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sexta-feira, janeiro 09, 2009


O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON
de David Fincher

Existe um espaço dentro do universo do cinema onde acontece o fenômeno que nos atiça os maiores sonhos, nos faz compreender que o real também tem seu fascínio, mas que a injeção de fantasia, de tempos em tempos, movimenta os desejos. O fantástico possível. O absurdo em carne e osso. A fantasia mais improvável. As situações nunca imaginadas, as palavras nunca ditas, o onírico ao menor alcance, ao toque próximo do olhar, leve imaginação que nos proporciona ser sem estar.

Existe uma necessidade sem nome que nos alimenta de quando em quando, como um fenômeno incalculável, fascinante e potencialmente trágico que nos faz melhores homens. Que transforma o improvável em fato. Despe a fantasia e nos coloca em contato com o mundo real. E alguém não imaginado se transforma em pessoa carne e osso, lábios vermelhos e beijo quente e sexo suave que nos desperta os cômodos, que nos alarma que a vida é urgente e cheia de fogos de artifício que se acendem ao toque íntimos das mãos, ao delicado poder dos encontros, ao explosivo despertar de afinidades, ao amor, tim tim.

Quando a gente deixa de ser singular.

O ano é novo. A idade já não é tão nova. Essa virada que o relógio inevitável faz e que me deixa em harmonia. Todo aniversário cumpro quase um ritual de agradecer pelos meus mínimos, pelas grandes conquistas, pelos muitos desejos, por toda carinhosa lembrança. Um encontro sem palavras entre o homem e a grande vontade de querer bem. Das pessoas que viraram a esquina, dos que chegaram agora, dos que permaneceram. Dos que talvez estejam indo adiante. Gosto de chamar de os meus porque de fato, sinto assim. Sem acordos, contratos, prazos de validade. Os meus que aceitaram a delicadeza de permutar o bem querer. Entre as pedras e a poeira, toda a beleza que pode existir entre dois corações.

Meu caro, a vida vira todos os dias. Ainda não percebeu? Todas as direções permitidas. O globalizado do globalizado e onde é que a gente se encaixa mesmo? A textura de todas as cores ao alcance da retina. No piscar dos olhos, o olhar muda, quantas vezes por minuto somos capazes de observar? Eu sigo na multidão e olhando bem nos meus olhos, ainda sou aquele menino que só quer a paz de viver uma história com amor. Que seja possível e dentro dos meus limites, sem sublinhar ou tentar fazer um programa de televisão a cada acontecimento. Eu quero a soma. Sem fazer alarde, tecendo e colhendo o mesmo sonho dia após dia. O ano virou. E ali no finalzinho, eu descobri que de tanto desejar a fantasia perfeita que encaixava todos os sentidos, eu criei também um sonho improvável. Uma ilusão de cinema, uma projeção de um filme que eu já assisti inúmeras vezes. Mas não vivi.

E repito: não vivi.

Eu não vou te olhar mais como um personagem. Um galã à espera do movimento da câmera para estar em ação no seu melhor ângulo, com o texto decorado, diante da sua beleza irretocável. Eu quero a possibilidade. O pequeno possível. De roteiros e sensações roubadas, eu fico com o cinema. Porque ele não me engana. Ele me fascina. Me deixa estar sem ser, ciente. E eu sou alguém que precisa do jogo aberto para poder querer jogar. Essa falha na comunicação, meio sem forma, totalmente sem nome e de algum jeito estranho, interessante, causa mais fascínio normalmente em gente mais jovem.

Eu gosto de descobrir. Eu gosto de poder me surpreender redescobrindo. Eu compreendo que existe a cena. Mas eu não concordo que o texto e as sensações sejam as mesmas. Eu não sei repetir um momento. Ou beijar igual duas vezes. Eu não sei tocar alguém sem valorizar o segundo do toque. Nunca é da mesma forma. Nunca. Mas a textura, a intensidade, o suor que não trilha o mesmo caminho, os desvios inéditos, assim como as explosões inúmeras porque o momento é. Eu gosto de fazer com que alguém que eu amo sinta-se especial. Eu gosto dessa sensação de saber. Eu não tenho vergonha quando não sei o caminho. Pergunto, investigo, olhos nos olhos. Posso demorar, mas há o desejo. Eu quero chegar.

Eu não gosto de textos repetidos.
Não gosto de desperdício.
Ou cenas desnecessárias.
Isso talvez seja cinema.
Eu quero o que não é mais filme.
Da impossibilidade dos amantes que se cruzam,
o que eu quero é o amor.
Por isso eu não vou te olhar mais como um personagem.
Dessa falha dramática, eu tento domar as minhas arestas.
E completo no silêncio festivo dos meus trinta e um anos,
Essa sensação verdadeira de querer um mais o outro.
Simples assim. Complicado assim.
Isso deve significar alguma coisa.
Ao menos na vida real.