JOGO DE CENA de Eduardo Coutinho
Uma e vinte da manhã, informa o relógio da parede vermelha, logo atrás ao barman. Não faz frio na cidade e não faz calor também, mas o verão se aproxima e dezembro anuncia a sua estréia com as pessoas nas ruas e bares, celebrando seja lá qual evento. Todas as justificativas servem para arrancar homens e mulheres de frente da televisão e misturá-las ao vivo, estimulando ou desafiando qualquer lei da física, química ou geografia. A madrugada acontece em harmonia e inexatidão, dentro do princípio de que a noite costuma embaralhar todo o tipo de gente: dos que são apaixonados pela lua, dos que raramente saem dos seus apartamentos. É sobre esse leve toque entre o sol e a lua, que algumas histórias acontecem, muitas vezes no mais secreto silêncio, regido entre fumaças e tulipas.
- Você tem um fósforo?
- Não se pergunta a uma mulher se ela tem fogo. Ela pode dizer que sim e você não vai saber como resolver a questão.
- Como?
- Você quer fogo?
- Para acender o cigarro.
Ela estende o braço e passe de mágica, produz um isqueiro em riste de onde uma chama alta não vacila. Permanece o tempo do rapaz se aproximar, acender seu cigarro e engasgar com a fumaça.
- Se você não fuma, não deveria tentar. Nem para fazer tipo. Ou parecer integrado.
- Eu fumo. Pouco, mas fumo.
- Então trague.
- Eu trago.
- Trague sem engasgar.
- Muito obrigado pelo... Muito obrigado por ter acendido o meu cigarro. Saí com pressa e deixei meus fósforos no bolso de outra calça.
- Certo. Quer dançar?
- Não.
- Não se recusa uma dança.
- Eu não danço. Me desculpe, eu não danço.
- Não dança... Bebe?
- Sim, claro. Mas hoje eu não... Amanhã eu acordo cedo e também, eu tô dirigindo, sou fraco com álcool, sabe como é.
- Por favor, não me diga que você tem dezesseis anos.
- Vinte e nove.
- Foi uma brincadeira. Você seria barrado na porta se fosse menor de idade.
- Eles pediram a minha identidade.
- Agora é lei. Então me conte o que você faz, além de não beber, não fumar, não ter senso de humor?
- Eu falo pouco.
- Sério?
- Antes que você me pergunte, estou sozinho.
- Eu não me aproximaria se você não estivesse sozinho.
- Então estava sendo observado?
- Não posso negar.
- É assim que funciona pra você? Você observa alguém que te interessa, fica de olho para ter certeza de que ele não está acompanhado e se aproxima?
- Para alguém que fala pouco, você é bem perspicaz.
- E depois?
- Depois?
- Sim, depois que você acende o cigarro, mostra o decote e joga o cabelo, muito bem perfumado, diga-se de passagem, o que acontece depois?
- Depende muito da noite.
- Você é sempre bem sucedida? Os homens caem fácil na sua... Como posso dizer... Na sua cantada infalível?
- Depende muito do homem.
- Uau! Com essa cruzada de pernas, deve ser muito difícil te dizer não. Ela é seu último recurso? Você usa essa cruzada quando seu arsenal está se esgotando?
- Lindo, meu arsenal ainda nem começou.
- Linda, eu não curto puta.
Silenciaram com os olhos se enfrentando. O barulho do bar e algumas pessoas dançando na pista foi dispersando a tensão entre eles. Ela desocupou a cadeira e ele pediu uma cerveja, rapidamente providenciada pelo rapaz de preto que o serviu boa parte da noite.
- Eu nunca te vi por aqui.
Virou o rosto para conferir de onde vinha o comentário.
- Se você for garoto de programa ou estiver vendendo drogas, eu não gosto, obrigado. O bar tá cheio, é só você observar e certamente vai encontrar alguém que queira o mesmo que você quer.
- Conversa, eu só quero bater um papo.
- Me desculpe a paranóia, não estou acostumado a sair de noite.
- Por isso nunca te vi por aqui.
- Segunda vez na vida que entro aqui. Primeira vez foi um aniversário de amigos.
