Protected by Copyscape Originality Checker

terça-feira, junho 01, 2010



PARTIR de Catherine Corsini


“You may never be or have a husband
You may never have or hold a child
You will learn to loose everything
We are temporary arrangements”

No Pressure Over Cappucino / Alanis Morrissette


O diálogo a seguir é repleto de pausas entre algumas frases e especificamente, entre algumas palavras, onde a respiração se faz necessária ou conveniente. O tempo das respostas pode e deve variar de acordo com a leitura. No tempo da escrita, foi pensado para ser disritmado, quase descoordenado e com vazios. Silêncios. Pausas. Abismos que se complementam. E dialogam entre si, de alguma maneira. O cenário são dois apartamentos em prédios altos. O tempo é fresco. Os relógios informam que já se passam das dez horas da noite. As luzes da cidade piscam. Não há lua no céu. E o telefone toca. Quatro vezes.

- Te acordei?

- Não.

- Te atrapalho?

- Não. Saí do banho ainda agora. Peguei um livro pra ver se me dá sono.

- Faz tempo que eu quero te ligar.

- Você sabe os meus números. Sabe o horário que eu costumo estar em casa. Quando quiser. Se quiser, sabe como me encontrar.

- Nem sempre eu consigo. Normalmente fica só a intenção. Nunca imaginei que uma criança pudesse dar tanto trabalho. Tão pequenos. Exigem tanta atenção, tanta energia.

- Posso imaginar. E hoje, como conseguiu me ligar? Viajando?

- Não, eu fiquei. A Patrícia viajou com o Guilherme.

- Guilherme é o seu filho?

- Sim, você não sabe o nome do meu filho?

- Por que eu deveria saber?

- Porque é meu filho. Diz respeito ao meu universo.

- Exato. Ao seu universo.

- Te peguei de mau humor?

- De maneira alguma. É que você está tão habituado a ser celebrado, cortejado, que qualquer reação menos simpática soa como falta de... humor.

- Sozinho?

- Muitas perguntas, Daniel. O que você quer saber exatamente?

- Só perguntei se você está...

- Sozinho, sim eu ouvi. O problema é que eu conheço os seus truques. Alguns deles, aliás. Sim, eu estou sozinho. Hoje eu estou sozinho.

- Eu também.

- Sim, eu ouvi.

- Você jantou?

- Mais uma pergunta. Sim, jantei. Pedi comida em casa. Quer saber o menu?

- Difícil conversar com você.

- É fácil conversar comigo. Sou bom de conversa. Não sou bom com perguntas que exigem respostas para outras perguntas que você não tem coragem de fazer. Por exemplo, eu te pergunto: ‘por que você me ligou’? É uma pergunta objetiva, certo? Seria mais objetivo ainda – e prático – se você me respondesse: ‘liguei para saber se você quer me ver, já que milagrosamente eu estou sozinho’. Ou então: ‘liguei para jogar conversa fora’, ‘para matar a solidão’, ‘pra pegar no sono’, ‘por impulso’. Qualquer coisa assim, entende?

- Te liguei... Eu liguei pra saber se você tá bem.

- Sério? Depois de... A última vez que nos falamos foi no meu aniversário. Uma ligação rápida que durou menos de cinco minutos. As ligações que você me faz atender e não diz nada, eu não vou nem colocar na conta porque esse sadismo não é exatamente um diálogo. Aliás, que espécie de mensagem subliminar há em ligar para alguém e não dizer nenhuma palavra, mesmo eu sabendo que do outro lado da linha é você? Eu tô bem. E você?

- Eu... Você me desc... Eu deixei de te ligar exatamente por causa disso. Eu acabo virando alvo da sua irritação.

- Você não me liga mais porque a Patrícia engravidou e vocês se casaram logo depois. Você não liga mais porque você engravidou sua ex quando nós ainda estávamos juntos. Quatro anos. Paro por aqui? Ou posso continuar o meu discurso de abandono e rejeição?

- Só ia te chamar pra tomar alguma coisa. Conversar. Eu sinto falta.

- Eu... Também sinto falta. Mas depois de quatro, cinco anos, a gente aprende uma maneira melhor de conviver com a... não presença.

- Ausência.

- Ausência parece que você morreu. Parece definitivo.

- Talvez seja.

- Certamente.

- Eu tinha a sensação de que depois do nascimento do meu filho, eu ia... mudar. Radicalmente. A vida. A maneira. Os vícios. Tudo. Mas... Ele transformou alguns hábitos, a minha rotina, a minha noção rasa de amor e generosidade. Mas eu... Eu vivo me culpando por não ter mudado.

- O que você pretendia? Acordar diferente? Levantar da cama e afogar tudo o que você viveu antes com uma camiseta escrito ‘papai, te amo’? A gente altera a ordem das coisas, Daniel. Mas não altera o fluxo. O desejo. Os instintos. O que nos coloca em contato com... A gente mascara, camufla, transforma, se adapta. A gente faz concessões, tenta agradar, enfrenta alguns lances porque vida a dois é assim, mas mudar...

