O QUE VOCÊ QUER SABER DE VERDADE, de Marisa Monte
O som da madrugada carioca. Copos brindando, uma sirene distante, risadas e sorrisos e lábios, garrafas que se esbarram ao serem trocadas, o isqueiro que acende um, dois cigarros, o sopro da fumaça, o smuack dos beijos dos amigos que se encontram e se perdem por aí, as palavras das conversas fragmentadas de um bar, as frases que se perdem e nunca mais se acham, uns acordes de um violão desafinado, palmas desencontradas, dispersas e copos, aos montes, em tim tim permanente, quebrados, em riste, transbordando em direção ao seu destino de ser virados goela abaixo.
Você conhece cinco ou seis pessoas, os demais você foi apresentado educadamente festas atrás, eles não sabem seu nome, mas você também não sabe os deles, parece um empate justo. Então você brinda e sorri e conversa com dois ou três sobre assuntos corriqueiros e os outros três ou quatro estão na outra ponta da mesa, animados, excitados com os assuntos recorrentes de uma mesa de bar. O telefone vibra e embora nem tanto tempo tenha passado assim, o nome que aparece no dial é o nome do amor da sua vida, que por razões múltiplas e infinitas, deixou de ser o homem da sua vida quando por outros tantos motivos infindáveis, recusou o seu amor e foi embora. Com outro homem que mais tarde você soube, foi apenas uma tentativa sem sucesso.
Há um momento rápido, entre encarar o celular em dúvida, profunda dúvida, se vai atender ou não ao chamado ou fingir que não ouviu e brindar aos ilustres desconhecidos da imensa mesa de bar. Profunda por ser essa a primeira vez, depois do adeus, que um dos dois faz contato. E esse momento, é sim, sem exagero, importante, talvez decisivo, porque pode mover arquiteturas que julgava finalizadas. Atender poderia lhe causar novos labirintos, mover paredes, fechar ou o pior, abrir outras portas para lugar nenhum. Hesitou. Percebeu que não atender era inteligente. E mostrava um equilíbrio emocional que ele tanto perseguia. Um telefone tocando não poderia alterar o curso dos acontecimentos. Racionalizando, era apenas um aparelho eletrônico vibrando. Mentira.
- Que surpresa – quase trêmulo ao fechar os olhos. O mundo não vai terminar hoje. Esse impulso é o impulso de querer saber, de querer ouvir, de querer compreender porque você, porque essa noite, se você pensa em mim e o que te leva a fazer a ligação, mas por que hoje depois de tantos meses, de tantos tropeços, depois de antes quando ainda não havia tantas frestas, tanta falha na recepção da comunicação. Quando ainda não havia tanta dor.
- Bom te ouvir. Barulheira. Tá na rua?
- Uma festa. Um bar. Tá cheio de gente que eu não conheço.
- Você nunca gostou de bar.
- Eu nunca gostei de gente também. Continuo não gostando. Mas abrir mão não mata ninguém. É saudável até.
- Tá sozinho? Digo, você está com alguém? Alguém?
- Que tipo de pergunta é essa?
- Desculpa.
Você não sabe porque se apaixona por alguém. Há alguns indícios óbvios. Porque a beleza encanta, enfeitiça, mas não sustenta, não alimenta futuro. Então não é pelos traços encantadores do teu rosto. Ou pelo corte de cabelo e tuas roupas perfumadas. Há algo invisível. Que depois de algumas semanas, depois de alguns dias de convívio e ou expectativa, que te aproxima daquela pessoa. Que quer te aproximar ainda mais daquela pessoa. E quando ela é receptiva, quando ela também se apaixona, há um descobrir incessante por algum tempo. Os primeiros toques, as primeiras reações, entradas e saídas e retornos. Há a percepção do outro, de como ele pode ensinar, o quanto ele pode somar e melhorar e salvar do desabamento. O quanto é importante dividir os dias e também o carinho. Há generosidade quando você se apaixona porque você deixa entrar um estranho na sua vida. É saudável, por alguma razão.
- Eu não sei o que dizer. Você me pegou de surpresa. Eu não sei o que te dizer, mas tenho certeza de que não é com quem eu estou ou não estou.
- Certo, você tá certo. Eu liguei mesmo para saber, ouvir, te ouvir.
- Isso não é um motivo. Me ouvir. Saber. Qual é? Nossas histórias estão acertadas, concluídas. Desacertadas, na verdade. E se nós resolvemos isso juntos, seria bacana você respeitar. Ou eu estou azedo demais hoje?
- Eu deixei um cd na tua portaria hoje de tarde.
- Ah é? Eu deixei algum na tua casa? Esqueci por lá?
- Eu comprei um cd hoje e deixei na sua portaria. Uma lembrança.
- Eu vou desligar. Tô começando a me arrepender de ter te atendido.
- O que você quer saber de verdade?
Eu quero que a madrugada me engula a curiosidade. Eu quero pegar nos braços de um estranho e conversar a noite toda sobre todos os assuntos desimportantes que existem. Quero tomar cerveja ouvindo o mar nas costas, a lua no céu e se não for pedir demais, uma brisa de verão. Eu quero deixar de lembrar que tempos atrás você me deu uma rasteira quando, com palavras, você me disse que não, não é a hora. E depois, com os olhos, me fez compreender que era realmente um não. Eu nunca soube superar. Eu passei dias, horas, minutos, sem saber como reagir. Como reorganizar o caos que eu jamais vou conseguir domar. Domar o inominável. Acalmar a loucura. Abafar os sons, os sais, os ais. Quero correr na areia e quando estiver no limite do cansaço, mergulhar o corpo quente no mar frio e relaxar olhando o céu.
- É para responder?
- É o nome do cd da Marisa Monte. Saiu hoje. Eu comprei para você.
Sem saber o que dizer, não disse. E pensou em desligar. Pensou também que deve haver algum tipo de sadismo e ironia em sustentar aquela situação. Que esse personagem – o cara que apaixonado pela vida inteira, vai receber essas ligações, sempre que sair um cd de amor, sempre que pintar uma crise, uma comédia romântica – esse personagem é um miserável ultrapassado. Que deve haver um grande manipulador do outro lado da linha, incapaz de deixá-lo tentar acertar. Uma espécie de âncora, puxando para baixo para marcar o território. Que por infinitos motivos, não segue adiante ao lado. E não permite que ele siga porque a cada ligação dessas, a cada carta escrita nos momentos de incerteza, cada dúvida antiga, vai gerar um movimento viciado que sempre vai fazer desmoronar sua coleção pequena de certezas. Por quanto tempo dançar sozinho? Por quanto tempo dançar junto, à espera de uma nova ligação, de um novo repensar do outro? Ignorando pretendentes, fingindo não perceber quem está ao redor. As flores que existem. Até que ele decida, finalmente e vá ao seu encontro viver sua história pretendida. Essa é uma relação mentirosa que jamais vai acontecer. Não houve amor da sua parte. Apenas esse medo monstruoso de ficar sozinho, no fim das contas.
- Agradeço.
- Lembra tanto o Memórias, crônicas e declarações de amor.
- Agradeço, mas eu comprei o meu. Você pode pegar de volta na portaria. Presenteie outra pessoa.
E desligou.
Saiu do bar e foi em direção ao mar. Por que o mar é tão importante assim? Porque tudo fica tão menor quando olhamos o mar? Porque é enorme. E essas paisagens enormes, incontroláveis, injustificáveis, nos dão material para repensar as migalhas. E é bonito pra caralho.
Pegou o celular. Selecionou música. Cantora. Marisa Monte. O que você quer saber de mim. Depois, faixa três. Deu play: