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quinta-feira, novembro 01, 2007



SOBRE CAIO E FERNANDO *



Os olhos fixos um no outro. Como a certeza de que aquela talvez fosse a última vez que se olhariam. Que seus olhos registrassem, então, o maior número de expressões, de imperfeições, de reações. A última vez, pensou o rapaz com os olhos fixos, ancorados no fundo dos olhos do outro.

- Então é isso...

A frase rasgou o silêncio como se fossem mil alarmes. Levantar de âncoras, é preciso continuar a viagem, sou jovem, essas coisas que as pessoas pensam o tempo todo e não dizem.

- Então fica assim...

Merda de português... a gente nunca fala nada coerente numa hora como essas, fica assim... assim como? O silêncio não era constrangedor, era bom. Aí vem essa tentativa imbecil de querer dizer alguma coisa pra que se justifique essa situação e eu não sei, eu não...

- Não sei, pensou em voz alta.
- O que?
- Nada, desculpa... pensando alto.

Ficaram em silêncio, mas não se olhavam mais. E o silêncio agora perturbava, constrangia.

- Olha Caio, eu quero que você fique bem.
- Eu estou bem, respondeu quase simultaneamente.
- Eu gosto de você, verdade, mas eu não posso...
- Escuta - sério, coração acelerado descompassado lâminas olhos felinos - não estraga esse momento com essas tuas frases feitas vazias não.

Soou como um pedido, um delicado pedido rude de quem se conhece com intimidade e pode ser cruel quando quer. Suspiraram juntos. Caio sentado, as costas para frente, os braços apoiados nos joelhos, quase calmo quase nervoso quase chorando quase nunca mais. Fernando de pé, lento pela sala, as mãos na barba fina, camiseta e jeans. Pegou a mochila no chão com pouca decisão, como quem não sabe o que fazer.

- Eu vou indo.

Sentado, os olhos de Caio na fechadura da porta de madeira, balançou os ombros sem saber o que dizer, doendo ali, naquele pedaço do apartamento daquela cidade louca.

- Nando, eu...você não quer, quer dizer, está frio, um pouco tarde... E se você ficasse até amanhecer?

Máquina de hospital que dá choque em pacientes com parada cardíaca no fundo do corredor imenso. Tentativa um, tentativa dois, tentativa três, me desculpe, mas o paciente não resistiu e nos deixou às nove e quarenta e cinco desse noite de inverno no Leblon.

- Só até de manhã, você pode ir direto pra loja e a gente poderia conversar, eu não sei, comer alguma coisa ou então a gente fica em silêncio, sei lá, faz silêncio, curte um som, um baseado...
- Eu prefiro recusar o seu convite, desculpe.
- Tudo bem, claro. Você quer ajuda com as malas? Eu posso chamar o Chico.

Desapontado, sem rumo, extremista. Já que não pode ficar então vai embora logo e me deixa em paz.

- Não precisa, eu me viro - e sorriu, como se o que tivesse dito surtisse em si mesmo um efeito cômico. E repetiu: - Eu me viro.

Portas abertas, barulho do elevador, um latido ao longe de cachorro assustado, malas arrastadas, oito meses indo embora. Caio sentado, imóvel, ainda sentado ainda doendo, um abismo na sala do apartamento, qualquer passo em falso e a queda que o momento exige aconteceria, a máquina de choque, a voz do pensamento, as tentativas em vão, porra de cachorro chato, nunca gostou do Fernando, deve estar festejando, ele nos deixou às nove e quarenta e cinco, fizemos o que estava ao nosso alcance, o senhor gostaria que eu avisasse a família?

A última mala e Fernando na porta do apartamento, um rosto delicado, quase feminino não fosse a barba fina, irretocável na sua exatidão de ser Fernando, passou a mão no cabelo olhando Caio que também o olhava diante do seu abismo:

- Se cuida...

Alguns silêncios em silêncio. O tempo de ouvir o outro, de assimilar a frase e produzir uma resposta automática, inconsciente que resumisse a relação, os oito meses, aquele momento.

- Você também, Fernando. Se cuida - a voz trêmula, preferiu calar, poderia chorar mas desistiu.
- Uma coisa a Adriana Calcanhoto tem razão, Caio... O inverno aqui no Leblon é quase glacial.

Sorriram os dois, olharam-se os dois, talvez pela última vez, pensou um, talvez pela última vez, pensou o outro. Portas fechando. Primeiro a do apartamento, depois a do elevador, os ruídos ficando ao longe, cada vez mais distantes, cada vez mais.

Levantou sério, balançou a cabeça como quem reprova uma atitude, ligou o som procurando um cd na estante, ele que tinha muitos cd's. Escolheu uma cantora brasileira, não selecionou faixa alguma, apenas deixou tocar até que a música encheu a sala e em poucos segundos, todo o apartamento. Abriu uma caixa pequena, verde, um sol amarelo enorme na tampa, coisa de hippie como diria sua mãe, pegou seu baseado, certificou-se de que estava devidamente enrolado e jogou-se no sofá.

Acendeu, tragou, prendeu, soltou.

- Ele deve estar pegando o táxi.

Tragou, prendeu, soltou.

- Não precisa avisar ninguém não, doutor. Já descobriram a causa?
- Ainda não, mas há indícios de sufocamento. O coração não resistiu, sabe como é.
- Sei.

Cabeça jogada na almofada jogado no sofá. Teto branco, ventilador no teto precisando ser limpo, luminária rachada. O apartamento voltou a ser apartamento. Pensamento desordenado, porrada no trânsito como se tivesse atravessando a rua e de repente o susto, o impacto, o barulho. Lembrou do acidente do filme mexicano que assistiram na semana passada, Amores Brutos, a cena do acidente mostrada de três ângulos em diferentes momentos...

- Amores Brutos... é isso... então viva da forma que você deseja, receba telefonemas de antigos, volte aos lugares de sempre, esqueça os momentos, os instantes, os segundos...

E riu chorando ou chorou rindo. Sozinho na sala, no apartamento frio, solteiro, sozinho agora. O cd tocando baixo, quase imperceptível, a voz suave de Adriana Calcanhoto preenchendo o vazio, a solidão, o inverno no Leblon cantado no menor volume enquanto Caio chorava por Fernando que estava num táxi no meio da cidade com suas malas e lembranças. Caio chorava por Fernando, pelo adeus, pelo nunca mais, pelos tantos meses juntos, pela sensação de abismo, pela brutalidade do amor e ria pelos mesmos motivos, gargalhava. Até que dormiu. Dormiu no sofá da sala como um anjo, criança cansada de tanto brincar. Teve um sonho lindo, perfeito, impossível. Sonhou como a muito tempo não sonhava.

Acordou feliz e foi ver o mar.

Para Adriana Calcanhoto
Caio Fernando Abreu
e Goya Toledo


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* esse conto, escrito em 2003, me revisitou essa semana, ao ganhar o quarto lugar de um Concurso Nacional de Contos. Felicidade tola, mas que me causa boas sensações. E me entrega expectativas.


* Imagem do filme Amores Brutos, de Alejandro Gozales Inarritu, que serviu como material bruto para a feitura do conto, assim como as canções de Adriana Calcanhotto e o desespero diabólico da atriz Goya Toledo, no filme.