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domingo, maio 28, 2017

I DON'T FEEL AT HOME IN THIS WORLD ANYMORE, Macon Blair


Essa sensação forte de não pertencimento.
Respiro fundo.
Começa a chover fino. Não poderia ser mais óbvio.
Talvez eu me dê uma importância na tua área afetiva, que na real, no vamos ver, eu não tenha.
E isso é um problema meu, inteiramente meu. Eu sei.
Então eu prefiro fugir no final da canção, mesmo querendo ficar,
mesmo querendo te abraçar no final e comemorar o teu sucesso.
Mas eu não me sinto parte.
Eu fico achando que eu sou parte, mas eu não encontro feedback.
Eu nem fico procurando, mas estar ali, percebendo, participando,
faz com que eu me questione sobre essa persistência em estar.
E num balanço sádico, não há diferença, não faz diferença.
Entro no táxi (táxi é tão mais dramático).
Mentira, entro no uber depois de rodar o quarteirão duas vezes.
Eu preciso fazer algo com essa energia porque as palavras esmigalham essa sensação.
Trituram em palavras, em sílabas desconexas o que é inteiro.
Eu caminho pelo quarteirão e a chuva aperta.
Eu penso em fazer sinal para o táxi, mas eu não tenho dinheiro na carteira.
Peço o uber. E são quatro minutos parado, aguardando.
E o corpo pede movimento. Ele precisa fugir daqui. Sair daqui.
Mas eu aguardo os quatro minutos escorado por uma banca de jornal, segurando o choro.
Eu não esbarro mais em clichês. Eu sou o clichê.
Perceba que se eu me sinto sobrando, é porque, de fato, eu estou.
E eu não tenho mais idade para sobrar.
Eu tenho é que ir embora no final da canção.
Me despedir rapidamente, segurando os pensamentos por fios.
Disfarçando as intenções, desenhando um sorriso e uma desculpa qualquer.
Eu realmente não posso ficar, hoje o metrô fecha mais cedo, palavras soltas.
Sair suando e aliviado e descer as escadas desmontando essa fantasia louca de ser alguém que eu achava que eu era.
Eu não sou. Se olha no retrovisor do carro. E encara. Eu não sou.
Eu desço as escadas em fuga dos meus pensamentos. Em confronto íntimo. Maiúsculo.
Eu vou.
Mesmo sendo com você. Especialmente sendo com você.
Essa dor é antiga, ela é muito velha, muito, para ser reeditada, para me tirar lágrima entrando no uber, para deixar doer enquanto eu choro e te escrevo.
Não dá. Desculpa, mas não dá.
Eu não quero estragar nada em relação ao teu show. Porque é muito bonito.  Foi.
Mas eu estou de fora por me sentir alheio.
Por presenciar de forma constante – insistindo em querer me inserir – que assim é.
E que seja, então.

De maneira inesperada, eu acho que a gente quebra aqui. 

sexta-feira, dezembro 26, 2014


RELATOS SELVAGENS, de Damián Szifron

Eu não bebi o suficiente, ainda que o suficiente seja um conceito que mude de acordo com a pessoa, o seu suficiente é diferente do meu sufic... ok, entendi. Ainda há em mim a noção de equilíbrio e é importante que eu enfatize, equilíbrio físico, então eu sou perfeitamente capaz de caminhar do balcão do bar até a porta para sentir o vento da madrugada no rosto, sem cambalear, sem dar indícios de uma possível, provável e bem vinda embriaguez. Que não veio. É curioso porque eu bebi para perder a compostura. Entrar no táxi da madrugada torto e rezar para que o taxista compreenda a minha rua, as minhas esquinas. Eu bebi para amenizar o meu ódio do final do ano, dessa festa obrigatória de reconciliações falsas, de algum patético bom senso natalino etc e tal. Eu sou contra, terminantemente contra as festinhas da empresa, os amigos ocultos mil, a família que você evita o ano inteiro invadindo a sua casa, a televisão em histeria coletiva, comprem, comprem, comam, comprem. Eu não tenho mais temperamento social para fazer cena. Eu me transformei em alguém que foge, que desaparece e quando alguém pergunta, a resposta evasiva de quem fica, acaba preenchendo as lacunas.

