terça-feira, maio 29, 2007

QUE HISTÓRIA ESPERA O SEU FIM LÁ EMBAIXO ?

da Quantum Cia. de Teatro

Ouça bem o que eu vou te dizer porque é no limite entre o chão e o abismo que eu abro a garganta e deixo a voz conduzir as palavras, antes do salto. Tudo o que eu ainda não sei sobre você, tudo o que você já compreendeu ou constatou, toda essa linha cruzada de fios invisíveis e tão reais, tudo isso nos afasta em definitivo que também é mentiroso e vulnerável. O que eu quero dizer é que nós não somos um para o outro. Não parecemos encaixar. Você não é tão simples como eu imaginei e isso, de ser simples, não é tão complicado. Eu gosto de gente que diz não querendo dizer não. Gosto de um sim quando ele é de verdade. Interpretar ou decifrar códigos além de cansativo, faz com o que o tempo se perca. E não sou homem de perder tempo sem querer perder o tempo. Algumas opções a gente marca consciente. Outras nos pegam de surpresa e certezas, sim, me assustam, mas objetivar me simplifica. Você já deve saber que os mínimos... Enquanto ainda há tempo, sem apressar os fatos, te digo que o jogo que você me oferece de forma tão pouco nítida, não me atrai, embora eu confesse que você me atrai e não é pelo tipo físico, que me agrada, mas também por uma reunião de partículas que transitam entre as afinidades, o olhar sobre a cidade, a intimidade com as palavras e o carinho gostoso e tímido que nos oferecemos sem fins comerciais. Além da solidão. Ouça bem, mas não priorize a voz. Ouça meus olhos nos teus que te dizem sem vacilar. Perceba o corpo que busca não só ser preenchido, mas acolhido e celebrado. As palavras não ditas. O silêncio necessário sem ser imperativo. Existe um momento quando a gente não compreende, que precisa existir. O momento exato, onde no meio da confusão, ambas as partes, talvez exaustas talvez perdidas, admitem e quebram o protocolo em busca do que todo mundo busca. Nessa sina de não me sentir multidão, é preciso atear fogo ao corpo para perceber que as dores nos igualam no reflexo do espelho. Eu sou do bando de Alice. Da família de Macunaíma. Passional das cores fortes. Que não conhece os espaços entre o sim e o não. Talvez por esse motivo comemore tão urgentemente os gols e as derrotas. Ouça bem que eu não sei de nós dois. Sei um tanto de mim, fragmentos de um saber quase nunca inteligente, mas que me estabiliza até o próximo vendaval. Sei dos filmes, dos atores, de alguns caminhos que aprendi e não esqueci para poder voltar. Sei das vozes, das canções e de alguns tons. Sei também que não somos um para o outro. Por uma questão de praticidade. Fosse eu um homem mais preguiçoso e poderia te soprar com fôlego esse balão de gás destinado ao estouro da primeira agulha em riste. Lá embaixo, ao abrir das portas, eu vou sair sorrindo convicto e sem satisfação porque tive a oportunidade de te dizer da minha confusão simples que só quer te excluir da condição de companheiro amigo amante, esse século tão sem nome. Sei que eu te amei da minha forma torta e sei também que você me questionou da sua maneira reta. Não sei se em algum momento você correspondeu e afirmar seria raso, mas durante algum tempo, eu acreditei na tua solidão e no teu desejo de romper com urgência o eco ensurdecedor das correntes. Nem tão cético assim. Nem tão crédulo assim. Mas passei boa parte das noites, pensando no sim. Ensaiei boa parte das noites histórias de um mais um. Até que você ventou e eu confundi. Até que você choveu e confundiu. Até que você soprou e eu apaguei.


terça-feira, maio 22, 2007

MUITO BARULHO POR NADA de Kenneth Branagh

Querido

Eu não sei se deveria te pedir desculpas pela minha reação. Embora confusa, eu fui verdadeiro. Embora confuso, a soma de nós dois e toda a transformação de um e de outro, todo esse tempo e toda essa troca, tudo se mantém forte e acredito, intacto. Talvez não ter correspondido os teus olhos boa parte da noite, queira me dizer do que eu ainda não sei sobre mim. Talvez evitar te olhar de frente não seja te reprovar e signifique apenas que eu não estou preparado para, mais uma vez, sentir o chão estremecer e não saber se corro, se fico, se choro ou se grito. Eu não soube te reagir. E não saber, apenas não saber, é condição humana. Não caberia te pedir que me perdoe. Não posso te pedir perdão por não saber. Porque eu não sei do que virá. Provavelmente com o ventar dos dias e das folhas do calendário, saberei menos. Eu já disse isso e repito: eu desaprendi. Estou em processo de desaprendizagem. Algumas lições têm o tempo de vida bem curto. Outras duram o tempo e vão durar o tempo que precisarem e eu sentir necessidade. E sem cartilha, o todo, que já não é tão simples, brinca de confundir os sentidos. Então não me desculpe, sinceramente. Apenas compreenda que eu não fui capaz de te compreender. A tua virada de jogo é tão pessoal quanto intransferível e fico feliz que você queira dividir esse momento. Pela necessidade – eu quase usei gravidade - de compartilhar. Pelo comprometimento da rede de segurança que é a nossa relação. Pela confiança e pela atenção mútua que tanto nos guia. Que tanto nos aproximou por tanto tempo. Deixe apenas que esse teu amigo pense um tanto mais e sinta um tanto menos de ciúme e aí sim, a gente senta para conversar e trocar. Nós trocamos tão bem, querido. Especialmente nos silêncios. Preferencialmente quando não nos explicamos. Quando dispensamos as justificativas. Mas hoje, depois de te abraçar em dor e choro – e saiba que eu sinto muito, verdadeiramente – eu também precisei de um abraço urgente. Desarmado, sem saber o que fazer diante dos teus olhos molhados. Não me entenda melhor ou pior do que sou. O Artur da Távola diz que ‘conhecer é desilusionar’ e hoje eu compreendi o que ele disse, mas não vou nos transformar em capítulo de novela.

O que há de melhor, para ti.

O melhor, sem pudor.

O vinho da melhor safra, sabe como?

Que possamos brindar

E sorrir e também chorar

E também nos socorrermos

E também nos celebrarmos

E não nos compreendermos

Sem perdermos a direção da direção.

Eu não desejo te perder de direção.

Queria te dizer muitas palavras

Mas o excesso, por sina e ironia,

Costuma embriagar e me confundir o trânsito

‘no campo do adversário é bom jogar com muita calma,

procurando pela brecha para poder ganhar’ *

Quando eu chegar em casa te ligo

E te conto uma das situações mais divertidas

Que eu já presenciei no metrô.

Por não saber, eu te quero presente

E sempre nos meus dias de festa e luto.

Por não saber, eu viro multidão

E sigo todos eles agora

Saindo do metrô.

Um beijo

* Citação de Geraldinos e Arquibaldos de Gonzaguinha

segunda-feira, maio 21, 2007


SHORTBUS de John Cameron Mitchell

Virei a noite como quem vira uma taça de vinho. Procurando, quem sabe, na ironia da chuva forte e do vento frio, alguém para dividir a madrugada e também, por que não, os sonhos. Em vão, talvez para me certificar de que não encontraria ou não conseguiria ou não seria dessa vez, ainda, mas com uma ponta de orgulho ou uma leve sensação de dever cumprido no sentido de enfrentar a noite. Enfrentar as horas e Virginia Woolf povoa o pensamento, mas abro passagem para que ela se vá porque hoje não existe espaço para os dois. Depois, um amigo me ligou tarde da noite e me disse bêbado algumas palavras que sinceramente eu não lembro. Imaginei que os efeitos do álcool, por algumas óbvias razões, fizeram com que ele me procurasse. Não por ser especial ou confiável, mas por ser o único que poderia estar acordado além madrugada e também o único que não se importaria em ouvir palavras sem creditar a importância literal de cada uma delas. Apenas saber que eu o ouvia, confortava o seu porre de alguma forma. Antes de desligar e talvez seja essa a única frase que eu me lembro, além do alô, naturalmente, ele me disse:

- Eu não consigo entender nós dois. Nós poderíamos, não poderíamos? Mas eu nunca tive coragem de ir além.
- O meu além é o seu limite.

