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quinta-feira, março 01, 2007

IMAGINE EU E VOCÊ de Ol Parker
No embaralho da cidade, a gente se encontra no repente e comemora sorrindo um abraço que horas depois, vai se estender em quatro garrafas de cerveja daquele bar de esquina. A cerveja gelada, vamos comemorar o encontro, o verão se despedindo, todo e qualquer motivo para esquecer da vida e garçom, mais uma, por favor e cara, que saudade de olhar para você. Então eu lembrei desse charme inconsciente, desses olhos que olham nos olhos e dizem o que sentem, assim, sem peso, sem nenhum interesse aparente. Lembrei também que foi em algum momento como esses, que eu me apaixonei, alvo certeiro e óbvio e me afastei logo depois, para que o coração não inflamasse o fato simples de que ambos encarávamos o amor, de forma diferente. Ele namorava uma menina da cidade de onde havia saído recentemente para estudar. Eu me desenrolava de um caso típico de quero comer você por uns dias e depois esquecer teu telefone. Nos encontramos, não no repente, mas fomos reunidos para trabalharmos juntos. E foi no desenrolar dos dias, que nos aproximamos no tempo das afinidades, no ritmo do querer bem. Confesso que o primeiro contato partiu de uma observação particular que presenciei e que alimentei o desejo de arriscar – não na paixão, que veio depois, naturalmente e impiedosa – mas arriscar a pessoa. Sabe a sensação de quando você percebe alguém de forma especial e compreende que aquela pessoa vale o risco? Na pior das hipóteses, uma grande amizade. O garçom na necessidade da insistência: mais uma? Em coro, respondemos que sim.

Os mais diversos assuntos. Algumas perguntas simples sobre a família e o apartamento. Outras mais indecisas sobre o coração, que ainda não tinha sido mencionado de forma direta, mas responsável por algumas reticências. Olhos nos olhos, sem diálogo algum acontecendo na prática, mas no silêncio sublinhado pelo álcool e pelo sol amarelo indo embora, muitas palavras eu não disse por não conseguir organizá-las. Algumas outras ele pareceu dizer, mas não abriu a boca e o sorriso brilhava e assim também os olhos brilhavam. Porque continuar te encontrando e sendo você tão carinhoso e o meu amor mais uma vez batendo na trave, certamente eu ia sofrer, eu tive vontade de dizer quando ele questionou a minha ausência. Mas eu estou por aí, nos mesmos lugares de sempre. Encontrando as mesmas pessoas e tomando os mesmos porres. Essa cidade é um funil. Se você conhece um, você acaba se misturando aos grupos e encontrando as mesmas pessoas. Ando desleixado com a turma, com os ‘de sempre’. Depois que a Mila foi para Paris, a sensação que eu tenho é a de que nos perdemos todos. Como se ela fosse o motivo, o melhor dos motivos para estarmos juntos. Fomos reduzidos a alguns telefonemas, um ou dois cinemas, um show no Circo Voador e alguns recados frios na internet. Mas e você, me conte, namorando, escrevendo, e a locadora, como vai a locadora? É melhor eu pedir um refrigerante pra cortar o efeito da bebida. Eu sou fraco, você sabe. Eu sei, ele me disse com o sorriso armado. Respondi todas as perguntas em crescente euforia porque com ele os assuntos se misturam sem que percebamos e retomamos e abandonamos as frases porque a velocidade do pensamento dispara e é fácil, esse foi um dos meus sustos mais preciosos: é fácil me comunicar.

- Me conta, então.
- Pergunte.
- Do coração.
- Pergunte.
- Você se magoou comigo?
- De forma alguma.
- Você sumiu. Não me atendia. Não retornava os recados.
- A verdade é que eu fugi. Fugi dos teus carinhos, da tua atenção.
- Mas o que houve?
- Fugi da possibilidade de me apaixonar por você. De ouvir você me dizer que não é a sua praia, de que o teu desejo vai para outra direção.
- Entendo. Eu sinto tanto a sua falta.
- Eu também. Mas você compreende?
- Quase nada.
- Sirva-me uma bebida gelada, coloque uma música e dance comigo parte da noite até que me beije e me embriague de um perfume para ser lembrado. Seja íntimo e seja grande e seja tímido e imponha com elegância. Sirva-me outra bebida gelada e acompanhe o ritmo das minhas intenções, não questione, não perturbe, não tropece, não derrame, não transborde, não exploda, não interrompa o meu beijo que também é ponte e convite. Telefone quando sentir saudade e diga o que anda fazendo por aí, das dificuldades e imperfeições da vida, da generosidade de estranhos e da antipatia de amigos, me fale sobre as flores, sobre as cores do céu e de pequenos detalhes do todo, o que teus olhos encontram, enxergam, eternizam. Me conte dos beijos das noites das tardes do sexo do olhar da sedução da atmosfera e perfumes e carícias e mapas e curvas e montanhas. Diga que sente minha falta e que a saudade é grande como o desejo de viver a vida e mergulhar nos sonhos alheios para encontrar os seus próprios sonhos e que um dia você volta e bate na janela e me diz feliz que me ama e que a distância te ensinou o caminho do meu jardim e que é bom tentar mais uma temporada, o tempo do amor, aquele precipício necessário, saltos longos sem nenhuma possibilidade de certeza, onde tudo pode onde nada deve e que não existe explicação lógica e o cérebro não acompanha o coração e vice-versa.
Mas eu não disse nada disso.
Encostou a cabeça no meu ombro e repetiu um quase nada de canto de boca. E disse que a vida confunde. Disse assim que precisa se apaixonar por uma mulher irresistível e que precisa de um amor. Viver uma história nova de amor e passar pela loucura de amar e se deixar amar. Falou em desejo e enfatizou a palavra mulher tantas vezes quanto o álcool lhe soprou. Foi dizendo e me olhando nos olhos. Se aproximava e se afastava e me fazia carinho e sorria aceso. Até que eu o silenciei com as mãos no cabelo e disse antes de me levantar:

- Cara, eu sou a mulher ideal para você.