O vento atípico de uma madrugada fresca do verão carioca e o som de um trovão. A porta do bar me aponta uma rua cheia de jovens em sua maioria papeando em grupos, brindando suas relações, sorrindo branco sua juventude e seus cigarros, com olhos que brilham, ávidos por alguma coisa que eles não sabem o nome, mas que é bom, cara, é bom não saber porque aí você tem a possibilidade de investigar, de correr atrás. Eu acho que até hoje corro atrás. Irremediavelmente vejo alguém conhecido, correspondo o aceno, ganho um abraço, o ‘porra por onde tu anda, me liga, me manda uma mensagem no facebook’. O que é uma loucura de pensar. Se estou, se estamos ali, aproveitemo-nos, já que há o encontro. E então não precisarei te ligar ou te mandar uma mensagem porque o momento presente vai saciar a saudade – se houver saudade. Um beijo, um perfume gostoso, que eu costumava gostar muito e a memória é um botãozinho traiçoeiro que brinca com o tempo. Olho para dentro do bar, o lugar que eu ocupava no balcão foi preenchido, porra, o show já vai começar e eu perdi o meu lugar e nem um cigarro eu acendi.

Então o palco pequeno se ilumina e ele entra, voz e violão. Muitos amigos, aplausos, urrul, lindo, um boa noite tímido e a primeira canção. Nem parece natal agora e o pensamento me causa um alívio. Eu me aproximo do bar, disputando algum espaço mínimo para pedir algo com vodka, a maioria dos olhos alheios no cantor, cantarolando o que sabem, quando sabem, encontro um vão, um milagroso vão com uma pilastra onde é possível não só observar o cantor, como encostar as costas e relaxar um pouco tomando a minha bebida. O celular vibra, mensagem de ‘tô chegando, estou na esquina tentando um cigarro’, o cantor sobe um tom e as pessoas reagem com ais e uis. O cantor foi o homem da minha vida por alguns anos. O cantor destruiu a minha vida por ser o homem da minha vida nos últimos - não vou contabilizar – anos. Meu amigo entra no bar, o rosto assustado, buscando por mim, eu aceno, ele se aproxima e me abraça forte quando me encontra ao seu alcance. ‘Esse é o último lugar do universo onde eu imaginaria te encontrar’, ele me diz. Eu dou de ombros, ‘deixa rolar, eu precisava sair de casa e os caminhos dessa cidade, cê sabe’. Ele faz uma cara de reprovação, uma cara doce de reprovação. Quantos amigos nessa vida te acompanham, independente do tamanho do estrago?

Depois de algumas canções, a bebida finalmente começa a amortecer os sentidos e o cantor faz um intervalo. Ele desce do palco, o bar cheio, muita gente parabenizando, sorrindo, observando com atenção, alguns abraçam, puxam conversa. Elegantemente ele vai se desvencilhando dos pequenos grupos, como água do rio, seguindo em frente, até que ele estaciona na minha frente e na minha frente o homem da minha vida, depois de tanto tempo, alguns outros homens, tantas outras centenas de noites sem ele, sem ele e com alguma patética sensação de vitória por conseguir ficar sem, como quem abandona um hábito e comemora diariamente esse fato. Diante de mim, o meu mais prezado hábito, o meu nobre clichê que deu sentido a todas as músicas de fossa, a todas as canções sobre o fim, a um jeito de encarar os dias inéditos, os dias sem, os dias de ausência, os dias de vazio, eu que sempre apontei o dedo aos amigos que sofriam por amor – ou por ausência dele - que tentava amenizar as lágrimas alheais com ‘você vai superar, isso passa, daqui a pouco aparece alguém, não faça drama, esse cara não te merece, não dê tanta importância, bola para frente’.