E desliguei. De cara limpa. Por opção. Vaidade. Necessidade. Hoje dividir pode também significar estilhaçar. Perdido. Sem grande alarde. Consciente. Dentro da noite que não é tão veloz. Mas que revela. E se é incômoda e se é fria e se é maiúscula em questões não resolvidas, é também menos frágil e menos dolorosa e menos banhada em drama e lágrimas, porque com o tempo a gente compreende e dispensa certos adornos. Amanheceu às cinco e quarenta e oito. Da janela eu vi. Não estivesse tão frio e chuva não houvesse, eu desceria as escadas em pijama e chinelo para sentir a manhã. Para sentir essa sensação de recomeço, já que todo o dia é...

Amanhã eu vou dormir o dia todo.

O que há de mal com o não saber? Perdido no meio do labirinto, entre idas e vindas, eu suspendo as drogas por agora. Porque preciso da lucidez de quem ainda não se encontrou no meio da página. Então álcool, fumaça, sopros, cachaça, tudo isso me embriaga feito movediça areia que me prende os pés e eu quero avançar. Mesmo seguindo sozinho, exatamente como eu comecei a história e não havia ainda o jogo e as curvas que me levam ao mesmo lugar. Mantenho o sexo porque me faz bem. Não abro mão da cueca revolucionária que reage ao outro. Mantenho a música e é fácil compreender a razão. Música preenche. Enaltece. Reverbera. Aciona. Emociona. Não gosto de estar no escuro. Mas é no escuro que te escrevo. E se não te conheço depois de tanto tempo é porque não acendestes a luz. Ou fui eu que não tirei os óculos escuros?

Antes não acompanhado do que só.

sexta-feira, maio 18, 2007

SÓ DEUS SABE de Carlos Bolado
Sonhei com você.
A palma da tua mão no meu cabelo, construindo um carinho que eu já senti, ironia patética do subconsciente que te acende mesmo dormindo.
A vida anda louca.
A vida anda tão louca.
Você consegue perceber como tudo é tão frágil?
Das relações às reações.
Sonhei com teu carinho que eu não conheço.
Sonhei com você e acordei tão solitário quanto melancólico.
Querendo uma noite para beber e sorrir.
Querendo uma ponte para abraçar e não deixar partir.
Queria desmontar frases, separar as sílabas, fragmentar o momento.
Queria saber decidir feito gente grande.
Saber como melhor conduzir.
Nunca fui tão sincero e eu morro de medo das palavras da Clarice.
Volto ao lugar de sempre.
Tão comum e tão meu.
Tão de nós dois no singular.

Viva a segurança do lugar comum. Aquele por onde todos nós passamos às vezes e sempre. Porque dos seus dias, cada um experimenta o que floresce, o que a vida oferece, o que o desejo sinaliza e assim seguimos as vias congestionadas por onde todos passamos. O cenário é o mesmo, a experiência é única. Quem nunca sorriu com uma criança atrapalhada na sua meninice? Quem nunca deixou a emoção chegar porque recebeu flores? Porque ganhou uma carta? Quem é que nunca valorizou o momento de abrir um envelope, de rasgar o papel de um presente, de usar uma roupa nova? Quem é que nunca contou um segredo e sentiu o coração acelerar por compartilhar intimidade, por constatar que é preciso coragem para confiar no outro e que essa coragem nos leva longe e fundo, amém. Quem nunca chorou ouvindo uma música, quem nunca foi ao cinema para namorar, exercitar a suprema vantagem de poder sentar ao lado, encostar braço com braço, sentir o calor, o cheiro do perfume, a casquinha mais esperada da adolescência? Quem nunca brigou com a mãe, bateu as portas ou berrou? Amarrou a cara, fez tempestade em copos de leite, exagerou mínimos para poder parecer com a razão?

Viva o comum. Aquele possível a todos. E viva o olhar de todos sobre o comum. A gente sempre descobre um fiapo de novidade ouvindo o outro. É o complemento que ilumina muitas vezes a nossa própria compreensão. Viva a simplicidade da constatação, que me faz falar, que me faz compartilhar e debater. Viva a palavra, instrumento necessário para que a vida faça sentido e funcione no ritmo de cada ser. O ponto de encontro, as curvas fechadas, as ruas escuras, o sim e o talvez, o esbarrão no repente, o olhar surpreso, a bala roubada, o sabor trocado, o eu te amo e o depois, as emoções iluminadas, a necessidade de opções, a consciência da liberdade, a possibilidade e os nãos, para cada um e para todos, um viva. Hoje eu despertei tão vivo. Passei o dia em casa como não faço desde nem me lembro. Recusei um cinema, veja você. Tem dias em que ficar só é estar rodeado de vários. E hoje a casa está cheia. Hoje a casa está vazia.

