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domingo, junho 03, 2007


PARIS, TE AMO

de Olivier Assayas, Frédéric Auburtin e Gérard Depardieu, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Joel Coen e Ethan Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuarón , Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natal, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles e Daniela Thomas, Olivier Schmitz, Nobuhiro Suwa, Tom Tykwer, Gus Van Sant e Emmanuel Benvihy

Eu não vou te olhar mais como um personagem. Um galã à espera do movimento da câmera para estar em ação no seu melhor ângulo, na sua mais perfeita e detalhada e porque não subjetiva, beleza intocável. Eu quero o possível. De roteiros e sensações roubadas, fico com o cinema. Porque ele não me engana. Ele me fascina mas me deixa estar sem ser. Eu gosto de descobrir. Eu gosto de poder me surpreender redescobrindo.

A
- Vamos sair?
- Não, não. Hoje não.
- Mas hoje é sábado. Vamos sair?
- Quero ficar em casa. Curtir a chuva. O frio.
- Como foi ontem?
- Cansativo, mas muito bom. Cansaço acumulado. Desde que cheguei da viagem, domingo passado, ainda não relaxei.
- Ainda não me viu...
- Porque nossos horários são incompatíveis.
- Desculpa sua esse papo de horário...
- Antes nós éramos incompatíveis. Então a vida brincou, mudou o repertório, nos tornou possível.
- Nem tanto assim.
- Agora os horários são incompatíveis. Viu como progredimos?
- Já ouviu o novo da Bebel Gilberto?
- Sim, ta no i-pod. Aliás, esse negócio de i-pod me transformou em um monstro.
- Sim, sim. Não pode mais me criticar.
- Eu quero todas as músicas do universo. Já tenho quase 10 gigas de música.
- Você é hiperbólico.
- Vou te dizer quantos dias de música eu tenho.
- Se eu disser que não quero ouvir, faz diferença?
- Sete dias, vinte e três horas, quatorze minutos e quarenta e cinco segundos. Quase oito dias ininterruptos de música.
- Você é doente.
- Eu sou.

B
- Não vem dormir?
- Vou terminar de assistir o filme. Falta pouquinho.
- Boa noite, então. Durma bem.
- Suas malas estão prontas?
- Sim, estão arrumadas. De manhã cedo, eu confiro. Alguns objetos pessoais eu levo na mala menor. Eu recolho antes de sair.
- Não vou poder te acompanhar ao aeroporto.
- Sério?
- Sério. Você não ouviu o recado no seu celular?
- Não, eu estou com problemas na caixa-postal.
- Não posso. Me escalaram em cima da hora e eu dou a primeira aula amanhã cedo.
- Você raramente trabalha na parte da manhã.
- Raramente não significa nunca.
- Raramente significa vou trabalhar para não ter que dizer adeus ao meu quase ex-marido.
- Raramente significa cumprir ordens do meu supervisor. Você não vai morrer. Só vai viajar.
- Quando eu retornar, já não moramos mais juntos. Desde que você decidiu a separação, ainda que eu não compreendesse, eu te respeitei. Separamos os quartos. Anulamos o sexo. Comunicamos aos amigos. Apesar de tudo isso, eu nunca levei a sério a tua decisão. Eu sempre imaginei que por morarmos juntos ainda, um dia você ia perceber que seria uma besteira nos separar.
- André, eu não quero e não vou conversar mais uma vez sobre isso. Boa noite, durma bem, boa viagem, compre o que te pedi, dê lembranças aos seus pais, paquere alguém no aeroporto, faça sexo no avião, descanse os dias e volte solteiro, livre, desimpedido e morando em outro bairro.
- Você é frio.
- Eu sou.

Eu não sei repetir um olhar. Eu não sei beijar igual duas vezes. Eu não sei tocar alguém sem valorizar o momento. Nunca é igual. Nunca. Pode parecer, mas o toque, a intensidade, o suor nunca desce pelo mesmo lado, as explosões são inéditas porque a vida é. Eu gosto de fazer com que alguém que eu amo sinta-se especial. Eu gosto dessa sensação de saber. Eu não tenho vergonha quando não sei o caminho. Eu pergunto, eu investigo, eu olho nos olhos. Posso demorar, mas eu chego. Eu quero chegar.

C
- Te incomodo?
- Claro que não.
- Posso entrar?
- O que houve?
- Quero ler um trecho de uma carta. Posso?
- Ta apaixonado, bichinho? Você parece tão frágil.
- Eu terminei de escrever agora. Ainda está tudo muito quente. Muito recente.
- Vou sentir ciúme?
- Provavelmente. Mas você não pode me culpar. Você sempre disse que eu deveria me apaixonar por outra pessoa, que eu nunca te amei, que eu tinha uma idéia de romance com você que não era real.
- Eu sei o que eu te disse.
- Não é ruim estar apaixonado. É?
- Você está me pedindo permissão, é isso?
- Não.
- Fico feliz por você.
- Dessa forma? Feliz por mim sem dar um sorriso? Sem me olhar com carinho? É assim que você demonstra seu afeto?
- Por isso eu não acreditei no teu discurso amoroso. Você é viciado nessa sensação sem nome. Nesse abismo, amor, sei lá.
- Você não acreditou? Você me disse não. Você me fez sofrer. Você me deu um pé na bunda e veio com o discurso de amizade. Você me disse que eu deveria seguir em frente. Sair mais do apartamento. Enfrentar a vida lá fora. Gostar de alguém que possa gostar de mim.
- Eu sei o que eu te disse, merda. Não precisa me jogar na cara.
- E quando, depois de sei lá quantos meses, eu saio de casa, aceito sair de casa e conheço alguém. Alguém bacana, que não me intimida tanto, que me faz sorrir, que me atrai fisicamente, que me ensina tanto e está disposto a aprender, quando eu finalmente encontro alguém que eu já não tinha mais esperanças de encontrar, você faz cena de ciúme? Porra, o que nós somos um para o outro?
- Você não ia ler a carta?
- Foda-se a carta. Foda-se você. Você é egoísta.
- Eu sou.

