sexta-feira, setembro 28, 2007



VOLVER de Pedro Almodóvar
- 1 ano depois -

Você coloca a sua mão na minha. Você me observa como se me conhecesse. Eu não me importo que force uma intimidade que não existe da forma como você imagina. Eu permito. Você prepara o jantar que sabe que vai me satisfazer e sabe também que ganhará elogios. Você tem a habilidade de criar atmosferas. Você conhece as luzes. Sabe iluminar com competência. Você já percebe quando eu prefiro o silêncio. Sabe quando eu quero putaria. Sabe ser pervertido. Sabe das intensidades. E dos mecanismos. Você sabe da minha relação com as palavras. Sabe das minhas mais óbvias referências. Sabe que não me importo em ver três filmes seguidos no cinema. Você é carinhoso e atencioso. Fosse um radar, seria um dos melhores, eu tenho a sensação de que com você por perto, eu estou sendo cuidado. Muitas vezes de forma excessiva até. Não gosto de excessos, acho que isso você ainda não sabe. Ou finge que não. Você compra os ingressos com antecedência. Você detesta atraso, assim como eu. E vive atrasado. Você não gosta de esperar. E não se importa com quem te espera. Como eu. Não entra no cinema ou no teatro depois do início da sessão e não sai antes, à não ser por razões de emergência. Você dorme de conchinha e se mexe bailando boa parte da noite. Conhece meu sono leve. E sabe que não falo depois que me levanto. Você costuma ser gentil com quem é gentil comigo. Eu não tolero certas regras de etiqueta. E raramente fico onde não me sinto bem. Você me telefonou hoje duas vezes e eu só pude atender a segunda. Eu não gosto de ter que explicar tudo. Eu prefiro compreender sem ter que confirmar, sem ter que dar nome, sem perder a magia. Eu recebi uma carta hoje. Pelo correio. Ele vai voltar. Mas você não sabe quem é ele. Eu vou te deixar. E isso você também não sabe.


Sem fazer as malas, no meio da tarde, o sol perdendo a força. Sem sequer arrumar as roupas. Te deixar, assim, seco. Sem testemunhas. Sem uma carta de despedida, sem deixar qualquer vestígio, qualquer indício de que um dia eu fui teu. De que um dia nós dois. Deixar o amor desaparecer aos poucos, sem pistas, feito vidro embaçado de vapor. Deixar as marcas desaparecerem: as dos lençóis, as marcas dos dedos na pele. Deixar o apartamento perder o meu jeito, descascar qualquer sombra minha e pintar as paredes de cores novas que eu nunca vou saber porque eu não vou voltar. Eu penso em te zerar. Em me zerar de ti. Esvaziar tudo o que preenchemos e fazer com que fiquemos mais leves, quase vazios, para que possamos outra vez transbordar. De outra maneira que não essa, sem repetir alguns vícios, sem tropeçar nas mesmas questões, sem buscar caminhos sem retorno, ruas sem saída. Mentir para mim que não nos conhecemos e estender o braço para uma segunda chance, um segundo movimento, folha em branco sem passado, esperando as horas que virão. E elas hão de vir. Eu penso em te zerar. Na ilusão fálica de que vamos nos esquecer, vamos perder nossas memórias e algum tempo depois, em algum outro lugar, vamos nos reconhecer, sem saber quem fomos juntos em outra época e começar uma nova história em folha, sem registros passados, sem resquícios de um antes. Como se inéditos fôssemos, sem nenhum afeto antigo, sem nenhuma ferida, sem nenhuma sensação velha que nos diminuísse. Sem nenhum rancor. Nenhum amor. Dor.


Em silêncio, eu vou me despedir. Vou tocar teu cabelo pela última vez, você não vai perceber a minha tristeza. Você só vai sentir as minhas mãos nos teus fios macios dos cabelos e eu vou saber, ao te abraçar, adeus, eu não vou dizer, adeus, eu vou sentir o cheiro do teu perfume, do teu suor, o teu cheiro e antes de separar os braços, eu vou segurar a lágrima, pela última vez, você vai saber muito tempo depois. Eu vou olhar teus olhos, farol que ilumina a noite e as marés, eu vou te olhar e vou fotografar na retina o teu rosto calmo e exato. E seguir adiante, sem olhar para trás. Sem te observar sem mim. Sem fim algum a não ser o de seguir adiante. Controlando o desejo de não ir. Permanecer. Mas confiante. Fortaleza. Cerebral. Careta. Patético. Adeus, meu caro, eu vou repetir para que eu possa prosseguir sem vacilar. Adeus, minha concubina. Adeus às armas. Adeus Lênin. Adeus às ilusões. Adeus meninos. Para que eu possa recomeçar. Para que eu possa fazer de um jeito que não esse. Para que eu tenha a oportunidade de me entregar uma oportunidade. Para que não vicie. Para que não existam fantasmas. Para que sejamos práticos. Para que compreendamos que é possível um sem o outro. Para que escrevamos cartas de amor para um novo amor. Para que nos percamos e porque se perder pode também fazer sentido. Para que nos esqueçamos sem nos apagarmos. Para viver um grande amor. Para viver, enfim.

