SOUL KITCHEN de Fatih Akin
“I'd rather be lonely than happy with somebody else”
(Nina Simone em Love Me or Leave Me, de Gus Kahn e Walter Donaldson)
(Nina Simone em Love Me or Leave Me, de Gus Kahn e Walter Donaldson)
O celular tocou e era o primeiro dia da semana. Prático, concordo. Invasivo, admito. Quem quiser te encontrar, é só discar o encontro e você há de atender porque um celular tocando é irresistível. Em qualquer lugar, independente da geografia da cidade, ele invade. Reclama. ‘Me atende’, ele quase diz. E eu entendo. Sem identificar o número. Atendo sem saber. Era o meu sorriso mineiro. Meu amor do Arpoador. Minha ausência no acampamento. Minha luta de judô. Minha quase certeza em uma época de ausências. Ele diz uma certa saudade, diz que vai sair da cidade e volta quando o mês terminar. De longe, me chama daquele jeito de ‘menino’ e eu sorrio e respondo ‘me procura assim que voltar’.
Ele diz que quer me ver antes de viajar. E entre outras frases, a única em evidência e que me pesca fatalmente é a mais estranha de todas:
- Minha namorada está na cidade e quer muito te conhecer.
O coração acelerado e resquícios de uma época onde era mais interessante fugir, finjo uma desculpa, adio o telefonema para o dia seguinte e me deixo cair sem fundo e sem chão, sem travesseiros para amortecer, sem tempo para saber como agir porque o dia seguinte é logo ali. Ao tocar do telefone. Ele. Novamente. Estou em casa, dentro do quarto, amarrado a todos os fio possíveis de desculpas inimagináveis. Diversas. Daria um capítulo. Um livro. Antes de atender, eu não entendo porque devo conhecer a mulher da sua vida, se eu me vejo e me coloco como o homem da sua vida. O único. Aquele que chegou, provocou e aceitou o desafio de ser em alguns poucos anos, uma lembrança de uma época. Caretíssima.
Eu não sei enfrentar essa mulher. Ao lado desse rapaz. Nessa cidade.
Vou driblar esse cara, eu penso. Mas ele não é um cara, cara. E pensar e dizer alô e tudo que veio após o alô são matemáticas distintas. Que sequer se complementam. Do outro lado da linha, ele me instiga. Embora eu seja óbvio. Eu sei que eu sou. Fato que devo aceitar e me passa o sal, por favor? Saudade, ele reitera. Viagem longa, ele me desespera. Eu peço mais um dia, alego trabalho, prazos, minto. Adiar não vai me fazer mais forte, mais sarado, mais articulado. Meu pau não vai aumentar de hoje para amanhã. Amanhã, então, minha última noite por aqui, ele ameaça docemente.
Até que ele telefona e o celular sentencia o encontro.
- Então encontro você às nove e quinze no Bob’s de Copacabana. Aquele de frente para a praia.
- Porra, no Bob’s. O que você quer? Um ovomaltine?
Disco para o amigo e conto do meu medo bobo de encarar uma situação que me parece definitivamente constrangedora. Porque a namorada sabe da nossa... do nosso. Dessa coisa não planejada. Desse furto. Ela sabe, ele contou. E eu não sei a reação dela, mas me parece que ela quer me conhecer. E eu não sei se eu quero. Eu não quero ir, isso eu sei. Porque eu tenho medo que ela me esfaqueie ou me leia um feitiço em voz alta e eu não sei reagir à agressividade. Eu não sei brigar. Tenho muita dificuldade com esse tipo de disputa porque eu quero sempre ganhar. E nesse caso, eu já entro em desvantagem de pontos, de colocação, de sexo, porra. Se eu fosse esperto, eu enchia a cara e já chegava amortecido. Mas eu não tenho tempo, eu vou me meter num táxi. Você vem comigo, pelo amor do santo? Eu te pego, eu te pago, seja exatamente o que você é. O amigo que vai me levar pra emergência. Ou para casa, enfim? Você topa?
- Tenho escolha?
- Obrigado.
Cheguei na hora marcada. Eu devo ser o último dos cariocas que chegam na hora marcada, mas eu tenho essa crença de que o que me dizem, é, de fato, o que me querem dizer. E para quebrar minha tensão, entrei na fila para comprar um ovomaltine.
- Cara, sai dessa novela. Isso é só um encontro. Vai fazer algum trabalho comunitário.
- Um ovomaltine. Pequeno. Não. Gigante. O maior que você tiver. Onde eu estacionei? Eu liguei o alarme? Que horas são? Você não acha melhor ir embora?
- Nós viemos de táxi. Menos abstração. Pés no chão. Não há platéia.
O barulho das ondas quebrando no mar de Copacabana. O sangue quente. Por nenhum motivo. Por todos os motivos. O corpo numa única pulsação. Feito dirigir numa estrada escura. No meio da chuva. Sem visão nítida. Acelerado. A dez por hora. Acelerado. A cinco por hora. Aquela louca deliciosa que a Marilia Pera fez no especial do Roberto Carlos.