- Festas de aniversário são super comuns por aqui. Semana que vem, faço trinta anos e adivinha onde vou comemorar?
- Trinta também? Eu entro neles em dezembro, quase na virada. Assustado?
- Talvez. Na verdade não tenho uma opinião formada sobre o assunto.
- Eu também não. Mas não te parece uma responsabilidade? Trinta anos?
- Eu fui responsável por todos esses anos: com a família, a carreira, os amigos. Então nada muda.
- E os amores? Você não falou sobre eles.
- Ainda. Mas você acha que se houvesse alguma responsabilidade amorosa, eu estaria conversando com você agora?
- Faz sentido.
Conversaram por pouco tempo. O suficiente para perceber que o acaso não os reuniria. Toda pergunta feita não encontrava resposta que não vestisse ironia ou impaciência. O rapaz voltou aos amigos que comemoravam embriagados e falantes. Na mesma bancada, pediu outra cerveja, providenciada com eficiência pelo mesmo garçom, que o observara boa parte da noite. A bebida gelada vinha também com um furtivo comentário:
- Eu saio em vinte minutos.
- Bom pra você, eu espero.
- Vinte minutos e a gente pode sair daqui.
- Me desculpe, mas por que eu sairia desse bar com você me acompanhando?
- Não precisa fazer jogo duro, cara. Eu já saquei a sua.
- Você pode me dizer qual foi a sua sacada, porque sinceramente eu não sei do que você está falando.
- Você está me paquerando há horas. Eu tô te servindo desde o sorriso que você me deu.
- Eu acho que você está enganado.
- Eu entendo de paquera, relaxa, cara. Eu sou super discreto.
- Sem querer ser grosseiro, você deveria entender de servir cerveja. Eu não te paquerei. Eu mal percebi a sua presença até agora. O que te faz concluir sobre a minha sexualidade, além do fato de ter dispensado duas pessoas ainda agora?
Silêncio quase constrangedor, não fosse o jogo de cintura do garçom.
- Três, se eu resolver me incluir. Você me achou feio, ou foi esse uniforme horroroso que nós usamos aqui?
- Eu não ligo pra beleza. Eu até prefiro gente mais... Comum. Causa menos problemas. Me desculpe, mas você pode me trazer a conta?
- O que faz um cara sozinho na madrugada, pedindo cerveja num balcão movimentado?
- Nada, o cara não faz nada. Ele só resolveu sair de casa, contrariando as expectativas e desafiou a noite, batalha inútil, porque já está perdida. Sabe que me assusta a quantidade de pessoas nas ruas? Eu estacionei lá na esquina e para chegar até aqui, eu driblei uns oito bêbados, umas meninas histéricas com roupas indecentes, uns caras barbudos vomitando na árvore.
- Teve um show na Fundição.
- Maria Rita, eu estava lá.
- Foi bom?
- Inesquecível, mas o que me deixa assustado é que todas essas pessoas estão aqui, agora, procurando qualquer sensação que as satisfaça mais e melhor do que o aconchego dos seus apartamentos.
- Estamos todos no mesmo barco.
- Sim, mas eu me pergunto se existe a ilusão de que nós vamos encontrar uma pessoa, uma droga pesada, uma situação enfim, que potencialize essa solidão, esse sentimento que nos...
- Talvez você só esteja fazendo drama. E as pessoas só estejam afim de se divertir. Simples assim. Encontrar os amigos, dançar até suar, paquerar, beber um pouco para comemorar: uma festa, as pessoas, suas vitórias, os dias.
- Talvez.
- É muito simples. Tem gente por aí que só quer viver. Isso já é motivo para trezentas festas. Intermináveis.
- Que horas você sai?
- Só tirar o uniforme e fico pronto.
- Quer ir para o meu apartamento?
- Não. Mas eu topo sair daqui e comer alguma coisa em outro lugar. O que me diz?
- Eu topo.
