POSSUÍDOS de William Friedkin
- O pão acabou.
- O pão acabou? O pão acabou na padaria? Você me diz que nessa padaria, que vive de vender pão, não tem pão, é isso?
- Nós vendemos outros produtos também. Aquela prateleira, por exemplo, está cheia de bolos, biscoitos, uma série de outros alimentos em grande quantidade e dentro da validade. Pão, o pão é que acabou.
- Meu senhor, eu saí de casa para comprar pão.
- Perdeu a viagem.
- Essa chuva, esse vento frio, eu saí de casa no meu dia de folga. Eu só quero pão. O senhor pode chamar o gerente?
- Eu sou o gerente.
- O dono, então. Chame o dono.
- Eu sou o dono, o gerente, o faxineiro, o balconista e o caixa.
- E o padeiro, o senhor não é o padeiro?
- Não, eu não sou o padeiro. O padeiro adoeceu.
- O senhor não sabe assar um pão, a massa, o senhor não sabe fazer a massa? Eu posso pagar.
- Eu não aceitaria. Eu não sei cozinhar. E isso encerra a nossa conversa. O próximo, por favor.
- Não encerra não. Eu entrei aqui para comprar pão e eu só saio daqui com um pacote na mão. Quero comer um cachorro-quente, deixei pronto o molho. Não posso aceitar que não tenha pão.
- Daqui a pouco, rapaz, você vai bater o pé no chão e vai gritar que quer porque quer.
- Mas eu quero!
- Feito criança mimada que merece correção. O próximo, por favor.
- Nada de próximo não senhor.
- Você está atrapalhando o andamento da minha padaria.
- Padaria que é padaria tem pão!
- Eu só não chamo o segurança...
- Porque o segurança é o senhor, acertei?
- Porque são duas horas da manhã e posso eu mesmo te colocar pra fora.
- Exatamente por ser duas horas da manhã é que eu preciso de pão. Não existe outra padaria aberta. Ou supermercado. Se eu estivesse em Copacabana, tudo bem. Mas por aqui, o senhor entende, não entende?
- Perfeitamente. Quem parece que ainda não compreendeu foi você.
- Moço, eu só quero comer pão. Eu não tô pedindo uma iguaria, não quero nada exótico. Eu só preciso... Por que é tão difícil de entender o que eu preciso? Por que é que todos os dias, eu preciso me fazer compreender? Explicar, repetir, cuidar para que o que eu digo não perca a força, não ganhe outro sentido. E tudo se perde, é tão exaustivo. Por mais cuidado, zelo, por mais carinho que se tenha, nunca é suficiente para que não se perca o controle. Nem que seja por uma fração de segundos. O senhor entende, um pão que seja e eu tô usando essas palavras que não sei o que significam – tudo, nunca, controle – e o que eu queria mesmo, moço, eu queria chegar aqui e não precisar abrir a boca. Queria que o senhor me olhasse nos olhos e compreendesse que eu quero um saco de pão. Eu observaria o senhor me servir gentilmente, porque o seu olhar é doce e agradeceria também sem dizer nada. Eu não suporto essa cidade engarrafada, essa temperatura instável, o excesso de vozes e ruídos, freadas bruscas, gente se xingando por destempero gratuito, celulares e funks e gente demais, moço, gente demais no mundo. Se você sai para dançar, é um pesadelo. Você deveria se divertir, relaxar, mas volta tenso, zonzo. Outro dia eu fui dançar em Ipanema, era um bar gay e eu me senti tão desconfortável. Eu sei quem eu sou, eu não preciso de jaulas, eu resolvi ir para comemorar com as pessoas. A música tão alta, ninguém se ouvia bem. Para avisar ao meu amigo que eu ia ao banheiro, eu precisei gritar no ouvido dele. Ninguém se ouve e só se paqueram os que estão de acordo com o ambiente, padronizados com músculos e sem camiseta. Não tenho nada contra os músculos, até acho bonito, mas eu me sinto menos pior numa roda de samba, ali na Lapa tem uma ótima, toca até Chico.Outro dia eu tive que explicar para um garoto de dezoito anos quem era o Chico Buarque. O senhor não acha o cúmulo um menino viver dezoito anos com saúde, sem saber quem é o Chico?
- Acho.
- Eu mandei Os Saltimbancos para o meu sobrinho no dia seguinte, ele vai fazer sete anos.
- Fez bem.
- Não tô falando de solidão não. Ou de amor. Eu tô falando de desencaixe, de me sentir descolado, desgarrado do todo, fora da página. Sinalizando, etiquetando em negrito para ser ouvido, para que as pessoas percebam que eu tô aqui, que eu quero pão, um pãozinho para que eu seja mais feliz, mais completo. Menos desordenado. Não sei se é natural se sentir dessa forma: sem forma. Eu também não sei se é reflexo da modernidade, que se foda. Que futuro é esse sem compreensão? Que tempos modernos são esses onde as pessoas não se relacionam, não se percebem, não fazem contato umas com as outras? Eu sei que não adianta reclamar. Não adianta perceber tudo isso, sair daqui e voltar ao meu universo virtual. Porque isso é compactuar com a inércia, o pão, maldito pãozinho, o senhor entende, não entende?
- Meu filho, assim que amanhecer, eu mesmo te levo um saco de pão quentinho. Por favor, anote aqui o seu endereço para que a gente não perca o contato.
