O EQUILIBRISTA de James Marsh
Eu vou começar com a palavra ‘eu’ porque tudo o que eu vou te dizer é realmente em primeira pessoa. Então eu vou tentar abrir mão das metáforas mais óbvias – sabendo que não vou conseguir – que muitas vezes ilustram uma idéia ou sugerem um significado mais interessante, mas não são capazes de encarar o outro de frente e abrir o jogo de forma mais direta, mais imediata. Muitas vezes elas diluem o recado.
Quando eu me apaixonei por você, eu demorei algum tempo para admitir. Ou compreender. Você namorava um colega de elenco. Nós estávamos em cartaz de quinta à domingo. Eu não lembro exatamente a primeira vez que eu te vi, mas eu lembro que você chegou com um bilhete de advertência pendurado no pescoço. Do tipo ‘não toque’, ‘não se interesse por ele porque ele não está solteiro’. Tudo o que eu te disse por um bom tempo foi ‘boa noite’ e ‘até logo’. Eu evitei me aproximar. Não que você não fosse um homem interessante, mas perigos anunciados sempre atraem expectativas. E eu não queria confusão. Ou exposição. Até que você se aproximou.
De imediato, eu fui educado e receptivo. Depois eu comecei a me interessar pelo fato de te encontrar todas as noites na saída do teatro, esperando pelo teu amor. Você esperava todas as noites por um homem que não era eu. Eu sabia desse fato, mas ele sempre foi tão incrivelmente romântico que eu me deixei enganar. A peça terminava. Nós saíamos do teatro cansados e lá estava você. Sempre. Abrindo o sorriso como se entregasse flores. Todas as noites.
Nessa época, nenhum homem me amava. Ninguém me esperava na saída do teatro. Ninguém me lançava um sorriso. Secretamente, eu detestava o seu companheiro porque ele parecia não se importar com o fato de você estar ali, de quinta à domingo. Ele me parecia acostumado ao teu carinho inteiro. Incondicional. As pessoas se acostumam com atitudes carinhosas e muitas vezes passam por cima da delicadeza. Isso me deixa sinceramente puto. Um dia você me telefonou. E apareceu lá em casa depois de uma briga.
Tudo o que era unidade ganhou reflexo. Os meus dias comuns foram contaminados pela tua atenção que transbordava os espaços do meu apartamento. A minha intenção também transbordava e era de alegria e era de uma felicidade incontrolável. A gente foi se misturando, foi isso o que aconteceu. A gente foi se recolhendo, aos poucos, os pedaços. A ordem do dia não era mais cronológica porque eu só despertava depois de te abrir as portas. Eu só me apaixonei por você porque você sentiu paixão por mim. Eu não soube resistir. Ou dizer não. Eu disse sim e você sabia que eu diria sim, dispensando as perguntas tolas.
Quando você voltou para ele, eu fiquei sem saber durante muito tempo. Muitos meses. Eu não estranhei ou me surpreendi. Eu fiquei sem saber. Realmente eu fiquei sem saber de qualquer coisa. Embora eu sempre tenha repetido secretamente que fazia sentido você voltar para ele. Porque é essa a função do retorno. O retorno corrige equívocos.
Quando eu me apaixonei por você, eu demorei algum tempo para admitir. Ou compreender. Você namorava um colega de elenco. Nós estávamos em cartaz de quinta à domingo. Eu não lembro exatamente a primeira vez que eu te vi, mas eu lembro que você chegou com um bilhete de advertência pendurado no pescoço. Do tipo ‘não toque’, ‘não se interesse por ele porque ele não está solteiro’. Tudo o que eu te disse por um bom tempo foi ‘boa noite’ e ‘até logo’. Eu evitei me aproximar. Não que você não fosse um homem interessante, mas perigos anunciados sempre atraem expectativas. E eu não queria confusão. Ou exposição. Até que você se aproximou.
De imediato, eu fui educado e receptivo. Depois eu comecei a me interessar pelo fato de te encontrar todas as noites na saída do teatro, esperando pelo teu amor. Você esperava todas as noites por um homem que não era eu. Eu sabia desse fato, mas ele sempre foi tão incrivelmente romântico que eu me deixei enganar. A peça terminava. Nós saíamos do teatro cansados e lá estava você. Sempre. Abrindo o sorriso como se entregasse flores. Todas as noites.
Nessa época, nenhum homem me amava. Ninguém me esperava na saída do teatro. Ninguém me lançava um sorriso. Secretamente, eu detestava o seu companheiro porque ele parecia não se importar com o fato de você estar ali, de quinta à domingo. Ele me parecia acostumado ao teu carinho inteiro. Incondicional. As pessoas se acostumam com atitudes carinhosas e muitas vezes passam por cima da delicadeza. Isso me deixa sinceramente puto. Um dia você me telefonou. E apareceu lá em casa depois de uma briga.
Tudo o que era unidade ganhou reflexo. Os meus dias comuns foram contaminados pela tua atenção que transbordava os espaços do meu apartamento. A minha intenção também transbordava e era de alegria e era de uma felicidade incontrolável. A gente foi se misturando, foi isso o que aconteceu. A gente foi se recolhendo, aos poucos, os pedaços. A ordem do dia não era mais cronológica porque eu só despertava depois de te abrir as portas. Eu só me apaixonei por você porque você sentiu paixão por mim. Eu não soube resistir. Ou dizer não. Eu disse sim e você sabia que eu diria sim, dispensando as perguntas tolas.
Quando você voltou para ele, eu fiquei sem saber durante muito tempo. Muitos meses. Eu não estranhei ou me surpreendi. Eu fiquei sem saber. Realmente eu fiquei sem saber de qualquer coisa. Embora eu sempre tenha repetido secretamente que fazia sentido você voltar para ele. Porque é essa a função do retorno. O retorno corrige equívocos.
(Publicado na coluna Depois do Filme da Revista Paradoxo)