quinta-feira, janeiro 31, 2008


ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ de Joel e Ethan Coen


O tempo fechou. A música subiu. As nuvens descarregavam aquela chuva de um inverno que chegará. Na tela do cinema, o casal se beijava fácil e tudo se encaixava na mais perfeita soma. Do outro lado da ilusão, a escuridão da sala de cinema compactuava com uma escuridão íntima de quem permite a lágrima descer, acrobata legítima das comédias e romances. Porém em algum momento, fez-se um clique. O tempo necessário de alguns segundos para sentir o tremor, a urgência, as estruturas fora da área de segurança e o pensamento fálico de que foi em você, justamente em você que a flecha do pensamento fisgou e trouxe para a sessão das vinte horas e quinze minutos do dia vinte e oito de janeiro.

- Com licença, por favor.
- Olha a cabeça na frente aí moço!
- Com licença, por favor. Com licença.
- O que é que tá acontecendo?
- Vem comigo, por favor.
- Com licença.
- Cara, você enlouqueceu? Nunca te vi sair no meio de filme nenhum antes.
- Eu preciso de ar. Preciso respirar. Preciso de um momento.
- É alguma coisa física? Dor, queda de pressão?
- Não. Só preciso de um minuto. Só um minuto.
- Eu vou comprar uma água.
- Com gás, por favor.

A cidade escura, o céu avermelhado e a chuva incessante deixando as marcas pelas ruas. Um bar de esquina para resolver a baixa temperatura. Para colocar a conversa em dia. Para falar sobre esse quase ataque de ansiedade que resultou num filme interrompido. Há noites que engolem o dia.

- Eu não posso, ou melhor, não devo assistir essas baboseiras românticas. Eu estou – e não ria de mim – perdido. Sem direção. Sem noção de direção. Então esse universo perfeito do cinema, esses beijos e essas músicas, essa gente que confere em beleza, em exatidão, em ausência de realidade, me causam a sensação de que eu tô na merda. De que eu continuo sozinho. Que os meus sonhos de um amor perfeito permanecem no campo da ilusão. Assistir um amor dar certo só me entrega de bandeja a certeza que os meus amores sempre capotaram.
- Então você não vai poder mais sair de casa. Nem olhar vitrine você pode mais.
- Eu pensei no Fabio. Não sei te dizer o motivo, se eu fuçar bem, talvez até possa te dizer, mas eu pensei nele. Eu pensei nele e eu não sabia que pensar nele pudesse me deixar tão vulnerável, tão desprotegido.
- Você não está no melhor momento, nós sabemos.
- Nós quem? Quem? Esse plural não existe.
- Nós, seus amigos, sua família.
- Me poupe dessa sua filosofia de que eu não sou sozinho, de que os outros, etc.
- Então eu acho natural que você lembre dele.
- Não é um problema lembrar dele. Você já foi surpreendido por momentos que você não deu tanto valor, mas que a memória, ao te soprar, transforma aquela aparente banalidade em pérola?
- Pérola?
- Você me entendeu.
- Então me diz o que você quer.
- Eu só quero uma caipirinha bem forte. É isso o que eu quero agora. De que adianta fazer planos, programar os próximos meses, se estamos todos sujeitos ao improvável? Desde que você me conhece, você me ouve dizer que essa vida de plástico que eu levo, envolvido com homens que não querem compromisso, vida fácil do Cazuza, que essa é uma fase, que é provisório? Porque o que eu quero mesmo é alguém para dividir, pra durar, crescer. E todo cara que chega, toda pessoa por quem eu me interesso, se transforma em possibilidade.
- Alguma coisa para comer?
- Não, obrigado. E se eu estiver no auge da carência, no precipício do desespero, eu posso te dizer que achei o garçom uma graça. Que a maneira dele sorrir de lado me interessa. O garçom, quem sabe, não vai ser aquele tal do sorriso torto que vai dar credibilidade ao meu sonho sem fundo?
- Você é assim: se apaixona por detalhes.
- Eu fiquei assim. Viciado em mínimos. Eu fico nesse jogo de intenções até que eu receba outro não. Ou até que fique claro que é ou foi ou será apenas tesão de alguns dias. E se eu me envolvo, eu apelo logo para a artilharia mais pesada.
- E mais cara também.
- O que eu quero te dizer é que eu cansei de ser aquele que acredita no futuro para dois, mesa farta do jantar e cachorro latindo. Eu enchi o saco de pensar que eu vou reviver uma grande história de amor, como foi com o Fabio, aquele amor antigo e perfeito da adolescência. Aquele tal lance, aquela cumplicidade tal e todo o carinho.
- Você sabe que amor não é algo que se pretende.
- Tô dizendo que é mais fácil demolir o discurso do ‘vou encontrar alguém’ e admitir que agora eu vou cair na putaria. É mais honesto, mais real. Eu vou sair e ver no que dá. Trepo, beijo, uso, sou usado, ciente de que não haverá futuro. Dia seguinte só se a química for boa. Telefone trocado só se realmente for, no mínimo, perfeito.
- Se eu não te conhecesse, ia acreditar que seus conceitos de perfeição, de amor, de vida a dois, são tão exatos, tão presos à formas. Você volta ao início de tudo. Porque isso também é planejar. Eu te garanto que essa putaria é gostosa e o corpo reage fácil aos estímulos, mas ele cansa. A sensação de solidão se agrava além do necessário quando você percebe que não foi e nem pode ir além de um motel barato.
- Eu preciso passar por isso.
- Seja feliz, meu amigo. Eu tenho levado tanta porrada por aí que acabei percebendo que a gente precisa respeitar as opções alheias. Eu sou totalmente tolerante e respeito qualquer obsessão, desejo, qualquer escolha verdadeira, ainda que eu não concorde. Então se você quer putaria, aproveite que é quase carnaval. Mas te adianto que essa travessia é cheia de tubarões. Tô com você pra qualquer burrada.
- Obrigado, querido.
- Eu sempre acreditei que um dia qualquer, a gente ia se olhar e perceber que juntos, poderíamos, quem sabe, tentar? Eu li cada texto seu, cada carta pra cada imbecil que já passou pelo teu caminho. Já te coloquei para dormir bêbado, mudei toda a sua roupa e fiquei até você adormecer. Toda reclamação dos amores não resolvidos, pelo telefone e ao vivo, de tarde ou de madrugada, eu ouvi. Fui cupido de alguns. Fui o encarregado de outros finais. Eu sempre guardei a ilusão, um desejo adormecido, gigante, de que nós dois, um dia, no futuro, qualquer dia, a gente ia se perceber. Não como amigos. Talvez como cúmplices de uma modernidade que não nos cabe, que não nos situa, que nos deixa à margem dos desejos mais íntimos. Nossas pequenas transgressões, se existiram, sempre aconteceram por um pouco mais de afeto. Para podermos desfrutar da tal fantasia que nos embalou as vidas, de experimentar um tal do amor que a gente só conhecia dos livros, dos filmes. Eu sempre fui teu cúmplice porque eu pressentia que no final...
- Eu não sei o que vai acontecer.
- Te ver desistir, de alguma forma, é jogar água de chuva no meu desejo mais íntimo. É saber que eu vou assistir ao último dos homens, trocar a fortaleza doce da esperança pela facilidade oca de mais um na cama.
- Eu não sei do que virá.
- Eu também não.
- Você é a melhor pessoa que eu conheço.
- Você deveria sair mais.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

