FIM DOS TEMPOS de M. Night Shyamalan
- Me parece perfeitamente natural.
- Acho careta. Você tem essa necessidade quase intransigente de querer mostrar aos outros como tudo vai bem, como o seu emprego é bacana e todas essas coisas de última geração que você compra. Só que olhando nos teus olhos, encarando o reflexo do espelho, você sabe, eu sei que você sabe, que não precisa ir tão fundo para perceber que, meu caro, nem a melhor das estampas, nem qualquer cortina de seda para as janelas de madeira, vão fazer com que a gente fique bem.
- Nós estamos, bem, Marcelo.
- Não estamos. No seu universo perfeito, dentro da sua organização luxuosa e impecável, você pensa que nós estamos bem, que somos um casal de comercial de televisão. Nós não somos.
- Nós vivemos tão bem.
- Empurrando com a barriga uma relação que mal se sustenta com o afeto. Afeto, cara. Um mínimo óbvio para qualquer história.
- Da forma que você coloca, me faz acreditar que você não está satisfeito com a vida que levamos.
- Eu não estou. Todas as vezes que eu tentei ter essa conversa com você, nós fomos interrompidos pelo telefone, pela campainha, pelo filme na televisão, pelo cachorro que roeu o sapato, pela puta que me pariu e eu fui guardando. Sufocando. Deixando para depois.
- Você não precisa falar palavrão.
- É disso que eu estou falando. Por que é que eu não posso falar um palavrão dentro do meu apartamento?
- Não é isso.
- Eu não posso ficar nervoso, sair do tom, beber além da conta. Não posso dormir tarde ou chegar atrasado ou molhar o tapete do banheiro ou deixar o chinelo no chão. Quando eu morava com meus pais, eu tinha mais liberdade. Aqui tudo é muito controlado. Além da conta. Viver com você tem sido um exercício constante de tentar manter a paciência.
- Só não entendo esse tom exaltado.
- Quero falar alto, quero ficar nervoso, quero xingar, quero que você veja que qualquer angústia sufocada pode se transformar em raiva.
- Você sente raiva de mim?
- Sinto falta de realidade.
- Tudo o que nós construímos...
- Eu acho o máximo tudo que nós construímos. Só que em algum momento, eu fui me omitindo, fui deixando de participar, a gente se perdeu e nem sentiu. Você entrou numa obsessão particular com a decoração. No início, eu achava que era o teu arquiteto frustrado falando mais alto. Depois eu fui entrando nesse teu quadro de plástico, na tua vida perfeita.
- O que há de errado com a perfeição?
- A mentira.
- O que há de errado com você hoje?
- A verdade. Você se sente incomodado porque eu estou sentindo. Porque eu estou doido para discutir, para ter uma briga, quebrar esse vaso aqui.
- Esse vaso foi caro demais, tenha cuidado, por favor.
- Fique com o vaso, cara. Fique com essa imagem de bacana. Eu não quero mais. Não quero. Sabe o que nós parecemos? Dois gays que se renderam ao mercado da futilidade. Que já foram duros uma época e eram tão felizes e tão vivos. Que tinham uma televisão que precisava de porrada pra sair o som, mas que sentavam juntos para assistir um filme e comer pipoca. Hoje em dia, pipoca suja o tapete. Pipoca deixa cheiro pelos corredores. A gente parece aquela família negra de uma novela das oito que morava num condomínio de classe alta e todo o traço da raça deles, toda a beleza e toda a cultura absurdamente linda deles, foi suprimida, omitida, enquadrada no apartamento sem vida e comum de novela das oito.
- Eu não te entendo.
- Entende. Precisa entender. Não é possível que você não compreenda essa imagem que você criou. A vida que você quer viver é uma vida projetada. Como se a nossa personalidade, os nossos traços tivessem que se adequar ao espaço. Não o contrário. Eu não quero ser o seu robô de estimação. Não tenho mais idade para brincar de casinha.
- O que você sugere?
- Que você se olhe no espelho.
- Você sente saudades de ter menos dinheiro? De viver fazendo conta para chegar até o próximo mês?
- Eu sinto saudade da sensação de dividir os dias com você.
- Você divide os dias. A vida. A gente divide a cama.
- Nós habitamos o mesmo espaço.