Diante de mim, ele me analisa em silêncio. Os olhos brilhando, a boca vermelha, eu sinto a respiração quente dele se misturar com a minha. Ele fala meia frase ‘você não acha que’ e desiste de concluir. Ele me agarra pela camisa, com alguma violência, encosta a testa suada na minha, a boca muito próxima da minha boca, anos de história em flashes, o cheiro dele, arrepiado e ‘era isso o que você queria, era isso o que você buscava’, eu prevejo meu amigo em pânico me dizendo dentro do carro. Ele larga a minha camisa, os olhos dentro dos meus, a testa se afasta alguns milímetros, essa novela barata de jornaleiro, ‘você não deveria’, ao que eu respondo instintivamente e imediatamente ‘foda-se’. Ele sorri e se afasta, essa pequena cena diante de uma audiência que parece não ligar muito, mas tudo é festa, tudo é circo e vocês não deveriam jamais alimentar os animais.

O amigo insiste em me levar para casa, com os argumentos mais consistentes do universo, com os argumentos de quem realmente ama e tenta preservar o mínimo de dignidade alheia. Há nele uma serie de pensamentos – alguns óbvios e que eu insisto em ignorar – que radiografam a minha, a nossa situação. Ele parece observar com a segurança de quem está do lado de fora e é pertinente e carinhoso na forma que tenta colocar. Mas, se eu estou aqui agora, se eu consegui estar aqui agora, me deixe estar aqui agora e eu não quero ser rude, mas vá para casa, volte para a tua casa, eu não fico, não ficarei aborrecido, é seu direito estar longe de mim. Não tente evitar que eu seja eu ou que eu faça as coisas que eu quero fazer. Por mais amigo que você seja. Eu conheço o caminho. Eu já trilhei. E consigo ir e vir. Você aqui, tentando me conter, me lembra meus pais na adolescência ‘não faça, não saia, não escute, não viva’. E eu já estou velho demais para isso. Ele passa a mão no meu ombro e diz um ‘tá legal’ como quem desiste. E sai desapontado, talvez. Quantos amigos são capazes de reconhecer que a merda é inevitável e te dão o espaço necessário para você saltar?

O show retorna, os copos cheios com vodka e pouco limão e muito gelo e de repente, ‘até quando o corpo pede um pouco mais de alma’, ele canta a música do Lenine olhando para mim. Diretamente para mim. Fosse uma cena de filme, a câmera giraria no ambiente e seria um momento incrível, mas senti um enjoo profundo porque não há motivo para me oferecer uma canção, não hoje, não agora, não essa noite. Depois de tanto tempo, depois de tudo o que houve, depois do depois, não é me oferecendo uma canção que a gente vai retomar laços, redescobrir afetos. Não é. É? Como é que se ajeita o passado no presente? Qual é a tua história depois de mim? Eu não sei ser esse cara que aparece aqui – sim, eu apareci, eu busquei por essa situação – e tem uma recaída para uma noite, um quarto, uma cama de hotel e depois vai embora como se fosse culpa da bebida. Ou das estrelas. Eu tenho ciência do que faço, dos lugares onde vou, das situações que eu me meto, dos buracos que eu cavo. Das flores que planto também. Mas o que eu quero te dizer é que sou responsável, eu. Não a bebida, os outros, o universo, o acaso. Mas eu. E não permito, não posso permitir você, mesmo nesses últimos dias, nesses últimos momentos do ano. Porque você é a minha novela das oito. Você movimenta todos os clichês que eu sempre me orgulhei de negar. Se vim até aqui, foi para te ver, te olhar, estar no mesmo ambiente que você, não como das vezes que nos esbarramos rapidamente sem sequer nos olharmos. Eu vim para te ver e para que você me veja. E diante dessa visão, poder sair daqui resoluto de quanta merda eu ainda posso fazer quando se trata dos nós. Me sabotar, mesmo na virada do ano, quando todos pensam em zerar. Vir até aqui é explodir esse tempo todo de ausência, de não pertencimento, é o oposto de zerar. É acumular. É um puta saco pesado. Você virou esse saco pesado que eu não consigo mais carregar. E eu lamento muito por isso. Eu lamento que o amor tenha se transformado nesse saco impossível de remanejar.