JUNO de Jason Reitman

Eu tenho uma história para contar. De um amor que eu não conheci. De um sabor que eu não sei bem. De uma textura que me é familiar. Que arrepia os meus braços e pescoço. Que me arranca sorrisos, me tomba lágrimas, me endurece o pau e me proporciona poesia. Eu tenho uma história para viver. De um amor que eu não vou esquecer. Uma história para querer. Um homem para brilhar. Um espaço para preencher. Uma melodia para cantar. Um sabor para desvendar. Eu tenho páginas para escrever. E ainda quero a captura, o inédito. Ainda comemoro a página branca esperando. A primeira mordida. O acerto da nota. O fio que puxa teus lábios e desenha um sorriso.

- Me diz alguma coisa.
- Qualquer uma?
- Sim. Me surpreenda.
- Eu sou soropositivo.
- Uau!
- Você pediu. Agora é a sua vez.
- Eu... Eu não sei ver as horas em relógio com ponteiros.
- Uau!
- Sempre me enrolo. Se eu não estiver com pressa, eu consigo ter uma idéia do horário. Mas se estiver na correria...
- E você sempre está...
- Aí eu não consigo, fico nervoso, os ponteiros se embaralham. E esses relógios automáticos? Esses distribuídos pela cidade, que marcam o horário e a temperatura. Sabe?
- Sei.
- Sempre que eu passo por eles e preciso saber da hora, eles mostram a temperatura.
- Sempre?
- Sempre.
- A sua camisa tá suja.
- Onde? Obrigado. Onde?
- Aqui, abaixo da sua nuca.
- Eu sou completamente distraído.
- Você deve ter esbarrado em alguma tinta. Ou comida.
- Muito sujo?
- Sujo.
- Detesto me sentir sujo. Fico mais vulnerável.
- Detesto me sentir perdido.
- Engraçado esse papo de se sentir perdido.
- Explique.
- Uma menina me adicionou no msn e isso é comum, algumas pessoas me adicionam. Tenho amigos que chegam por ali. Mas essa menina me chamou a atenção. Ela disse que gostava dos meus textos. Que não era minha fã, mas gostava. Que os últimos textos estavam inspirados. Que tinha me perdido e agora estava retomando o pulso.
- E você?
- Disse que nunca me senti perdido escrevendo. Achei curioso porque ela me disse isso depois de uns quinze minutos de papo.
- Mexeu com você o fato dela ter uma opinião?
- Me deixou levemente irritado. Acho ótimo que ela pense e tenha as suas idéias. Eu não andei perdido. Quem se perde é porque não tem direção. E quando eu escrevo...
- Você se encontra.
- Não, longe disso. Quando eu escrevo eu transito melhor. Eu não deixo com que eu me perca. Papo chato?
- Não, fascinante.
- Se um amigo me dissesse isso, que eu ando perdido ou que tudo o que eu escrevo é uma merda.
- Ela não disse isso.
- Se um amigo me dá uma opinião, eu ouço. Se um estranho me adiciona na privacidade do meu msn, entra na minha vida e depois de dez minutos, me diz que gosta das coisas que eu escrevo, mas que não é fã, e que estou retomando uma boa fase, o que eu posso pensar? Que antes a minha fase não era boa? Não existe isso de fase.
- Orgulho bobo. Ferido.
- Não. O que eu quero te dizer é que todo mundo hoje em dia têm uma opinião formada sobre tudo. Sobre todos os assuntos. E elas são disparadas para todos os lugares, em todas as direções, sem que a gente possa às vezes escapar delas.
- Acho que tô começando a te entender.
- Precisa de cuidado na comunicação com o outro. Especialmente quando o terreno é novo. Às vezes é difícil dar uma informação desagradável pra alguém muito querido. Você teme que a pessoa sofra, que ela se sinta magoada com o que você vai dizer. Quando você não conhece quem está chegando, esse cuidado precisa ser dobrado. Você não sabe quem é o cara, como ele percebe a vida, como ele reage ao universo ao redor.
- Opinião. Posso?
- Claro, André.
- É que você escreve de maneira muito íntima. Então quem lê o teu material, se sente imediatamente íntimo. Cúmplice.
