CHOKE de Clark Gregg
- Quanto você cobra, hein cara?
- Desculpa, eu... eu só estou esperando o ônibus. Eu não cobro nada.
- Então entra aí. Se você não cobra nada...
- Não, não é isso. Você me entendeu errado. Eu não cobro nada porque eu não faço programa. Eu só estou esperando o ônibus.
- Sei... Esperando o ônibus essa hora? Por que não pega o metrô, um táxi, sei lá?
- Porque eu saí de um teatro aqui perto, porque eu estou cansado para andar até o metro, porque eu não tenho grana para pegar um táxi, enfim...
- E veio pegar o ônibus justamente aqui?
- Aqui, meu caro, é o ponto de ônibus. Ponto final, inclusive.
- Sim, mas também é outro tipo de ponto.
- Entendo. Mas eu realmente estou esperando o ônibus.
- Entra aí. Posso te dar uma carona, o que acha? Tô sem rumo mesmo...
- Acho perigoso. Prefiro recusar.
- Também é perigoso ir de ônibus essa hora. O que me diz?
- Digo obrigado. E digo também que recuso o seu convite gentil. Agora se você me der licença, eu vou continuar aqui esperando o ônibus.
- Aqui é perigoso, hein cara? Têm uns pivetes, não tem policiamento nenhum, acha perigoso não?
- Acho. Mas se eu parar para pensar nisso, eu enlouqueço, eu não saio mais de casa. Eu viro um daqueles loucos que contam os objetos e depois de perderem a conta, choram sem controle.
- Sei... Entra aí, vai?
- Qual é a tua, cara? Não percebeu que eu só estou realmente esperando a droga do ônibus?
- Só tô procurando diversão.
- Boa sorte, então.
- Ah, deixa de fazer doce, vai... tá na cara que você quer entrar. Eu passei por aqui três vezes e nas três vezes você ficou olhando.
- Pois é. Olhei como quem olha atento alguém que se aproxima num lugar como esses. Olhei para saber do que se trata. Olhei para... e essa aliança aí no dedo?
- O que é que tem?
- Como 'o que é que tem'? Você dorme numa boa? Sair por aí catando garoto de carro na madrugada e é casado, cara?
- Vem cá, lição de moral essa hora da noite? A novela das oito já acabou faz tempo, cara... E outra, não te devo satisfação. Vai entrar numa de me analisar porque viu uma aliança?
- Então empatamos. Você entrou numa de me analisar porque me viu aqui parado no ponto.
- No ponto...
- De ônibus.
- Então empatamos. Eu vou nessa, então. Boa sorte aí com o seu ônibus.
- Boa sorte aí com a sua busca... Maurício.
- Eu não disse o meu nome.
- Eu sei que não... Maurício.
- Mas como você sabe o meu nome, cara?
- Olha o mistério...
- Tô falando sério! Como você sabe que meu nome é...
- Maurício?
- Como você sabe?
- Olha Maurício, acho que realmente está tarde. Se eu resolver aceitar a sua carona...
- Não, agora quero saber de onde você me conhece.
- Se eu resolver aceitar a sua carona, você promete que vai me levar para casa? Ou para perto de casa, onde eu possa pegar um táxi?
- Prometo, cara. Mas me diz de onde a gente se conhece que eu não faço idéia.
- Calma, olha o drama. Não foi você que disse que a novela já acabou faz tempo? Então... abre a porta?
- Não gosto desse jogo.
- Que jogo? Quer saber, então eu te digo. Estudamos no mesmo colégio. Turmas diferentes. Por três anos.
- Sério?
- Sério. No último ano, você sumiu. Eu perguntei por você para alguns amigos em comum e ninguém soube me dizer. Disseram só que você tinha sido transferido.
- Eu tranquei a matrícula.
- Eu gostava de te olhar. Eu te observava no recreio. Eu era moleque, tudo era muito novo, tinha uma atmosfera de proibido, eu estava em transformação. Transformação não. Constatação. Eu estava compreendendo.
- Eu tranquei a matrícula. Perdi minha mãe no final do ano, antes do Natal. No ano seguinte, eu não consegui voltar. Eu tentei, mas não consegui. Perdi o ano, perdi minha mãe, perdi.
- Me desculpa. Eu não tinha a intenção de te fazer lembrar de nada desse tipo.
- Tudo bem. Mesmo colégio, hein cara? Mas eu conhecia todo mundo, era o maior garanhão, as menininhas ficavam todas safadinhas comigo.
- Alguns meninos também.
- Sério?
- Sério. A primeira vez que eu me masturbei foi pensando em você. Com o uniforme de Educação Física, suado, cabelo molhado, jogado para o lado.
- Que safado.
- Pois é. E olha o giro que o mundo deu. Você aqui. Eu aqui.
