eu e ao encontrar a unidade você, cresceu ou explodiu ou transtornou ou pariu beleza ou provocou erupções ou movimentou a minha vida ou te entregou uma oportunidade ou me extinguiu uma possibilidade ou nos fez felizes ou me fez entristecer. Falo de um amor que se transformou porque assim o tempo deixou, porque assim nós deixamos, porque conduzimos como bons cavalheiros, que durante algum tempo sustentaram o bem querer mais por comodidade do que satisfação. Mas que depois de uma temporada em quietude, meio no escuro meio sem cobrança, encontrou em nós, força e motivos para continuar existindo. Eu acordei decidido. Levantei e abri a janela e antes do sol me invadir, eu suspirei e compreendi que eu ia te escrever que a soma de nós dois, só foi possível porque nos respeitamos como indivíduos. No melhor e no pior. No sorriso e no choro com destino. No some da minha vida e no não sei viver sem você. Encontrou equilíbrio nos excessos de ambas as partes e no fino desejo de querer estar. Sacana antítese.


quando você chegou, tudo ficou melhor.
e isso é importante dizer.
talvez eu fosse outra pessoa sem você por perto.
talvez meus textos não existissem.
talvez eu não escrevesse.
porque não haveria quem me acionasse
quem me provocasse
quem me desafiasse de tal modo.
talvez eu não tivesse compreendido que um amor novinho pode ganhar asas
e se transformar em nós dois, abrigo.
qualquer assunto, qualquer momento, qualquer silêncio.
com você eu sinto que eu posso mergulhar sem receio.
por isso eu te digo que te amo.
porque é preciso dizer.
eu quero que você saiba.
te amo, meu abrigo.
assim, como um homem que eu nunca imaginei que eu pudesse ser.
e quero que você leia e releia.
porque tudo é frágil
e não sabemos, não sabemos do que virá.

então aceite como um segredo entre nós dois
e se eu sei um pouco sobre você,
você vai achar tudo muito confuso
mas vai sentir o coração em harmonia.
vivo. é isso o que importa.
obrigado por me ensinar e por aprender.
E por todas as partidas sem volta
Que nós arranjamos uma maneira de burlar,
Sem vergonhas que somos.

Sexta-feira, Maio 29, 2009



A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER de Philip Kaufman


Eu não quero agir como um adolescente medroso que emburra a cara para ganhar a atenção. Eu não quero esse jogo óbvio onde tudo é calculado para que você me perceba. Eu não tenho mais vontade de repetir. Eu não tenho mais idade para agir de forma descartável. Não vou fingir que não me importo com você. Eu me importo com você. Eu não sei equalizar o meu querer gigante e descontrolado no meu corpo e nos meus movimentos. Não sei ainda o que fazer com a delicadeza avassaladora que me entrega. Ela me desconcerta, me desequilibra, o coração acelera e é difícil conter o meu querer, é como se eu precisasse socializar os meus impulsos, adestrar um vulcão, compreende assim? Eu atravessei a rua segurando todo o choro, insistindo que respirando fundo e mentalizando que eu precisava esperar abrir a porta de casa para sim, desabar, perder o equilíbrio, chorar meu desconforto, assobiar os meus medos.

Existe algo de insustentável no nosso encontro. Eu falo por mim. E talvez tragicamente insustentável. Por mais encantado e por mais amigo que eu queira ser, eu não posso ser o amigo que você quer que eu seja porque existe o desejo. Te quero ao contrário porque eu não sabia que te receber resultaria no agora. Eu tropecei no querer que me revelou um gostar irreversível, mas que não está ao meu alcance. Por razões que só nos dizem respeito, saiba, sei. Do irreversível, eu não vejo alternativas objetivas para nós dois. Eu não quero agir de forma precipitada e também não posso mais deixar você entrar e ultrapassar o meu desejo de te desejar. Deve haver algum limite para ser respeitado, embora eu não saiba onde está. É tão difícil aplicar a teoria na prática, porque o sentir é desgovernado e venta, espatifa, quebra, move, revira e depois faz sentido.