- Você não pode estar falando sério. Eu vou tomar um banho. O pessoal deve estar chegando. Nós continuamos essa conversa outra hora.
- Eu não quero continuar essa conversa outra hora. Quero conversar agora.
- Mas o pessoal vai chegar. Hoje é a final do jogo no Maracanã. Nossos amigos...
- Seus amigos vão chegar. Meus amigos estão no Maracanã e eu só não estou lá porque eu quis, mais uma vez, tentar bancar o namorado bacana, compreensível, que faz todas as suas vontades, que só faz as suas vontades para não bater de frente, para não criar uma situação chata que vai acabar em briga. E todas as vezes que eu faço o que você quer, que eu engulo qualquer desejo, que eu anulo qualquer diferença, eu tô dizendo na verdade, que eu te amo. Que eu seguro a onda, qualquer onda, para estar ao teu lado, independente do programa, do lugar, das pessoas. Só que o que antes eu fazia porque eu queria fazer, foi perdendo o vigor. Foi perdendo o sentido. Você ou não percebeu ou achou que fosse da minha natureza, permitir. Ceder. Eu te digo que não é.
- Por favor, vamos conversar mais tarde.
- Não é da minha natureza perder a voz. Não faz parte da minha personalidade permanecer invisível para que você exista. Se a tua maneira de amar precisa desconsiderar o outro, eu não quero mais. Não quero.
- Você nunca me falou sobre isso antes.
- Eu já sinalizei de todas as maneiras. Eu já fui sutil, tentei te dizer da sua forma, elegante, inabalável, sem mostrar o lixo no tapete. E você sempre deixou para depois. Para depois. Exatamente como você está fazendo agora.
- Porque nós vamos receber gente em casa.
- Hoje nós vamos receber gente em casa. Amanhã alguém vai precisar de você. E assim, a gente vai sublimando qualquer rachadura. Eu cansei.
- Então fica assim?
- Fica. Você assiste ao jogo com os seus amigos. Eu coloco umas roupas na mochila e vou embora.
- Embora?
- Vou embora, volto ao meu apartamento, fico sozinho para refletir, para ver como é que fica.
- Você não pode ir embora. O que eu vou dizer ao pessoal?
- Seja humano, cara. Diga que nós brigamos. Que eu saí de casa. Que você sente muito, mas que o clima não é o melhor para uma final de campeonato. Que o Fluminense talvez ganhe o jogo, quem sabe?
- Não faça isso comigo.
- Não faça uma cena. Porque eu sinceramente posso pensar se você está em pânico porque eu vou embora ou se você está preocupado com o que os seus queridos amigos perfeitos vão pensar.
- Não faça isso comigo.
- Talvez assim você quebre essa redoma. Talvez assim você possa pensar melhor que a vida que a gente leva talvez seja a vida que você quer levar. E se eu não estou incluído, entenda, o mundo não vai acabar. A cidade vai continuar violenta, absurda. Outras pessoas a gente vai conhecer. Vai pintar o amor. O amor de uma forma que vai fazer com que a gente se sinta... Eu não vou te desrespeitar dizendo como é eu entendo o amor. Eu pensei que você soubesse. Ou sentisse.
- Fique, por favor. Fique. A gente assiste o Flu. Recebe as pessoas. Depois a gente se acerta.
- Sabe o que me deixa anestesiado? É que eu te olho nos olhos, te digo que eu não estou feliz, te digo tudo o que já te disse e você me foge o olhar. Você parece não se importar, mais uma vez, comigo. Se você não me faz acreditar que você sente muito por nós dois, se você me pede friamente para ficar e fazer sala para torcer pelo meu time, se você pede só para fazer com que o quadro não se altere, eu não sei o que te dizer. Eu não sei. Eu te olho e sinto dor. Uma dor que não é física, uma dor de decepção.
- Você quer que eu faça uma cena? Ajoelhe, chore por você?
- Eu tinha a esperança de te olhar e ver teu rosto lindo. E mesmo que você ficasse mudo, eu entenderia se, de verdade, você sinalizasse qualquer manifestação que me fizesse perceber... Um olhar. Poderia ser um olhar.
- Voe me julga deliberadamente.
- Não estamos em audiência.
