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quarta-feira, setembro 05, 2007


VÊNUS de Roger Michell

Sabe o que acontece? E sinceramente eu não tenho o desejo de parecer um outro alguém que não existe: é que eu ando enjoado e ousaria, cansado, desse joguinho que a gente se acostumou a jogar quando conhece alguém e percebe que de repente, quem sabe, com a ajuda da sorte e a euforia tantas vezes experimentada, os dois acabam se reconhecendo e mais, se identificando, sorrindo aquela certeza de canto de boca de que dessa vez, sim, dessa vez é comigo, é com a minha vida real, com o auxílio luxuoso do cinema e de todas aquelas histórias passionais, mas dessa vez é no ritmo da realidade e faz todo o sentido. Me desculpe por te dizer assim tão diretamente, mas tenho a sensação de que se eu não começar limpo, direto, objetivo, nós vamos acabar no motel da esquina e depois um telefone trocado, uma ligação em dias de tesão e depois nunca mais até o próximo outro e a próxima esquina e o telefone que não virá e o outro que chegará. E sempre chega alguém. Mesmo que seja para dizer adeus. Para colocar a vida em desordem e nos lembrar de que não temos o controle, estamos todos sujeitos ao delicado, falando bem sinceramente, estamos todos sujeitos aos que fazem questão de nos tirar da base simplesmente pelo fato de balançar, desequilibrar, ver que é possível causar um leve ou grave tremor. Cada um sabe da sua própria escala Richter. E eu falo sem pausas porque já bebi o suficiente para confundir as vírgulas, mas é sincero e sou eu e se insisto em parecer eu e não outro é porque a imagem das máscaras me assombra com intensidade. Eu tenho pavor de máscara. De você acreditar em alguém que não existe. Feito poeira, some sem deixar rastros. Desaparece no espaço. Feito desenho animado. Chega um momento em que cansa. Exaspera, eu diria. Então lá vou eu mais uma vez, tentar. E eu adoro a possibilidade da tentativa. É gostoso saber que existe a cidade e as opções e é plural querer nos dias de hoje. Vai muito além do físico e do corpinho bonito. O que, em última análise, não sustenta nem uma boa transa se o corpinho for somente bonito e tal. A gente come, sabe como é, come. Farta-se, lambe os beiços. E depois digere. Até que chegue outro. Eu dou risada enquanto falo e não estou rindo de você, mas de mim. Você tem essa capacidade de rir de si? De se observar em situação tal e de repente sorrir ou porque é sinceramente divertido ou levemente tragicômico. Vai muito além do físico, eu diria que as afinidades e o respeito pelo comum são o que me interessam mais nos dias de hoje. Aí tem aquela sede, aquela vontade de saciar o que te atrai no outro, de saciar o que une você àquela pessoa. Seja o gosto pelo cinema, jazz, programa de televisão, um cheiro, um som, um gosto, uma tara, você tem taras? Eu tenho diversas. Acho bom te ouvir falar, eu gosto do timbre da tua voz. Eu gosto das tuas mãos. Tanto lugar para olhar e eu fui cair logo nas mãos. Aí eu disse para o último que eu tinha que aprender a andar na linha, sabe andar na linha? A gente traça no chão e segue. Pá! Direto, em frente, sem questionar, sem se deixar influenciar pela curva. Acho que me falta essa direção, a linha reta, o objetivo. Porque ficar nessa de viver um amor aqui, outro amor platônico ali, acaba desgastando. O amor desgasta. Na verdade acho que o que desgasta é o final de tudo, é aquela sensação de poço fundo, de saber que não dá e você precisa arrumar tudo, procurar outros sentidos, outro cenário para viver tua vida até que. É cíclico. Nasce morre. Termina começa. Encontra perde. Solteiro casado. Sorri chora. Soma subtrai. Soma divide. Soma multiplica. Eu acho que se trata de encontrar um equilíbrio, mesmo que seja um equilíbrio virtual, é virtual a palavra? Mas que seja uma idéia de equilíbrio. Equilibrados para poder andar na linha, da tal linha, que provavelmente também é uma linha virtual. Eu queria um amor assim para cantar juntos a vida inteira, para envelhecer uma história sem perder o vigor. Todo aquele amor e aquele aprendizado de amar. Aí a Marcela disse que achava que tinha desligado o celular, quando ele tocou no meio da peça e a palhaça virou para ela e disse ‘eu também acho tantas coisas’. Essa rapidez no raciocínio, salvando uma situação que poderia fazer desandar toda uma cena, sagacidade, essa é a palavra. Eu queria assim um amor que salvasse, que não fizesse desandar toda a... pede a conta?