O VISITANTE de Thomas McCarthy
"Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente"
(Sinal Fechado / Paulinho da Viola)
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente"
(Sinal Fechado / Paulinho da Viola)
O encontro aconteceu dois dias depois do anúncio de que o Salgueiro era o campeão do Carnaval carioca. Jorge tinha chegado de viagem no final da tarde. Deixou a bagagem no apartamento, tomou um banho e telefonou para o amigo. A cerveja, as risadas, a saudade e a franqueza habitual de gente que se conhece tanto, que vez ou outra, esquece do cuidado, mínimo óbvio.
O termômetro marca trinta e nove graus.
- Faz muito tempo que eu não aproveito tanto o Carnaval – Jorge brindando.
- O meu foi tranqüilo. Eu saí duas tardes. Descansei, vi filmes, dormi.
- Sexo?
- Como?
- Ninguém? Carnaval, essa cidade quente, cheia de turistas, me parece óbvio.
- Sexo no carnaval é óbvio. E você?
- Eu aproveitei bem Recife.
- Não duvido.
- Encontrou o pessoal?
- Ninguém.
- Você cada vez mais distante.
- A quilometragem entre os espaços é a mesma. Não é distância. Outra cidade, outro pais, isso é distância. Quando você não vê o outro porque é impossível geograficamente. Aqui no Rio de Janeiro, não existe essa conversa de ‘vou me afastar’ porque todos os caminhos e todas as pessoas se cruzam o tempo todo.
- Você se afastou.
- Eu estou no mesmo lugar onde eu sempre estive, da mesma forma que todos estão nos mesmos lugares. Eu deixei de estar. É tão mais fácil me acusar de sumido e não mover nenhuma atitude para a aproximação.
- Esse papo me cansa.
- A mim também. Não tenho que dar explicações. Reafirmo: estou no mesmo lugar.
- Se você saiu duas tardes, deve ter encontrado alguém.
- Sim.
- E?
- Qual o seu interesse?
- Saber.
- Para satisfazer a curiosidade? Para poder me dizer que seus casos em Recife foram mais interessantes e cinematográficos?
- Para saber de você.
- E você?
- Um de cada vez ou você vai transformar essa conversa em uma competição?
- Conheci um cara. Na Avenida Rio Branco. Segunda de carnaval.
- Deixa eu adivinhar: dezoito anos, sarado, sem saber falar português muito bem.
- O contrário: quarenta e dois anos, calvo, corpo no lugar, uma conversa boa.
- Um tiozinho não combina com você.
- A gente se atropelou literalmente. E as intenções ficaram claras desde o primeiro momento. Não houve enrolação, perda de tempo. A gente se entendeu.
- Você não gosta de relações simples.
- O que não significa que eu não possa arriscar.
- Arriscar não é muito a sua praia.
- Você quer provar que me conhece bem?
- Que você é fã do improvável, eu entendo. Mas o que te motiva é justamente o grau de dificuldade. Quando é fácil, quando é simples, você sai fora.
- Blá blá blá.
- Fale mais sobre ele.
- Empresário, mora em Miami, pelo menos diz que mora, não quis entrar em dúvida. Ele disse, eu acreditei. Veio para o Rio para visitar a família, desfilou ontem na Vila Isabel. Nos conhecemos quase no final do segundo-tempo. Nos esbarramos no início da tarde e ele tinha um vôo para São Paulo às 19 horas. Ou seja, não tínhamos muito tempo.
- Um bom motivo para apressar os passos, não? Dizer que precisa pegar um avião.
- Eu vi a passagem, ele realmente precisava. Mas acho que você tem um pouco de razão. Quanto mais o tempo passava para nós dentro daquele quarto de motel, mais a impossibilidade se fazia presente. Quero dizer que de simples, não tinha muito. Eu conheci um cara com prazo de validade, entende?
- Entendo.
- Quanto mais se aproximava a hora dele me deixar, mas encantado eu ficava. Mais entregue eu me permitia ficar. Talvez por pressentir o ‘nunca mais’ tão presente. Talvez porque eu quisesse ouvir ele me dizer ‘que pena que só te conheci agora’. E ele me disse. E eu concordei. E a gente ficou um tempo se fazendo carinho. Ele me deu um cartão, com e-mail, telefone, nome, sobrenome. ‘A gente ainda se esbarra’, ele disse.
- Me pareceu especial.
- Foi gostoso. Eu penso que essa questão da impossibilidade irreversível, redimensiona os fatos. Foi gostoso, eu não vou negar. Foi de fato, um encontro sexual bacana que envolveu não só o desejo de saciar a fome dos corpos, mas também uma fome de atenção. De carinho. De dar e receber carinho. Eu só não sei se teria sido tão especial se, por exemplo, eu soubesse que ia esbarrar com ele amanhã.
- Você só confirmou tudo o que eu disse.
- Eu, o mais previsível dos caras.
- Eu não conheci ninguém. Passei o carnaval com amigos. Foi muito divertido, uma galera animada, cerveja e muito calor. Mas não conheci ninguém.
- Não quis?
- Não aconteceu. Às vezes a gente desliga esse interruptor. A gente não olha ao redor. Não deixa o olhar de fora, penetrar.
