segunda-feira, fevereiro 26, 2007

DREAMGIRLS de Bill Condon

O terceiro sinal e o público acomodado. A platéia que antes conversava, faz agora silêncio e ouve os anunciantes atentos até que a luz cai em resistência e a cortina abre. A atriz em cena observa os espaços vazios, as cadeiras não ocupadas do teatro e diz seu texto como todas as noites. Como todas as noites, sua maior preocupação ao abrir da cortina, é saber se existem mais cadeiras ocupadas do que vagas. O texto sempre acontece de forma emocionada e intensa, mesmo quando o seu pensamento foge para todas as direções, mesmo quando seus olhos constatam uma noite fraca ou lotada ou morna. A qualidade do trabalho da atriz não deixa sua audiência sequer imaginar qualquer fio de preocupação a não ser o de brilhar. E brilha. Por vinte minutos, sozinha em cena e dona de um texto de quase quatro páginas, ela prende a atenção e os olhos. Desperta interesse, sem grandes artifícios de iluminação. Sem efeitos sonoros. Daqueles espetáculos de antigamente onde o ator e somente o ator, era o principal instrumento de comunicação entre o palco e a platéia. Ao final do seu monólogo inicial, o público aplaude com entusiasmo e dependendo da noite, ainda ouve-se algum bravo ou espetacular, dessas palavras que alimentam o ego fera dos atores. Ao sair de cena, precisa abrir uma porta do cenário, de onde entra outra atriz – e o espetáculo em questão usa três atrizes que não contracenam entre si, mas que se encontram nas transições das cenas e somente ao abrir a porta para que uma saia, ao observar a outra entrar.

- Você viu? Nem olhou para mim hoje. Olhou para a porta, a maçaneta, sabe-se lá para onde, mas para os meus olhos, nem olhou. E outra, essa maçaneta ainda vai cair um dia. Ela está quase solta. Sinto pânico quando se aproxima a hora de abrir aquela porta. Marca infeliz essa. Aliás, de quem é essa marca? Minha ou da direção?
- Da direção. A senhora sempre gostou dessa marca. Acho ela tão bonita.
- Pode ser, o problema não é a marca, o problema é a maçaneta. E se um dia ela cai? Imagina? Todo o meu monólogo cai por terra, junto com ela. Aliás, hoje são vinte e oito. Vinte e oito cadeiras vazias. Só do lado esquerdo. Quando eu ia começar a contar o meio e o lado direito, senti uma dor de cabeça tão forte que pensei que fosse cair. Mas eles não perceberam, eles nunca percebem.
- Nem eu percebi. A senhora estava tão bem.
- Sou obrigada a concordar. Estava realmente bem. Eu conto o meio e o lado direito na minha última cena. Ouvi um celular de longe, bem baixinho, na parte do copo, antes de pegar o copo. Encarei a platéia e me dirigi ao copo. No meio do caminho, eu me dei conta de que poderia ser o meu celular, o meu telefone. Então comecei a refazer o meu trajeto até aqui. Incluindo a coxia e o cigarro e não consigo me lembrar se desliguei o celular. Eu desliguei o celular? Querido, ligue para o camarim e peça para que o tragam até aqui.
- Sim senhora.
- Acho essa a parte mais monótona. A coxia. Essa eterna espera até a minha próxima cena. Se ela não fizer o público cochilar, como sempre faz, ganhamos uns três minutos e vou embora mais cedo. Domingo a cidade é tão sem graça. Quando era mais jovem, as sessões de domingo eram as mais gostosas de fazer. Chegava no teatro e pensava que é um dia tão sem sal, mas tão sem sal, que estar em cena era a melhor das aventuras. O melhor programa. Hoje em dia já não vejo assim. Aliás, esse é um bom tema para pensar enquanto estiver em cena: o que era bom antes e que hoje perdeu a graça. Se tivesse contado todas as cadeiras vazias, começava hoje mesmo. Mas ainda tenho o meio e o lado direito. E meu texto final é tão menor que a das outras. Não dá para pensar em quase nada.
- Seu texto final é lindo. Apoteótico.
- Sim, apoteótico. Começamos lindamente e terminamos bem. O problema é o meio. Acho que o ritmo se perde no meio. Algumas linhas são valorizadas sem necessidade. Um tempo longo entre as falas. Eu confesso que pensei que depois da estréia, os tempos se ajustariam, engano meu. Um dia ainda conto no relógio o tempo morto que se gasta em cada uma das cenas. Das duas. Nem digo muito da segunda, a menina entende o que está fazendo, mas não demos sorte com essa aí não... Robótica. Ela é robótica. Repete o texto e os tempos e até o olhar sempre da mesma forma. Não parece viva. Mas não sou eu quem vai fazer críticas ao trabalho da companheira. Um guaraná, sugiro que a camareira sirva guaraná no camarim. Vamos ver se a energia aparece em cena.
- Semana que vem, na quarta-feira, guaraná.