- O pão acabou? O pão acabou na padaria? Você me diz que nessa padaria, que vive de vender pão, não tem pão, é isso?
- Nós vendemos outros produtos também. Aquela prateleira, por exemplo, está cheia de bolos, biscoitos, uma série de outros alimentos em grande quantidade e dentro da validade. Pão, o pão é que acabou.
- Meu senhor, eu saí de casa para comprar pão.
- Perdeu a viagem.
- Essa chuva, esse vento frio, eu saí de casa no meu dia de folga. Eu só quero pão. O senhor pode chamar o gerente?
- Eu sou o gerente.
- O dono, então. Chame o dono.
- Eu sou o dono, o gerente, o faxineiro, o balconista e o caixa.
- E o padeiro, o senhor não é o padeiro?
- Não, eu não sou o padeiro. O padeiro adoeceu.
- O senhor não sabe assar um pão, a massa, o senhor não sabe fazer a massa? Eu posso pagar.
- Eu não aceitaria. Eu não sei cozinhar. E isso encerra a nossa conversa. O próximo, por favor.
- Não encerra não. Eu entrei aqui para comprar pão e eu só saio daqui com um pacote na mão. Quero comer um cachorro-quente, deixei pronto o molho. Não posso aceitar que não tenha pão.
- Daqui a pouco, rapaz, você vai bater o pé no chão e vai gritar que quer porque quer.
- Mas eu quero!
- Feito criança mimada que merece correção. O próximo, por favor.
- Nada de próximo não senhor.
- Você está atrapalhando o andamento da minha padaria.
- Padaria que é padaria tem pão!
- Eu só não chamo o segurança...
- Porque o segurança é o senhor, acertei?
- Porque são duas horas da manhã e posso eu mesmo te colocar pra fora.
- Exatamente por ser duas horas da manhã é que eu preciso de pão. Não existe outra padaria aberta. Ou supermercado. Se eu estivesse em Copacabana, tudo bem. Mas por aqui, o senhor entende, não entende?
- Perfeitamente. Quem parece que ainda não compreendeu foi você.
- Moço, eu só quero comer pão. Eu não tô pedindo uma iguaria, não quero nada exótico. Eu só preciso... Por que é tão difícil de entender o que eu preciso? Por que é que todos os dias, eu preciso me fazer compreender? Explicar, repetir, cuidar para que o que eu digo não perca a força, não ganhe outro sentido. E tudo se perde, é tão exaustivo. Por mais cuidado, zelo, por mais carinho que se tenha, nunca é suficiente para que não se perca o controle. Nem que seja por uma fração de segundos. O senhor entende, um pão que seja e eu tô usando essas palavras que não sei o que significam – tudo, nunca, controle – e o que eu queria mesmo, moço, eu queria chegar aqui e não precisar abrir a boca. Queria que o senhor me olhasse nos olhos e compreendesse que eu quero um saco de pão. Eu observaria o senhor me servir gentilmente, porque o seu olhar é doce e agradeceria também sem dizer nada. Eu não suporto essa cidade engarrafada, essa temperatura instável, o excesso de vozes e ruídos, freadas bruscas, gente se xingando por destempero gratuito, celulares e funks e gente demais, moço, gente demais no mundo. Se você sai para dançar, é um pesadelo. Você deveria se divertir, relaxar, mas volta tenso, zonzo. Outro dia eu fui dançar em Ipanema, era um bar gay e eu me senti tão desconfortável. Eu sei quem eu sou, eu não preciso de jaulas, eu resolvi ir para comemorar com as pessoas. A música tão alta, ninguém se ouvia bem. Para avisar ao meu amigo que eu ia ao banheiro, eu precisei gritar no ouvido dele. Ninguém se ouve e só se paqueram os que estão de acordo com o ambiente, padronizados com músculos e sem camiseta. Não tenho nada contra os músculos, até acho bonito, mas eu me sinto menos pior numa roda de samba, ali na Lapa tem uma ótima, toca até Chico.Outro dia eu tive que explicar para um garoto de dezoito anos quem era o Chico Buarque. O senhor não acha o cúmulo um menino viver dezoito anos com saúde, sem saber quem é o Chico?
- Acho.
- Eu mandei Os Saltimbancos para o meu sobrinho no dia seguinte, ele vai fazer sete anos.
- Fez bem.
- Não tô falando de solidão não. Ou de amor. Eu tô falando de desencaixe, de me sentir descolado, desgarrado do todo, fora da página. Sinalizando, etiquetando em negrito para ser ouvido, para que as pessoas percebam que eu tô aqui, que eu quero pão, um pãozinho para que eu seja mais feliz, mais completo. Menos desordenado. Não sei se é natural se sentir dessa forma: sem forma. Eu também não sei se é reflexo da modernidade, que se foda. Que futuro é esse sem compreensão? Que tempos modernos são esses onde as pessoas não se relacionam, não se percebem, não fazem contato umas com as outras? Eu sei que não adianta reclamar. Não adianta perceber tudo isso, sair daqui e voltar ao meu universo virtual. Porque isso é compactuar com a inércia, o pão, maldito pãozinho, o senhor entende, não entende?
- Meu filho, assim que amanhecer, eu mesmo te levo um saco de pão quentinho. Por favor, anote aqui o seu endereço para que a gente não perca o contato.