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segunda-feira, março 02, 2009



O VISITANTE de Thomas McCarthy

"Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente"

(Sinal Fechado / Paulinho da Viola)


O encontro aconteceu dois dias depois do anúncio de que o Salgueiro era o campeão do Carnaval carioca. Jorge tinha chegado de viagem no final da tarde. Deixou a bagagem no apartamento, tomou um banho e telefonou para o amigo. A cerveja, as risadas, a saudade e a franqueza habitual de gente que se conhece tanto, que vez ou outra, esquece do cuidado, mínimo óbvio.

O termômetro marca trinta e nove graus.

- Faz muito tempo que eu não aproveito tanto o Carnaval – Jorge brindando.

- O meu foi tranqüilo. Eu saí duas tardes. Descansei, vi filmes, dormi.

- Sexo?

- Como?

- Ninguém? Carnaval, essa cidade quente, cheia de turistas, me parece óbvio.

- Sexo no carnaval é óbvio. E você?

- Eu aproveitei bem Recife.

- Não duvido.

- Encontrou o pessoal?

- Ninguém.

- Você cada vez mais distante.

- A quilometragem entre os espaços é a mesma. Não é distância. Outra cidade, outro pais, isso é distância. Quando você não vê o outro porque é impossível geograficamente. Aqui no Rio de Janeiro, não existe essa conversa de ‘vou me afastar’ porque todos os caminhos e todas as pessoas se cruzam o tempo todo.

- Você se afastou.

- Eu estou no mesmo lugar onde eu sempre estive, da mesma forma que todos estão nos mesmos lugares. Eu deixei de estar. É tão mais fácil me acusar de sumido e não mover nenhuma atitude para a aproximação.

- Esse papo me cansa.

- A mim também. Não tenho que dar explicações. Reafirmo: estou no mesmo lugar.

- Se você saiu duas tardes, deve ter encontrado alguém.

- Sim.

- E?

- Qual o seu interesse?

- Saber.

- Para satisfazer a curiosidade? Para poder me dizer que seus casos em Recife foram mais interessantes e cinematográficos?

- Para saber de você.

- E você?

- Um de cada vez ou você vai transformar essa conversa em uma competição?

- Conheci um cara. Na Avenida Rio Branco. Segunda de carnaval.

- Deixa eu adivinhar: dezoito anos, sarado, sem saber falar português muito bem.

- O contrário: quarenta e dois anos, calvo, corpo no lugar, uma conversa boa.

- Um tiozinho não combina com você.

- A gente se atropelou literalmente. E as intenções ficaram claras desde o primeiro momento. Não houve enrolação, perda de tempo. A gente se entendeu.

- Você não gosta de relações simples.

- O que não significa que eu não possa arriscar.

- Arriscar não é muito a sua praia.

- Você quer provar que me conhece bem?

- Que você é fã do improvável, eu entendo. Mas o que te motiva é justamente o grau de dificuldade. Quando é fácil, quando é simples, você sai fora.

- Blá blá blá.

- Fale mais sobre ele.

- Empresário, mora em Miami, pelo menos diz que mora, não quis entrar em dúvida. Ele disse, eu acreditei. Veio para o Rio para visitar a família, desfilou ontem na Vila Isabel. Nos conhecemos quase no final do segundo-tempo. Nos esbarramos no início da tarde e ele tinha um vôo para São Paulo às 19 horas. Ou seja, não tínhamos muito tempo.

- Um bom motivo para apressar os passos, não? Dizer que precisa pegar um avião.

- Eu vi a passagem, ele realmente precisava. Mas acho que você tem um pouco de razão. Quanto mais o tempo passava para nós dentro daquele quarto de motel, mais a impossibilidade se fazia presente. Quero dizer que de simples, não tinha muito. Eu conheci um cara com prazo de validade, entende?

- Entendo.

- Quanto mais se aproximava a hora dele me deixar, mas encantado eu ficava. Mais entregue eu me permitia ficar. Talvez por pressentir o ‘nunca mais’ tão presente. Talvez porque eu quisesse ouvir ele me dizer ‘que pena que só te conheci agora’. E ele me disse. E eu concordei. E a gente ficou um tempo se fazendo carinho. Ele me deu um cartão, com e-mail, telefone, nome, sobrenome. ‘A gente ainda se esbarra’, ele disse.

- Me pareceu especial.

- Foi gostoso. Eu penso que essa questão da impossibilidade irreversível, redimensiona os fatos. Foi gostoso, eu não vou negar. Foi de fato, um encontro sexual bacana que envolveu não só o desejo de saciar a fome dos corpos, mas também uma fome de atenção. De carinho. De dar e receber carinho. Eu só não sei se teria sido tão especial se, por exemplo, eu soubesse que ia esbarrar com ele amanhã.

- Você só confirmou tudo o que eu disse.

- Eu, o mais previsível dos caras.

- Eu não conheci ninguém. Passei o carnaval com amigos. Foi muito divertido, uma galera animada, cerveja e muito calor. Mas não conheci ninguém.

- Não quis?

- Não aconteceu. Às vezes a gente desliga esse interruptor. A gente não olha ao redor. Não deixa o olhar de fora, penetrar.

- Eu sei como é.

- E nós dois?

- Amigos?

- E nós dois?

- Amigos.

Os olhos nos olhos brilhando. A possibilidade de retomar um assunto não resolvido. Travado. Não discutido. Pouco iluminado. A noite brilhando, o verão faz com que a gente atravesse questões, como quem não percebe detalhes. A temperatura é alta e no brinde de outra garrafa de cerveja, preferiram não tocar no assunto protagonista, que os desperta e os maltrata.