sábado, setembro 22, 2007


O AMOR NÃO TIRA FÉRIAS de Nancy Meyers

Uma gota do teu suor escorreu pescoço abaixo e eu pensei nessa tua beleza de quase homem, tão pouco moleque. Pensei que é quase primavera e se é quase primavera, a cidade abre as portas para a nova temporada de turistas, daqueles mesmos turistas que você me confidenciou com os olhos brilhando e me soprou que se apaixonara por um francês, não foi? E depois que ele foi embora, você não conseguiu mais se envolver com nenhum outro homem. Quase sete meses sem beijar ninguém, você também me disse sorrindo sacana e eu resolvi acreditar porque me pareceu ingênuo e você me olhou nos olhos.

Eu gosto do inesperado quando ele gira a roleta dos dias e marca. Quando ele dá uma rasteira sutil no doce cotidiano e me instiga o querer. Eu não esperava por você. Ou por qualquer outro. Eu tenho cada vez mais o desejo de seguir adiante sem tanto alarde. Deixar o coração quieto, sem deixar ferver, sem deixar secar. Na discrição elegante de um homem de quase trinta anos. Eu brindo aos mínimos óbvios. Meus e de cada um de nós. E também a sua chegada transparente e não roteirizada.

Só tenha cuidado ao pisar na grama do vizinho. Observe com cautela para não desagradar. Há de se ter cuidado com o universo paralelo do outro. Há de se ter cuidado com o outro. Então se ficar o charme pelo charme, aquele vazio clássico do olha como eu sou lindo e tenho os olhos verdes e as mãos macias, eu vou apenas observar sem o desejo real de aplaudir. Se optar pelo clichê de mostrar todas as armas na primeira noite, tenha cuidado porque caímos na armadilha de um futuro seco.

Não se esgote.

Não nos lote.

Não me agite tanto antes de usar.