Sonhei com você.
Mais uma vez você.
Que me descortina quando me diz não.
Que me desafina quando usa as minhas palavras como reflexo.
Que me desatina na sina de não se permitir.
Nunca estive tão vulnerável.
Tão servido para ser devorado.
Não sei como agir quando sinto medo.
Fujo com segurança para o sorriso, a comédia.
A textura da leveza me conforta.
Tenho menos medo de altura e mais medo do mar.
Adoro o alto e a praia com a mesma intensidade.
Adoro o encontro.
Aquele instante em que teu coração percebe que chegou alguém que pode não ficar o tempo que gostarias, mas que é alguém que significa nos teus dias, no teu instante sagrado.
Não gosto de despedidas.
Ir embora me dói muito.
Perceber e viver partidas aperta o coração e me tomba sal dos olhos.
Chorar faz bem. Chorar alivia. Chorar incha.
Rir alivia. Rir faz bem. Rir não incha.
Existe muito espaço entre duas pessoas.
Não espaço físico, compreende?
Por essa razão é tão importante festejar quando é fácil chegar ao outro.
Sem preocupações com qualquer abismo, qualquer vão, qualquer fato que impeça.

Todo mundo olha o mesmo espelho.

domingo, maio 13, 2007


CLICK de Frank Coraci

Eu me juntei à multidão apressada, entre as poças no chão e o vento forte, porque agora venta forte e é outono. Outra tarde eu caminhava pela plataforma, esbarrando entre tantos outros e eu ouvi pelos auto-falantes uma voz que me dizia que o sol ia embora às cinco e quarenta e dois, eu não me lembro com exatidão o horário. Eu me lembro da sensação de caminhar no meio da multidão na Central do Brasil e a voz de uma mulher me informar sem eu querer saber a hora que o sol nascia e morria. São dezoito horas e trinta e sete minutos, o termômetro marca dezoito graus e a previsão é de chuva e vento, ela me disse logo depois. Pensei que dessa vez o inverno não me pega. Ou o outono ensaiando o que virá. Dessa vez, eu estou armado. Preparado. Aquecido por dentro. Feito um urso preparado para hibernar. De longe, o nosso olhar se encontrou. Os nossos olhos pretos. Agradeci em silêncio pela tua pontualidade. Achei graça do cigarro buscando a chama do isqueiro, intimidado pelo vento. Até que nos abraçamos forte. Eu não me importo de ser aquele para quem você sempre corre quando o tempo fecha. Porque eu sou aquele que corre para você sempre que o tempo abre. Complementamo-nos. E esse bar é nosso hoje.

- Não deu. Ele me disse que sim, que eu era um cara que blá blá blá. Enfim, tudo o que eu sei e tudo o que eu sou, provavelmente, porque por mais perdido que eu esteja ou me encontre, ainda sei o que faço e o que sinto. Depois você me ligou chorando e eu pensei que nós precisávamos mesmo era de uma boa cerveja. Então eu falaria tudo o que ficou preso e você desabafaria a sua enxurrada e em algum momento, nossas lágrimas brindariam um tim tim. Dê cá um abraço, meu amigo.

- Eu pedi para que ele saísse do apartamento. E ele saiu.

- Sabe o papo clássico do quero ser seu amigo? Eu já tenho os amigos certos que vão durar uma vida.

- Por que não acertamos com os homens, me diz?

- Eu não sei. Eu acho que nós acertamos com os homens. Eu acertava bem menos com as mulheres, lembra da Ana? Desastre com perda total.

- Quando ele saiu, eu não chorei. Eu sentei no sofá e ouvi o elevador descer. Eu senti que alguma coisa havia mudado.

- No início, eu tentei resistir. Mas quando você resiste de cara, assumidamente, e isso é tático, quando você não responde ao carinho do outro, estabelece-se um jogo. Então a sedução ganha contornos graves. Tudo gira em torno de tentar manipular a resistência. Foda-se o que você sente. Ele vai tentar de toda a forma quebrar a sua resistência. Vai jogar pesado se perceber que é difícil. Vai usar todos os artifícios, vai usar todo o tipo de munição. Até que você, por um momento, corresponda. Aí é cama na certa. No dia seguinte, o jogo terminou. Alguém venceu. E você, provavelmente apaixonado porque depois de tanto malabarismo, você se envolve, impossível não se envolver, você deixa de ser o cara que vai ser seduzido e se transforma no cara que foi seduzido.