Ele observa, ele chora, ele tenta um abraço. Eu repudio, eu não quero, eu também choro. Entro no táxi e demoro algum tempo para que o taxista compreenda as diretrizes. Ele tenta puxar assunto, talvez para me manter acordado, talvez para que eu pare de chorar, talvez apenas para ter certeza que será pago. Ao me deixar em casa, pergunta se não é melhor chamar alguém para me ajudar. Obrigado, senhor, mas são cinco da manhã, eu vou dar uma volta no quarteirão e respirar. Fosse um filme, o dia estaria amanhecendo e seria perfeito chegar em casa com o sol nascendo, mas ainda falta uma hora ou mais para que o sol apareça.

Depois de um banho, o celular vibra, meu amigo ‘acabei de chegar, conheci um cara que parece bacana, você tá bem’? Resposta curta ‘estou, trocou telefone’?

Quando o dia nasceu, eu já tinha vomitado três vezes. E já era o meu aniversário.

sexta-feira, dezembro 06, 2013


AZUL É A COR MAIS QUENTE de Abdellatif Kechiche



“A história está completa: wide sargasso sea, azul
azul que não me espanta, e canta como uma sereia
de papel”.
(Ana Cristina Cesar / A teus pés)

- Eu quero uma soda com vodka – decidida e um pouco impaciente. Ainda o calor forte, esse trânsito, as ruas barulhentas, uma correria. As unhas pintadas roçando a toalha da mesa do bar e restaurante Scorpio, assim como quem tateia sem aguardar o próximo movimento. Mas não há movimento. Eu posso fumar, querido?


- Não.


- Mas eu te chamei de querido. Nem assim?


- Não.


Sacou o maço de cigarros e deixou sobre a mesa. O querido observando. Isso não é uma ameaça, ela pensou ajeitando os cabelos pretos. Se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber eu bebo. Olhou as horas. Depois ela tirou o relógio e ajeitou algumas pulseiras coloridas para que elas ocupassem o vazio e a marca que ele havia deixado. Respirou fundo. Os lábios secos. Ao pegar o celular, percebeu que não havia bateria. Constatou uma serie de mínimos detalhes. O dia, esse dia. Veio o querido.


- Sua bebida.


- Uma garrafa de água, você pode trazer, querido? Escuta, se você perceber que a pessoa que eu estou esperando chegar, se ela chegar, uma mulher alta, mais alta que você, os cabelos pretos, bem branca, muito branca, aí você volta com a água. Se. Vai bem rapidinho. Uma sede, eu estou com uma sede. Existe algum lugar aqui onde eu possa recarregar o meu celular?


- Não.


Depois ele voltou com a garrafa. Ela bebeu com alguma afobação. Ele limpou a mesa e teve a gentileza de trocar sua bebida por outra, com um pouco mais de gelo. Ela agradeceu, já não usou mais nenhum adjetivo.  Logo depois, Ana chegou. Não se tocaram. ‘Olá, como vai, eu vou indo e você’ bem cordial, uma quebrada de pescoço muito sutil, um quase sorriso. Ela se desculpou pela demora, o calor, o trânsito, as obras, essa cidade. Tudo bem, tudo certo.


- Eu pedi para você me encontrar aqui porque eles nos conhecem e se você fizer alguma cena ou se eu fizer alguma cena, nós vamos ser colocadas para fora. Acho que não queremos isso, não mais. Não agora. Da última vez que nos vimos foi tão...


- Eu me lembro, eu estava lá. Fique tranquila. Eu não vou repetir aquele episódio.


Sorriram.


- Eu li que você vai lançar teu livro.


- Vou.


- E aí, tá feliz, tá ansiosa, como foi, quando vai ser? Conta.


- Tem essa parte de ter que promover. E assinar papéis. E evitar repetir as mesmas respostas nas entrevistas, nas poucas entrevistas, não foram muitas. Na verdade, o livro parece tão distante nesse processo. Eu já escrevi, eu passei pela feitura dele faz tanto tempo. E só agora, depois de sei lá quantos meses, quando eu começo a me desligar, quando ele começa a me deixar, ele retorna. Mas não é mais ele. É o produto. O objeto. É muito louco. Não sei se você entende.