quinta-feira, setembro 13, 2007

THE HISTORY BOYS * de Nicholas Hytner


- Você vem sempre aqui?
- Venho.
- Certo.
- Pelo seu rosto, você...
- Essa é a segunda vez que eu coloco os meus pés aqui dentro. E se quer saber, me causa um certo pânico.
- Sabe que eu te entendo? Sem papo furado. Quando eu descobri esse lugar, eu tinha uns dezenove, vinte anos no máximo. Toda vez que eu entrava eu sentia o pescoço arrepiar. O suor na testa. Só me sentia melhor depois de meia hora parado em algum lugar, quietinho, vendo o movimento.
- Exatamente isso. Arrepio.
- Mas depois de um tempo, depois de muito tempo, você acostuma. O que me causava medo antes, hoje em dia, não assusta mais. Consigo me sentir à vontade, sinceramente. A gente se apropria do medo, ignora a luz fraca, aprende a afastar quem não respeita o teu espaço, assusta os velhos tarados, enfim... O que eu quero dizer é que a gente encontra um jeito, a gente sempre encontra uma maneira de se adaptar aos lugares e situações.
- Acho difícil eu me adaptar.
- Besteira. Deixa o primeiro garotinho sarado se aproximar e te convidar para a cabine e você volta na próxima semana. E no próximo mês. E então o medo, meu caro, o medo vai pelo ralo.
- Eu não entrei para a faculdade.
- Como?
- Eu fui reprovado. Eu recebi o resultado hoje cedo. A família na expectativa. Minha mãe sempre apostou no meu ingresso na faculdade. Sempre deu valor, acho até que muito mais pelo fato do que ter o que contar de positivo aos vizinhos do que propriamente torcer por mim. Eu não entrei. Eu zerei física.
- Então ninguém sabe, ainda?
- Você sabe.
- Sua mãe então não...
- Depois que eu peguei o resultado, eu tomei duas cervejas. Duas garrafas, sozinho. O garçom implicou com a minha identidade. Achou que fosse falsificada. Sabe que eu sempre pensei que esse lance de garçom implicando com os documentos, não acontecesse na vida real? Fosse coisa de filmes. Mas o cara, dono do bar, liberou. Fez que sim com a cabeça e ele me serviu. Depois eu lembrei desse lugar. E quando eu digo que lembrei, é verdade porque eu havia esquecido que isso existia.
- Existe. Aqui ainda é possível uma organização. As pessoas quando entram aqui não querem nada além de sexo. Mas se não existisse esse cinema, outro lugar, como qualquer lugar que existe pela cidade, poderia substituir essa sede que as pessoas têm.
- Provavelmente. Outro dia eu entrei no banheiro de um shopping e dois caras estavam se tocando.
- Muito comum.
- Banheiro de shopping, cara. Criança pode entrar a qualquer momento.
- Complicado você condenar a putaria e estar aqui, não acha?
- Eu entrei aqui para sentir outra sensação que não essa de derrota que está me engasgando. Sentir outra sensação mais forte que essa. De gente me tocando. Me dando prazer. Rompendo a intimidade para entrar e sair com força suficiente para me fazer esquecer. Entende?
- Entendo. Mas eu acho que quem chega até aqui, é porque quer de alguma forma, esquecer. Da vida, da namorada frígida, do trabalho, dos problemas. Da violência, da tristeza. Acredito que essa escuridão nos proteja a identidade. Que essa escuridão seja um lapso de memória. Pra que depois a vida real retorne. Sem culpas, para alguns.
- Então você é casado?
- Tenho cara de casado?
- Eu não gosto de mistérios rasos.
- Eu não gosto do seu rosto de vinte anos agindo como se tivesse sessenta.
- Boa sorte, eu vou nessa.
- Espera. Me desculpe. Eu não quis ser grosso.
- Eu sou mais novo do que você e isso parece óbvio, mas o que eu quis dizer é que eu já ouvi muita conversa de outros homens mais experientes, eu diria, pintando uma imagem, recitando uma vida que não é a deles. Achei que você fosse entrar no jogo fácil e desinteressante de não falar sobre a sua vida pessoal. Não me interessa se você é casado. Se você foi. Se a tua mulher é frígida.
- Tenho cara de casado?
- Exatamente sobre isso que eu estou falando. Se você for, vai entrar numa de listar os problemas da vida chata que você leva. Não precisa pintar o quadro, entende? Preferia que você me dissesse que me achou gostoso e que pagaria o motel. Seria mais sincero. Eu aceitaria sem piscar. Mas você, como todos os outros, os outros chatos, chatos todos os outros, precisa rodear, tubarão viciado e falar da vida sem sal, do ex, da ex, da infinita dor de cotovelo, o grande vírus da humanidade. Todo mundo que eu conheço fala de alguém, um grande amor de antes, que foi embora e fudeu com tudo. Todo cara, com raras exceções, já chega com o coração bombardeado. Magoado.
- É porque o seu ainda está intacto.
- Você não me conhece. Eu não sou cola para juntar pedaços de ninguém. Essa responsabilidade não é minha. Eu passo a vez.
- Daqui a alguns anos você vai saber que ...
- Daqui a alguns anos, eu só vou responder sobre o que me for perguntado. E se me perguntarem a razão de ter escolhido parar atrás de você, por exemplo, eu vou responder que dei uma volta em pânico nesse lugar e quando eu te vi, meu pau endureceu. Tesão, sabe? Eu resolvi parar para beijar a tua boca, para sentir o teu perfume, para saber se você faz realmente o meu tipo ou eu me enganei na escuridão, mais uma vez.
- Você é um diabinho.
- Sim, um diabinho reprovado.
- Vamos?

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* Aqui no Brasil saiu nas locadoras com o título de Fazendo História