É preciso que haja uma ruptura.

Não digo virar as costas e fingir que nada houve. Não digo mudar o comportamento e fingir que todas as afinidades e festejos e todo o carinho não existiu. Existem. Desgovernados. Não penso em caras feias ou palavras rudes. Não penso em não saber de você. Mas penso no silêncio. Na ausência de palavras e canções e cuidados. Penso em fechar as janelas e a porta. Em voltar para dentro e não permitir que você avance e leve as minhas palavras na areia. Penso em romper. Abortar. Chegar ao teatro e ir direto para o camarim sem querer saber se você chegou, se vai chegar, se vamos ter tempo para uma conversa. Me despedir sem a angustiante sensação de quando vou te ver. Se o meu telefone vai tocar. Se. Eu não quero o se. Eu não quero.

É preciso que haja um tempo para dizer adeus.

Adeus e seja feliz. Resolva a tua vida da forma mais linda. Plante tuas sementes em jardins reais, onde seja possível o cuidar. Onde seja possível o colher. Eu não posso ser seu amigo agora. Não posso. Eu não quero ser seu amigo agora. Seria estupidez da minha parte insistir. Seria como me ferir consciente da dor. Seria procurar razões para chorar feito um tonto que mal enxerga o teclado e sente um abismo e percebe que há insatisfação para onde quer que olhe.

Seria amar um homem que não vai me amar. Outra dor insustentável.

Adeus e me perdoe que eu te diga adeus. Guarde as palavras e as canções. Mas não posso ter você ao redor. Não posso ter a ilusão de um você que não existe. Eu guardo esse encontro como um precioso presente que eu preciso recusar. Você é. E está. E vou te deixar ir. Porque eu preciso que você vá para eu continuar sem essa sensação insustentável cada vez que me aproximo, que te ouço, que te vejo.

É preciso.

Eu lamento o fato de me despedir antes de qualquer possibilidade.

Segunda-feira, Maio 18, 2009




DESEJO E PERIGO de Ang Lee


Ele me conheceu na escada rolante na entrada do metrô. Eu digo que ele me conheceu porque foi dele o primeiro contato. Não fosse sua atenção, seríamos dois homens cariocas que passam um pelo caminho do outro sem sequer imaginar que um fragmento do momento poderia se transformar na história de nós dois. A barra da minha calça havia ficado presa entre os degraus da escada que me levaria saída afora da estação. Me contorcia e suava frio e cada vez mais enrolado, enquanto a escada ao lado rolava acima com seus olhos atentos ao meu desespero. Foi quando ele gritou ao passar por mim para que eu puxasse com toda a força que ela soltaria. Eu puxei. Ela soltou. E ele entrou na minha vida.


Ele desligou o telefone e meia hora depois eu cheguei. Encontrei-o com os olhos fundos e vermelhos. O hospital de madrugada me parece mais urgente do que já é. Ataque do coração, os médicos disseram. Estávamos todos jantando, falando sobre cinema, quando percebemos sua ausência, ele estava caído no corredor, ele me contou com a voz tão frágil. Três dias depois, acompanhei o velório do seu pai de mãos dadas, abraçado, atento, cuidadoso e igualmente frágil. Eu queria te agradecer, ele me disse. Interrompi em silêncio, apenas balançando levemente a cabeça. Carinho a gente troca, a gente tece, a gente faz brotar. Eu quis ficar ao teu lado. Eu enlouqueceria em outro lugar se não estivesse com você. Nos abraçamos tão forte e nem a chuva intensa nos desatou. A vida continua a mesma de todos os dias até que você percebe que existe alguém que quer o mesmo que você. E eu quis.