- Boa parte é ficção. Outras não. Eu não sou responsável pelo que os textos despertam nas pessoas. Eu não posso e nem quero ser. O máximo que eu posso fazer é agradecer aos que ainda resistem em me acompanhar. Dizer obrigado. Mas a decisão de me envolver com o leitor, é minha.
- Sim.
- Você deve estar me achando metido.
- Não mesmo. Fosse você esnobe ou metido, não teria aceito o meu convite.
- Porque você chegou com calma. Com leveza.
- Desde quando nos correspondemos?
- Quase três meses.
- O tempo, olha o tempo determinando as relações. Ela me disse que eu parecia um cara depressivo. Como eu posso parecer depressivo pelo msn?
- São os seus textos, moço.
- Eu não vou me analisar agora. Escrever já me desorganiza, não quero parar para analisar o material. Não teria nem vontade e nem capacidade para fazer isso.
- Os desencontros sempre me chamaram mais atenção.
- Tenho um amigo querido que me disse uma vez que ele adora os encontros. São gols de decisão. Talvez porque sejam raros.
- Talvez.
- Você tem dificuldade em ser passional?
- Não sei te responder. Eu me atiro com facilidade. Eu me deixo levar. Mas por mais embriagado que eu esteja, por mais tonto, meu lado racional sempre me conduz com mais força. Entende?
- Teu signo é da terra. Pés no chão.
- Demais. Eu queria flutuar com mais facilidade.
- Não dá para você ir contra a sua natureza. Vai sempre sair machucado.
- Você tem razão.
- E teus medos?
- Aí você me obriga a parecer depressivo.
- Medos? Não necessariamente.
- Tenho medo que as pessoas morram. Eu tenho pânico da morte não anunciada. Elas machucam de maneira mais afiada. Eu passei o dia de ontem muito impressionado com as notícias sobre o Heath Ledger. Aí hoje eu acordei e minha avó estava no apartamento e ela estava passando mal. Minha avó tem oitenta e um anos. Eu só conseguia pensar que ela ia morrer. Que ela tem oitenta anos, que não pode passar mal. O corpo dela é muito frágil, pode não suportar uma simples queda de pressão.
- Ela melhorou?
- Eu chamei a ambulância. Ela ficou bem logo depois de ser medicada.
- As pessoas ficam doentes. E se recuperam.
- Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de ficar e presenciar as pessoas indo.
- Hoje eu acordei com vontade de dançar. De dançar sobre a correria das horas. Dancei correndo para o meu trabalho, depois dancei para não me atrasar para te encontrar. No final da tarde, deu um frio aqui no Rio. E eu nem tinha casaco. Entrando na estação de metrô, o bilheteiro puxou assunto comigo. Lançou um sorriso gratuito e me ofereceu conversa. O mesmo bilheteiro que eu sempre achei lindo. Que eu sempre enfrentei fila para comprar com ele e observá-lo bem de perto. Sorriu e eu nem sabia que ele sorria e ele nem sabia que sorrindo ficava ainda mais interessante. Disse que me viu pegando o ônibus pela manhã com cara de apressado. Respondi que eu sou péssimo com o relógio e sempre corro de um lugar para outro. Que eu precisava chegar na hora ao meu compromisso porque era a primeira vez ao vivo, olhos nos olhos. Me perguntou amenidades e eu fui deixando minhas impressões, ainda que sem perceber. Então sorriu mais uma vez e confesso que eu não esperava aquele sorriso me pegando altamente desprevenido no exercício diário de pegar o metrô. Sorri timidamente, paguei meu bilhete e guardando as moedas, antes de virar as costas, ele me desejou sorte. Sorri, ajeitei o cabelo que o vento insiste em bagunçar, agradeci e pisquei os olhos. Entrei no metrô sorridente e aquecido, apesar do frio. Entrei no metrô com vontade de dançar, porque é boa, ela é boa sim. Mesmo quando ela aperta, quando ela desabotoa alguns botões, quando ela assusta mais que qualquer medo, ela é boa. Precisa dançar sobre os imprevistos. Dançar e seguir adiante.
- Há quanto tempo você sabe?
- Pouco tempo. O suficiente para não me sentir mais tão perdido.


terça-feira, janeiro 22, 2008


ESTAMOS BEM MESMO SEM VOCÊ de Kim Rossi Stuart


Um sorriso antes da resposta.

- Boa tarde, eu queria trocar esse filme.
- O senhor trouxe a nota fiscal?
- Senhor? Aqui a nota.
- Pode escolher outro. Depois você me procura e eu efetuo a troca.
- Tudo bem.

O doce balanço da geografia e a ironia de dois corpos habitarem um espaço em comum, quando antes, dois anos antes, habitavam o mesmo apartamento:

- André?
- Sim.
- Quanto tempo, dá cá um abraço. André?
- Sim.
- Você não tá me reconhecendo?
- Você acha que eu não te reconheceria?
- Não, não é isso. É que eu emagreci um tanto.
- Você não emagreceu. O cabelo é que mudou a cor.
- Deixa eu te dar um abraço, cara.
- Desculpe, eu sei que eu nunca fui muito amável ou simpático, mas eu não quero te abraçar.
- Eu te liguei tanto. Eu te escrevi umas cartas. Quanto tempo faz?
- Dois anos.
- Isso tudo? Não, você deve estar brincando.
- Dois anos. Mas me conte, como é ser louro?
- Tudo mudou, André. A minha vida deu uma virada. Uma boa virada.
- Jura? Por causa de uma tinta barata de cabelo? Anote a marca porque assim que eu sair daqui, eu entro na primeira farmácia.
- Você nunca me respondeu.
- Eu nunca abri as suas cartas.
- Eu imaginei que você talvez não tivesse interesse.
- Confesso que tive curiosidade.
- Eu soube que você viajou.
- Passei seis meses fora da cidade.
- Conheceu alguém?
- Seis meses fora da cidade para tentar ver a vida de outra maneira.
- E seus pais?
- Você sabe o endereço, o telefone, se realmente quiser saber sobre eles... Desculpe, você só está sendo educado.
- Tentando ser.
- Uma das suas boas características.
- Você continua no mesmo apartamento?
- Mudei de andar.
- Certo.
- E o cinema?
- Escuta, Ricardo, você não precisa fazer todas as perguntas do universo para tentar sublimar o vazio desse encontro desagradável. A gente pode dar um tapinha no ombro do outro e seguir adiante como se fôssemos apenas velhos conhecidos.
- Você já foi menos amargo.
- Então me diga o que fazer. Me conte como você gostaria de ser tratado. Como é que a gente faz quando encontra alguém que abandonou a gente? Que abandonou toda uma história por uma pessoa que esse mesmo alguém desprezava? Me diz.
- Você quer conversar sobre isso?
- Dois anos depois? Numa loja de conveniências? Cheio de gente estranha passando e esse barulho todo, essa confusão?
- Quer marcar um café?
- Eu não quero marcar nada com você. Eu não desejo nada de você. Depois que você foi embora eu nunca mais acreditei em ninguém. Eu me transformei num cara incapaz de ter fé em alguém.
- Eu não sabia que você tinha encarado de forma tão negativa o fim do...
- Eu não encarei o fim. Não dá para encarar de frente o abandono. Especialmente quando a gente sai para trabalhar de manhã cedo e quando retorna de noite, encontra um bilhete explicando a situação. Eu engoli o fim, como quem é obrigado a comer no exército.
- Me desculpe.
- A minha vida não mudou. Não deu uma virada e esse papo de virada eu acho uma grande ilusão furada que gente frágil como você precisa para acreditar que está em movimento. Eu continuo o mesmo, com os mesmos valores, com o mesmo mau gosto para música, cinema e literatura. Menos paciente, menos apto a engolir besteiras alheias. Menos inclinado a agradar somente para parecer bacana. Ficar mais velho, afinal, nos deixa mais verdadeiros. Algum tipo de benefício a gente precisa ganhar.
- Foi bom te ver.
- Não vou te dizer o mesmo.