terça-feira, setembro 11, 2007



QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF ? de Mike Nichols


Perdi o sono. A paciência anda curta. Tô desaprendendo uns óbvios. Logo eu, que falo tanto neles. São três e eu viajo às nove e acordo às sete para sair às oito. Eu queria ver a estréia do ‘todas as noites de todos os dias’. Achei o material tão bonito. Eu vejo na volta. Eu tenho medo de perder o brilho. Eu tenho uns medos intensos, que não são permanentes, mas quando aparecem, me surpreendem e me tremem o chão. Queria que você me ouvisse. Não queria que lesse. Queria conversar com você. Eu sinto falta de conversar no plano real. Sem cenas, sem pensar que a gente está falando de uma coisa e fingindo que estamos falando de outra. De dizer assim olha, eu tô me sentindo uma merda hoje, cara. E eu nem deveria me sentir assim. Minha amiga perdeu o marido, ela tem um motivo bruto para se sentir uma merda. Mas eu... Não me abandone não. Quando eu começar a perder as cores, me sacode, me dá um soco, um tapa na cara, não me deixe ir com todos os outros. Mila me fez prometer que eu nem você íamos deixá-la, no enterro da Cris. Ela me implorou chorando pra gente não fazer isso com ela. Eu não tenho planos de romper com a minha palavra. Não tenho coragem nem de ir ao dentista, a uma porra de um dentista. A gente tem muita história. Desde antes do encontro na escola, quando eu nem ia com a sua cara e te via falar sobre as provas. Eu lembro que a primeira vez que eu te percebi, foi numa aula de interpretação e nós íamos improvisar juntos, depois de uma, duas semanas e você mandou eu colocar a minha mão na sua, para mostrar a diferença entre as proporções. Eu lembro que nesse momento, eu me interessei por você. Nem era sexual, era pela pessoa. Pelo mistério da pessoa. Você sabe impressionar. Eu sei que você sabe que sabe. Você recebe bem, você faz com que as pessoas se interessem por você. Essa é uma característica linda sua. Você marca. Você causa um impacto. Deixa um rastro sutil. Daí eu tava pensando que no dia à dia, você não age dessa forma. No dia à dia, você é você. Sem a preocupação de ter que mostrar esse homem misterioso, educado e inquieto, refinado e metido. Eu não sei bem ainda se essas pessoas que participam dos teus dias te escolhem como amigo e enfrentam o que eu chamaria de 'luta' para permanecer sem cair fora do barco – e eu quero te elogiar aqui, juro que não estou fazendo a louca e entrando numa de te ofender – ou se é você quem escolhe as pessoas e vai, da tua maneira, sem dar nome aos bois, depositando a confiança, a vida, a intimidade no teu longo tempo, sem deixar que ela abandone o barco, remando junto, muitas vezes. Não sei. De repente, é uma junção dos dois. Tá passando ‘Revelação’ na Globo e a Michelle Pfeiffer já deu uns quatro gritos. Eu perdi o sono. E tenho essa sensação latejando de que eu preciso, na verdade, encontrar alguma coisa que eu não sei o que é. E eu lembro da Camille Claudel que eu revi faz pouco tempo e a Isabele Adjani dizia que 'existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta', acho inclusive se não falha a memória que existe uma placa na casa onde ela viveu na Alemanha ou Paris, sei lá, com essa frase. O Caio Fernando Abreu fez uma crônica sobre essa passagem. E foi ele quem me instigou para que eu entrasse em contato com essa mulher. O fato, moço, é que eu sinto sim a falta do real entre nós. E eu insisto de verdade que não quero e não vou te cobrar uma pessoa que você não é. Eu só estou respeitando a pessoa que eu sou. De dizer as palavras. De dar nome. Porque dando um nome, pintando com as cores, eu me sinto mais seguro e menos louco. Eu quero acordar amanhã e chegar em Três Rios e te ouvir no telefone e dizer de verdade que eu estou feliz de te ouvir, que você vá na estréia dos meninos e me represente, porque eu queria muito estar lá. E essa coisa da imagem que representa é muito confusa e bonita. Muitas pessoas me perguntam sobre você. Me associam ao teu universo e deve ser comum, tanto tempo e tantas pessoas em comum. Eu não sei se elas têm medo de se aproximar de ti. Eu não sei se sou desinteressante o suficiente para que elas anulem a minha história e queiram saber da sua. Eu não sei. Eu procuro responder, satisfazer as urgências da curiosidade alheia, sem muitos detalhes. Eu não vou terminar dizendo que eu te amo, porque eu muitas vezes tenho raiva de nós dois. Eu queria muito que você respeitasse esse desabafo porque ele é muito simples. E mais que tudo, embora confuso, ele é sincero. Eu não sei viver sem você. Eu não saberia como conduzir o barco sem ter você por perto, mas eu tenho uma ponta de curiosidade de arriscar como seria. Bateu forte essa sensação sem nome. E acho que eu vou deixando de sentir, vou não me importando com as minhas questões e chega uma hora, que elas explodem de tal forma, que as palavras brincam de lâmina. Eu preciso dormir. Ou deitar apenas. Sem sonhar. Eu não sei mais o que te dizer. Mas não deixe passar em branco, como uma conversa pela metade. Ou um assunto sério que a gente tratou em forma de metáforas. Ou raras palavras. Queria chorar esse choro preso. E voltar a me encaixar no humor que nos guia. E nos enaltece.

