O TEMPO QUE RESTA de François Ozon
Clementine: This is it, Joel. It's going to be gone soon.
Joel: I know.
Clementine: What do we do?
Joel: Enjoy it.
(C. Kaufman e M.Gondry)
Joel: I know.
Clementine: What do we do?
Joel: Enjoy it.
(C. Kaufman e M.Gondry)
Quero dizer antes que eu me cansei. De mim mesmo. De você mesmo. Desse encontro que parecia tão Romeu e Romeu, mas que se mostra um pastelão sem fins lucrativos e sem público. Eu cansei dos textos, das canções, cansei de procurar significados no eco de um cenário vazio e sem cor. Cansei de metáforas. Cansei de segundas, terceiras e quartas intenções. Não quero mais um olhar que me sugere mil possibilidades e não especifica nenhuma delas. Dispenso até o abraço quente, embora eu saiba que vou sentir falta e vou me contrariar, correndo para te abraçar. Quero dizer que eu gostaria de ter encontrado você em outras circunstâncias. E que também não ouso dizer que circunstâncias seriam essas. Seria como alimentar um leão magro. E precisaria de mais coragem. Precisaria é de álcool, de repente nem tanta coragem. Mas hoje é domingo e não bebi nada. Não sei se essa é uma maneira clara de te dizer o que sinto. Acredito que não porque ainda não sei o que te dizer, não encontrei ainda o jeito de organizar a bagunça dos armários. Ele é mais confuso do que tudo o que já arrisquei porque entra em contato direto com o subjetivo. Tudo o que na foi dito, apenas sugerido. Os olhares silenciosos acompanhados de um pensamento que não virou verbo e som. Tudo o que é de fato importante entre dois homens: o silêncio. Que aqui ganha significados não muito agradáveis ou definitivos. Ou descartáveis, vai saber?
Eu escrevo nesse dia branco. Sem saber. Cansado.
Existe um momento que é exaustivo quando a gente descobre que a pessoa que elegemos – quero ser abrangente, falo de um amor, um amigo, um confidente, um desconhecido – não é a pessoa que elegemos. Como se ela descontruísse a imagem que ele mesmo teceu. Ela, vamos abrir as porteiras da arena. Como se ela brincasse com o tempo. E fizesse você perceber que o desperdiçou. Eu me cansei de perder o tempo que resta.
Eu poderia escrever sobre o tempo. Escrever sobre o tempo sempre será escrever sobre o tempo que resta. Sim, o filme do Ozon é melhor do que qualquer texto que eu venha a produzir. Ele é objetivo, a gente percebe desde o primeiro momento o abismo que se abre diante do protagonista. A gente sabe tudo o que vai acontecer, mas existe mais do que a delicadeza. Existe a condução da delicadeza. Avassaladora e inevitável com que a personagem encontra para se despedir. Ele faz todo esse trajeto sem a noção do tempo que resta. Encontra as suas maneiras, como cada um de nós. Sem saber do que virá, embora saiba. Não sabe na verdade quando virá. De que maneira, se em dia de sol ou chuva. Então eu me abracei e chorei sem freios. Acreditando no final do fim que se cumpre, previamente anunciado
Passei muito tempo em silêncio. Passei muito tempo disponível para todas as tuas armadilhas.
Nesse mesmo dia, enfrentei a cidade na quase madrugada. Enfrentei elegantemente te encontrar. E quando eu digo enfrentar, quero dizer abrir mão de tudo o que tenho percebido em relação ao que não previ, em relação a você, em relação ao espaço que existe. Então eu poderia te dizer dos mínimos óbvios que não estão em sintonia. Poderia te dizer que eu compreendo e aceito o não, de onde quer que venha. E quero dizer para que fiquem abertas as linhas, que estendi a mão. Eu estendi a mão. É possível encontrar diversos fins para esse ato simples e plural. Assim é.
Existe uma urgência umbilical em tudo o que eu toco ou percebo ou identifico.
Existe o tempo que vai de encontro e se impõe sabiamente sobre os meus ais.
Eu respeito o tempo. Eu respeito as urgências.
Eu te quero na minha vida. E quero que na minha urgência, compreendas.
Não sei ainda se na indiferença ou na tua polidez, existe a sugestão de tentar compreender o tempo. O nosso tempo.
Eu giro a roleta e te digo, se ela te escolher, há de escolher, que existe um tempo de vida para toda relação, para cada relação. Não. Mentira. Quero dizer que existe um processo, um espaço de tempo que existe para que se estabeleçam os laços. Querer somente não determina. É preciso querer e perceber o que o tempo vai conduzir. Sozinho, o tempo também não determina. É preciso a soma do querer mais a do receber mais o tempo mais a cidade disponível mais o mistério que existe com cada um que encontra cada outro.
Depois eu revi Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e eu percebi que a gente desmorona quando alguém deixa se apagar. Percebi que a gente busca forças na alegria do outro e não se trata de apagar. Mas de trocar a ordem de lugar.
Avalanche de frases, hoje não. Hoje eu dispenso. Mas escrever provoca esse tremor de palavras, inevitável cachoeira, encontro com o destino. Eu escolho você e eu sei que quando a semana começar, ao sair de casa, vou te encontrar. Eu sei que a quando a semana terminar, ao entrar em casa, vou te encontrar. Eu tenho dois túneis para te ver. E dentro desses dois canais, dentro desse espaço, eu preciso ser claro. Não deixar a confusão natural de ser quem eu sou embaçar tudo o que há. Eu tenho dois momentos e de repente, se o telefone tocar ou se eu fizer com que algum telefone toque, o seu, fatalmente, a gente não arrisca um cinema? Um suco? Uma terceira via? Eu não estou falando em flores no buquê, futuro promissor, nada do que possa te causar dúvida.