Dentro do improvável, descobriram o melhor cachorro-quente da redondeza. Descobriram também um sorriso fácil, natural e uma série de assuntos que os faziam divergir nas opiniões, mas de forma quase inédita, os fazia também ter paciência, delicadeza e vontade, principalmente, de ouvir o outro. A noite ventou fácil, anunciando desejos e florescendo anseios. Vulneráveis, como qualquer um que se desnuda e se permite conhecer outra pessoa, não deixando de ser quem sempre foi. Ele gostaria de dizer que não saberia o que dizer, mas gostaria de dizer também que não havia o que dizer. Houve um momento de palavras que os guiou boa parte da madrugada, até o amanhecer, quando se despediram com um abraço, o telefone trocado e um cinema marcado para o final da tarde.
- Você tem um fósforo?
- Não se pergunta a uma mulher se ela tem fogo. Ela pode dizer que sim e você não vai saber como resolver a questão.
- Como?
- Você quer fogo?
- Para acender o cigarro.
Ela estende o braço e passe de mágica, produz um isqueiro em riste de onde uma chama alta não vacila. Permanece o tempo do rapaz se aproximar, acender seu cigarro e engasgar com a fumaça.
- Se você não fuma, não deveria tentar. Nem para fazer tipo. Ou parecer integrado.
- Eu fumo. Pouco, mas fumo.
- Então trague.
- Eu trago.
- Trague sem engasgar.
- Muito obrigado pelo... Muito obrigado por ter acendido o meu cigarro. Saí com pressa e deixei meus fósforos no bolso de outra calça.
- Certo. Quer dançar?
- Não.
- Não se recusa uma dança.
- Eu não danço. Me desculpe, eu não danço.
- Não dança... Bebe?
- Sim, claro. Mas hoje eu não... Amanhã eu acordo cedo e também, eu tô dirigindo, sou fraco com álcool, sabe como é.
- Por favor, não me diga que você tem dezesseis anos.
- Vinte e nove.
- Foi uma brincadeira. Você seria barrado na porta se fosse menor de idade.
- Eles pediram a minha identidade.
- Agora é lei. Então me conte o que você faz, além de não beber, não fumar, não ter senso de humor?
- Eu falo pouco.
- Sério?
- Antes que você me pergunte, estou sozinho.
- Eu não me aproximaria se você não estivesse sozinho.
- Então estava sendo observado?
- Não posso negar.
- É assim que funciona pra você? Você observa alguém que te interessa, fica de olho para ter certeza de que ele não está acompanhado e se aproxima?
- Para alguém que fala pouco, você é bem perspicaz.
- E depois?
- Depois?
- Sim, depois que você acende o cigarro, mostra o decote e joga o cabelo, muito bem perfumado, diga-se de passagem, o que acontece depois?
- Depende muito da noite.
- Você é sempre bem sucedida? Os homens caem fácil na sua... Como posso dizer... Na sua cantada infalível?
- Depende muito do homem.
- Uau! Com essa cruzada de pernas, deve ser muito difícil te dizer não. Ela é seu último recurso? Você usa essa cruzada quando seu arsenal está se esgotando?
- Lindo, meu arsenal ainda nem começou.
- Linda, eu não curto puta.
Silenciaram com os olhos se enfrentando. O barulho do bar e algumas pessoas dançando na pista foi dispersando a tensão entre eles. Ela desocupou a cadeira e ele pediu uma cerveja, rapidamente providenciada pelo rapaz de preto que o serviu boa parte da noite.
- Eu nunca te vi por aqui.
Virou o rosto para conferir de onde vinha o comentário.
- Se você for garoto de programa ou estiver vendendo drogas, eu não gosto, obrigado. O bar tá cheio, é só você observar e certamente vai encontrar alguém que queira o mesmo que você quer.
- Conversa, eu só quero bater um papo.
- Me desculpe a paranóia, não estou acostumado a sair de noite.
- Por isso nunca te vi por aqui.
- Segunda vez na vida que entro aqui. Primeira vez foi um aniversário de amigos.
- Festas de aniversário são super comuns por aqui. Semana que vem, faço trinta anos e adivinha onde vou comemorar?
- Trinta também? Eu entro neles em dezembro, quase na virada. Assustado?
- Talvez. Na verdade não tenho uma opinião formada sobre o assunto.
- Eu também não. Mas não te parece uma responsabilidade? Trinta anos?
- Eu fui responsável por todos esses anos: com a família, a carreira, os amigos. Então nada muda.