‘Vivo fugindo sem destino algum’ – ela gritava, cantava, urgia, alertava, berrava que o tempo, porra, o tempo, a 130, as imagens se confundem, meu mundo assombrado, voando pela vida, a 180, porra Roberto, porra.
Até que eles chegaram. O menino me abraçou por trás. Pouco antes que eu pegasse o milkshake e disse que sentia a minha falta. Tanto, ele sentia ‘tanto’ a minha falta. Disse que andou lendo um material antigo que ele tinha pego na última visita. Que ele estava lendo o que eu escrevo quase todos os dias. Um arrepio. Até que os olhos dela encontraram os meus. E não houve medo. Ou enfrentamento. Ou fadiga. Injustiça. Nada. Ela olhou nos meus olhos da mesma maneira que o menino olhou quando, ambos, percebemos. Não era só a beleza. Ou o abraço. Ou o perfume. Era a cumplicidade que se estabeleceu antes de qualquer formalidade. Entendi que a velocidade do que a gente sente é muito diferente da velocidade das coisas que se movimentam. Que muitas vezes o mínimo, fagulha, coloca no lugar um monte de dúvidas velhas e joga pro alto mistérios, soluções, interrogações, um monte de blábláblá.
Depois sentamos na areia. Vinho. Vento. Sorrisos. Um monte de histórias que não contavam ou justificavam as nossas histórias. Como um belo brinde à beira do mar. Quatro pessoas e a imensa vontade de estar juntos, por motivos distintos e variados. O amor de um pelo outro e pela outra e entre nós e entre eles, sem que isso se medisse ou se comparasse ou se discutisse. Não doeu. Não incomodou. Ao contrário, me fez mais feliz. Me encheu de esperança. De vontade de fazer um monte de coisas que eu deixei de lado. Tive vontade de retomar textos, aproveitar idéias. Continuar conversas. Um desejo veloz. Urgente. Intenso. Sensação que eu tive antes, muito tempo atrás, quando ouvi aquele solo de piano da Nina Simone. Um momento que me marcou, que me encheu de inspiração, eu acho. Ou energia. Ou vontade de amar e ser amado, naquela cadência, com aquela paixão, na excelência daquela cantora e daquele piano.
Depois, mais tarde, no carro deles, antes de nos separarmos, paramos para abastecer. No posto de gasolina, lugar de perigo ao fogo, ele risca pela primeira vez um ‘te amo’. E a resposta imediata, sem medo e com muita calma, eu respondi meu ‘eu te amo’. Abraço daqueles de proteger o mundo. Nos despedimos com vontade de permanecer. O mais bonito de tudo.
Acima o vídeo da Marilia Pera cantando “120, 150, 200 km por hora", do Erasmo e do Roberto e o piano da Nina Simone em “Love Me or Leave Me”.
Ele diz que quer me ver antes de viajar. E entre outras frases, a única em evidência e que me pesca fatalmente é a mais estranha de todas:
- Minha namorada está na cidade e quer muito te conhecer.
O coração acelerado e resquícios de uma época onde era mais interessante fugir, finjo uma desculpa, adio o telefonema para o dia seguinte e me deixo cair sem fundo e sem chão, sem travesseiros para amortecer, sem tempo para saber como agir porque o dia seguinte é logo ali. Ao tocar do telefone. Ele. Novamente. Estou em casa, dentro do quarto, amarrado a todos os fio possíveis de desculpas inimagináveis. Diversas. Daria um capítulo. Um livro. Antes de atender, eu não entendo porque devo conhecer a mulher da sua vida, se eu me vejo e me coloco como o homem da sua vida. O único. Aquele que chegou, provocou e aceitou o desafio de ser em alguns poucos anos, uma lembrança de uma época. Caretíssima.
Eu não sei enfrentar essa mulher. Ao lado desse rapaz. Nessa cidade.
Vou driblar esse cara, eu penso. Mas ele não é um cara, cara. E pensar e dizer alô e tudo que veio após o alô são matemáticas distintas. Que sequer se complementam. Do outro lado da linha, ele me instiga. Embora eu seja óbvio. Eu sei que eu sou. Fato que devo aceitar e me passa o sal, por favor? Saudade, ele reitera. Viagem longa, ele me desespera. Eu peço mais um dia, alego trabalho, prazos, minto. Adiar não vai me fazer mais forte, mais sarado, mais articulado. Meu pau não vai aumentar de hoje para amanhã. Amanhã, então, minha última noite por aqui, ele ameaça docemente.
Até que ele telefona e o celular sentencia o encontro.
- Então encontro você às nove e quinze no Bob’s de Copacabana. Aquele de frente para a praia.
- Porra, no Bob’s. O que você quer? Um ovomaltine?