Lobo manso, dentes afiados, ele se aproxima. Ele, que observava atento.

- Amor, vamos embora.
- Amor?
- André, esse aqui é o Lúcio. Ele é meu companheiro.
- Eu sei quem ele é. Como vai, Lúcio? Tentando resgatar o seu noivo de um provável vexame?
- Você parece exaltado e algumas pessoas estão observando.
- Querido Lúcio, foda-se. Você, seu digníssimo noivo, a loja inteira, toda essa gente que olha curiosa e ávida por informação. Por curiosidade mórbida. Para ter o que contar numa roda de fofocas mais tarde. Foda-se, Ricardo. Foda-se você e sua vida transformada. Você e seu mau hálito. Você e seus peidos de noite. Você e a sua tara de tapa na cara. Você e seus nojos. Suas manias. Sua vida inventada para que sua família mantenha intacta a imagem de homem exemplar.
- Ricardo, vamos embora pelo amor de Deus.
- Me espera no carro, amor.
- Sabe que eu te amei pelos mesmos motivos? Ninguém abandona ninguém com um bilhete amassado, Ricardo. Ninguém deveria ter o direito de sair da vida de outro alguém com um papel escrito a lápis, cheio de erros de português. Essa dor é indelével. A sensação de que te falta o ar. De que não há qualquer sentido em nada. Você lembra quando teu pai morreu e você me dizia que não via mais sentido em fazer a barba, em ir trabalhar, em comer, ver tevê, essas coisas? Até eu compreender toda a situação, até eu conseguir descobrir sentido para todas as minhas ações, todos os meus dias... E você me diz que me ligou, que me escreveu, espera uma conversa civilizada, amável, cordial? Você não tem o direito de encontrar comigo na rua. Eu te proíbo. Se isso acontecer de novo, finja que não me viu, atravesse a calçada, mude de direção. Você entende? Não é um pedido que eu te faço, é uma condição que eu te imponho.
- Eu gostaria que fosse diferente.
- Sim, um acidente trágico te deixando em coma por seis anos seria o ideal, mas como eu não tenho esse poder, eu só te imploro para que você saia da minha frente.
- O tempo deveria te fazer entender.
- O tempo só me deixa mais velho. O tempo só te faz disfarçar teus fios brancos com esse amarelo horrendo dos teus cabelos. Esse papo de tempo é pouco interessante na vida real. O tempo só me fez te detestar cada vez mais por não ter sido homem comigo. Por ter cagado toda uma história limpa. Digna. Por ter cuspido e descartado qualquer elo ou comprometimento que nós construímos juntos, Ricardo. Todo amor se um dia termina, não mata nem dói menos que qualquer adeus. Doeria muito menos, eu superaria com mais dignidade se você tivesse me olhado nos olhos, se você tivesse honrado a nossa história.
- Foi isso que o tempo fez com a gente? Me transformou no vilão e te presenteou com essa amargura.
- Não seja ridículo.
- Não sejamos.

André quase chorou, mas foi interrompido pela buzina incessante de um Lúcio nervoso no estacionamento. Os olhares dispersos, aos poucos foram se misturando aos demais curiosos. Não houve despedida. O rapaz da loja, com o mesmo sorriso simpático se aproximou com muita calma.

- Você precisa de alguma coisa? Uma água, um suco, qualquer coisa.
- Não, obrigado. Aliás, eu preciso.
- Pode dizer.
- Me abraça?

Ficaram ali, no meio da loja, os dois rapazes.
Por dezoito minutos.