Ele me deu a chave do apartamento numa caixa enorme. Dentro da caixa enorme havia outra menor e outra menor ainda até que depois de seis ou sete caixas, eu encontraria aquela onde caberia a chave da porta da frente, outra da portaria e finalmente uma aliança. Seis meses depois, o apartamento era a soma de dois homens e era plural. Precariamente mobiliado, você sabe que me pagam mal e eu gasto muito, gasto com o que me dá prazer, já ouvi tantas histórias de pessoas que guardaram dinheiro por vinte anos e depois morreram, enlouqueceram, foram confiscadas ou roubadas. Então de que adianta escolhermos a mesa de centro mais cara da loja mais badalada da cidade se não vamos passar tanto tempo em casa? Ele me convencia e me contrariava e fazia todo o sentido que fosse assim. Ele me ensinou a ser mais simples. E eu compreendi e gostei.


Ele bateu a porta com tanta força que a madeira rachou e lascou. Quando é que perdemos a atenção e deixamos de nos ouvir? Por qual motivo o apartamento parece vazio e não falo de espaço físico, mas de nós, quando, depois de tanto tempo, nos descobrimos tão impacientes, intransigentes, descontentes? Dois dias depois, sentado no chão da sala, eu comprei o melhor vinho que encontrei, diminuí as luzes. E elas se apagaram.


Quatro anos depois, ele me liga e diz que eu preciso assistir o filme do Ang Lee. Quatro anos depois sem notícias. Quatro anos depois de vida partida, de planos desfeitos, de um adeus engasgado ao som de um tim tim qualquer numa madrugada sem fim dentro de um apartamento sem amor. Ele me falou do filme com tamanha paixão. Disse que achou lindo porque é universal, mesmo sendo tão específico. Que a gente espatifa até que um novo alguém atravesse a rua e tropece nos estilhaços e se reconheça ali e queira... recomeçar, eu completei. Ele falava com entusiasmo e eu já não ouvia com tanta atenção.


Você foi o homem que me deu a chave da porta da frente e saiu por trás. Eu fui o homem que comprei o melhor vinho e te disse adeus. Mas houve algum momento, algum espaço entre o olá e o adeus, em que nós nos amamos e foi de verdade porque mudou a minha vida, revirou os meus passos, me ensinou e demoliu tantas idéias velhas, tantos pensamentos novos. Eu não posso te encontrar hoje. Eu não quero te encontrar. Porque eu não saberia olhar para você sem estar nos teus braços. E agora existe um novo alguém. Sempre há de existir um novo alguém, mesmo sem as chaves da porta da frente, porque eu não sei e não quero viver sozinho. Eu vou assistir o filme, isso é tudo o que eu posso te prometer agora. Mas nós dois, meu caro, nós dois somos tão específicos quanto universais. E embora encantador, isso é tudo.

(Publicado na coluna Depois do Filme, da Revista Paradoxo)

Terça-feira, Maio 12, 2009



O EQUILIBRISTA de James Marsh


Eu vou começar com a palavra ‘eu’ porque tudo o que eu vou te dizer é realmente em primeira pessoa. Então eu vou tentar abrir mão das metáforas mais óbvias – sabendo que não vou conseguir – que muitas vezes ilustram uma idéia ou sugerem um significado mais interessante, mas não são capazes de encarar o outro de frente e abrir o jogo de forma mais direta, mais imediata. Muitas vezes elas diluem o recado.

Quando eu me apaixonei por você, eu demorei algum tempo para admitir. Ou compreender. Você namorava um colega de elenco. Nós estávamos em cartaz de quinta à domingo. Eu não lembro exatamente a primeira vez que eu te vi, mas eu lembro que você chegou com um bilhete de advertência pendurado no pescoço. Do tipo ‘não toque’, ‘não se interesse por ele porque ele não está solteiro’. Tudo o que eu te disse por um bom tempo foi ‘boa noite’ e ‘até logo’. Eu evitei me aproximar. Não que você não fosse um homem interessante, mas perigos anunciados sempre atraem expectativas. E eu não queria confusão. Ou exposição. Até que você se aproximou.

De imediato, eu fui educado e receptivo. Depois eu comecei a me interessar pelo fato de te encontrar todas as noites na saída do teatro, esperando pelo teu amor. Você esperava todas as noites por um homem que não era eu. Eu sabia desse fato, mas ele sempre foi tão incrivelmente romântico que eu me deixei enganar. A peça terminava. Nós saíamos do teatro cansados e lá estava você. Sempre. Abrindo o sorriso como se entregasse flores. Todas as noites.

