
THE HISTORY BOYS * de Nicholas Hytner
- Você vem sempre aqui?
- Venho.
- Certo.
- Pelo seu rosto, você...
- Essa é a segunda vez que eu coloco os meus pés aqui dentro. E se quer saber, me causa um certo pânico.
- Sabe que eu te entendo? Sem papo furado. Quando eu descobri esse lugar, eu tinha uns dezenove, vinte anos no máximo. Toda vez que eu entrava eu sentia o pescoço arrepiar. O suor na testa. Só me sentia melhor depois de meia hora parado em algum lugar, quietinho, vendo o movimento.
- Exatamente isso. Arrepio.
- Mas depois de um tempo, depois de muito tempo, você acostuma. O que me causava medo antes, hoje em dia, não assusta mais. Consigo me sentir à vontade, sinceramente. A gente se apropria do medo, ignora a luz fraca, aprende a afastar quem não respeita o teu espaço, assusta os velhos tarados, enfim... O que eu quero dizer é que a gente encontra um jeito, a gente sempre encontra uma maneira de se adaptar aos lugares e situações.
- Acho difícil eu me adaptar.
- Besteira. Deixa o primeiro garotinho sarado se aproximar e te convidar para a cabine e você volta na próxima semana. E no próximo mês. E então o medo, meu caro, o medo vai pelo ralo.
- Eu não entrei para a faculdade.
- Como?
- Eu fui reprovado. Eu recebi o resultado hoje cedo. A família na expectativa. Minha mãe sempre apostou no meu ingresso na faculdade. Sempre deu valor, acho até que muito mais pelo fato do que ter o que contar de positivo aos vizinhos do que propriamente torcer por mim. Eu não entrei. Eu zerei física.
- Então ninguém sabe, ainda?
- Você sabe.
- Sua mãe então não...
- Depois que eu peguei o resultado, eu tomei duas cervejas. Duas garrafas, sozinho. O garçom implicou com a minha identidade. Achou que fosse falsificada. Sabe que eu sempre pensei que esse lance de garçom implicando com os documentos, não acontecesse na vida real? Fosse coisa de filmes. Mas o cara, dono do bar, liberou. Fez que sim com a cabeça e ele me serviu. Depois eu lembrei desse lugar. E quando eu digo que lembrei, é verdade porque eu havia esquecido que isso existia.
- Existe. Aqui ainda é possível uma organização. As pessoas quando entram aqui não querem nada além de sexo. Mas se não existisse esse cinema, outro lugar, como qualquer lugar que existe pela cidade, poderia substituir essa sede que as pessoas têm.
- Provavelmente. Outro dia eu entrei no banheiro de um shopping e dois caras estavam se tocando.
- Muito comum.
- Banheiro de shopping, cara. Criança pode entrar a qualquer momento.
- Complicado você condenar a putaria e estar aqui, não acha?
- Eu entrei aqui para sentir outra sensação que não essa de derrota que está me engasgando. Sentir outra sensação mais forte que essa. De gente me tocando. Me dando prazer. Rompendo a intimidade para entrar e sair com força suficiente para me fazer esquecer. Entende?
- Entendo. Mas eu acho que quem chega até aqui, é porque quer de alguma forma, esquecer. Da vida, da namorada frígida, do trabalho, dos problemas. Da violência, da tristeza. Acredito que essa escuridão nos proteja a identidade. Que essa escuridão seja um lapso de memória. Pra que depois a vida real retorne. Sem culpas, para alguns.
- Então você é casado?
- Tenho cara de casado?
- Eu não gosto de mistérios rasos.
- Eu não gosto do seu rosto de vinte anos agindo como se tivesse sessenta.
- Boa sorte, eu vou nessa.
- Espera. Me desculpe. Eu não quis ser grosso.
- Eu sou mais novo do que você e isso parece óbvio, mas o que eu quis dizer é que eu já ouvi muita conversa de outros homens mais experientes, eu diria, pintando uma imagem, recitando uma vida que não é a deles. Achei que você fosse entrar no jogo fácil e desinteressante de não falar sobre a sua vida pessoal. Não me interessa se você é casado. Se você foi. Se a tua mulher é frígida.
- Tenho cara de casado?
- Exatamente sobre isso que eu estou falando. Se você for, vai entrar numa de listar os problemas da vida chata que você leva. Não precisa pintar o quadro, entende? Preferia que você me dissesse que me achou gostoso e que pagaria o motel. Seria mais sincero. Eu aceitaria sem piscar. Mas você, como todos os outros, os outros chatos, chatos todos os outros, precisa rodear, tubarão viciado e falar da vida sem sal, do ex, da ex, da infinita dor de cotovelo, o grande vírus da humanidade. Todo mundo que eu conheço fala de alguém, um grande amor de antes, que foi embora e fudeu com tudo. Todo cara, com raras exceções, já chega com o coração bombardeado. Magoado.
- É porque o seu ainda está intacto.
- Você não me conhece. Eu não sou cola para juntar pedaços de ninguém. Essa responsabilidade não é minha. Eu passo a vez.
- Daqui a alguns anos você vai saber que ...
- Daqui a alguns anos, eu só vou responder sobre o que me for perguntado. E se me perguntarem a razão de ter escolhido parar atrás de você, por exemplo, eu vou responder que dei uma volta em pânico nesse lugar e quando eu te vi, meu pau endureceu. Tesão, sabe? Eu resolvi parar para beijar a tua boca, para sentir o teu perfume, para saber se você faz realmente o meu tipo ou eu me enganei na escuridão, mais uma vez.
- Você é um diabinho.
- Sim, um diabinho reprovado.
- Vamos?
___________________________________
* Aqui no Brasil saiu nas locadoras com o título de Fazendo História