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domingo, fevereiro 03, 2008


SENHORES DO CRIME de David Cronemberg


- Eu roubei uma lapiseira do garoto que sentava ao meu lado na escola. Quinta série, ou sexta, não sei. Um dia ele mexeu na minha mochila e encontrou a lapiseira no bolso da frente. Eu lembro do vermelho do rosto dele. Da raiva dos olhos dele, que me observavam com um ar de superioridade, um subtexto de ‘eu vou te fuder’. No mesmo dia, mais tarde, já em casa, o telefone tocou. Eu tinha certeza que a ligação era para denunciar o meu roubo. Eu só lembro da minha mão improvisando um perdão meio engasgado. Lembro do tom da voz dela, um tom decepcionado e ao mesmo tempo muito seguro de que resolveria a situação. Depois eu apanhei. De cinto de couro. Foi a última surra que eu tomei da minha mãe. Depois desse dia, ela nunca mais me bateu. Ela me batia e dizia gritando que a mãe do garoto estava pensando em ir à direção da escola. Que roubo era expulsão imediata. Que eu não podia, que eu não devia, que ela não encontrava razão, que nunca me faltou nada, que ladrão vai para a cadeia. Na escola, eu tirei de letra. O tal garoto, além de pouco popular, tentou me queimar de todos os jeitos e não conseguiu resultado. Eu reuni a turma e contei o que havia feito. Usei o humor, fiz piada com o meu próprio umbigo, me coloquei o apelido de ‘lalau’ e tudo o que ouvi dos colegas foram risadas e também um ‘ele merecia’. O que eu nunca disse antes, para não parecer justificativa vazia de um ato adolescente, é que eu era loucamente apaixonado pelo garoto. Tão perdidamente apaixonado aos catorze anos. E aquela lapiseira roubada foi a maneira mais infantil que eu vi surgir para chamar a atenção, para ferir o coração dele, para ser notado. O que eu nunca disse também é que eu escrevi a minha primeira carta de amor com aquela lapiseira. Nunca entreguei. Tenho ela guardada, o grafite bem frágil. O tempo faz com que a intensidade perca um tanto da força. É assim também com as pessoas, os sentimentos, as perdas, a esperança. Com o passar do tempo, se não houver reparo, zelo, cor, a gente deixa apagar. Já adulto, eu com uns vinte e cinco anos, esbarrei com ele, o garoto, dentro da madrugada de uma boate. De imediato, não o reconheci. Mas ele pegou a minha mão, olhou dentro dos meus olhos e me chamou de lalau. Lalau, você mudou tanto. Eu disse:
- Edu?
- Eu!
- Ele me puxou para um abraço de corpo inteiro. Eu senti o pau dele roçar o meu. Senti o cheiro do perfume dele, o toque macio do rosto e da barba perto do meu pescoço, o peito dele apertava o meu. Era um abraço com desejo. É fácil perceber quando alguém te deseja. Não é um toque casual, um toque sem pretensões. Não. Todo homem sabe sem dizer uma palavra quando a intenção vai além: os cheiros, os estímulos, a própria natureza sinaliza e ele sabe que você sabe e se você permite, os dois sabem que existe ali algo além do ato, algo que se pretende, o desejo de ancorar. Nos beijamos. Depois de anos. Depois da adolescência. Cada um para um lado da cidade. Partidos. De repente um beijo. Um beijo no tempo que passa para fazer a gente dar risada da vida, achar graça das curvas do calendário, demolir qualquer tipo de opinião que diz que toda história tem um ponto final. Não pode ter. Porque a gente não sabe de nada. A gente pode tentar prever a meteorologia. Fazer uns cálculos baseados nas nuvens e nas máquinas. Mas se a natureza resolver contrariar, a gente fica com cara de bobo e justifica o óbvio. Que de nada sabemos. Eu passei aquela noite com o Edu. E também alguns meses ao lado dele. A gente se entendia. A gente não falava tanto sobre o nosso amor. Por medo de dar nome ao que nos era tão precioso. Mas o carinho, o cuidado, o sexo e tanto mais, era tão gostoso e tão fácil. Tão simples e tão confortável para transitar. Quando eu conheci o Henrique, eu lembro que eu tive muito medo de conversar com o Edu sobre o efeito que ele me causava. Medo de não saber como ele reagiria, de saber se poderia ser tão franco, sem rodeios. Eu cheguei em casa, encontrei o Edu sentado no sofá, banho tomado, penteado, barba feita, perfumado. Ele me disse antes de sair:

- Eu sei que você não me deixaria se não fosse por amor.

Um ano depois, logo após o Henrique me deixar, eu voltei a roubar. Objetos miúdos: canetas, moedas, pedras, velas, coisas. De volta ao crime, enfim. Honrando qualquer gota de sangue italiano que me esquenta o corpo. Nem tão Corleone assim. Eu só não quero que descubram. Eu só não quero perder a liberdade.