Perto do fim:

- Houve um tempo, meu caro, em que estar em cena queria dizer alguma coisa. Levantar uma bandeira, vestir a camisa, em cena, na função de atores, instrumentos divinos, declarávamos guerra e paz. Insultávamos e agraciávamos. Choramos mortes em cena. Morte de amigos atores, diretores, gente da carpintaria do teatro. Eu fiz um Molière que chorou a morte do bilheteiro mais gentil que conheci. Encontrei um espaço dentro da comédia para chorar a morte daquele homem delicado e amável. Sem fugir da peça, sem tentar fazer outra peça dentro daquela. Energia de atores. De grupo, que faz do palco o lugar sagrado para contar a sua história e celebrar os seus. E no final da sessão, ao sair do teatro, saíamos de bem, limpos e conscientes. Eu não esqueço dessa noite. A classe teatral de luto. E a melhor apresentação. A platéia lotada sorrindo o Molière, aplaudindo e gargalhando, soltando os seus bichos enquanto nós chorávamos a morte do colega.
- Os tempos mudaram, senhora.
- Os tempos talvez tenham mudado. O teatro não mudou. Veja você que não existe lugar mais acolhedor do que uma coxia como essa. De onde observamos a vida dentro da vida, detalhadamente. Aguardando o momento exato. A luz exata. A transição que através da porta, símbolo da nossa peça, nos permite a entrada e a saída de cena. O teatro não mudou, meu caro. E talvez não mude, como uma certeza inquebrantável. Por mais que brinquem com as convenções e as suas rupturas, com a pluralidade da linguagem, sempre vai existir a tensão do público e a atenção do ator. É da tradição desse encontro, dos olhos e da imagem, que eu me alimento.
- Senhora, com todo o respeito, como fala tão lindamente sobre o seu ofício se em cena, conta os assentos vazios, faz listas e pensa na vida real?
- A vida real, meu caro, atravessa o pensamento, feito uma teia sem controle. A vida real é o norte. É a morte do teatro também. Os mecanismos do ator são diversos. As suas técnicas, o mapeamento das emoções. Decifrar esse código, é também fazer uma pessoa perder o encanto. Como eu faço para parecer de quarta a domingo, a louca sem esperança que conversa com as paredes? Como é estar louca de quarta a domingo, toda a noite? Tentar te fazer compreender esse processo, seria como radiografar, examinar um louco e teorizar todas as possibilidades que fizeram com que o tal louco fosse louco. Falar com você, meu caro, toda a noite, é de certa forma, falar com as paredes. E enlouquecer um pouco.
- A sua marca, senhora.
- Sim, a minha marca e meu monólogo final.
- O meio e o lado direito, não esqueça.
- Sob hipótese alguma.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007