- Um ano e seis meses depois, solteiro. Sensação louca. Um brinde ao tempo. A esse espaço de tempo.

- Muito tempo passou... eu tinha terminado com o Fred. Foi aqui, nesse mesmo bar, lembra? Cheguei com o rosto vermelho de tanto chorar.

- E bêbado. Você já chegou bêbado. Mas continue. E você? E ele?

- Ele? Ele me disse que não houve clique.

- Clique?

- Sim, estalo, afinidade física. Chegou sem avisar, invadiu, confundiu e seduziu e depois me disse: ‘olha, não houve clique’. Quase dois meses depois e eu encaixotando o desejo, dobrando a poesia, aniquilando a possibilidade do acerto.

- Ficou puto?

- Surpreso. Eu entendo sem compreender. Puto mesmo. O que me seduz nele não é o físico. Não é a boca bonita, o cabelo bagunçado, os traços ora delicados ora masculinos. Não estava no físico, entende? O meu clique por ele se estabeleceu de outra forma. Mais do que as poucas afinidades, mas eu pensei e por esse motivo que eu digo que fiquei surpreso, eu pensei na facilidade da comunicação. Com esse cara eu consigo falar e ouvir. E em algum momento, eu creditei essa mesma importância a ele, sem consultá-lo.

- Parece a nossa história.

- Um pouco. Mas nós nos apaixonamos de imediato.

- Demorou um pouco, não foi tão rápido.

- Porque eu resisti. Enquanto todo mundo na faculdade tentava te pescar, eu fiz o caminho contrário.

- Por isso que eu me aproximei.

- Eu resisti por um tempo.

- Sim, mas quando eu te beijei, depois de te beijar, eu já sabia que nós...

- Sim, nós. E ele ainda não ligou?

- Eu não atendi.

- Um brinde ao que não encaixa. Aos homens e seus mistérios indissolúveis. Seus mecanismos e travas e cliques sem sentido.

- Um brinde aos encontros que concluem o tempo. O início, o meio e o fim. Um brinde ao movimento. Aos círculos viciosos. Aos venenos irresistíveis.

- Brinda logo, porra.

- Um brinde a nós dois. Que a vida reuniu, separou, fragmentou e não conseguiu, simplesmente não conseguiu derrubar porque nós somos pessoas melhores – e também piores – porque estamos juntos.

- Promete uma coisa?

- Coisa?

- Sim, essa palavra que não define nada. Promete?

- Você vai pedir para que a gente não beba a ponto de confundir as mágoas e termine na cama, não é isso?

- Sim. Vamos curtir o porre. Você com o teu motivo. Eu com o meu. Mas vamos terminar de maneira diferente. Dessa vez. Promete?

O depois é tão óbvio que me parece desnecessário desconstruir em palavras. Frio grande e a cidade apertada. Dois amigos exercitando o afeto. Salvando-se na urgência dos seus ais. E nada mais. Sem música alguma de fundo. Sem gruas que se afastam e revelam a cidade em silêncio, vista de cima, algumas luzes piscando a solidão dos apartamentos na madrugada. Noite seca. Fria. Tão fria que não dói. Lateja. E permanece. Não fere. Mas sublinha o óbvio. Não tenho nada de grande para te dizer hoje. Apenas que eu gosto de estar por perto. E isso me basta. Também me dói a vida. Da mesma maneira que me fascina. E que grandes homens de todos os tempos e seus grandes amores e suas grandes paixões e batalhas, tudo isso me enche o coração e fascina. De verdade. Como um menino instigado pelo mistério, enfeitiçado pela vida. Um menino que sabe que é enrolado e que vez ou outra transborda o copo. Mas um homem só é um homem quando ele aceita ser ele mesmo. Na sombra ou na exatidão do claro. No bem ou no mal me quer. Na desculpa rasa de uma ausência não justificada, que te protege inteiro dentro da tua zona de conforto, onde tudo encaixa e confere, como máquina de supermercado. Então eu repito todos os dias para que eu não esqueça e envelheça antes do tempo. Que não virá. Ouse. Quebre tudo. Confunda as pernas. Mude a madeira de lugar. Abandone a letargia. Para poder recomeçar. E terminar.

