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segunda-feira, agosto 03, 2009



BEIJOS E TIROS de Shane Black


Eu marquei no Cine Odeon. Um cinema extremamente agradável no Centro do Rio de Janeiro. A programação me agrada. A paisagem é acolhedora. E o principal, o clima é gostoso e sociável. Encontrar o Alê, na atual circunstância, só poderia acontecer em lugares movimentados, onde brigas e gritos destoassem. Eu cheguei antes, embora tivesse ensaiado chegar atrasado para causar a sensação de que não estava tão preocupado. Eu queria que ele pensasse que encontrá-lo não era o motivo principal do meu dia, que eu era um homem cheio de compromissos novos. Não consegui.

Ele chegou vinte minutos após o combinado.

Parte do atendimento do restaurante do Cine Odeon é feito dentro de um cercado de madeira, na calçada da Praça da Cinelândia. Por intuição, eu achei que ali seria o lugar ideal para sentar e conversar ou pelo menos tentar conversar. Quando não existe um motivo específico, fica muito difícil se fazer entender. Porque não dá para sentar e olhar para o rosto de alguém com quem você viveu por oito anos e dizer que ‘é uma soma de fatos que me fazem querer me afastar’. Mas foi exatamente assim que eu comecei a conversa.

- É uma soma de fatos que me fazem querer me afastar.
- Não fode, Jr. Você nunca foi subjetivo com nada na vida. Vai me fazer acreditar que você quer sair de cena, porque somou os fatos? Que fatos?
- Reitero que eu não vim para brigar.
- Uma porra essa situação. Você escreve seus textos no blog e de repente, eu viro o carrasco da situação. Teus amigos estão me olhando de cara feia. Você fica ótimo nesse papel de vítima e eu viro o monstro.
- Eu não cito nomes no blog.
- Você nunca citou, mas sempre escreveu em primeira pessoa. Então para qualquer pessoa que tenha o mínimo de intimidade com a nossa vida, fica fácil de saber o que acontece entre nós. Eu detesto essa sensação de não ter privacidade.
- O que te irrita é que você deixa de ser impenetrável, perfeito, puro. O herói também é gente e faz cagada, veja você. Essa conversa não se trata de nós dois, Alê. Ela abala a imagem que você gosta de impor e isso te irrita.
- Eu te chamei aqui porque eu quero entender a tua atitude.
- Eu não vou te explicar. Eu te escrevi.
- Você me escreve com freqüência e nem sempre eu sinto que é para mim. Você e essa fantasia, essa tua idéia do amor. A vida não é como nos livros.
- Minha vez de dizer não fode.
- Eu quero entender. O que você quer me dizer? Que acabou? Que nós dois já não somos mais os mesmos? Que todos os meus defeitos te irritam e te afastam? Eu quero que você me diga.
- Eu preciso de um tempo.
- Eu preciso que você seja objetivo.
- O que você quer que eu diga?
- Eu não aceito o teu tempo. Não vou te dar um tempo pra você sair por aí trepando com outros caras, para depois de dois, três meses, voltar e me dizer que agora está pronto para recomeçar.
- Enquanto eu trepo com outros, onde você vai estar? Rezando uma missa? Não seja hipócrita. Sua vida sexual sempre foi mais intensa que a minha.
- Eu acho um saco casal que dá um tempo.
- Eu quero ver como é que a minha vida acontece sem a sua.
- Então eu quero que você me olhe nos olhos e diga que quer terminar comigo.
- Eu não vou fazer isso.
- Porque você ainda me ama!
- Abra um champanhe.
- O seu problema é que você se agarrou às palavras de tal forma, que perdeu a noção da realidade. Você entrou num túnel subjetivo com questões profundas e desconexas e se perdeu.
- Você se coloca muito bem para alguém que desdenha das palavras.
- Não fuja do assunto.
- Eu não quero terminar. Mas eu preciso me afastar. Pensar. Sentir como é viver sem você. Recuperar a individualidade. Entre nós, tudo ficou muito viciado. Nós nos banalizamos.
- Essa tua terapeuta deveria ser pendurada numa praça e apedrejada. Como é que você ainda paga essa mulher?
- A Sofia não sabe da minha decisão.
- A Sofia é uma farsa. Assim como você. Termine comigo. Termine. Seja honesto, verdadeiro. Se for isso o que você quer, termine. Só não me deixe em suspensão. Atado a um tempo que não existe. Se defendendo com questões pouco convincentes. Isso me irrita. Isso me faz gostar menos de você.