- Sério que você não faz programa?
- Sério que você é casado?
- Tive uma menina, Juliana. Vai fazer dois anos. Está com a mãe visitando os avós em São Paulo.
- E você solto na cidade?
- Solto.
- Na cidade.
- Eu nunca ia imaginar. Você sempre teve o cabelo comprido? Não lembro de você, cara.
- Não, na época do colégio era bem curtinho. Eu era magrelo. Usava aparelho nos dentes. Uns óculos pretos, um horror. Todo adolescente vive o momento eterno de conseguir personalizar a imagem, não é? O início é muito duro. A gente vai tateando. Só deixei crescer o cabelo pouco antes da faculdade.
- Me formei em Educação Física.
- Sou ator.
- Bacana. De novelas?
- Ator.
- Tenho uma academia.
- Bacana.
- Mas uma cerveja você topa, não topa? Ah qual é, não prometi que te levaria para casa?
- Uma cerveja.
- Para começar!
- Uma cerveja.
A cidade parou e nós dois respiramos juntos, no mesmo compasso, na mesma intensidade. Safado cachorro que saiu da lembrança de um passado, de um primeiro esperma lá atrás, tão menino tão sem saber do futuro. Poderia ser outro. Mas fui eu. Fomos nós dois. Equação improvável de um encontro inusitado. Cidade safada menor que a palma da minha mão, sacana que cruza as linhas, mistura as pessoas e ainda brinca de embaralhar as intenções na noite que avança e é misteriosa. A cidade parou e respiramos os dois no mesmo compasso. Suspendemos a vida para um brinde íntimo de pernas. Deixei de lado a minha fossa e o quereres que o Caetano me esbofeteou. Navegar é preciso. Não posso parar e tentar atravessar uma parede intransponível. Preciso seguir adiante. Aprender os jeitos, a maneira de compreender dentro do meu círculo, perceber as minhas facilidades, contrariar a inércia e trabalhar tudo o que me pesa. Hoje eu sou todo teoria, eu dizia. Esse blá blá blá, me perdoe que seja assim, mas na internet tudo é palavra. Hoje eu sou todo teoria depois de ter sido ontem todo prática. E se no início resisti, cordeiro obediente enfileirado, após o toque insistente das tuas mãos nas minhas, baguncei ardentemente o pudor, não corei sequer. O desejo quando é gigante engole a vergonha. Demole a culpa. Estremece a cama.
- São cento e cinqüenta reais.
- Desculpa, eu... eu só estou esperando o ônibus. Eu não cobro nada.
- Então entra aí. Se você não cobra nada...
- Não, não é isso. Você me entendeu errado. Eu não cobro nada porque eu não faço programa. Eu só estou esperando o ônibus.
- Sei... Esperando o ônibus essa hora? Por que não pega o metrô, um táxi, sei lá?
- Porque eu saí de um teatro aqui perto, porque eu estou cansado para andar até o metro, porque eu não tenho grana para pegar um táxi, enfim...
- E veio pegar o ônibus justamente aqui?
- Aqui, meu caro, é o ponto de ônibus. Ponto final, inclusive.
- Sim, mas também é outro tipo de ponto.
- Entendo. Mas eu realmente estou esperando o ônibus.
- Entra aí. Posso te dar uma carona, o que acha? Tô sem rumo mesmo...
- Acho perigoso. Prefiro recusar.
- Também é perigoso ir de ônibus essa hora. O que me diz?
- Digo obrigado. E digo também que recuso o seu convite gentil. Agora se você me der licença, eu vou continuar aqui esperando o ônibus.
- Aqui é perigoso, hein cara? Têm uns pivetes, não tem policiamento nenhum, acha perigoso não?
- Acho. Mas se eu parar para pensar nisso, eu enlouqueço, eu não saio mais de casa. Eu viro um daqueles loucos que contam os objetos e depois de perderem a conta, choram sem controle.
- Sei... Entra aí, vai?
- Qual é a tua, cara? Não percebeu que eu só estou realmente esperando a droga do ônibus?
- Só tô procurando diversão.
- Boa sorte, então.
- Ah, deixa de fazer doce, vai... tá na cara que você quer entrar. Eu passei por aqui três vezes e nas três vezes você ficou olhando.
- Pois é. Olhei como quem olha atento alguém que se aproxima num lugar como esses. Olhei para saber do que se trata. Olhei para... e essa aliança aí no dedo?
- O que é que tem?
- Como 'o que é que tem'? Você dorme numa boa? Sair por aí catando garoto de carro na madrugada e é casado, cara?
- Vem cá, lição de moral essa hora da noite? A novela das oito já acabou faz tempo, cara... E outra, não te devo satisfação. Vai entrar numa de me analisar porque viu uma aliança?