D
- Eu queria te dizer, homem doce de tantos anos atrás, que eu ainda encontro espaço para te amar esse sono de menino com urgência para virar homem. Que ainda existe em mim um tempo de amor, cíclico que de quando em quando me pega de surpresa e chega de mansinho como o inverno até a estação seguinte e assim por diante até que a próxima flor cresça e pétala por pétala, despeça-se de mim para um novo florescer. Compreendes essa história de flor, semente, esse processo óbvio de renascimento e cuidados para poder brotar? Eu te observei dormir por vinte minutos. Depois avancei pelo corredor profundo e frio, entrei no elevador e eu pude ouvir a música crescer, algo parecido. O elevador descendo, ao volume crescente, as emoções expostas ao caminhar pela rua e esbarrar em todas aquelas vidas que você não conhece e não sabe se vai ter a oportunidade de conhecer um dia. A luz do sol tímida no início da manhã e o céu azul de outono, ainda ouço o mar na rua de trás e hoje definitivamente não é um dia para observar as ondas. Faz frio apesar do sol. Faz tempo que faz frio. Eu sou um homem de imagens e palavras. Muito mais de imagens. Eu gostaria de poder te dizer imagens. Eu gostaria de poder te dizer meses de amor. Te informar noites e poemas e o quanto eu te adorei. O quanto eu adorei te adorar. Para mim, você vai ser sempre esse homem admirável, que me surpreende com os carinhos mínimos e me encanta os olhos sabendo ser tão criança e tão desprotegido. Tão íntegro e seguro, quase um adulto. Essa delicadeza bruta confusa e exata.
- Obrigado, querido. Qualquer resposta positiva e a nossa produtora entra em contato.
- Até logo, então.
- Você pode chamar a próxima atriz, ao sair?
- Posso.
- A propósito, o seu teste foi muito interessante. Você é muito intenso.
- Eu sou.

Eu não gosto de textos repetidos. A idéia pode parecer a mesma porque tudo já foi dito e pensado, mas o texto precisa ser outro. Não gosto de mistérios e cenas desnecessárias. Porque isso é cinema. E eu quero o real. De todo o faz de conta, o que me interessa é o amor. Por isso eu não vou te olhar mais como um personagem. Dessa falha dramática, eu corrijo o perfil da minha personagem. Para seguir adiante.

E
- Eu gosto de você, é isso. Não existe outra forma de te dizer isso. Me desculpe, eu me sinto bobo, frágil, imaturo. Eu gostaria de não ter que passar por essa situação mais uma vez e você provavelmente vai me dizer lindamente que me vê como um amigo, mas que em nenhum momento nos imaginou como um casal e que gosta muito de mim, mas que a minha amizade é tão importante, que não devemos estragar tudo isso, sabe que eu odeio essa palavra – tudo – detesto quando alguém me deseja tudo de bom... o que é esse tudo? Eu gosto de você. Desde a primeira vez que eu te vi. Antes de te ver na verdade, eu já tecia pensamentos românticos em relação a nós dois e...
- Eu adoro você. E não é como amigo. Não é só como amigo.
- Agora eu estou em pânico.
- Por quê?
- Faz tanto tempo que alguém não me corresponde que...
- Faz tanto tempo que não me sinto tão especial.
- E como é que a gente faz?
- A gente se beija? Pode ser?
- Sim, claro, pode, mas e depois do beijo? Eu quero dizer, e depois do depois?
- A gente coloca em prática todo o teu lindo discurso. E deixa o carinho nos conduzir.
- Eu vou explodir.
- Eu também.
- A minha mão, olha a minha mão tremendo?
- Me beija?
- Beijo. Mas eu estou tremendo tanto que não conseguiria te beijar.
- Não?
- Eu te beijaria, mas seria um beijo tremido, torto.
- Você é divertido.
- Eu sou.

Você se observa no espelho com atenção e ao observar, logo após piscar os olhos, percebe que o olhar nunca é o mesmo. Esse fragmento sempre me interessou. Por isso eu divago tanto sobre os mínimos. Por isso eu ainda tenho milhares de esperanças. Em mim. No outro. No amor. Na arte. Na amizade. Na família. Na conta bancária. No sexo efêmero. Nos saltos. No jantar. Nos sorrisos. Na palavra escrita. No destino de tudo o que a gente planta. Atenção ao desperdício. Quando a gente não espera, a vida muda o jogo. A gente não é avisado, não dispomos de tempo para reavaliação, é no movimento que a gente equilibra e cai sentado, é no desequilíbrio que a gente acerta e ganha um coração, que a gente chora e vira saudade. Atenção ao desperdício: ao que é de isopor, aos desafetos desnecessários, aos gritos sem necessidade, às palavras desgovernadas. Você observa o outro se observar no espelho. E percebe sem dizer a ninguém que ...