- Você tem alguém?

- Faz diferença se eu tiver?

- Você não cansa?

- De tentar? De não acertar? Não desistir? Não, não canso. Acho que é assim mesmo. Tentar, dar uma chance, experimentar se a vida fica bacana com a presença do outro. Normalmente dura menos do que eu espero. Outras, é só sexo casual, sem qualquer envolvimento emocional. É até mais simples, sabe? Fazer sentido não faz, mas no fundo, acredito que o que faz qualquer relação durar, é o bem que se faz ao outro. E o que o outro faz de bom pra gente. Mesmo que esse conceito de ‘bem’ esteja muito longe dos romances.

- Nós nos dávamos bem.

- Sim. Não. A gente se entendia. E a Patricia? Como é a relação de vocês?

- Tem bons momentos. A gente... Um dia você acorda e percebe que a tua vida mudou. Que você tem esposa, um filho, cachorro, aluguel, uma lista infinita de novas responsabilidades. Às vezes eu acordo e acho que eu to vivendo um sonho...

- Ou um pesadelo.

- E que eu vou despertar. Vou abrir os olhos novamente e encontrar um outro ambiente, onde eu não me sinta tão deslocado, tão a ponto de naufragar. Ou sair correndo. Ou explodir. Só que eu não desperto. Eu levanto e vou fazer todas as coisas de sempre. Puto da vida, contrariado.

- Não sabia que um bebê ia te fazer tão infeliz.

- Não é isso. Mesmo. Ele é uma delícia. Sempre. Mesmo nas noites doente. O problema não é o Guilherme. Mas essa vida que ele me obriga a ter para que eu possa...

- Desempenhar o papel de pai.

- Isso!

- Olha, eu não sou o cara ideal pra você ter essa conversa. Eu sou o ressentido. O deixado para trás. Então não espere de mim conforto.

- Por que toda história de amor quando termina precisa de um carrasco filho da puta e uma vítima virgem e triste?

- Gosto muito dessa imagem.

- E se não houvesse mais amor? Se fosse só um amando mais que o outro, desesperado para preencher os espaços cada vez mais vazios entre os dois? Se eu tivesse medo de ir embora e te machucar? Se eu só pensasse em te deixar mesmo não querendo te magoar? Se eu não amasse mais você?

- Eu te acharia um covarde.

- Você sempre detestou a idéia de ficar sozinho e sempre deixou isso tão claro, que eu comecei a ter medo de me abrir com você. De expor os meus lances, minha insegurança. Eu tinha medo de me abrir com você. A sua fragilidade excessiva. O seu temperamento impulsivo. Coisas banais te atingiam e te criavam questões enormes. A gente ficou meio fake. Um casal de fachada, sem vida real entre os dois. Eu com medo de tentar te fazer perceber. Você com medo de ser deixado. Muito medo pra duas pessoas jovens, cara.

- A gente não pode ser amigo. A gente não pode se falar vez ou outra. Ou ir ao cinema, a uma festa juntos. A gente não pode se contar segredos. Ou falar sobre o tempo. A gente não deve se misturar mais. Porque sempre um vai ser vítima e o outro o carrasco. Mesmo que a gente altere as posições. A gente não pode se relacionar como se não houvesse passado entre nós. Como se as novas pessoas e os novos amores pudessem entrar no nosso convívio como confidência de velhos amigos. Não dá. É como se agredir educadamente. A gente faz parte de um grupo de pessoas que só existiram durante o tempo em que viveram juntas. E que se encerram depois do fim. Sem a menor possibilidade de futuro. Ou convivência. Ou companheirismo em uma conversa de telefone. A gente não pode ser nada além do que fomos durante o tempo em que ficamos juntos. Amigos. Amores. Cúmplices. Íntimos. Essa balança desigual de querer, que nunca se equilibrou, mas nos mantinha unidos, atados porque um se alimentava do outro. Depois que você foi embora, eu sempre mantive a ilusão de que poderíamos ser amigos. Bons amigos. Que tinham um passado. Uma história. E que eu te contaria sobre os meus amores. E você me falaria sobre a sua vida. E isso não me atingiria. Não me machucaria. Não me causaria inveja. Dor. Só que não dá. É uma merda, uma grande merda perceber isso – esse fim sem sombra. A gente não pode mais se misturar. Porque eu não posso ter o que eu quero. E eu não quero o que você tem. Ir contra isso é insistir sem fim e permanecer agarrado a uma esperança que não é real. Empacado. Sem coragem para encarar a possibilidade de outra pessoa, pensando em você. Que talvez. Que de repente. Quem sabe? Fica assim: você nunca pensou em mim e foi. Agora é a minha vez.