- Um pouco. Deve ser o mesmo processo de quem faz um filme. O ator se envolve naqueles dois, três meses e depois de um ano, os caras lançam e começa a divulgação, as entrevistas, o ator provavelmente já fez outro filme e você tem que manter o frescor.


- Quase isso. Você sabe que eu dedico o livro...


- Eu sei. Eu sei. Aqui ainda pode fumar?


- Não. Se eu não te dedicasse o livro, não teria sentido. Seria mentiroso.


- Eu gosto. Eu fico feliz. Não é um problema.


- Eu sinto tanto a sua falta.


- Clara – muito doce, mas ao mesmo tempo repreendendo.


- Ana, vamos sair daqui? Vamos para casa. Eu cozinho. A gente abre um vinho. Ouve música, fala sobre a vida. Vamos?


- Não. Não dá. Não. Me perdoe. Eu não quero. Nós duas juntas, sozinhas. Eu conheço essa cena. Eu sei exatamente o que pode acontecer quando nós. Sozinhas. Preciso dizer não. Te dizer não.


- Você se apaixonou?


- Por que falar disso agora?


- Só estou investigando a sua recusa.


- Eu quis te ver. Eu queria te dizer como eu fiquei feliz pelo teu livro. Eu queria deixar o caminho livre para que a gente se queira bem. Foi tão boni... Foi tão especial. A nossa história foi tão...


- Até que você me deixou.


Ana pediu uma bebida. O mesmo que o dela. Menos gelo. Usou o querido.


- Esse rapaz nunca foi muito com a minha cara. E eu não te deixei. Não é um capítulo de um livro, ela me deixou numa tarde fria de setembro e eu nunca mais soube como me virar sem ela.


- Mas eu nunca mais. Nunca mais soube. Eu. Depois que você foi embora, eu continuei a fazer as mesmas coisas de sempre. Trabalho, compras, tarefas, contas, obrigações, reuniões. Eu me obriguei a não parar, embora parar fosse o que eu mais queria. Eu queria parar a cidade e gritar.


- Você tem essa vocação, linda, linda vocação de transformar a gente em palavras. Você lê a nossa história de uma forma que parece outra história. Que é um filme na televisão, a gente se envolve, mas de maneira distanciada.


- Como quando a gente perde alguém. A morte, sabe? Você questiona tudo ao redor. Por que me vestir? Por que ir ao trabalho? Por que pagar a conta? Por que continuar se tudo morre, se tudo termina, se tudo se vai, em algum momento, tudo se vai?


- Clara, eu estou aqui. Viva. Na sua frente. E você está me assustando com esse papo fúnebre.


No início, ficou muito claro que o encontro, a colisão, como gostavam de chamar, era daquelas que com o impacto desarrumam as coisas do lugar e nessa desordem, as partes, muitas delas, encontram a sua nova forma no espaço do outro. E vice-versa. Era como se ao estilhaçar de um espelho, pudessem brindar o acidente porque nessa quebra podiam se enxergar melhor. Podiam, nos cacos, observar o reflexo. Isso sou eu aqui. Isso é você aí. Isso somos nós duas juntas, eu brilho e você brilha e a gente se vê. De frente uma para a outra. Como se não houvesse a cidade. Como se não houvesse o tempo. Como se não houvesse as estrelas, o universo, os planetas. Uma epifania enorme. A percepção do encontro que move histórias. Cria vida dentro da vida. Revela e repensa conceitos. A gente aprende a ceder. A gente aprende o outro. Apreende o outro.


No meio, ficou muito nítida a certeza de que uma e outra aproveitaram-se ao máximo. Elas concordaram em não questionar. Já compreendiam mais a intensidade uma da outra. Já era possível socializar. Trazer alguns amigos para perto. Observavam-se de longe, sem ciúmes, nas suas relações com as demais pessoas. Porque o encontro também promove outros encontros. Os mais íntimos de Ana, aqueles que realmente importam. Os mais íntimos de Clara, aqueles. No mesmo ambiente, se conhecendo. Os mais íntimos são pessoas de extrema importância e geralmente são muito críticos e duros. Costumam ser pessoas com muita intimidade, cheio de brincadeiras particulares, recheados de histórias antigas, as melhores, as maiores. Os mais íntimos conhecem a pessoa em questão muito melhor do que a nova namorada. Por isso algum ar bobo de superioridade, como se dissessem: ‘você é bonitinha, podem ser muito apaixonadas, mas eu sei muito mais sobre ela’. A disputa inerente a quem tem e a quem não tem maturidade.