PECADOS ÍNTIMOS de Todd Field

- Não desliga não.
- Quero ver um filme. Ainda vou tomar banho. Esse papo me deu sono.
- Mais um pouco só.
- Então me conte alguma coisa. Me sopre uma fofoca.
- Minha ou alheia?
- Alheia só tem graça se eu conhecer a pessoa. Eu conheço?
- Não, acho que não... Lembra da irmã do vizinho de cima? Não, você não lembra...
- Não lembro. Uma sua então. Fofoca, curiosidade, alguma coisa sobre você que me cause estranheza. Que me deixe em dúvida.
- Eu transei com uma mulher noite passada.
- Mentir não vale.
- Mas é sério! Eu transei com uma mulher noite passada.
- Ah, cara. Mentira é putaria. Corta o barato da conversa.
- Qual é? Não posso ter tesão em mulher?
- Você? Não, não pode.
- Você precisa de provas, então. Mas eu jamais te mostraria o vídeo...
- Que vídeo?
- No celular. Fizemos um vídeo para tornar a coisa mais excitante.
- A coisa?
- É. O ato.
- A foda.
- Isso.
- Sei. Mas nesse vídeo eu consigo ver seu rosto e seu corpo? Saber se realmente é você na imagem? Ou fica naquela de perna e bunda, peito e músculos, sem identidade? Porque se eu não te identificar, continuo não acreditando.
- E você não conhece o meu corpo?
- Faz tempo que não... Faz tempo que... Faz tempo.
- Sim, muito tempo. Nem barba eu tinha, eu acho.
- Você nunca teve barba.
- Ao contrário de você, que sempre me arranhava todo.
- Ainda não acredito. Mulher?
- Não entendo sua surpresa. Existe alguma lei que me impeça?
- Quanto tempo nos conhecemos?
- Muito tempo. Sei lá, uns quinze anos.
- A primeira boate, o primeiro sexo, o primeiro amor e junto com tudo isso, o primeiro amigo também. A nossa história passa por um período de transformação, onde nós passamos juntos pelo inédito. Muitas vezes.
- Você está parecendo a Joana do Gota d’água.
- Vou ver o meu filme.
- Espera.
- Vai me dizer agora que ela engravidou?
- Não.
- Então...
- Foi diferente. Eu não estava procurando. Aconteceu.
- Sei...
- Começou na conversa. Atração física. Eu nunca disse que não gostava de mulher.
- Não precisa se justificar. Esse texto fica pobre.
- Foi bom. Eu me senti inteiro.
- Sabe o que parece? Que você está se desculpando.
- Estou te contando, você é meu...
- Amigo. Eu sou seu amigo. Não precisa agir como se eu fosse seu....
- Namorado.
- Companheiro. Aquele papo da primeira vez, era só pra te dizer que nunca, durante todo esse tempo que nós nos conhecemos, você demonstrou interesse por sexo com mulher.
- Isso não quer dizer muito.
- Depende do ponto-de-vista.
- Continuo a dizer que não significa nada. Eu não posso, de repente, só para arriscar, para saber como é, demonstrar interesse por... culinária?
- Na sua geladeira só tem congelados.
- Um exemplo, foi um exemplo. Por pintura, fotografia, um filme que eu não gostei na adolescência e que agora quero rever, por gatos, eu nunca gostei de gatos e hoje eu tenho o Dudu.
- De repente eu estou sendo um imbecil. Comparando buceta com congelados.
- Se a gente fecha as portas, a gente encerra também uma possibilidade de acerto.
- Citando Procura-se Amy para mim?
- Não. Na verdade, eu estou compreendendo na prática esse discurso.
- Não fode.
- Já percebeu essa ditadura sem necessidade que a as pessoas vivem? Enquadram os gays e dentro desse quadro, criam classificações absurdas, arredondam os hábitos, classificam os produtos, ah que saco! Por que não posso ousar? Experimentar sem ser censurado?
- Tenho duas respostas: uma bem pesada e outra mais leve, mas sem sal.
- Não quero nenhuma das duas.
- Você me conhece.
- Ultimamente eu penso que conheço o seu sarcasmo e a sua ironia grosseira. Você anda perdido no meio dos dois.
- Só porque eu não consigo imaginar você fudendo com uma mulher não significa que eu não acredite em você.
- Você simplifica de maneira irritante.
- Você enaltece de forma ridícula. Vai me dizer que foi lindo e o amor estava no ar e que os corpos e os seios dela nas suas mãos te causavam uma sensação gostosa e etc? Por favor... Você trepou com uma mulher? Ótimo, mas não venha querer coçar o saco e ver futebol na televisão porque você não está falando com a sua irmã.
- Agora se eu não desligar é porque sou um idiota.
- Você não suporta a vida real. Para você, tudo tem que significar e reverberar e criar poesia e beleza e sono... isso me dá sono. Você nunca suportou o real. A vida crua. Ali. Desejo pelo desejo. Fome. Necessidade. Seu amor é viciado em trilha sonora. Ele não agüenta a pressão do silêncio real. Essa sua vida de acontecimentos supostamente interessantes que justificam uma falsa entrega, uma pessoa que aparenta disponibilidade, mas que está presa e os cadeados estão enferrujados. Você não suporta o real.
- É por isso que você está sozinho. Poucos amigos, nenhuma relação estável. Sexo em dia? Tudo bem, mas cada dia com um cara diferente, em lugares pouco higiênicos, correndo o risco sem necessidade. Essa tua vida real não me interessa. Eu passo. Dispenso.
- Meu filme. Depois me liga para marcar o cinema. Quero ver esse vídeo.

Era assim. E ponto. Os limites haviam perdido o significado. A dor, se ainda havia, era comum e o incômodo fazia parte da história sem muita importância. Do outro lado da cidade, dois homens se conheceram na esquina de um bairro movimentado. Uma mulher cantarolava no banho e era aplaudida pelos vizinhos. E duas crianças brincavam de esconder na escada do prédio sem se importarem com o barulho que faziam. O céu ventava nuvens. Alguém de algum apartamento ouvia Nina Simone e era gostoso. Um casal fazia sexo em voz alta e alguns adolescentes riam excitados. E a televisão iluminava a maior parte das salas de cada quarteirão. Três da manhã, um carro em alta velocidade atropelou um homem. E todos desceram para observar a cena. Era comum. Comentários banais sem dar muita importância ao corpo no chão. Os limites haviam perdido o significado. Sem dor, fica mais fácil transitar. Atalhos da vida real. Era assim. Ponto.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007