- Eu continuo acreditando nas coisas.

segunda-feira, maio 07, 2007

INVASÃO DE DOMICÍLIO de Anthony Minghella


Moço,

O meu império da palavra vez ou outra me ajuda a compreender alguns dos pensamentos confusos e/ou atravessados, que também vez ou outra bagunçam os meus dias. São elas, as palavras e alguma noção de gramática e conjugação verbal, que fazem com que eu compreenda o sentir, que por definição, não encontra muito sentido quando é classificado por alguém. Eu ouso discordar e não é por rebeldia, mas quando eu sento para escrever, sobretudo de forma direta como agora, são as palavras que organizam parte da bagunça. São elas as responsáveis pela faxina, deixando o universo ao redor de forma menos caótica. Eu compreendo melhor quando eu escrevo. Embora compreender melhor não seja, seguramente, nenhuma vantagem. É apenas a via que eu encontrei para saborear e onde eu me sinto muito à vontade. Então por esse motivo e também o impulso e o bom senso e também o desejo, me colocam de frente para o computador para te informar o que acontece por aqui. Tento ser objetivo. Para que não te canse. Para que não seja mais um texto. Para que você perceba que eu levo muito a sério esse momento.

Eu gosto de você. Eu fico assustado cada vez que eu vou te encontrar. Quando eu me aproximo, eu não sei o que fazer com as mãos, com os olhos. Eu não sei o que fazer. Como proceder. Você por perto é como se um prédio estivesse pegando fogo e eu estivesse solto pelos corredores. Eu admiro a sua inteligência. Compreendo ou pelo menos, tento compreender o teu ponto-de-vista. Para que eu não o desrespeite. Para que eu não avance sobre ele com as minhas idéias velhas sobre o mundo. Eu acho você atraente. E morro de medo que todo mundo descubra isso porque se eu já não tenho chance agora, imagine quando a população carioca te descobrir? Adoro o teu humor. A rapidez do teu raciocínio. Adoro a simplicidade do layout do seu blog. O som da sua voz que já vem junto com um sorriso. Adoro a amiga que é tão sua e que você já me entregou de presente. Gosto do carinho e da forma atenciosa como nos encaramos. E dos silêncios que no ínício incomodavam e hoje em dia, descortinam.

Eu não quero te intimidar. Nem te pressionar. Ou impressionar. Mas agora eu me encontro num percurso bem delicado. E eu cheguei em casa perto das oito da manhã no sábado e me fiz uma pergunta que a resposta quem pode me dar é você: eu posso te esperar (respeitando o teu tempo, as tuas escolhas, a tua delicadeza) ou eu retorno de onde me encontro? Eu não sei muito sobre você. Boa parte do que você sabe sobre mim, você leu nos textos. Alguns deles não são reais, saiba. Mas o que eu sei, tudo o que eu preciso saber, eu já sabia antes de te conhecer ao vivo. Antes de te encontrar pela primeira vez e suar de nervoso. E não saber o que fazer com os pés. E boa parte da noite, não saber o que dizer. Eu tenho vinte e nove anos e faz muito tempo que eu não tenho o desejo potente de começar uma história nova e abandonar tudo para trás. Os coadjuvantes e os protagonistas. Sem medo. Tentando acertar. E nada mais. Independente da tua resposta, eu já registro o meu obrigado que não é tão óbvio, mas muito verdadeiro. E eu preciso dessa energia da verdade.

Beijo.

Jr


sábado, maio 05, 2007

OS SONHADORES de Bernardo Bertolucci
Ele não era dela. Ela não era de nenhum dos dois. Embora a idéia de pertencer a alguém soe de maneira obsessiva, nenhum dos três conduzia a relação com chaves nas mãos. Quando um deles viajava, os outros dois quase não aconteciam. Existia entre eles, mesmo sem combinações ou regras prévias, algum acordo não declarado, onde a dupla não era interessante. E somente com a união dos três, fosse para uma conversa, uma cerveja ou uma cama redonda, somente com ele, ela e ele, tudo ganhava intensidade. Tudo fazia sentido. Tudo ventava numa só direção. O amor era a soma de um mais um mais um. Por sete meses, descobriram os mecanismos da paixão. Apaixonaram-se. Ela e ele já se paqueravam desde uma festa onde foram apresentados. Mas nunca um beijo. Apenas o olhar atento. O olhar misterioso que diz sem confirmar. O fato é que ela só se aproximou quando os viu juntos:

- Vocês se conhecem?
- De vista.
- Vocês combinam juntos. Os dois. Indiscutivelmente atraentes.
- Nos conhecemos ainda agora.
- Na entrada.
- Sim, nos conhecemos ainda agora, na entrada.
- Meu apartamento está vazio. Mas eu quero ser acompanhada pelos dois.
- Os dois?
- Sim, os dois ou ninguém.

