FAST FOOD NATION de Richard Linklater
... mudamos de cor, de tom, de clima, de atmosfera, o metrô cheio, a testa suada, o fone no ouvido e de longe um violino e de longe a cidade em movimento e alguns raios cortam o céu e sacodem a cidade e então a chuva forte e a roupa molhada enquanto caminho sem urgência enquanto os demais correm com pressa, fugindo da água, fugindo das poças, fugindo da tempestade. Os pingos grossos, o calor subindo do asfalto, faz mais calor e nem é verão enquanto caminho cada vez mais molhado cada vez mais aliviado cada vez mais feliz porque estou eu também no meio de uma tempestade íntima, o que me faz cúmplice do vento e dos ruídos de todos os raios de todo a cidade em estado de alerta que dá um nó quando a natureza resolve agir impulsiva por excelência e eu admiro excelências.
... alguns passos mais tarde estava eu na locadora e papai falava sobre a diferença que pode aproximar os interesses que pode afastar os percursos. Éramos dois homens ignorando a tempestade para conversar e é tão raro conversar e perder a noção do tempo, apenas ouvir e dizer e debater e discordar, sem lanças ou escudos, sem disputas ou preocupações com o que vai ser dito, conversa sem pódios, sem medalhas, apenas os olhos nos olhos e o momento. Fechamos as portas e ao entrar em casa o sobrinho agitado e sempre impressionado com o inédito e a festa de todos os dias, as palavras e o carinho, mínimos que eu respeito. As contas de sempre e uma carta de um amigo que se perdeu de mim faz muito tempo. As histórias descobriram outras paisagens, outros personagens abriram a cortina, ganhou outro desfecho o nosso encontro. A lembrança viva, a letra que eu sempre achei tão linda e tão segura, o tempo que passou, a sensação que nunca deixou de existir e lá estava ele, entre raios e trovões e os meus olhos molhados observando a chuva cumprir seu ritual, as janelas abertas, a casa dando as boas vindas.
... depois ela me ligou e me avisou que ele chega na semana que vem. Que vai ficar pouco tempo, mas que virá nos visitar. E faz pouco mais de um ano e foi tão forte e tão decisivo. Veio de um encontro pela internet que nos aproximou os interesses, ele gostava dos meus textos e eu gostava das suas fotografias. Ele gostava do meu verbo e eu gostava do olhar dele. E quando ele chegou trazendo o sotaque do sul, nos apaixonamos dentro de um fast food sem dizer uma palavra sequer e nos reconhecemos e vivemos dias tão felizes pela cidade imponente e sua arquitetura hipnótica e toda a liberdade e a molecagem de ser carioca mais a praia e o chinelo e os meninos do rio e do Caetano provocando arrepios. Depois ele voltou para sua cidade e eu senti muito e aprendi porque ele me deixou ensinamentos e a certeza de uma amizade e de um carinho e de uma história que é tesouro e corre nas veias. Depois ela se corrigiu, que não leu o e-mail direito, ele só chega em janeiro e já dei muita risada porque ela quer tanto que ele chegue que antecipou a sua vinda. E janeiro é quase ali se a gente for somar. Antes ainda tem os meus trinta anos e eu me reservo um porre porque são trinta anos e eu quero celebrar, não me pergunte as razões e depois o ano vira provavelmente na praia, se ela quiser me acompanhar mais uma vez, provavelmente em Copacabana, paraíso dos turistas, bairro que eu particularmente acho claustrofóbico, globalizado em demasia e que de tanto circular pelas ruas, acabei me encontrando ali no canto da Barão de Ipanema no colo do melhor amigo.
... então ele outro chegará. E eu tenho alguns meses para alimentar a idéia de novamente abraçar e novamente sentir meus olhos no sorriso e novamente o carinho e sempre o carinho e as noites para que possamos ouvir todas as músicas para que a gente possa lembrar da chuva do vinho e do tom. Anyway, eu tinha um conto para contar que se perdeu entre as linhas. Não importa. Aqui eu brinco de me perder e me encontrar. Aqui é como todo lugar. Onde cada um enfrenta as suas cifras, equilibra seus maiores sonhos, realiza os seus pequenos desejos, rega as flores porque aposta na beleza, acredita no outro porque é preciso se lançar em histórias de carne e osso, de sangue e suor. Como toda cidade-pessoa, a gente percebe que o ideal mesmo é não ter um ideal. Que o real é mais fascinante por esse mesmo motivo: é real, no tempo de agora. Cada um se ajusta ou implica com a montanha-russa do acaso, dos encontros inusitados, dos esbarrões insuspeitados, dos olhos que nos descobrem quando não esperamos, quando não queremos descobertas, apenas o velho dia-a-dia. O bom e saudável dia após o outro.