O CÉU DE SUELY de Karim Aïnouz

Parado. Na plataforma. Esperando o trem. Equilibrava-se entre a mochila, duas malas e uma garrafa de água, faz muito calor e é verão. Parado, buscava o equilíbrio entre os objetos. Buscava o equilíbrio, como qualquer um de nós. E driblava o excesso e a agitação da cidade, sabe-se lá com que humor, com quais sonhos. A pele branca queimada de sol – às vezes o céu abre e não é tão azul, mas ainda faz sol e é verão. Na nuca uma tatuagem pequena, discreta, algum símbolo que a minha ignorância não soube identificar. Aquela simplicidade masculina arrebatadora de jeans e camiseta. Branca. Os olhos castanhos e escuros, eu constatei quando ele constatou. E sorrimos. E percebi que ao sorrir, os músculos do rosto ao se contraírem, faziam com que a sua expressão modificasse radicalmente os traços.

- Quer ajuda?
- Se você puder...
- Eu posso.
- Eu quero.

Assim o diálogo inicial refletia em ambas as frases, o imperativo. Poder e querer são potências indiscutíveis entre dois espaços. E assim o imperativo acaso fez com que momento presente inaugurasse e iluminasse no encontro inédito da mesma cidade, os olhos de um. E de outro. Ajudei a carregar uma das malas quando o trem se aproximou. Ao entrar no vagão, por um momento, o braço dele inaugurou, por acidente e confusão, o toque no meu braço. E antes de poder concluir o pensamento de que aquela era a primeira vez, ele se adiantou em sorriso e falta de jeito:

- Me desculpa.
- Não foi nada.
- Estou atrapalhado.
- Eu concordo.

Seguimos por três estações em silêncio não combinado. A textura da pele, macia, eu arriscaria de tão próximo. E o perfume não era exatamente um perfume. Era bom. Bom, sem dúvida. Até que o trem parou dentro do túnel. E a voz do maquinista, tão treinada quanto segura, nos informou com desprezo de que permaneceríamos parados por mais alguns minutos. Através das janelas, a escuridão subterrânea de um túnel qualquer da cidade. Tentei disfarçar o meu nervoso, até que ele percebeu que eu percebi que ele tinha compreendido o meu nervosismo com fins claustrofóbicos e não era para menos, estar preso dentro de um trem fechado dentro de um túnel escuro dentro de uma estação fechada, abaixo da cidade em movimento.

- Você está bem?
- Não. Sim. Quero dizer, eu...
- Eu entendo. Quer um pouco de água?
- Por favor.

Alguns minutos depois o trem voltou a funcionar. Saímos do túnel. A cidade lá fora em movimento. A possibilidade do pânico diluiu-se no movimento da luz, das pessoas em ação, do diálogo tímido retornando. Pensei nos meus mínimos óbvios. Daquilo que não deve ser banalizado, não deve ser desperdiçado. Daqueles carinhos, de algumas palavras, alguns silêncios necessários. Pensei que às vezes a gente estaciona a vida por necessidade. Outras vezes sem perceber. Simplesmente por perder o ritmo. Pensei em algum filme, desses que me encantam e me ensinam e pensei também que a vida real me interessa muito mais que a fantasia, embora ambas me coloquem em movimento. Tive vontade de convidar o rapaz das malas para tomar uma cerveja. Tive o desejo de ser feliz, assim no repente, como num estalo, dentro do metrô. O desejo maior de ser sabe-se lá se feliz, acho que sim, essa é a palavra que mais se aproxima do que eu gostaria de dizer. De maneira intensa, eu senti. Tão forte. E tão definitivo quanto assustador. Até que ele me interrompeu:

- Eu fico aqui.
- Eu também. Você tá chegando?
- Eu tô indo embora.

Os olhos molhados, ele me disse sem desviar o olhar. Eu tô indo embora, ele me repetiu. Um momento de intimidade surgiu entre nós, sem que nada pudéssemos fazer. Ou dizer. Saímos do trem e a estação nos embaralhou os passos, aos poucos fomos nos perdendo, nos distanciando e nos misturando ao plural. Pensei que às vezes precisamos engolir o desejo. Querer ser nem sempre coincide com o cenário. Com a história. Ou os personagens. Mas é imperativo querer. Contido, rasgado, declarado ou tímido. Querer. Um dia eu acerto. Um dia eu me despeço. Agora digo adeus ao tal homem que eu não sei o nome e que me deixou aceso. Em plena noite carioca. Pensando nos meus ais. Sem som. Óbvio.