- Eu sei como é.
- E nós dois?
- Amigos?
- E nós dois?
- Amigos.
O termômetro marca trinta e nove graus.
- Faz muito tempo que eu não aproveito tanto o Carnaval – Jorge brindando.
- O meu foi tranqüilo. Eu saí duas tardes. Descansei, vi filmes, dormi.
- Sexo?
- Como?
- Ninguém? Carnaval, essa cidade quente, cheia de turistas, me parece óbvio.
- Sexo no carnaval é óbvio. E você?
- Eu aproveitei bem Recife.
- Não duvido.
- Encontrou o pessoal?
- Ninguém.
- Você cada vez mais distante.
- A quilometragem entre os espaços é a mesma. Não é distância. Outra cidade, outro pais, isso é distância. Quando você não vê o outro porque é impossível geograficamente. Aqui no Rio de Janeiro, não existe essa conversa de ‘vou me afastar’ porque todos os caminhos e todas as pessoas se cruzam o tempo todo.
- Você se afastou.
- Eu estou no mesmo lugar onde eu sempre estive, da mesma forma que todos estão nos mesmos lugares. Eu deixei de estar. É tão mais fácil me acusar de sumido e não mover nenhuma atitude para a aproximação.
- Esse papo me cansa.
- A mim também. Não tenho que dar explicações. Reafirmo: estou no mesmo lugar.
- Se você saiu duas tardes, deve ter encontrado alguém.
- Sim.
- E?
- Qual o seu interesse?
- Saber.
- Para satisfazer a curiosidade? Para poder me dizer que seus casos em Recife foram mais interessantes e cinematográficos?
- Para saber de você.
- E você?
- Um de cada vez ou você vai transformar essa conversa em uma competição?
- Conheci um cara. Na Avenida Rio Branco. Segunda de carnaval.
- Deixa eu adivinhar: dezoito anos, sarado, sem saber falar português muito bem.
- O contrário: quarenta e dois anos, calvo, corpo no lugar, uma conversa boa.
- Um tiozinho não combina com você.
- A gente se atropelou literalmente. E as intenções ficaram claras desde o primeiro momento. Não houve enrolação, perda de tempo. A gente se entendeu.
- Você não gosta de relações simples.
- O que não significa que eu não possa arriscar.
- Arriscar não é muito a sua praia.
- Você quer provar que me conhece bem?
- Que você é fã do improvável, eu entendo. Mas o que te motiva é justamente o grau de dificuldade. Quando é fácil, quando é simples, você sai fora.
- Blá blá blá.
- Fale mais sobre ele.
- Empresário, mora em Miami, pelo menos diz que mora, não quis entrar em dúvida. Ele disse, eu acreditei. Veio para o Rio para visitar a família, desfilou ontem na Vila Isabel. Nos conhecemos quase no final do segundo-tempo. Nos esbarramos no início da tarde e ele tinha um vôo para São Paulo às 19 horas. Ou seja, não tínhamos muito tempo.
- Um bom motivo para apressar os passos, não? Dizer que precisa pegar um avião.
- Eu vi a passagem, ele realmente precisava. Mas acho que você tem um pouco de razão. Quanto mais o tempo passava para nós dentro daquele quarto de motel, mais a impossibilidade se fazia presente. Quero dizer que de simples, não tinha muito. Eu conheci um cara com prazo de validade, entende?
- Entendo.
- Quanto mais se aproximava a hora dele me deixar, mas encantado eu ficava. Mais entregue eu me permitia ficar. Talvez por pressentir o ‘nunca mais’ tão presente. Talvez porque eu quisesse ouvir ele me dizer ‘que pena que só te conheci agora’. E ele me disse. E eu concordei. E a gente ficou um tempo se fazendo carinho. Ele me deu um cartão, com e-mail, telefone, nome, sobrenome. ‘A gente ainda se esbarra’, ele disse.
- Me pareceu especial.
- Foi gostoso. Eu penso que essa questão da impossibilidade irreversível, redimensiona os fatos. Foi gostoso, eu não vou negar. Foi de fato, um encontro sexual bacana que envolveu não só o desejo de saciar a fome dos corpos, mas também uma fome de atenção. De carinho. De dar e receber carinho. Eu só não sei se teria sido tão especial se, por exemplo, eu soubesse que ia esbarrar com ele amanhã.
- Você só confirmou tudo o que eu disse.
- Eu, o mais previsível dos caras.
- Eu não conheci ninguém. Passei o carnaval com amigos. Foi muito divertido, uma galera animada, cerveja e muito calor. Mas não conheci ninguém.
- Não quis?
- Não aconteceu. Às vezes a gente desliga esse interruptor. A gente não olha ao redor. Não deixa o olhar de fora, penetrar.
- Eu sei como é.
- E nós dois?
- Amigos?
- E nós dois?
- Amigos.
Os olhos nos olhos brilhando. A possibilidade de retomar um assunto não resolvido. Travado. Não discutido. Pouco iluminado. A noite brilhando, o verão faz com que a gente atravesse questões, como quem não percebe detalhes. A temperatura é alta e no brinde de outra garrafa de cerveja, preferiram não tocar no assunto protagonista, que os desperta e os maltrata.