Disco para o amigo e conto do meu medo bobo de encarar uma situação que me parece definitivamente constrangedora. Porque a namorada sabe da nossa... do nosso. Dessa coisa não planejada. Desse furto. Ela sabe, ele contou. E eu não sei a reação dela, mas me parece que ela quer me conhecer. E eu não sei se eu quero. Eu não quero ir, isso eu sei. Porque eu tenho medo que ela me esfaqueie ou me leia um feitiço em voz alta e eu não sei reagir à agressividade. Eu não sei brigar. Tenho muita dificuldade com esse tipo de disputa porque eu quero sempre ganhar. E nesse caso, eu já entro em desvantagem de pontos, de colocação, de sexo, porra. Se eu fosse esperto, eu enchia a cara e já chegava amortecido. Mas eu não tenho tempo, eu vou me meter num táxi. Você vem comigo, pelo amor do santo? Eu te pego, eu te pago, seja exatamente o que você é. O amigo que vai me levar pra emergência. Ou para casa, enfim? Você topa?
- Tenho escolha?
- Obrigado.
Cheguei na hora marcada. Eu devo ser o último dos cariocas que chegam na hora marcada, mas eu tenho essa crença de que o que me dizem, é, de fato, o que me querem dizer. E para quebrar minha tensão, entrei na fila para comprar um ovomaltine.
- Cara, sai dessa novela. Isso é só um encontro. Vai fazer algum trabalho comunitário.
- Um ovomaltine. Pequeno. Não. Gigante. O maior que você tiver. Onde eu estacionei? Eu liguei o alarme? Que horas são? Você não acha melhor ir embora?
- Nós viemos de táxi. Menos abstração. Pés no chão. Não há platéia.
O barulho das ondas quebrando no mar de Copacabana. O sangue quente. Por nenhum motivo. Por todos os motivos. O corpo numa única pulsação. Feito dirigir numa estrada escura. No meio da chuva. Sem visão nítida. Acelerado. A dez por hora. Acelerado. A cinco por hora. Aquela louca deliciosa que a Marilia Pera fez no especial do Roberto Carlos.
‘Vivo fugindo sem destino algum’ – ela gritava, cantava, urgia, alertava, berrava que o tempo, porra, o tempo, a 130, as imagens se confundem, meu mundo assombrado, voando pela vida, a 180, porra Roberto, porra.
Até que eles chegaram. O menino me abraçou por trás. Pouco antes que eu pegasse o milkshake e disse que sentia a minha falta. Tanto, ele sentia ‘tanto’ a minha falta. Disse que andou lendo um material antigo que ele tinha pego na última visita. Que ele estava lendo o que eu escrevo quase todos os dias. Um arrepio. Até que os olhos dela encontraram os meus. E não houve medo. Ou enfrentamento. Ou fadiga. Injustiça. Nada. Ela olhou nos meus olhos da mesma maneira que o menino olhou quando, ambos, percebemos. Não era só a beleza. Ou o abraço. Ou o perfume. Era a cumplicidade que se estabeleceu antes de qualquer formalidade. Entendi que a velocidade do que a gente sente é muito diferente da velocidade das coisas que se movimentam. Que muitas vezes o mínimo, fagulha, coloca no lugar um monte de dúvidas velhas e joga pro alto mistérios, soluções, interrogações, um monte de blábláblá.
Depois sentamos na areia. Vinho. Vento. Sorrisos. Um monte de histórias que não contavam ou justificavam as nossas histórias. Como um belo brinde à beira do mar. Quatro pessoas e a imensa vontade de estar juntos, por motivos distintos e variados. O amor de um pelo outro e pela outra e entre nós e entre eles, sem que isso se medisse ou se comparasse ou se discutisse. Não doeu. Não incomodou. Ao contrário, me fez mais feliz. Me encheu de esperança. De vontade de fazer um monte de coisas que eu deixei de lado. Tive vontade de retomar textos, aproveitar idéias. Continuar conversas. Um desejo veloz. Urgente. Intenso. Sensação que eu tive antes, muito tempo atrás, quando ouvi aquele solo de piano da Nina Simone. Um momento que me marcou, que me encheu de inspiração, eu acho. Ou energia. Ou vontade de amar e ser amado, naquela cadência, com aquela paixão, na excelência daquela cantora e daquele piano.
Depois, mais tarde, no carro deles, antes de nos separarmos, paramos para abastecer. No posto de gasolina, lugar de perigo ao fogo, ele risca pela primeira vez um ‘te amo’. E a resposta imediata, sem medo e com muita calma, eu respondi meu ‘eu te amo’. Abraço daqueles de proteger o mundo. Nos despedimos com vontade de permanecer. O mais bonito de tudo.
Acima o vídeo da Marilia Pera cantando “120, 150, 200 km por hora", do Erasmo e do Roberto e o piano da Nina Simone em “Love Me or Leave Me”.