No final, Ana perdeu o chão, ela que sempre teve por maior característica, os pés na terra. Mais tarde, conversando com um dos mais íntimos, ela disse que se perdeu dentro dela, que não se reconhecia mais ao lado de Clara, que agia como se fosse outra pessoa. Que havia amor e muito carinho, mas que havia essa percepção forte de que quando estavam juntas, ela era outra pessoa. Como se estivesse sequestrada a maior parte do tempo. E eu quero voltar. Eu quero voltar ao que eu era, dizia lágrimas borrando o lápis de olho, vodka nas mãos, o clichê do bêbado chorão que ela sempre abominou. Que não era possível que o amor fosse tão desordenado e tão bom.


Depois houve uma briga feia. De objetos quebrando pelo apartamento e o vizinho chamando a polícia. Depois houve um tempo de anestesia. Como se conseguissem dominar suas fúrias, seus demos vermelhos em água morna. Depois crises bobas de ciúme. E mais brigas e não quero que essa vaca te ligue nunca mais. Depois Ana: não é mais amor. Virou outra coisa que não é amor. Não me faz mais sorrir. Não me dá mais prazer. Não me sinto mais segura nos seus braços. Não quero mais saber do teu livro, dos teus dias, da tua vida. Não quero mais voltar para casa e te encontrar assim.


Olhos nos olhos. Intimidade te faz perceber claramente quando alguém diz algo e é para valer. E dói o peito e racha a pele e você sente o frio percorrer a espinha, o suor na testa quando se percebe diante do abismo do: eu não te quero mais.


Depois, muito tempo depois, Ana ligou. E marcaram um encontro no bar e restaurante Scorpio.


- Clara, eu te liguei porque eu estou me mudando. Eu vou para Recife. E antes de ir, eu queria te ver e te dizer que eu te amo. E que foi o maior, o melhor, o mais apaixonante beijo da minha vida. Tudo foi maior, melhor, tudo.


Olhos nos olhos. Para valer. Clara sorriu. Os olhos cheio de água.


- Eu vou para Recife. Eu vou atrás do sol. Vou atrás do céu azul. Vou atrás da Casa Amarela.


As duas mãos estendidas sobre a mesa. Um carinho. Lágrimas escorrendo no meio do sorriso e do batom vermelho.


- Um lenço, senhoras.


- Obrigada, querido.


No meio do silêncio, ficaram ali um tempo, acariciando as mãos, sem pressa, sem agendas. Sem palavra quase nenhuma. Percebendo delicadezas, mínimos óbvios apenas para as duas, um infinito particular que nem os mais íntimos vão saber. Ou compreender.

”Voei pra cima : é agora, coração, no carro em fogo
pelos ares, sem uma graça atravessando o estado de São
 Paulo, de madrugada, por você e furiosa : é agora, nesta
contramão”.
(Ana Cristina Cesar / A teus pés)
 

sexta-feira, novembro 22, 2013


FRANCES HA de Noah Bambauch


Para ler antes, durante ou após Chasing the Sun, da Sara Bareilles
Para o Pedrinho Nascimento, que me apresentou ao The Blessed Unrest da Bareilles

Começamos a nos falar virtualmente. Um amigo do amigo que viu um comentário, aí o outro comentou o comentário, brotou um sorriso, dois dias depois ele vira um contato na minha lista e eu demorei a aceitar, confesso, a vida virtual anda tão lotada de pessoas que estão ali, mas não estão ali. Elas são um número a mais, elas raramente socializam, você as tem ao redor, você sabe da presença delas e eventualmente até quer bem grande parte dessas pessoas, mas não sabe mais se tem ou não algum traço em comum, algum resquício de bem querer porque cada um foi construir suas vidas. Mas a gente sabe deles. Eles sabem de mim. E vamos em frente, nos parabenizando nos aniversários, nos curtindo vez ou outra, em silêncios que nem incomodam mais. Curtir é um verbo silencioso. Você curte e não precisa mais dizer o que quer dizer aquela curtida naquele momento daquele dia. Smiley faces.