Nessa época, nenhum homem me amava. Ninguém me esperava na saída do teatro. Ninguém me lançava um sorriso. Secretamente, eu detestava o seu companheiro porque ele parecia não se importar com o fato de você estar ali, de quinta à domingo. Ele me parecia acostumado ao teu carinho inteiro. Incondicional. As pessoas se acostumam com atitudes carinhosas e muitas vezes passam por cima da delicadeza. Isso me deixa sinceramente puto. Um dia você me telefonou. E apareceu lá em casa depois de uma briga.

Tudo o que era unidade ganhou reflexo. Os meus dias comuns foram contaminados pela tua atenção que transbordava os espaços do meu apartamento. A minha intenção também transbordava e era de alegria e era de uma felicidade incontrolável. A gente foi se misturando, foi isso o que aconteceu. A gente foi se recolhendo, aos poucos, os pedaços. A ordem do dia não era mais cronológica porque eu só despertava depois de te abrir as portas. Eu só me apaixonei por você porque você sentiu paixão por mim. Eu não soube resistir. Ou dizer não. Eu disse sim e você sabia que eu diria sim, dispensando as perguntas tolas.

Quando você voltou para ele, eu fiquei sem saber durante muito tempo. Muitos meses. Eu não estranhei ou me surpreendi. Eu fiquei sem saber. Realmente eu fiquei sem saber de qualquer coisa. Embora eu sempre tenha repetido secretamente que fazia sentido você voltar para ele. Porque é essa a função do retorno. O retorno corrige equívocos.

(Publicado na coluna Depois do Filme da Revista Paradoxo)

Quinta-feira, Abril 30, 2009



AMOR E OUTROS DESASTRES de Alek Keshishian


De repente, sem esperar, nos encontramos pela escola. Como todas as outras vezes. Observamo-nos, sorrindo pequeno, tímidos, interessados. Então veio o abraço, poucas palavras - nunca falamos muito, a não ser pequenas frases, tudo o que se usa quando duas pessoas não se conhecem muito bem: uns 'obrigados', 'por favor', 'e a vida', nada que pudesse fazer com que nos sentíssemos íntimos ou qualquer sensação semelhante. Eu tinha pressa, minha aula de interpretação estava para começar, ele percebeu que nosso encontro seria mais um encontro relâmpago, segurou minha mão e disse quase que sussurrando:

- Fica comigo.

Então a pressa, a aula de teatro, o texto decorado, a cena que eu ia trabalhar, tudo isso perdeu o sentido, como num estalo. Meus olhos encheram de água, água salgada com uma dose de alegria e dor, de constatar que alguém pode bagunçar o teu caminho e tuas sensações. Olhei o rosto dele e no silêncio que se fez, milhões de pequenas sensações existiram sem me consultar.

- Eu não posso, tenho aula agora, aula prática.

E tudo voltou a fazer sentido: a pressa, a aula de teatro, a escola de teatro, o texto decorado, a cena que eu ia trabalhar.

- Fica comigo - repetiu não mais em sussurro, mas com força na voz e a certeza de que poderia me impedir a aula, como se me conhecesse bem. Como quem faz um pedido que não se recusa, ele fez.

Sempre nos encontramos pela escola. Não conversamos muito, não sabemos quase nada um do outro. O que existe de real: minha atração por ele; a simpatia dele por mim. Que dura pouco tempo, de maneira que nossa relação é quase que subjetiva: os encontros rápidos, as brincadeiras nos encontros rápidos, as apresentações públicas de teatro que assistimos dentro da escola - e nos assistimos - muitos abraços, um carinho gostoso que não se explica e poucas palavras. Ele me segurou pelos braços, reiterou a frase e me soltou, Me aproximei, sem saber exatamente o que dizer ou como dizer e o impulso foi me guiando, o coração acelerado, o sangue correndo pelo corpo, veloz, eu pude sentir.