- Você me julga. E espera de mim alguma reação de filme, de novela. Eu tenho que te convencer? Agir de algum jeito específico para que você acredite em mim? Você me classificou de tal forma que eu te pergunto por qual motivo eu nunca percebi antes? Você me julga. Isso sim é padronizar. Esperar que eu me rasgue para que você acredite que eu estou sentindo. Pois eu sinto. De forma diferente da sua. Ou de qualquer outro.
- Não jogue as minhas palavras contra mim.
- Você quer ir embora?
- Eu vou.
- Então vá.
- Esse é o primeiro momento da noite em que nós estamos conversando. Você consegue perceber isso?
- Você reclama que eu quero te enquadrar em algum estilo de vida. Eu reclamo que você quer me enquadrar em algum estilo dramático de relação. De reação.
- Você nunca reclamou. Você sempre me disse que não gostava e que precisávamos mudar. Que eu precisava reavaliar. Os meus modos, o meu gosto por arte, por moda, por literatura. Que os meus filmes eram idiotas. Isso não é anular? Encarcerar? Goste do que eu gosto. Seja como eu sou. Entre no molde da minha vida. Não seja meu gigolô.
- Com você aqui, sem você aqui, eu vou receber as pessoas. Vou torcer pelo meu time. Vou comer, vou beber, no conforto da minha casa, ao lado de pessoas que gostam de mim. Eu adoraria que você ficasse. Permanecesse. Mas eu não vou fazer o que você quer.
- Por orgulho.
- Porque eu me respeito.
- Certo.
- Espero que o Fluminense ganhe.
- Você detesta futebol. Só se interessou porque os teus amigos gostam. Torcem. Eu espero que o Fluminense jogue. Perdendo ou ganhando, que ele jogue. De verdade. É isso o que me interessa. É isso o que nos separa.
- Você fica?
- Dois anos de relação e a gente descobre uma terrível incomunicabilidade. Incompatibilidade. Dois anos. Como é que a gente deixa dois anos nos trazer até essa sala?
- Sabe o que eu acho? Que todo esse teu discurso é para me deixar.
- Então a gente encerra essa noite e eu tomo ciência de que você não sabe quem eu sou. Eu vou assistir essa final com a pessoa mais importante da minha vida.
- Eu sabia que existia alguém.
- Com o meu pai. A quem eu venho deixando de torcer para estar ao teu lado.
- Não me diz mais nada?
- Eu não tenho nada a dizer. Acho que preciso de um tempo para recuperar o susto. Preciso de alguns dias para pensar. Alguns dias longe da cidade, embora dentro da cidade, para poder compreender que as estradas, enfim, trilharam caminhos diferentes e ousaria, caminhos opostos que nos distanciam em interesses e afetos. E se em alguns momentos tudo é fácil e divertido, em outros tudo parece frágil e bruto. Eu recuso a tua cerveja, a tua fumaça, esses artifícios que gente da nossa idade usa para abrir mão da realidade. Recuso consciente porque acredito que em alguns casos, é melhor optar pelo real como ele se mostra: violento, duro, pouco delicado. Abro mão da fuga do real, compreende? Prefiro os pés no chão, as asas fechadas, a porrada como ela deve ser: inteira. Vou atravessar a cidade sem qualquer anestesia. Os pensamentos como companheiros, idéias rompendo e partindo, decisões surgindo e me deixando, um grande ponto de interrogação que me deixa tão cansado, tão exausto, que ao chegar em casa, eu só vou precisar dormir tanto e tão urgentemente, que não devo nem sonhar. Muitas vezes eu tinha a sensação de que ao entrar no apartamento, ia ser surpreendido por uma nova disposição da mobília, uma nova cor nas paredes, alguma mudança que ia me deixar surpreso e mudar o nosso ritmo, essa atmosfera. Mas encontrava tudo como antes, o que também me sugeria segurança, alguma lucidez.
- A campainha.
- Eu saio pelos fundos.
- As suas coisas?
- Pego as roupas outra noite.
- As suas coisas?
- Só preciso das minhas roupas. Alguns livros da faculdade. O apartamento é seu.
- Não sei o que dizer.
- Trocar também é uma forma de aprender. Não embruteça. Não endureça.
- Preciso abrir a porta.
- Sério. Não endureça.