Eu percebi que ele era um cara mais jovem. Falo de idade. As referências musicais eram também mais atuais. E eu não conheço muito das milhares de bandas da atualidade. Eu sou um cara que ainda tem alguns discos em vinil. Algumas fitas cassetes também. E eu gosto das canções algumas vezes só pela melodia. Outras tantas vezes pelo que elas dizem. Mas eu gosto das canções. Só não tenho essa manha da velocidade de todas as coisas, eu não sei ouvir tantas bandas, eu tenho um ritmo menos acelerado.

Eu percebi. Que ele era um rapaz com predileções que esbarravam nas minhas. Não que isso seja importante. Facilita o momento inicial de se aproximar – embora eu ainda hesite, eu estive anestesiado tempo demais. Houve um momento de encantamento – há – e passamos a nos escrever. Ele me deixava uma mensagem de como estava o seu dia. Nem sempre eu pegava na hora. E eu respondia logo depois, outro parágrafo, breves impressões sobre o dia.  Eu gosto da palavra escrita. Ela promove intimidade. Ela aproxima e cria história quando história ainda não há. A palavra escrita revela beleza. Ela maltrata também, mas não nesse momento, nunca no despertar.

- Topa tomar um café?

Eu topei. 

Mas era uma tarde quente, véspera de feriado, a cidade parada. A cidade em movimento parada. Eu consegui chegar ao lugar marcado com atraso. Ele me ligou com a voz mais doce me informando que não ia conseguir chegar porque a,b,c. Eu disse que sentia muito, mas que o nosso timing não tinha sido dos melhores. A cidade não é das melhores. O Rio de Janeiro está em obras e não há estrutura nenhuma para que a população transite pelos lugares em obra. Fui rápido. Queria que ele percebesse que essas coisas acontecem. E bola para frente.

- Tudo bem se eu te ligar mais tarde?
- Tudo.

Eu tomei um banho. Acendi um cigarro. Peguei um livro. Algumas páginas depois, ele me liga e eu atendi desligando. Porque a tecnologia me confunde sim. Apertei o mesmo botão duas vezes. Ele liga novamente e a conversa começa ao som das risadas. A conversa começa fácil. Esse sempre foi um fator determinante em qualquer relação que tive – amorosa ou não – a facilidade de se comunicar. Não só de se entender. Mas de se comunicar. De perceber o que o outro está dizendo. De me fazer compreender sobre as palavras que eu falo. Não sei precisar quanto tempo durou a conversa. Ela tinha uma velocidade particular. Ela era serena e cuidadosa. Mais atenciosa que cuidadosa porque estávamos muito à vontade. Dois dias depois, um café.

Eu estou sempre em busca. De um novo livro. Um novo filme. Uma nova canção para adorar. Um velho amigo para renovar o amor. Um novo amigo para apostar a cegueira. Eu estou sempre em busca de um coração aberto. Esse é um tipo de filosofia inconsciente que eu carrego: eu desejo corações abertos. Para ser meu amigo, meu amor, meu companheiro, meu semelhante. Eu tenho pavor dessa nova onda do ‘odeio, não quero, é ruim, medíocre’. Tenho pavor dessa onda que exclui o olhar generoso, mesmo quando o que é recebido não agrada. Há generosidade também no não. Implico muito quando há o descarte, muitas vezes pré-concebido, só por birra. Implico comigo, sobretudo.  Eu tenho pavor de me transformar na pessoa na defensiva de qualquer afeto, de onde quer que venha.