* esse texto não foi e não será revisado.

quarta-feira, setembro 05, 2007


VÊNUS de Roger Michell

Sabe o que acontece? E sinceramente eu não tenho o desejo de parecer um outro alguém que não existe: é que eu ando enjoado e ousaria, cansado, desse joguinho que a gente se acostumou a jogar quando conhece alguém e percebe que de repente, quem sabe, com a ajuda da sorte e a euforia tantas vezes experimentada, os dois acabam se reconhecendo e mais, se identificando, sorrindo aquela certeza de canto de boca de que dessa vez, sim, dessa vez é comigo, é com a minha vida real, com o auxílio luxuoso do cinema e de todas aquelas histórias passionais, mas dessa vez é no ritmo da realidade e faz todo o sentido. Me desculpe por te dizer assim tão diretamente, mas tenho a sensação de que se eu não começar limpo, direto, objetivo, nós vamos acabar no motel da esquina e depois um telefone trocado, uma ligação em dias de tesão e depois nunca mais até o próximo outro e a próxima esquina e o telefone que não virá e o outro que chegará. E sempre chega alguém. Mesmo que seja para dizer adeus. Para colocar a vida em desordem e nos lembrar de que não temos o controle, estamos todos sujeitos ao delicado, falando bem sinceramente, estamos todos sujeitos aos que fazem questão de nos tirar da base simplesmente pelo fato de balançar, desequilibrar, ver que é possível causar um leve ou grave tremor. Cada um sabe da sua própria escala Richter. E eu falo sem pausas porque já bebi o suficiente para confundir as vírgulas, mas é sincero e sou eu e se insisto em parecer eu e não outro é porque a imagem das máscaras me assombra com intensidade. Eu tenho pavor de máscara. De você acreditar em alguém que não existe. Feito poeira, some sem deixar rastros. Desaparece no espaço. Feito desenho animado. Chega um momento em que cansa. Exaspera, eu diria. Então lá vou eu mais uma vez, tentar. E eu adoro a possibilidade da tentativa. É gostoso saber que existe a cidade e as opções e é plural querer nos dias de hoje. Vai muito além do físico e do corpinho bonito. O que, em última análise, não sustenta nem uma boa transa se o corpinho for somente bonito e tal. A gente come, sabe como é, come. Farta-se, lambe os beiços. E depois digere. Até que chegue outro. Eu dou risada enquanto falo e não estou rindo de você, mas de mim. Você tem essa capacidade de rir de si? De se observar em situação tal e de repente sorrir ou porque é sinceramente divertido ou levemente tragicômico. Vai muito além do físico, eu diria que as afinidades e o respeito pelo comum são o que me interessam mais nos dias de hoje. Aí tem aquela sede, aquela vontade de saciar o que te atrai no outro, de saciar o que une você àquela pessoa. Seja o gosto pelo cinema, jazz, programa de televisão, um cheiro, um som, um gosto, uma tara, você tem taras? Eu tenho diversas. Acho bom te ouvir falar, eu gosto do timbre da tua voz. Eu gosto das tuas mãos. Tanto lugar para olhar e eu fui cair logo nas mãos. Aí eu disse para o último que eu tinha que aprender a andar na linha, sabe andar na linha? A gente traça no chão e segue. Pá! Direto, em frente, sem questionar, sem se deixar influenciar pela curva. Acho que me falta essa direção, a linha reta, o objetivo. Porque ficar nessa de viver um amor aqui, outro amor platônico ali, acaba desgastando. O amor desgasta. Na verdade acho que o que desgasta é o final de tudo, é aquela sensação de poço fundo, de saber que não dá e você precisa arrumar tudo, procurar outros sentidos, outro cenário para viver tua vida até que. É cíclico. Nasce morre. Termina começa. Encontra perde. Solteiro casado. Sorri chora. Soma subtrai. Soma divide. Soma multiplica. Eu acho que se trata de encontrar um equilíbrio, mesmo que seja um equilíbrio virtual, é virtual a palavra? Mas que seja uma idéia de equilíbrio. Equilibrados para poder andar na linha, da tal linha, que provavelmente também é uma linha virtual. Eu queria um amor assim para cantar juntos a vida inteira, para envelhecer uma história sem perder o vigor. Todo aquele amor e aquele aprendizado de amar. Aí a Marcela disse que achava que tinha desligado o celular, quando ele tocou no meio da peça e a palhaça virou para ela e disse ‘eu também acho tantas coisas’. Essa rapidez no raciocínio, salvando uma situação que poderia fazer desandar toda uma cena, sagacidade, essa é a palavra. Eu queria assim um amor que salvasse, que não fizesse desandar toda a... pede a conta?