- E os amores? Você não falou sobre eles.
- Ainda. Mas você acha que se houvesse alguma responsabilidade amorosa, eu estaria conversando com você agora?
- Faz sentido.
Conversaram por pouco tempo. O suficiente para perceber que o acaso não os reuniria. Toda pergunta feita não encontrava resposta que não vestisse ironia ou impaciência. O rapaz voltou aos amigos que comemoravam embriagados e falantes. Na mesma bancada, pediu outra cerveja, providenciada com eficiência pelo mesmo garçom, que o observara boa parte da noite. A bebida gelada vinha também com um furtivo comentário:
- Eu saio em vinte minutos.
- Bom pra você, eu espero.
- Vinte minutos e a gente pode sair daqui.
- Me desculpe, mas por que eu sairia desse bar com você me acompanhando?
- Não precisa fazer jogo duro, cara. Eu já saquei a sua.
- Você pode me dizer qual foi a sua sacada, porque sinceramente eu não sei do que você está falando.
- Você está me paquerando há horas. Eu tô te servindo desde o sorriso que você me deu.
- Eu acho que você está enganado.
- Eu entendo de paquera, relaxa, cara. Eu sou super discreto.
- Sem querer ser grosseiro, você deveria entender de servir cerveja. Eu não te paquerei. Eu mal percebi a sua presença até agora. O que te faz concluir sobre a minha sexualidade, além do fato de ter dispensado duas pessoas ainda agora?
Silêncio quase constrangedor, não fosse o jogo de cintura do garçom.
- Três, se eu resolver me incluir. Você me achou feio, ou foi esse uniforme horroroso que nós usamos aqui?
- Eu não ligo pra beleza. Eu até prefiro gente mais... Comum. Causa menos problemas. Me desculpe, mas você pode me trazer a conta?
- O que faz um cara sozinho na madrugada, pedindo cerveja num balcão movimentado?
- Nada, o cara não faz nada. Ele só resolveu sair de casa, contrariando as expectativas e desafiou a noite, batalha inútil, porque já está perdida. Sabe que me assusta a quantidade de pessoas nas ruas? Eu estacionei lá na esquina e para chegar até aqui, eu driblei uns oito bêbados, umas meninas histéricas com roupas indecentes, uns caras barbudos vomitando na árvore.
- Teve um show na Fundição.
- Maria Rita, eu estava lá.
- Foi bom?
- Inesquecível, mas o que me deixa assustado é que todas essas pessoas estão aqui, agora, procurando qualquer sensação que as satisfaça mais e melhor do que o aconchego dos seus apartamentos.
- Estamos todos no mesmo barco.
- Sim, mas eu me pergunto se existe a ilusão de que nós vamos encontrar uma pessoa, uma droga pesada, uma situação enfim, que potencialize essa solidão, esse sentimento que nos...
- Talvez você só esteja fazendo drama. E as pessoas só estejam afim de se divertir. Simples assim. Encontrar os amigos, dançar até suar, paquerar, beber um pouco para comemorar: uma festa, as pessoas, suas vitórias, os dias.
- Talvez.
- É muito simples. Tem gente por aí que só quer viver. Isso já é motivo para trezentas festas. Intermináveis.
- Que horas você sai?
- Só tirar o uniforme e fico pronto.
- Quer ir para o meu apartamento?
- Não. Mas eu topo sair daqui e comer alguma coisa em outro lugar. O que me diz?
- Eu topo.
Dentro do improvável, descobriram o melhor cachorro-quente da redondeza. Descobriram também um sorriso fácil, natural e uma série de assuntos que os faziam divergir nas opiniões, mas de forma quase inédita, os fazia também ter paciência, delicadeza e vontade, principalmente, de ouvir o outro. A noite ventou fácil, anunciando desejos e florescendo anseios. Vulneráveis, como qualquer um que se desnuda e se permite conhecer outra pessoa, não deixando de ser quem sempre foi. Ele gostaria de dizer que não saberia o que dizer, mas gostaria de dizer também que não havia o que dizer. Houve um momento de palavras que os guiou boa parte da madrugada, até o amanhecer, quando se despediram com um abraço, o telefone trocado e um cinema marcado para o final da tarde.