Não era porque fazia calor. Era uma questão de necessidade. Instinto, provavelmente. O verão carioca talvez tenha alguma parcela mínima de culpa, mas para resumir, era uma questão de desejo. Como uma certeza de homem que gera a convicção de que vai caçar. E vai realizar a caça, da forma que melhor lhe convier. Do jeito e na cadência que premeditar. E não há o que mude a certeza do êxito do desejo. O verão contribuiu, certamente, mas era sede.
Quando entrou no cinema houve um momento de total escuridão. Lá fora a cidade marcava quarenta e dois graus, o céu azul, o sol forte. Mudar de ambiente escurecia a sua visão de tal forma que apenas a tela do cinema e o filme erótico que passava lhe davam alguma coordenada na geografia do lugar, ainda que esbarrasse em três ou quatro até encontrar uma parede para encostar e esperar que o ambiente ganhasse a nitidez da penumbra.
Descobriu o cinema-pornô aos vinte e dois anos, levado por um amigo. Sentiu pânico ao entrar e jurou que jamais voltaria. Que era assustador. Que parecia algo como um fast fuck e ele não gostava da idéia. Que sexo era muito mais satisfatório com um amor. Que estranhos se tocando indiscriminadamente era aterrorizante. Que um monte de coisas que ele não concordava e recriminava em frases feitas e decoradas. Uma tarde dessas resolveu retornar. Sozinho. Conheceu um tal rapaz logo na bilheteria e o flerte durou um entardecer. Achou o ambiente menos hostil, ainda que seja uma palavra frágil para descrever o espaço. Um tempo depois, quatro, seis semanas depois, foi ao cinema mais uma vez. E virou um hábito secreto, que em espaços de meses, voltou a acontecer.
Homens casados, executivos em horário de almoço ou na saída do expediente, rapazes curiosos, um ou outro travesti, senhores com lenços nas mãos, garotos de programa. É um lugar menos quente do que parece, assustador porque revela e isso de revelar não é para todo temperamento e depois de um tempo, percebe-se que é um lugar democrático e diverso: há todos os tipos de pessoas e ninguém faz nada que você não queira. Se alguém que você não deseja se aproxima, você sinaliza que não quer. E parte em busca do tipo físico que mais lhe interessa. Ou observa na penumbra o que os olhos conseguem assimilar. Ou apenas senta e assiste ao filme.
Sempre percebeu essas visitas esporádicas ao cinema no Centro como um tipo de realidade paralela. Só sabe que ela existe quem já foi tragado por ela. E quem participa dela, acaba se encontrando outras vezes, estabelecendo parcerias, sinalizando outros lugares, sorrindo o esbarrão.
Conversando com um amigo, questionado sobre os riscos, ele foi categórico:
- Nunca deixei de me proteger. Ou tomar cuidado com a carteira, com o meu espaço ou os limites do outro, enfim.
- Mas não te dá medo?
- Não mais. O que eu mais gosto é que é prático. Você sente vontade, paga o bilhete, entra e vê no que dá. Depois cai de volta na cidade.
- Meio triste.
- Prático.
- Você não sente falta de uma relação?
- Muitas vezes. Mas qual a saída? Ficar em casa me lamentando por estar solteiro?
Quando ele voltou ao cinema, foi surpreendido por um rapaz, que ele já tinha visto duas ou três vezes antes. Mas não tinha certeza. Encostou na parede para que os olhos se adaptassem a mudança abrupta de iluminação e ganhou um carinho sem que esperasse:
- Chegou tarde. Vai fechar em menos de uma hora.
- Eu pensei nisso.
- E por que entrou?
- Impulso.
- Eu me chamo Sander.
- Muito prazer.
- E você?
- Não vai fazer diferença se eu não disser meu nome, vai? Ou se eu inventar um.
- Só tentei ser gentil.
- Você tem o sorriso muito bonito.
- Isso foi gentil.
"My funny Valentine / Sweet comic Valentine / You make me smile with my heart /Your looks are laughable /Unphotographable /Yet you're my favourite work of art"
Uma hora depois, em algum motel de um Centro do Rio:
- Se eu te disser que eu nunca fiz isso antes, você acredita?
- Nunca fez sexo antes?
- Nunca paguei.
- Isso significa que eu vou ser sempre uma lembrança.
- É muito complicado estar aqui. Porque eu não sei até que ponto você foi... profissional.
- Eu curti, se é isso o que você quer saber.
- Você pareceu curtir. Mas não é sempre assim? Como uma peça de teatro?
- Ser profissional é não se envolver.
- Sexo sem envolvimento? Me explica.
- Não adianta. O importante é que você goste.
- E se o meu lance for te fazer gostar?
- Eu gostei.
- Você sempre trabalhou naquele cinema? Eu acho que te vi algumas vezes ali.
- Eu trabalho em uma sauna no Leblon, mas fui suspenso por seis meses. O cinema é uma opção que eu gosto menos, mas por enquanto é onde eu posso estar.
- Se incomoda se eu perguntar o motivo da suspensão?
- Briga. Me desentendi com outro funcionário. Sabe onde fica essa sauna?
- Sei. Nunca entrei na do Leblon. Fui uma vez em uma dessas no Flamengo, mas não curti.
