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quarta-feira, julho 04, 2007

PERDAS E DANOS de Louis Malle
Eu não te quero mais.

Assim tão displicente. Assim sem perceber que dividindo a gente soma. Esse pequeno óbvio que reluz aos meus olhos feito descoberta rara. Chega de raso. Chega da idéia de um amor a três, de um amor a quatro, de um amor suruba. Busco a serenidade do um mais um. Busco o suficiente. E é nessa busca que nos distanciamos em estrada e interesses. Eu não te quero mais. Assim tão eloqüente. Feito um vicioso círculo de onde eu sempre digo adeus e para onde eu sempre retorno consciente. Te escrever sempre me pareceu delicado, mas hoje dispenso delicadezas e sinto violento, escrevo tão intenso que meus dedos vacilam a letra digitada. Posso te dizer sobre mim ao escrever. Que vez ou outra eu travo no real. A voz some, o olhar não alcança, as palavras voam feito folhas no outono. Mas é inverno e o momento é de voz forte, olhar decidido, palavras em negrito e simples como o desejo de não te querer. Mais. E insisto para poder acreditar. Insisto para compreender com mais segurança.

Vontade selvagem, de te contar sobre o meu partido coração e ouvir sobre o teu. Essa troca de informações cardíacas, eu diria, são preciosas quando transformadas em verbo. A gente sempre descobre algum fio de luz quando nos ouvimos, quando percebemos o outro falar. Eu chamo de permuta. O grão problema, que talvez tenha outro nome, mas que de qualquer forma, impossibilita, é que estou desapontado. Desapontado eu diria e eu deveria estar acostumado, mas essa idéia - me acostumar - me irrita um pouco e faz com que as unhas sejam roídas porque me acostumar com alguma atitude ou com a ausência de atitudes significa me acomodar com o que me é oferecido. E acomodações aos vinte e nove, afetivas, eu reforço, me parecem tão absurdas quanto artificiais. Então perdoe a falta de cavalheirismo, se explodo em frases flechas com destino traçado, se não percebo o momento de falar, eu que sempre agi educadamente a cada ausência, a cada pequeno não, a cada grandioso maremoto causado por um sorriso que você não deu, é que o momento - e cada um percebe o seu, cada um sente o seu e não há ritmo que impeça o sentir, não há etiqueta que resista aos sentidos, não há fogo que não queime se provocado - me diz que é hora de arrumar as malas e ser mais do que essa frase que parece de efeito e no fim, é! Porque todo efeito me coloca em movimento e é no movimento da vida que eu tenho, sim, uma certeza. Ainda que pareça crua, ainda que me doa fisicamente e me arranque noites da cama, ainda que me transforme novamente em alguém sem rumo e sem palavras, eu tenho uma, que significa milhares e eu nem buscava por ela. Uma certeza. Desapontado. Mesmo no meio da mais cinza tempestade, a gente tem sempre o pensamento de que ela vai passar, de que o sol vai chegar, de que ela vai embora como ciclo que se fecha e se abre. Perdoe, mas eu preciso seguir. Levo na mochila filmes, histórias, roupas e livros de gente que sabe o que diz. Levo música, lembranças de gente que eu não quero perder, educação para poder trilhar com segurança, leveza para acalmar corações e eu não me habituo ao que não me agrada. Seria mentir para mim. Seria ser outra pessoa. Eu te levo comigo por onde passar, essa certeza é um sopro que te deixo. Levo com orgulho. Levo com amor de homem que foi tocado por outro homem, fez sua revolução e viu brotar sensibilidade e poesia. Levo como tesouro precioso de quem aprendeu e ensinou. De quem se perdeu e não se encontrou. De quem mudou os objetos de lugar e estranhou. Esse desfecho não é o ideal. Mas estou em busca e no meio do caminho, encontrei uma certeza. Nossa história não termina. Ela prossegue. Obrigado pelo quase. Perdoe pelo definitivo.
Também eu tenho medo.