- E o filme, já escolheu?
- Sei lá, tem A Menina e o Porquinho?

quinta-feira, janeiro 17, 2008

COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO de Susanne Bier


Daqui do fim do mundo, qualquer detalhe me tira do sério. Assim como qualquer ato de generosidade me inspira esperança. Não falo de grandes acontecimentos ou de nada que movimente o universo. Não falo de nada grande. Falo do micro. Da vida dentro do apartamento. Um ou outro aparelho eletrônico que não funciona bem. Aquela percepção cotidiana de que a parede talvez precise de uma pintura e não me importa o sol lá fora rasgando o céu azul. Não me importa o telefone me convidando para programas pela cidade em festa. É que é muito difícil festejar os destroços de qualquer nó não resolvido, de qualquer soma não efetuada. E se quer saber, eu não sou tão boa companhia como você julga. Utilizo o humor como forma de defesa e poucas vezes sou convincente. Talvez seja essa minha forma de observar os dias que te faça me querer por perto. Cada vez menos e não me importa tanto, eu perco o interesse por você cada vez mais. E não vou me repetir, mas daqui do fim do mundo, eu não sinto tanto a sua falta. Eu quase não penso em você. Feito um viciado não anônimo, eu estou limpo há alguns dias e tantas horas. Eu, um carioca trintão.

- Olá, carioca trintão.

Expondo a radiografia íntima sem sal ou pimenta em roda de pessoas tão estranhas e tão fudidas quanto, quase inerte quase morto quase clássico. De tardinha, eu adormeci no sofá e ironia do inconsciente, eu sonhei por alguns minutos que fazíamos sexo. Os dois sem camisa, jeans e algo entre o roçar dos volumes e a bunda, eu me lembro de arrancar a tua calça e apertar a tua bunda. Depois eu acordei puto porque sonhar com você interrompia a minha fase de desintoxicação. Sonhar com você seria como cheirar novamente. Ou beber depois de uma temporada sóbrio. Seria interromper a natureza do desejo de te tirar um tanto da circulação. Eu despertei irritado e o sangue quente muitas vezes me faz explodir grosserias com quem não tem responsabilidade alguma sobre os meus nãos. O fato é que não estou nada sociável. Não sinto vontade de gente por perto. Não tenho o desejo de sair de casa. Ou de conversar, simplesmente conversar. Passaria os dias em silêncio sem o menor transtorno. Muito difícil enfrentar o verão em pleno inverno. Mas falar e só falar ou saber e apenas saber, não evitará qualquer perda.

- Perder é também uma forma de...

De me encontrar? Olha, se essa frase funcionasse, eu seria o cara mais centrado do universo. Porque desde que eu me lembro, a ordem dos fatores complica o resultado. Desde que eu passei a compreender qualquer situação ou a identificar certas sensações, eu me perdi e me parece cada vez mais sem volta. Sempre que eu penso de forma positiva, que eu injeto alguma animação – natural, acontece de forma natural – em alguém, em algum projeto, em novidades para o meu universo, algo externo e tragicamente natural, ironicamente natural, mostra os contornos de uma decepção, de um sopro contra, às vezes vem em forma de soco, outras em placas sinalizando, já veio até em sorrisos. Eu sei que a vida é assim mesmo, que não é fácil para ninguém, que vivemos um momento quarto do pânico e cada um se segura como consegue, rezando todos os dias quando acorda e quando vai dormir, se conseguir dormir. Sei também que nenhuma batalha é fácil e nenhuma luta é em vão. Então eu só anseio por paz. Para poder amar, para poder escrever, para poder participar do movimento sem me sentir na contramão. Você tem um cigarro?

- Aqui no fim do mundo é proibido fumar.
- Por causa do fogo?
- O cigarro é proibido.
- Medo de fogo? Olhe ao redor, veja o que sobrou. Os destroços das fogueiras, a poeira dos incêndios, a cor preta das paredes e do céu. Não há nuvem no céu e também não há estrela qualquer. Não vou nem falar na lua. A gente aqui em baixo, não sabe mais sobre as estrelas ou sobre as fases da lua. Perdeu-se o encanto. A generosidade. O desejo de permanecer. O clique da conquista, você já viveu esse momento? Quando você percebe que conquistou alguém? Não falo de amor de amantes nem do rito do sexo. Conquista. Quando você chega e estabelece com o outro alguma ligação que avança pelos dias, pelos meses e você percebe que aquela pessoa conquistou um espaço, te ganhou num carinho, pequeno príncipe total. Esse momento é tão grandioso e tão verdadeiramente sincero. É raro também. Quantos amigos você têm durante a vida? Gente nova sempre há. Elas despencam sobre as nossas cabeças nas festas, nos eventos, nas reuniões e pela cidade grande, fatalmente você vai esbarrar em centenas. Quantos amigos permanecem durante a vida, naquela troca necessária de afeto e verdade, sem selos de garantia, sem data de vencimento. Por opção. Por querer ficar. Por amor, um estranho amor, bendito maldito amor. Você conta nos dedos, você pensa em três ou dois. Você sente um conforto de saber que existe alguém. Agora liste sem receio todas as pessoas que desertaram. Que te criaram confetes de ilusão, beberam algumas cervejas por algum tempo e depois se perderam no tempo e no espaço de outro alguém. Esse movimento cigano - admirável – de chegar e fazer as malas, que é também necessário e natural, apenas natural, para que a gente observe o mundo com mais riqueza de detalhes. O tal do chegar e partir. Nascer e morrer. Eu só estou divagando pra ti porque nunca me senti tão sozinho. E nunca tive o desejo tão forte de permanecer dessa forma. Absolutamente natural.