- Eu quis que a gente desse certo. Mas nós teríamos que ter tentado. Há meses eu tenho me mostrado com vontade, te escrevi algumas coisas lindas, íntimas e esbarrei no teu silêncio, que eu nuca soube como interpretar. Eu pensei em nós dois juntos, imaginei cenas, por mais infantil que isso possa parecer. E todas as vezes que eu me aproximei pra tentar conversar, tentar te conhecer, te desvendar, eu empaquei. Eu me sinto tonto, que não sabe o que fazer cada vez que te encontra por aqui. Não sabe onde coloca a mão, não sabe o que dizer. Eu ando tão frágil, tão assustado com a aproximação do outro e meu carinho por você vai sempre existir dentro de mim, mas eu acho que é hora da gente parar de se tratar como se alguma coisa entre nós fosse acontecer: saliva, cheiro, suor. Não me alimente. Talvez eu mesmo faça isso, você nunca fez nada que me fizesse acreditar em um relacionamento. Ou talvez tenha feito, não posso apontar momentos porque nós não temos momentos. O fato é que eu tenho aula agora, eu perderia a aula por você, ganharia zero por você, mas eu preciso me preservar. Te encontrar. Não sofrer, entende? Te reagir sem intenções bruscas. Não quero deixar o meu carinho se aprofundar, não entranhar tanto ou mais do que poderia, deveria. E nem é tão complicado assim, eu mal te conheço, você mal me conhece. Se não prosseguirmos, fica você achando que eu sou louco e eu te achando inalcançável. Talvez eu tenha a mania de confundir tudo, talvez.

Fez-se silêncio no universo entre nós dois. Nada constrangedor, apenas silêncio quebrado por mim.

- Falei demais, não é?

Sentei na porta do teatro, como quem se arrepende. Cena de filme americano, a personagem explode tudo o que pensa, depois senta em algum lugar, aliviado. De pé, me encarando, olhos fixos em mim, alisa a barba, a língua nos lábios:

- Você acha que tudo deve ser dito?

Ali, sentado, encostado na porta do teatro, encostado na madeira da porta, pude ouvir alguém em cena dizendo um texto que eu sabia decorado. Um diálogo, dois homens, duas mulheres, um casal, não havia muito sentido nas palavras; eu não consegui identificar quem estava em cena, mas a frase era 'Você gosta de palavras? Eu também, mas gosto mais das cores'.

- Este é o império da palavra, moço. Se você não me diz nada, seja objetivo nas tuas ações. Preciso de nitidez nas imagens que você cria no teu silêncio e isso não acontece. Então eu suponho e tudo fica exaustivo. Não acho que tudo deva ser dito, você sabe que não, mas o suficiente já me bastaria.

Tudo o que eu disse me pareceu sutilmente como uma cobrança e me senti ridículo, aliviado. A escola de teatro funcionando como um dia letivo normal. Os dois parados, ali na porta, em silêncio. 'Do lado de lá o faz de conta, do lado de cá, a realidade de duas pessoas que não se conhecem. Dois atores'. O pensamento dissipou-se quando ouvi a voz dele sorrindo:

-Vamos sair daqui!

Saímos os dois juntos pelas ruas do centro da cidade. O céu absolutamente azul, um dia fresco. Poucos carros na rua, nenhum trânsito, um vento forte, um dia atípico. Andamos por dois, três quarteirões, não trocamos uma palavra, parecíamos ter pressa e eu não entendia muto bem nossos impulsos. 'Eu deveria estar em cena', pensei, seguindo automaticamente os passos dele. Então a velocidade dos passos aumentou, quando percebi estávamos correndo e sorrindo, brincando como crianças, pelas ruas cinzas da cidade. Correndo e sorrindo, sorrindo fácil. Os olhos dele dentro dos meus, o sorriso dele gigantesco dentro do meu, leveza nos movimentos, gargalhadas e estávamos correndo em direção ao nada, rindo um do outro, um para o outro e era bom, era tão bom... As pessoas percebiam e sorriam conosco uma alegria inexplicável.