A primeira noite só não foi mais tensa porque já estavam quase bêbados quase sem os pés no chão. Depois perderam a noção. Se era dia ou noite. Frio ou calor. Havia, para cada um, dois universos para flutuarem. Duas vias. Dois beijos. Dois carinhos e tantos toques, gerando a energia necessária que ela tanto buscava. E que, de repente, sem procurar, os dois descobriram. Encontravam-se na mesma boate de sempre, onde ele conheceu o outro, na entrada. Onde ela flertava com um deles. Sexta-feira. Pouco depois da meia-noite, a cidade mergulhada na madrugada e somavam os sorrisos, a dança, o suor na pista e as conversas sem fim. Quando a sede era maior, uma ligação resolvia a questão e era no apartamento dela onde os três se consumavam. Depois de um mês, um deles deixou uma mala com roupas para o trabalho na casa dela. Dois meses depois, dividiam a conta de luz e os gastos com a comida. E os vinhos, principalmente. Sete meses depois, alguns vizinhos comentavam e eles dividiam muito mais do que o apartamento. Dividiam a vida a três. Não os interessava a dupla. Não saberiam explicar como era antes dele e dela e dele. Era como se antes não houvesse.

- Bia, a tua mãe ligou.
- Léo, tem comida na geladeira.
- Ju, comprei o livro que você pediu.
- Quem cozinha hoje?
- Vamos pagar a faxineira ou vamos encarar a sujeira os três?
- Alguém lembrou de passar na farmácia?
- Carta para a Bia. E escrita a mão, olha que barato.
- Léo, essa cueca é minha. A rasgada é a sua.
- Eu não acredito que vocês não me esperaram para começar o filme.
- Foi pênalti, claramente. Juiz ladrão!
- Quem tem dinheiro trocado?
- Eu estou grávida.

Tentou. Mas não conseguiu. Disse sem peso algum. Para que a frase não provocasse os tremores óbvios. Bia sentou no sofá de frente para os dois rapazes que a observavam em silêncio.

- Meninos? Alguma palavra?

Nada.

- Qualquer palavra? Vale interjeição.

Abriu a bolsa e sacou o maço de cigarros. Antes que acendesse:

- Não, não acende.
- Por quê?
- Grávida. Você disse, não disse? Faz mal, sei lá, essas coisas que a gente lê.
- Calma, bichinho.
- Eu quero um cigarro. Eu estou grávida sim. Fumar agora vai me ajudar. Portanto, eu vou acender.
- Bia, eu não estou entendendo.
- Qual parte?
- É que eu pensei que você tomasse pílula.
- E eu tomo, Léo.
- Mas se você toma pílula, por definição, não deveria, quer dizer, sempre existe uma possibilidade. E nós sempre nos protegemos.
- Não.
- A noite que nós decidimos transar sem camisinha.
- Sim, mas faz quanto tempo?
- Tempo suficiente.
- Sabe a melhor e a pior parte, meninos?
- Diz, Bia.
- É não saber qual dos dois...
- ... é o pai!
- Caralho, é verdade!
- Bia, nós três somos os pais. Nós três somos as mães.

Não poderia ser diferente. Porque em algum momento optaram. Além do sexo, que era ótimo. Além da convivência, pacífica. Além da coragem de compreenderem, havia a necessidade. A fome gigante que os definia como um triângulo sem medos. Que ia além da forma geométrica e ganhava contornos redondos na parceria e no carinho que teciam um pelo outro. E tecem, até hoje. Driblaram brigas. Repensaram paixões antigas. E o amor, que sempre os regeu, o amor era o apartamento e cada cômodo e cada detalhe entre fotos e plantas e vida. Muita vida. Além da curiosidade da juventude, nasceu e cresceu a Letícia. Que têm três pais e três mães e é tão curiosa e pergunta sobre tudo o que lhe causa uma interrogação, do alto dos seus cinco anos de idade. Que é dona dos três. Incondicionalmente.