
O tempo fechou. A música subiu. As nuvens descarregavam aquela chuva de um inverno que chegará. Na tela do cinema, o casal se beijava fácil e tudo se encaixava na mais perfeita soma. Do outro lado da ilusão, a escuridão da sala de cinema compactuava com uma escuridão íntima de quem permite a lágrima descer, acrobata legítima das comédias e romances. Porém em algum momento, fez-se um clique. O tempo necessário de alguns segundos para sentir o tremor, a urgência, as estruturas fora da área de segurança e o pensamento fálico de que foi em você, justamente em você que a flecha do pensamento fisgou e trouxe para a sessão das vinte horas e quinze minutos do dia vinte e oito de janeiro.
- Com licença, por favor.
- Olha a cabeça na frente aí moço!
- Com licença, por favor. Com licença.
- O que é que tá acontecendo?
- Vem comigo, por favor.
- Com licença.
- Cara, você enlouqueceu? Nunca te vi sair no meio de filme nenhum antes.
- Eu preciso de ar. Preciso respirar. Preciso de um momento.
- É alguma coisa física? Dor, queda de pressão?
- Não. Só preciso de um minuto. Só um minuto.
- Eu vou comprar uma água.
- Com gás, por favor.
A cidade escura, o céu avermelhado e a chuva incessante deixando as marcas pelas ruas. Um bar de esquina para resolver a baixa temperatura. Para colocar a conversa em dia. Para falar sobre esse quase ataque de ansiedade que resultou num filme interrompido. Há noites que engolem o dia.
- Eu não posso, ou melhor, não devo assistir essas baboseiras românticas. Eu estou – e não ria de mim – perdido. Sem direção. Sem noção de direção. Então esse universo perfeito do cinema, esses beijos e essas músicas, essa gente que confere em beleza, em exatidão, em ausência de realidade, me causam a sensação de que eu tô na merda. De que eu continuo sozinho. Que os meus sonhos de um amor perfeito permanecem no campo da ilusão. Assistir um amor dar certo só me entrega de bandeja a certeza que os meus amores sempre capotaram.
- Então você não vai poder mais sair de casa. Nem olhar vitrine você pode mais.
- Eu pensei no Fabio. Não sei te dizer o motivo, se eu fuçar bem, talvez até possa te dizer, mas eu pensei nele. Eu pensei nele e eu não sabia que pensar nele pudesse me deixar tão vulnerável, tão desprotegido.
- Você não está no melhor momento, nós sabemos.
- Nós quem? Quem? Esse plural não existe.
- Nós, seus amigos, sua família.
- Me poupe dessa sua filosofia de que eu não sou sozinho, de que os outros, etc.
- Então eu acho natural que você lembre dele.
- Não é um problema lembrar dele. Você já foi surpreendido por momentos que você não deu tanto valor, mas que a memória, ao te soprar, transforma aquela aparente banalidade em pérola?
- Pérola?
- Você me entendeu.
- Então me diz o que você quer.
- Eu só quero uma caipirinha bem forte. É isso o que eu quero agora. De que adianta fazer planos, programar os próximos meses, se estamos todos sujeitos ao improvável? Desde que você me conhece, você me ouve dizer que essa vida de plástico que eu levo, envolvido com homens que não querem compromisso, vida fácil do Cazuza, que essa é uma fase, que é provisório? Porque o que eu quero mesmo é alguém para dividir, pra durar, crescer. E todo cara que chega, toda pessoa por quem eu me interesso, se transforma em possibilidade.
- Alguma coisa para comer?
- Não, obrigado. E se eu estiver no auge da carência, no precipício do desespero, eu posso te dizer que achei o garçom uma graça. Que a maneira dele sorrir de lado me interessa. O garçom, quem sabe, não vai ser aquele tal do sorriso torto que vai dar credibilidade ao meu sonho sem fundo?
- Você é assim: se apaixona por detalhes.
- Eu fiquei assim. Viciado em mínimos. Eu fico nesse jogo de intenções até que eu receba outro não. Ou até que fique claro que é ou foi ou será apenas tesão de alguns dias. E se eu me envolvo, eu apelo logo para a artilharia mais pesada.
- E mais cara também.
- O que eu quero te dizer é que eu cansei de ser aquele que acredita no futuro para dois, mesa farta do jantar e cachorro latindo. Eu enchi o saco de pensar que eu vou reviver uma grande história de amor, como foi com o Fabio, aquele amor antigo e perfeito da adolescência. Aquele tal lance, aquela cumplicidade tal e todo o carinho.
- Você sabe que amor não é algo que se pretende.
- Tô dizendo que é mais fácil demolir o discurso do ‘vou encontrar alguém’ e admitir que agora eu vou cair na putaria. É mais honesto, mais real. Eu vou sair e ver no que dá. Trepo, beijo, uso, sou usado, ciente de que não haverá futuro. Dia seguinte só se a química for boa. Telefone trocado só se realmente for, no mínimo, perfeito.
- Se eu não te conhecesse, ia acreditar que seus conceitos de perfeição, de amor, de vida a dois, são tão exatos, tão presos à formas. Você volta ao início de tudo. Porque isso também é planejar. Eu te garanto que essa putaria é gostosa e o corpo reage fácil aos estímulos, mas ele cansa. A sensação de solidão se agrava além do necessário quando você percebe que não foi e nem pode ir além de um motel barato.
- Eu preciso passar por isso.
- Seja feliz, meu amigo. Eu tenho levado tanta porrada por aí que acabei percebendo que a gente precisa respeitar as opções alheias. Eu sou totalmente tolerante e respeito qualquer obsessão, desejo, qualquer escolha verdadeira, ainda que eu não concorde. Então se você quer putaria, aproveite que é quase carnaval. Mas te adianto que essa travessia é cheia de tubarões. Tô com você pra qualquer burrada.
- Obrigado, querido.
- Eu sempre acreditei que um dia qualquer, a gente ia se olhar e perceber que juntos, poderíamos, quem sabe, tentar? Eu li cada texto seu, cada carta pra cada imbecil que já passou pelo teu caminho. Já te coloquei para dormir bêbado, mudei toda a sua roupa e fiquei até você adormecer. Toda reclamação dos amores não resolvidos, pelo telefone e ao vivo, de tarde ou de madrugada, eu ouvi. Fui cupido de alguns. Fui o encarregado de outros finais. Eu sempre guardei a ilusão, um desejo adormecido, gigante, de que nós dois, um dia, no futuro, qualquer dia, a gente ia se perceber. Não como amigos. Talvez como cúmplices de uma modernidade que não nos cabe, que não nos situa, que nos deixa à margem dos desejos mais íntimos. Nossas pequenas transgressões, se existiram, sempre aconteceram por um pouco mais de afeto. Para podermos desfrutar da tal fantasia que nos embalou as vidas, de experimentar um tal do amor que a gente só conhecia dos livros, dos filmes. Eu sempre fui teu cúmplice porque eu pressentia que no final...
- Eu não sei o que vai acontecer.
- Te ver desistir, de alguma forma, é jogar água de chuva no meu desejo mais íntimo. É saber que eu vou assistir ao último dos homens, trocar a fortaleza doce da esperança pela facilidade oca de mais um na cama.
- Eu não sei do que virá.
- Eu também não.
- Você é a melhor pessoa que eu conheço.
- Você deveria sair mais.




