DESEJO E REPARAÇÃO de Joe Wright
Havia a cidade de possibilidades. E havia principalmente a juventude urgente de quem tem vinte e tantos anos e precisa se sentir vivo. Arriscar, pensou alto e é possível que tenha falado em voz e volume. Ele agora fala sozinho, e pior, fala alto como se conversasse consigo mesmo. Arriscar porque é quase o fim do ano e a cidade é tomada por uma confusão de carros, intenções e pessoas arriscando. Como se a população duplicasse nas ruas. O que não é tão mal. Não. Existe beleza no final de uma tarde movimentada com o sol caindo e avisando que é quase verão. Existe belezano fim. Esbarrões nos braços de gente que passa e cruza as histórias de vidas que não se conhecem.
Havia o desejo de arriscar. Risco de tinta interrompendo o branco do papel. O desejo porque é quase seu aniversário. Mais uma vez seu aniversário e a soma de um ano devidamente vivido, esses quase trinta anos. Pensou na irmã que compreende com segurança os signos e as estrelas e que ela havia descoberto que ele é capricórnio com ascendente em peixes. E esses peixes deveriam significar um cuidado especial com o coração e as intenções, você entende? Ele não compreendia. Sabia o óbvio de terra, ar, água, fogo, os símbolos de fácil acesso. E era terra, pés no chão para sentir o quente, o seco, o úmido, o frio. Mas lua, estrelas, ascendentes e outros afins, não só não entendia como não fazia esforço para tentar a compreensão. Lembrou da irmã e sorriu bobamente porque sempre teve todo o cuidado, excessivo muitas vezes, com seu coração. E suas intenções.
Arriscar e sentir o coração batucar tambor gigante que grita vida. Mas como arriscar o fim da tarde no centro movimentado da cidade? Pensou em cinema, mas a amiga querida tinha planos diferentes e é assim que funciona com pessoas que se amam e se respeitam. Pensou em matar a saudade da loura linda, mas a correria dos compromissos os impediu. Buscou o tal rapaz de sempre e a central de telefones informou friamente que o celular estava fora da área de cobertura. Detestava essa mulher que repetia entre duas ou três vezes com a mesma indiferença. Até que estalou delicadamente que esse fim de tarde, esse pôr-do-sol era seu e inteiro. As tentativas fracassadas de encontrar companhia não refletiram solidão. Hoje não. Hoje o espelho soprou a palavra risco e escreveu o verbo arriscar com maiúsculas letras de um alfabeto particular. Pensou em sexo fácil, desses de sex-shop ou guetos descartáveis, mas percebeu cuidadosamente a trilha e os violinos não combinavam com o suor descompromissado de um outro alguém que talvez deixe o telefone e quem sabe outra vez, se os dois no fim, gostarem um do carinho do outro. Descartou o sexo, ele que já conhecia algumas putas pelo nome, ele que levava camisinhas extras para os travestis. Ele que hoje não queria o risco do prazer de plástico. Queria intimidade. Um abraço demorado somente para sentir o outro. O pulsar das veias, o ritmo do coração, a velocidade da respiração, cheiros. Um beijo molhado. Um segredo compartilhado. Arriscar-se no outro, no que há de nobre e selvagem, doce ou azedo. Deixar a luz do sol entrar.
Havia o desejo em demasia. Mas desejar e somente desejar, não basta. É preciso que O Desejo signifique em forma e conteúdo, em fogo e música para que o outro compreenda. Qualquer outro no universo. Os que já fazem parte. Os que ainda vão chegar. Os que passam e somente passam. Havia tão intensamente o desejo que enfrentou o final da tarde com um fio de melancolia. Resolveu ir para casa, lar de todos os lares, metrô cheio de vidas que podem se encontrar um dia, quem sabe? Ele não saberia dizer. Lembrou do tal rapaz dizendo que seu texto era simples. E sorriu bobamente porque é difícil atingir a simplicidade. É bom o simples e lhe faz bem que tudo seja como é e as folhas sejam de variadas cores mas sejam folhas. Ouvia violinos, a trilha de um cinema da memória que não saberia precisar e não era o Paradiso do Tornatore. Havia o céu nublado na saída do metrô e era bom e era lindo em profundidade e nuvens. Até que esbarrou no ombro de um homem que passava distraidamente, como ele. Uma vida que encontra outra no repente e que ao perceber o instante, os olhos reconhecem no outro uma vida que já encontrou a dele faz muito tempo atrás. Amigos de bairro, de infâncias e adolescências. Vidas que se conhecem desde a ingenuidade dos corpos no banho à descobertas dos pêlos. Do calafrio do tesão ao toque inédito no universo do corpo do outro. Vidas que comemoraram gols de Copa, que choraram perdas, que trocaram camisas quando um foi ser ator e outro militar. Vidas que se arriscaram e se arriscam todos os dias em simplicidades necessárias. Beberam o encontro depois de tanto tempo e foi bom, tão profundamente bom. Como se um fosse o risco do outro. E sequer se procuraram. Se encontraram no meio de tudo, no fim de tarde, no recomeço de um desejo. Informaram-se. Precisaram-se. Experimentaram-se. E a intimidade de quem se arrisca provoca o belo, o abismo, a comunhão, o susto. Não é assim? Vidas que se perdem e se encontram porque não se perderam, na verdade. Arriscar sempre, sorriu bobamente.