Foi então que chegamos em uma praça: bancos, pombos, um coreto, árvores, velhinhos jogando cartas, cachorro vira-lata, pipoqueiro, nós.

- Esse lugar é meu, esse lugar sou eu - me disse ainda sorrindo e eu ainda ofegante, ainda feliz, fui ouvindo: eu nunca trouxe ninguém aqui porque nunca encontrei alguém que eu quisesse apresentar esse lugar. E tenho ciúme. Tá vendo aquele banco? Li a primeira carta que você me deu ali. Lia e relia sentado no banco da praça que é minha. Eu não sei se a gente pode ficar junto porque eu entendo amor de outra maneira, sem tantas palavras no meio. De repente cheiro, suor, como é mesmo que você disse? Saliva. Achei bonito, mas compromisso, namoro, relação. Eu fiquei pensando uma maneira de te dizer isso sem parecer presunçoso, não sei se é essa a palavra, não sou muito bom com as palavras. Eu pedi pra você ficar comigo pra gente conversar, pra ficarmos juntos por mais tempo, pra gente ver se combina, se a gente se entende porque a gente pode até não se curtir.

Eu já não sorria mais. Meu rosto sério e eu percebia muita coerência em tudo o que ele me dizia. Percebi um cuidado no dizer, como se alguma palavra não pudesse ser dita e eu o interpretasse mal. Para que não me magoasse. Eu não quis dialogar, quis o silêncio. Ele me abraçou e ficamos os dois ali, no meio da praça que eu já julgava um pouco minha, naquela tarde linda e eu ouvia o coração dele bater no meu ouvido e me sentia um pouco parte dele, aquele homem lindo que era mais do que lindo, era a praça.

- Vamos para a minha casa, a gente ouve música, passa um tempo juntos.

Sorrisos leves e tudo entre nós sempre me pareceu como uma estréia, sensações inéditas despertando e só tínhamos exatos trinta anos, jovens demais. Há perigo quando dois homens estão juntos embriagados pelo mistério do inexplicável. E em fração de segundos, chegamos na minha nova rua, onde minha nova casa estava sendo pintada aos poucos e como ainda não tinha me mudado, poucos móveis, quase nenhuma roupa, com cara de minha pela bagunça mas ainda vazia de matéria, de dia-a-dia. Destacou que a casa era aconchegante, clara, essas coisas que a gente diz meio que instintivamente.

- Ainda não trouxe ninguém aqui. Ninguém. Essa é a minha praça. Me mudo em menos de dois meses e tirando os pintores, você é o primeiro que visita.

Sorriso. Olhos brilhando.

Os assuntos aconteceram naturalmente. Aos poucos, a conversa fluiu e uma intimidade começou a brotar. Cumplicidade. No ritmo adequado, no decorrer do desvendar, durante o conhecer melhor, uma ponta de intimidade nos tornou cúmplices. E era gostoso não sentir o tempo passar, era gostoso estar com ele, ali, na minha casa, decifrando, observando o observar, me permitindo uma possibilidade permitida.

Fim de tarde, início de noite, os dois deitados no chão da sala entre almofadas e o cd da Adele bem baixinho embalando as intenções. Me lembrei de um trecho de um conto do Caio Fernando Abreu que eu tinha na mochila. Anotações sobre um amor urbano, do livro Ovelhas Negras, que eu não largo. Pausei. Abri o livro e li, sentado de frente para os seus olhos exatos:

“Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço pra tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nessa janela, já dissemos tudo o que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação, impressão, ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e com a ponta dos meus dedos tocar você, natural que seja assim: O toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.

Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha pra mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi pra saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá dizer: Não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, conhaque, vermelho, os dentes se chocam, leve ruído, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo. Escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos”.

Deitou no meu colo. Os olhos abertos absolutamente entregues ao momento. Meus dedos sobre suas grossas sobrancelhas. Olhos nos lábios, recebia meu calor-carinho até que nos beijamos. E tudo perdeu o sentido. E tudo ganhou sentido.