A mesa ficou em silêncio por algum momento. Eu perdi os argumentos. Ele esgotou os dele. Entre o refrigerante e o pão de queijo, nos olhávamos muito pouco. Ele nunca esteve tão bonito.

- Você foi embora com o Pedro outra noite – ele mostra as unhas.
- Sim.
- O Pedro deve estar eufórico com essa situação – ele lambe os lábios.
- Não conversamos sobre o assunto.
- Mas ele lê o seu blog – ele mostra os dentes. Afiados.
- Como é que você sabe?
- Usei o computador dele por duas vezes – ele abana o rabo.
- Sua implicância com o blog, eu posso solucionar. Já com o Pedro, eu só posso dar de ombros.
- Esse cara sempre foi apaixonado por você – ele salta para machucar.
- Marque um duelo. Saia na porrada. Meçam os paus. Não tenho nada com isso.
- Não vou me surpreender se vocês começarem a namorar – ele ataca, arranha e arde.
- Os dias são surpreendentes. Não perca a esperança.

Chamei o rapaz e pedi a conta. Impaciente e decidido, deixei duas notas de dez reais sobre a mesa e antes que o garçom selasse em cifras o que eu havia consumido, levantei sem encarar aqueles olhos e encerrei o encontro:

- Acho que isso paga a conta.
- Espera.
- Me deixa ir embora. Sem fazer cena. Só ir embora. A gente não consegue ficar mais juntos. Por cinco, dez minutos, como é que você pretende permanecer? Nós seríamos como em A Guerra dos sexos, brigas patéticas intermináveis sobre qualquer motivo. Um grande pastelão.
- Há mais alguém, não há? É o Pedro?
- O que você quer saber? Você espera uma resposta objetiva? Sinceramente, é isso o que você espera? Que eu te diga a hora, o motivo e o dia? Você quer um resumo, cara?
- É que eu não consigo compreender.
- Eu não te quero mal, em hipótese alguma. Eu só quero ficar bem. Eu também não tenho um novo amor. Eu tenho um monte de dúvidas. Eu não quero sentar aqui e te olhar e te dizer um monte de palavras sem sentido, te agredir me agredindo. Eu tenho tantas boas lembranças de nós dois. Eu tenho um carinho enorme por você para te alimentar algum motivo que te encerre qualquer questão. Não saber tira a gente do eixo e que se dane. Ninguém se separa com o cabelo no lugar e a cama arrumada.

Saí no impulso esbarrando no garçom. Derrubei os copos sobre a mesa. Ainda tive tempo de ouvir o espatifar dos vidros. Depois o que houve foi o silêncio. Como se o movimento da cidade e a praça cheia de passantes, perdesse o sentido. Fez-se silêncio dentro e fora e caminhar foi tudo o que me foi possível. Caminhar por horas, sem destino certo, até que o corpo reclamasse alguma dor, até que alguém conhecido me puxasse pelo ombro, até que eu encontrasse paz e tudo deixasse de ser tempestade.

Eu caminhei por horas. E talvez por conhecer bem a geografia da cidade ou simplesmente seguir, cheguei à porta do prédio. O mesmo prédio de todos os dias. Procurei pelas chaves. Balancei o bolso do casaco, nada. Abri a mochila, revirando papéis, livros, toalha, nada. Apalpei a calça. Nada. Depois sentei na calçada e chorei sem fim. Lembrei do seu caderninho azul e da frase, da primeira frase que você escreveu:

Vou guardar você dentro de mim e jogar a chave fora.

E chorei mais um pouco. Sem as chaves. Sem saber. Sem querer.

Até secar.