- Eu trabalhei no Flamengo também.
- Eu não gosto de sauna. Qualquer sauna, eu não gosto. Desde quando você faz programa?
- Quase quatro anos. Nunca fiquei na rua. Esses caras que ficam na avenida de madrugada, sabe? Sempre trabalhei em lugares fixos.
- Você tem alguém?
- Terminei um casamento de três anos. Sozinho desde a virada do ano. Ela voltou pro Sul.
- E ela sabia?
- Sabia. Mas me diz, você é algum tipo de escritor?
- Por que?
- Tantas perguntas. De repente você vai escrever um livro sobre prostituição masculina. Colhendo material, saca?
- Só puxei conversa. Você parece ser um cara bacana. É carinhoso, a voz mansa, o rosto de menino, meio seguro demais, meio assustado demais.
- Me conta um segredo? Alguma coisa que ninguém saiba.
- Ninguém no mundo?
- Sim.
- Eu não sei assobiar.
"Is your figure less than Greek? / Is your mouth a little weak? /When you open it to speak, are you smart?"
- A primeira vez que eu me interessei por uma imagem feminina foi a da capa daquele disco da Madonna, lembra? O True Blue. Ela olhando pra cima de olhos fechados. A boca entreaberta, os dentes brancos, o batom meio vermelho. Foi meu primeiro tesão com foto. Eu achava sexy o pescoço dela, a pele lisa e branca, o queixo bem desenhado, a orelha pedindo uma mordida. Meus primos tinham revistas de mulher pelada, sexo explícito, aquela coisa agressiva que eu não compreendia muito bem. E a capa daquele disco, só com o rosto dela, me excitava muito mais. Eu nunca ouvi esse disco. Eu sempre tive um cuidado com ele. Não deixava ninguém tocar, não emprestava. Eu tinha medo de ouvir e não gostar e perder o interesse, largar de lado. Eu tinha um vizinho, ele era mais velho que eu, mas não muito. A diferença entre nós era de dez, quinze anos no máximo, ele sempre me pedia favores. Ajudava com a bolsa da feira, com compras em geral, eu ajudei a montar um móvel uma vez. Ele sempre me dava alguma coisa: um lanche, uma camisa nova. Ele me deu esse disco da Madonna. Uma noite, eu só lembro que fazia muito calor, ele me viu na rua chegando em casa. Eu vinha de um futebol na praça, suado e sem camisa. Ele me chamou e perguntou se eu queria tomar um banho. Eu entendi na hora o que ele queria. Eu era moleque, não tinha muita noção nem maldade sexual. Eu me masturbava muito pouco. Mas o jeito que ele me olhava era um jeito que não precisava de palavras, saca? É uma coisa louca isso de olhar. Não precisa dizer nada, um homem sente quando outro homem olha pra ele desejando sexo. Ou alguma troca que envolva sexo. Eu entrei no jogo, disse que ele podia me olhar tomar um banho, mas que isso ia custar dinheiro. Ele me perguntou quanto eu cobraria. Eu dei o preço e ele triplicou o valor, pedindo para que eu passasse a noite. E fizesse exatamente o que ele mandasse. Foi o meu primeiro programa. Sexo não é só troca, sabe? É soma. É desejar sendo desejado. Isso que rolou entre a gente. E faz tempo, faz tanto tempo... Você me pediu um segredo. Eu não menti.
"But don't change a hair for me / Not if you care for me / Stay little Valentine, stay /Each day is Valentine's Day"
- Quando você se aproximou lá no cinema, eu tinha acabado de entrar. Eu não tinha entendido ainda a tua imagem. Mas o tom da tua voz, a calma, a serenidade. Eu gostei de você antes de te ver. Você me fez um carinho nas costas e eu senti as tuas mãos. Depois do teu sorriso eu me encantei. Tudo o que eu pensava era em te beijar. Eu queria saber como era te beijar. Eu não queria nada além de te dar um beijo. Gostei da forma como você se apresentou. Gostei dos teus olhos firmes nos meus. De abrir o jogo e dizer qual era a sua. Sinto falta dessa franqueza. Eu nunca pensei em sair com um garoto de programa. Mesmo. Sem moralismo vazio, sem boçalidade, sempre achei que não era a minha. Mas eu quis você. Eu quis você. Faz muito tempo que eu não quero alguém. A última vez que eu quis resultou em uma separação seguramente muito mais cara do que esse nosso encontro.
Desceram juntos a escadaria estreita do motel. Brincando e rindo um do outro. Um para o outro. Quando a porta se abriu, depararam com o dia nascendo. As ruas do Centro vazias. Despediram-se com um abraço que durou mais do que um abraço de gente que se despede. Talvez por saber que não se encontrariam mais. Ou uma forma de agradecimento pela madrugada que os atou sem que perdessem a liberdade. Talvez e simplesmente por carinho. Seguiram em direções opostas, ambos caminhando pelo meio da rua sem movimento. Os rumos, pensou um. Fez sinal para o táxi que passou direto, até que ouviu um assobio. Quando atendeu ao chamado, imediatamente, o outro estava em frente a um botequim acenando com as mãos e sorrindo alto ‘café quentinho’, feito um convite que ele aceitou.
* Letra de My Funny Valentine de Richard Rodgers e Lorenz Hart