Hoje eu giro a roleta, há de ser você, porque em algum momento, tudo se confundiu. Eu confundi o meu desejo ao te receber. E não sei onde você me confundiu. Quero dizer que é possível que o tempo de germinar, não tem a canção do Gil, Drão, acho lindo, mas esse tempo de germinar pode ser que não provoque... Flores, eu ia dizer. Prefiro reações. Não provoque reações. Quando alguém exerce beleza em outro alguém, algum movimento é parido, por menor e mais simples que seja. Se nada acontece, se o vento não é capaz de varrer, não é veloz o suficiente, a paisagem permanece. Como se não houvesse. Como se não tivesse. Como se não fosse. Fica tudo estático. Assim é.
Tudo pede um pouco mais de calma.
Tudo pede um pouco mais de alma, me disse o Lenine.
E eu acreditei.
Eu escrevo nesse dia branco. Sem saber. Cansado.
Existe um momento que é exaustivo quando a gente descobre que a pessoa que elegemos – quero ser abrangente, falo de um amor, um amigo, um confidente, um desconhecido – não é a pessoa que elegemos. Como se ela descontruísse a imagem que ele mesmo teceu. Ela, vamos abrir as porteiras da arena. Como se ela brincasse com o tempo. E fizesse você perceber que o desperdiçou. Eu me cansei de perder o tempo que resta.
Eu poderia escrever sobre o tempo. Escrever sobre o tempo sempre será escrever sobre o tempo que resta. Sim, o filme do Ozon é melhor do que qualquer texto que eu venha a produzir. Ele é objetivo, a gente percebe desde o primeiro momento o abismo que se abre diante do protagonista. A gente sabe tudo o que vai acontecer, mas existe mais do que a delicadeza. Existe a condução da delicadeza. Avassaladora e inevitável com que a personagem encontra para se despedir. Ele faz todo esse trajeto sem a noção do tempo que resta. Encontra as suas maneiras, como cada um de nós. Sem saber do que virá, embora saiba. Não sabe na verdade quando virá. De que maneira, se em dia de sol ou chuva. Então eu me abracei e chorei sem freios. Acreditando no final do fim que se cumpre, previamente anunciado
Passei muito tempo em silêncio. Passei muito tempo disponível para todas as tuas armadilhas.
Nesse mesmo dia, enfrentei a cidade na quase madrugada. Enfrentei elegantemente te encontrar. E quando eu digo enfrentar, quero dizer abrir mão de tudo o que tenho percebido em relação ao que não previ, em relação a você, em relação ao espaço que existe. Então eu poderia te dizer dos mínimos óbvios que não estão em sintonia. Poderia te dizer que eu compreendo e aceito o não, de onde quer que venha. E quero dizer para que fiquem abertas as linhas, que estendi a mão. Eu estendi a mão. É possível encontrar diversos fins para esse ato simples e plural. Assim é.
Existe uma urgência umbilical em tudo o que eu toco ou percebo ou identifico.
Existe o tempo que vai de encontro e se impõe sabiamente sobre os meus ais.
Eu respeito o tempo. Eu respeito as urgências.
Eu te quero na minha vida. E quero que na minha urgência, compreendas.
Não sei ainda se na indiferença ou na tua polidez, existe a sugestão de tentar compreender o tempo. O nosso tempo.
Eu giro a roleta e te digo, se ela te escolher, há de escolher, que existe um tempo de vida para toda relação, para cada relação. Não. Mentira. Quero dizer que existe um processo, um espaço de tempo que existe para que se estabeleçam os laços. Querer somente não determina. É preciso querer e perceber o que o tempo vai conduzir. Sozinho, o tempo também não determina. É preciso a soma do querer mais a do receber mais o tempo mais a cidade disponível mais o mistério que existe com cada um que encontra cada outro.
Depois eu revi Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e eu percebi que a gente desmorona quando alguém deixa se apagar. Percebi que a gente busca forças na alegria do outro e não se trata de apagar. Mas de trocar a ordem de lugar.
Avalanche de frases, hoje não. Hoje eu dispenso. Mas escrever provoca esse tremor de palavras, inevitável cachoeira, encontro com o destino. Eu escolho você e eu sei que quando a semana começar, ao sair de casa, vou te encontrar. Eu sei que a quando a semana terminar, ao entrar em casa, vou te encontrar. Eu tenho dois túneis para te ver. E dentro desses dois canais, dentro desse espaço, eu preciso ser claro. Não deixar a confusão natural de ser quem eu sou embaçar tudo o que há. Eu tenho dois momentos e de repente, se o telefone tocar ou se eu fizer com que algum telefone toque, o seu, fatalmente, a gente não arrisca um cinema? Um suco? Uma terceira via? Eu não estou falando em flores no buquê, futuro promissor, nada do que possa te causar dúvida.
Hoje eu giro a roleta, há de ser você, porque em algum momento, tudo se confundiu. Eu confundi o meu desejo ao te receber. E não sei onde você me confundiu. Quero dizer que é possível que o tempo de germinar, não tem a canção do Gil, Drão, acho lindo, mas esse tempo de germinar pode ser que não provoque... Flores, eu ia dizer. Prefiro reações. Não provoque reações. Quando alguém exerce beleza em outro alguém, algum movimento é parido, por menor e mais simples que seja. Se nada acontece, se o vento não é capaz de varrer, não é veloz o suficiente, a paisagem permanece. Como se não houvesse. Como se não tivesse. Como se não fosse. Fica tudo estático. Assim é.
Tudo pede um pouco mais de calma.
Tudo pede um pouco mais de alma, me disse o Lenine.
E eu acreditei.