A noite foi um delicado sorriso doce.
De homem para homem.
Havia o desejo de arriscar. Risco de tinta interrompendo o branco do papel. O desejo porque é quase seu aniversário. Mais uma vez seu aniversário e a soma de um ano devidamente vivido, esses quase trinta anos. Pensou na irmã que compreende com segurança os signos e as estrelas e que ela havia descoberto que ele é capricórnio com ascendente em peixes. E esses peixes deveriam significar um cuidado especial com o coração e as intenções, você entende? Ele não compreendia. Sabia o óbvio de terra, ar, água, fogo, os símbolos de fácil acesso. E era terra, pés no chão para sentir o quente, o seco, o úmido, o frio. Mas lua, estrelas, ascendentes e outros afins, não só não entendia como não fazia esforço para tentar a compreensão. Lembrou da irmã e sorriu bobamente porque sempre teve todo o cuidado, excessivo muitas vezes, com seu coração. E suas intenções.
Arriscar e sentir o coração batucar tambor gigante que grita vida. Mas como arriscar o fim da tarde no centro movimentado da cidade? Pensou em cinema, mas a amiga querida tinha planos diferentes e é assim que funciona com pessoas que se amam e se respeitam. Pensou em matar a saudade da loura linda, mas a correria dos compromissos os impediu. Buscou o tal rapaz de sempre e a central de telefones informou friamente que o celular estava fora da área de cobertura. Detestava essa mulher que repetia entre duas ou três vezes com a mesma indiferença. Até que estalou delicadamente que esse fim de tarde, esse pôr-do-sol era seu e inteiro. As tentativas fracassadas de encontrar companhia não refletiram solidão. Hoje não. Hoje o espelho soprou a palavra risco e escreveu o verbo arriscar com maiúsculas letras de um alfabeto particular. Pensou em sexo fácil, desses de sex-shop ou guetos descartáveis, mas percebeu cuidadosamente a trilha e os violinos não combinavam com o suor descompromissado de um outro alguém que talvez deixe o telefone e quem sabe outra vez, se os dois no fim, gostarem um do carinho do outro. Descartou o sexo, ele que já conhecia algumas putas pelo nome, ele que levava camisinhas extras para os travestis. Ele que hoje não queria o risco do prazer de plástico. Queria intimidade. Um abraço demorado somente para sentir o outro. O pulsar das veias, o ritmo do coração, a velocidade da respiração, cheiros. Um beijo molhado. Um segredo compartilhado. Arriscar-se no outro, no que há de nobre e selvagem, doce ou azedo. Deixar a luz do sol entrar.
Havia o desejo em demasia. Mas desejar e somente desejar, não basta. É preciso que O Desejo signifique em forma e conteúdo, em fogo e música para que o outro compreenda. Qualquer outro no universo. Os que já fazem parte. Os que ainda vão chegar. Os que passam e somente passam. Havia tão intensamente o desejo que enfrentou o final da tarde com um fio de melancolia. Resolveu ir para casa, lar de todos os lares, metrô cheio de vidas que podem se encontrar um dia, quem sabe? Ele não saberia dizer. Lembrou do tal rapaz dizendo que seu texto era simples. E sorriu bobamente porque é difícil atingir a simplicidade. É bom o simples e lhe faz bem que tudo seja como é e as folhas sejam de variadas cores mas sejam folhas. Ouvia violinos, a trilha de um cinema da memória que não saberia precisar e não era o Paradiso do Tornatore. Havia o céu nublado na saída do metrô e era bom e era lindo em profundidade e nuvens. Até que esbarrou no ombro de um homem que passava distraidamente, como ele. Uma vida que encontra outra no repente e que ao perceber o instante, os olhos reconhecem no outro uma vida que já encontrou a dele faz muito tempo atrás. Amigos de bairro, de infâncias e adolescências. Vidas que se conhecem desde a ingenuidade dos corpos no banho à descobertas dos pêlos. Do calafrio do tesão ao toque inédito no universo do corpo do outro. Vidas que comemoraram gols de Copa, que choraram perdas, que trocaram camisas quando um foi ser ator e outro militar. Vidas que se arriscaram e se arriscam todos os dias em simplicidades necessárias. Beberam o encontro depois de tanto tempo e foi bom, tão profundamente bom. Como se um fosse o risco do outro. E sequer se procuraram. Se encontraram no meio de tudo, no fim de tarde, no recomeço de um desejo. Informaram-se. Precisaram-se. Experimentaram-se. E a intimidade de quem se arrisca provoca o belo, o abismo, a comunhão, o susto. Não é assim? Vidas que se perdem e se encontram porque não se perderam, na verdade. Arriscar sempre, sorriu bobamente.
A noite foi um delicado sorriso doce.
De homem para homem.