Alguns incêndios não devem ser provocados.

sábado, janeiro 12, 2008


ESCRITORES DA LIBERDADE de Richard LaGravenese


Eu deveria estar escrevendo outra carta.


Mas é alto verão e isso significa que tudo está muito claro e não precisa de sombras. O meu computador deixou de funcionar, justo agora, nesse momento em que eu gostaria de terminar as noites com aquele nosso bate-papo íntimo, aquela troca de idéias e frases que me parecem tão instigantes quanto interessantes. Eu gosto desse momento, enquanto não somos nem os melhores amigos nem os melhores amantes. É quase o início de um caminho. Estamos, os dois, na ponte segura do querer bem e ainda não seguimos adiante. Talvez não sigamos. Mas ainda somos um para o outro, belas cores. Possibilidade de um futuro incerto. Uma página nova. Um fio de luz. Então eu te escrevo porque penso em você. Penso em detalhes das tuas reações, em fragmentos da tua voz, nas minhas mãos ao menor alcance, penso no que eu não te digo quando te olho. No que não é palavra, mas se transforma quando eu consigo compreender parte do mistério que na soma do lápis, é mais simples do que deveria. Eu penso em você. E isso é tão forte e inesperado. Eu ouço a sua cantora preferida e te escrevo porque estou do outro lado da cidade e me parece equivocado que diante desse tempo abafado, eu disque o teu número para saber com quem andas e teus rumos. Faça teu caminho, percorra as tuas ruas, avance os teus sinais. Como somos rapazes que se encontraram e ao nosso tempo, tecemos intimidades no avanço dos dias, as responsabilidades são mais frouxas entre nós. Se eu te quero para um romance, se tu não sabes ainda ou se compreendes e me quer para uma temporada de Friends, ainda é possível que as linhas se cruzem. Ainda é possível que arrisquemos passos em direções diferentes. Porque tudo é um começo e todo começo, meu caro, é divino-maravilhoso. É possível o meu entusiasmo. É possível a tua interrogação. Não há embaraço na linha que ainda não cruzou. E se cruzou, elas se complementaram. Eu penso em você. E é lindo que alguém, por qualquer motivo, possa ser a semente de um pensamento, responsável por sensações e letras, razão de um momento: o de escrever, o de lembrar, o de querer. Bem. Não te parece no mínimo especial que entre tantas pessoas na cidade, a vida eleja um e deixe acontecer, surtir efeito?


Eu gosto do clima. Gosto dos detalhes. Gosto da vida preenchida no todo. Da vida, enfim, preenchida. Eu valorizo as primeiras vezes. Se estivermos atentos, todos os dias com todas as pessoas, estamos sujeitos ao inédito. E eu sei que você me entende. Ainda que os amigos sejam os amigos de sempre, é sempre tempo de uma nova ternura, de um novo carinho, um novo verbo, uma nova emoção. É possível mudar o olhar. Buscar outro ângulo naturalmente, sem obrigação alguma. Faz muito tempo que eu tenho vontade de sentar e conversar sobre a vida e seus afluentes. Dos mínimos aos máximos, da poeira e do vigor dos dias, do efêmero ao que resiste, da igualdade e as diferenças. Faz tempo que eu tenho vontades e as realizo, muitas vezes sem perceber que estou realizando. Gosto das nossas conversas salpicadas do repente. Gosto de uma cumplicidade que eu sei que existe. De uma velocidade cúmplice, seja no humor ou nas afinidades. Gosto de um futuro que não sei se virá. Gosto da possibilidade e do clichê. Faz muito tempo que eu tenho o desejo de parir palavras que informassem sobre nossos universos. Palavras fáceis. A vida, enfim, sem complicações. E faz tempo também que eu sei. Do saber e seus afins, eu ilumino parte do caminho e qualquer luz, qualquer sinal, já me acalma já me aniquila. Como quem ouve mil sinfonias, eu te amo nem tão calado assim. E não sei se dizer isso assim, de cara limpa, pode surtir efeitos plurais. Pode evitar qualquer embaraço. Eu deveria estar escrevendo outra carta. Mas não sou homem de fugir da beleza dos desejos. Gosto desse momento. Cada vida voltada para um novo amor. Cada amor na esperança do acerto. E cada acerto na direção do desejo. Eu te quero por muito tempo. Faz tempo que eu te quero por muito tempo.