- Então empatamos. Você entrou numa de me analisar porque me viu aqui parado no ponto.
- No ponto...
- De ônibus.
- Então empatamos. Eu vou nessa, então. Boa sorte aí com o seu ônibus.
- Boa sorte aí com a sua busca... Maurício.
- Eu não disse o meu nome.
- Eu sei que não... Maurício.
- Mas como você sabe o meu nome, cara?
- Olha o mistério...
- Tô falando sério! Como você sabe que meu nome é...
- Maurício?
- Como você sabe?
- Olha Maurício, acho que realmente está tarde. Se eu resolver aceitar a sua carona...
- Não, agora quero saber de onde você me conhece.
- Se eu resolver aceitar a sua carona, você promete que vai me levar para casa? Ou para perto de casa, onde eu possa pegar um táxi?
- Prometo, cara. Mas me diz de onde a gente se conhece que eu não faço idéia.
- Calma, olha o drama. Não foi você que disse que a novela já acabou faz tempo? Então... abre a porta?
- Não gosto desse jogo.
- Que jogo? Quer saber, então eu te digo. Estudamos no mesmo colégio. Turmas diferentes. Por três anos.
- Sério?
- Sério. No último ano, você sumiu. Eu perguntei por você para alguns amigos em comum e ninguém soube me dizer. Disseram só que você tinha sido transferido.
- Eu tranquei a matrícula.
- Eu gostava de te olhar. Eu te observava no recreio. Eu era moleque, tudo era muito novo, tinha uma atmosfera de proibido, eu estava em transformação. Transformação não. Constatação. Eu estava compreendendo.
- Eu tranquei a matrícula. Perdi minha mãe no final do ano, antes do Natal. No ano seguinte, eu não consegui voltar. Eu tentei, mas não consegui. Perdi o ano, perdi minha mãe, perdi.
- Me desculpa. Eu não tinha a intenção de te fazer lembrar de nada desse tipo.
- Tudo bem. Mesmo colégio, hein cara? Mas eu conhecia todo mundo, era o maior garanhão, as menininhas ficavam todas safadinhas comigo.
- Alguns meninos também.
- Sério?
- Sério. A primeira vez que eu me masturbei foi pensando em você. Com o uniforme de Educação Física, suado, cabelo molhado, jogado para o lado.
- Que safado.
- Pois é. E olha o giro que o mundo deu. Você aqui. Eu aqui.
- Sério que você não faz programa?
- Sério que você é casado?
- Tive uma menina, Juliana. Vai fazer dois anos. Está com a mãe visitando os avós em São Paulo.
- E você solto na cidade?
- Solto.
- Na cidade.
- Eu nunca ia imaginar. Você sempre teve o cabelo comprido? Não lembro de você, cara.
- Não, na época do colégio era bem curtinho. Eu era magrelo. Usava aparelho nos dentes. Uns óculos pretos, um horror. Todo adolescente vive o momento eterno de conseguir personalizar a imagem, não é? O início é muito duro. A gente vai tateando. Só deixei crescer o cabelo pouco antes da faculdade.
- Me formei em Educação Física.
- Sou ator.
- Bacana. De novelas?
- Ator.
- Tenho uma academia.
- Bacana.
- Mas uma cerveja você topa, não topa? Ah qual é, não prometi que te levaria para casa?
- Uma cerveja.
- Para começar!
- Uma cerveja.
A cidade parou e nós dois respiramos juntos, no mesmo compasso, na mesma intensidade. Safado cachorro que saiu da lembrança de um passado, de um primeiro esperma lá atrás, tão menino tão sem saber do futuro. Poderia ser outro. Mas fui eu. Fomos nós dois. Equação improvável de um encontro inusitado. Cidade safada menor que a palma da minha mão, sacana que cruza as linhas, mistura as pessoas e ainda brinca de embaralhar as intenções na noite que avança e é misteriosa. A cidade parou e respiramos os dois no mesmo compasso. Suspendemos a vida para um brinde íntimo de pernas. Deixei de lado a minha fossa e o quereres que o Caetano me esbofeteou. Navegar é preciso. Não posso parar e tentar atravessar uma parede intransponível. Preciso seguir adiante. Aprender os jeitos, a maneira de compreender dentro do meu círculo, perceber as minhas facilidades, contrariar a inércia e trabalhar tudo o que me pesa. Hoje eu sou todo teoria, eu dizia. Esse blá blá blá, me perdoe que seja assim, mas na internet tudo é palavra. Hoje eu sou todo teoria depois de ter sido ontem todo prática. E se no início resisti, cordeiro obediente enfileirado, após o toque insistente das tuas mãos nas minhas, baguncei ardentemente o pudor, não corei sequer. O desejo quando é gigante engole a vergonha. Demole a culpa. Estremece a cama.
- São cento e cinqüenta reais.