Eu estou sempre em busca. Do próximo abraço. Da próxima conversa sem fim. Do momento da percepção. Aquela fagulha gerada por um aprendizado do dia, do minuto, do agora. Em busca de velhas sensações para despir. Em busca da voz nova que revive a canção antiga. Do avesso que coloca novamente as coisas em ordem, sob outro ponto de vista. Do que parece igual, mas é diferente pelos infinitos mini detalhes que só você, que só o outro sabem. O tal universo particular. O monólogo da Frances Ha, aquele universo paralelo.

Eu estou, sem vergonha, sempre em busca. De nada. De qualquer sensação dentro de um filme, dentro de um show, dentro do carinho da família, dentro dos olhos da minha avó, cada vez menos lúcida, cada vez menos e todos os dias eu me despeço dela porque amanhã eu não sei se ela vai lembrar quem eu sou. Sempre em busca sem ser Poliana. Atento, presente, filtrando o que me interessa agora sem descartar o que pode vir a me interessar em outro momento. Cada vez menos certezas certeiras. Cada vez mais o peito aberto para o momento presente, tentando me adaptar sem sofrer porque estar em busca exige uma certa coragem. A coragem de se colocar em movimento. De não afundar na estática. De se exigir. De desfrutar a rotina, questionando a rotina.

O primeiro encontro teve risada. O som da risada ao vivo era mais legal que o som da risada ao telefone. O primeiro encontro teve um brinde. Teve uma ou outra constatação de que os olhos nos olhos, o volume da voz, a vida na prática é muito mais generosa que qualquer internet banda larga, que dezenas de e-mails trocados, que duas dúzias de telefonemas na madrugada solitária. Teve aquele primeiro momento quando a mão dele esbarra na minha mão e a temperatura da pele dele é quente, como eu previ e a minha temperatura é quente, eu já fui a 3 médicos para saber se isso é normal. E algumas garrafas de cerveja porque o Rio é muito quente para tomar um café em novembro, talvez numa novela isso caiba, na minha não. E porque eu gosto de beber e isso é fundamental que ele ou você saibam no olá.

O primeiro encontro reprisou algumas cenas de antigos encontros, inclusive o desconforto inicial. A tentativa de preencher o silêncio com silêncio, algumas vezes. E fazer com que aquela intimidade virtual tomasse conta dos espaços entre. O primeiro encontro também fez o coração acelerar e a testa suar, mas depois a imprevisibilidade foi tumultuando ou acalmando os ânimos e fomos nos revelando tal como antes. O primeiro encontro de muitos encontros.

Fora do computador, a vida se revelou mais amável.

E a busca também se revelou mais intensa.

Do lado de fora do lado de dentro, a fragilidade existe com mais nitidez. Do lado de dentro do lado de fora, a gente se protege mais e existe menos, mesmo achando que não.  Eu transito entre os dois lados. Em busca. E volta e meia, alguém estende um abraço.

- Quer dançar?
- Quero!


domingo, outubro 13, 2013

FESTIVAL DO RIO 2013


Foi o ano mais difícil de conciliar a vida real com a maratona. Eu não tirei férias. Eu tinha que cuidar da avó doente. Entre acordos no emprego - afetuosos - e acordos familiares, as horas de sono diminuíram, a qualidade das refeições caiu bastante e eu consegui assistir os títulos que eu mais queria. Festival é a minha época de ver o que eu tenho vontade de ver. Sem censura. Sem a preocupação se o filme vai ou não entrar em cartaz. Não. O desejo é que me rege. Com o tempo que passa, a experiência do ano anterior contribui para que a do ano seguinte seja mais prática. Não precisei da Central de Ingressos, por exemplo. Fiz tudo de casa, pelo computador. Corri menos de uma sessão para outra. Me preparei com o mínimo de tempo para não enlouquecer. E no embalo, na maratona que não é para amadores, houve o festejo dos bons encontros. Dos amigos que fiz dentro do festival, dos amigos da vida que encontrei entre uma sessão e outra, das pessoas virtuais que a gente se habitua a ter no círculo das redes e que viraram gente de verdade, de carne e voz, de sorriso e alguma cumplicidade na doçura do primeiro encontro. 

Faço a lista para guardar o festival no meu canto. E é um exercício bacana de revisita vez ou outra.