De tudo o que anda acontecendo, você tem sido um lindo acerto

domingo, janeiro 06, 2008



UN AÑO SIN AMOR de Anahí Berneri


- Você não acha fácil demais?
- Acho. Mas não vejo um problema nessa facilidade. Você vê?
- Problema seria um exagero. Mas é tão óbvio que perde a graça.
- Não perde a graça. Me diz um motivo para enrolar uma situação simples se eu posso sutilmente sinalizar e o interessado compreender?
- É que essa facilidade me faz perder o encanto.
- Que encanto?
- O encanto.
- O problema e não seria exagero te dizer, é que você se acostumou a gostar de pessoas impossíveis. Improváveis. Pessoas que você não se aproximaria normalmente. Então, nada é fácil. Ou são heteros. Ou são casados ou bonitos demais e noivos. Ou simplesmente não te querem. E aí, quando eles dizem que não vai rolar, você se apaixona e fica perdido nessa sensação de rejeição até que apareça outra pessoa na jogada.
- Você não precisa ser cruel. E não precisa me jogar na cara tudo o que eu já sei.
- E por que você está irritado?
- Eu não estou. Só te fiz uma pergunta simples. Se você não acha fácil demais... É que na sexualidade masculina, existe algo automático. Não importa a mão de quem acaricia, se tudo o que queremos é uma reação.
- Você tá querendo me dizer, então...
- O que eu quero dizer eu já disse.
- Você sente ciúmes. E inveja também.
- Eu sinto falta de intimidade.
- O que você sabe sobre intimidade? Seus encontros sexuais são quase sempre furtivos. Em motéis baratos, com pessoas que você nunca mais vai voltar a ver.
- Tão fáceis quanto os seus. Mas pelo menos ainda existe um rito, uma seleção, uma caça...
- Desgastante.
- Excitante. Intimidade pra mim não é te confessar com que eu transei, por quem eu tenho tesão, essas particularidades que a gente tanto troca. Não é ir pra cama com alguém e brincar de entrar e sair. É deixar o outro permanecer. E ver como é que funciona esse comprometimento de saber outra história ao lado da tua.
- Isso é discurso de livro, de filme.
- Essa é a minha maneira de compreender. Por mais diferenças que nós tenhamos, eu não vou abrir mão da minha forma de encarar o mundo porque hoje você acordou de TPM.
- Seu discurso, às vezes, me cansa. E não jogue a culpa da sua irritação na minha menstruação. Chega dessa besteira de culpar o meu ciclo por qualquer atrito que a gente encontra no caminho.
- Mude de amigo. Ou então a gente pode dar um tempo e não se encontrar por uns dias.
- Desde quando alguns dias vão solucionar qualquer diferença?
- As nossas diferenças sempre existiram.
- E vão existir. Amor não é algo que se sente, Ju. É algo que se faz. E se a pessoa em quem você deposita esse amor, por qualquer motivo, o recusa, faça um grande favor a si mesmo e guarde para quem queira.
- Isso sim parece ter saído de filme.
- É o que eu penso e se o que vale hoje são as frases de efeito, que sejam elas então, meu amigo, que te protejam o coração. Porque o ano acabou de começar e essas questões velhas já temperam as nossas desavenças. Sexo é... Efêmero: com amor, sem amor, no impulso, no desejo de ter alguém brincando com o nosso corpo, esse consentimento, eu acho tão simples. E você também. Os nossos caminhos são diferentes, natural. Se você gosta de rodear, eu sou objetiva. E quem disse qual é o jeito certo? Minha preocupação é que você às vezes dá muita importância e se apega demais a alguns...
- Eu tenho medo que esse ano seja mais um ano sem...
- Eu também, meu amor. Mas o que a gente faz? Fica em casa esperando o ano terminar, desperdiçando o tempo, as noites, a juventude?
- Homem bonito me atrai. Não me importa se hetero, jogador de futebol, ateu ou gari. Você sabe.
- Não se justifique.
- Eu não estou.
- Pense nas pessoas que você disse não, antes mesmo de conhecer. Nos que se aproximaram e você não deu tempo para que eles permanecessem.
- Não são tantos assim.
- São pessoas. Que chegam e vão embora porque você julga que são fáceis. Porque não te causam o impacto da beleza tal. Porque não te desafiam, já que são solteiras e inteiramente disponíveis para uma história. E você, tão sensível, você é a pessoa mais sensível que eu conheço, você deixa escapar esses detalhes. Eu te observo e eu não tenho o direito de me meter nas tuas escolhas, mas você precisa aprender a parar de olhar para a parede.
- Eu preciso.
- Precisa.
- Você me ajuda?