sábado, maio 31, 2008


LATTER DAYS de C. J. Cox

Pequeno, te escrevo e faz menos de cinco minutos que nos despedimos. Ainda sinto o corpo aquecido do teu abraço, ainda tenho o teu sorriso na retina, o timbre da tua voz ainda existe intenso em mim. Não sei ainda explicar o quanto é bom te ver, dividir um pedaço do dia, seja para falar, ouvir, abraçar, silenciar. Admiro a sinceridade com que você enfrenta os teus nós, a tua maneira direta de simplificar o que parece complexo. É muito importante estar ao teu lado porque você me aponta caminhos que não sabia existir. Você me acende possibilidades. Te escrevo num caderno antigo que não abro faz muito tempo. Jogado no fundo da bolsa, encontrei a seguinte frase ao procurar espaço para você: falta, meu caro, alguma paciência, porque alguma inteligência e segurança existem sim, em decorrência de uma atitude bonita e que só gera bons comentários e nada mais. É curioso porque a frase estava solta, como uma pena ao vento e não me lembro para quem havia escrito. Não me lembro sequer de ter escrito, mas a letra era minha e eu escreveria uma frase desse tipo. Folheando o mesmo caderno, encontrei textos muito antigos, uma maneira de escrever muito intensa, quase ingênua, que não sei onde foi parar. O coração era mais selvagem. Não existia tanto o medo do tombo, das dores, das cicatrizes. Era um jovem mais sedutor e destemido. Era um homem mais objetivo e tinha mais a dizer, as palavras pareciam urgentes. Deu saudade de escrever daquela maneira. Da nossa conversa que muito transitou entre um passado nem tão distante, muito se esclareceu. Ir adiante, eu concordo. De repente mudar de cidade, viver em outro cenário. Eu vou sentir tua falta, provavelmente vou te escrever boas cartas de saudade grande, atender os telefonemas com um sorriso no canto da boca e a certeza de que sobrevivemos com muito afeto um pelo outro, todas as linhas cruzadas dessa nossa história. Não tenho muito o que dizer porque nossa comunicação é tão precisa que essa carta só está sendo escrita para te dizer que já sinto a sua falta. E que adoro o nosso encontro. Ele me inspira. Me entrega a sensação de que tudo precisa de um fim de que tudo precisa de um início. De que trocar é também aprender. E você tem me ensinado. Obrigado.

Não sei dizer se ignoramos ou valorizamos a chuva fina e o tempo frio, esse ponto de inverno que se estabelece, mas a noite foi ótima. Mesmo chegando atrasado e molhado, driblando o trânsito e os ruídos e as luzes. Foi só os meus olhos encontrarem os seus e depois tudo se transformou em abraço, segredos, conversa, mesa de restaurante, cinema abraçadinho, risadas para rimar, livraria vazia e tão cheia de vida. Eu nos amo dessa maneira de quem percorreu tanto em tão pouco tempo e chegou aqui, nesse ponto, que é o ponto de encontro, o ponto que muda o parágrafo, o ponto no mapa que nos coloca em movimento para o futuro, para o presente. O ponto que é também pingo no i porque ele nos resolve todo um tempo de dúvidas e aflições e nos lança na história de igual para igual. Dois rapazes que foram ao cinema numa noite fria de inverno, deixando de lado a chuva e pequenos problemas que os fazem tremer a base. Mas se não há tremor, se não existe o abalo, por menor que seja e tudo é muito fácil, gratuito e os livros estão organizados impecavelmente, onde é que encontraremos as diferenças que nos aproximam? Ah, como eu te quero bem. Como quem faz uma música linda, escreve um poema curto e preciso, como a natureza ou como quem lê a Ticcia e percebe a tranqüilidade da sabedoria e a inquietação da mulher linda que ela é. Porque ela é. Tranqüila e inquieta como toda grande mulher. Como toda boa escritora. E os opostos me atraem.

Eu te deixei no ponto, abraço forte, urgente, nosso querer durante toda a noite esteve intenso, eu entrei no táxi pensando nessa intensidade de quem se arrisca e de como somos corajosos porque confiamos nossas vidas, dúvidas, desejos, sonhos e imperfeições aos olhos do outro. Esse é o ponto que eu quero tocar. O da confiança e eu quero dizer também amizade, amor, sei lá qual palavra se encaixa na intimidade que eu quero nomear. Mas eu te quero na minha vida. Eu sou uma pessoa que melhora com a arriscada relação verdadeira que estabelecemos sem sequer combinar. Nosso texto não é vida real. Cabe o onírico, cabe o belo, o sujo, o feio, o malvado, o cruel, o colorido, a vida e também a morte. Eu entrei no táxi com muita vontade de falar em voz alta os pensamentos. A Daiana me ensinou a falar os pensamentos porque eles ganham o peso da voz e do ouvido e muitas vezes perdem a importância imaginada ou ganham uma leveza que ilumina. E o motorista me perguntou as direções, reclamou da chuva e me senti capaz de indicar inúmeras possibilidades para que ele me levasse para casa. Você me causa a sensação de futuro, me situa tão bem na tua geografia que me transforma em alguns minutos no dono da cidade sem dono.

No meio do caminho, parei de me ouvir. O motorista me perguntou os pensamentos. Era um senhor de sessenta e cinco anos tentando quebrar o silêncio. Contou da vida, da morte que quase o levou em quatro pescarias e eu disse do meu medo do mar. Quase falei do medo de amar. Muito calmamente me disse que nos dias de hoje, não existe mais lugar para o medo. Que é preciso enfrentá-lo, seja ele qual for, venha ele de onde vier. Que toda noite, ao sair para trabalhar, é uma nova noite onde ele se desafia e cai na estrada porque é preciso seguir adiante. Me contou também que perdeu o filho de quarenta e dois anos, vítima de Aids e que a esposa ainda não superou sua partida. Eu perdi a palavra porque ao meu lado, um homem sem intimidade me falava com intimidade do vazio da perda, da brutalidade da doença, de como o filho era alguém muito bom e muito íntegro, mas que se deixou levar pela luxúria. Disse que entendia o impulso do desejo e que nos dias de hoje, é preciso ter consciência, que mataram o desejo, que banalizaram o sexo. Até que a voz tremeu as cordas e a canção foi interrompida, lágrima inevitável. Eu agradeci a corrida, desejei boa sorte e felicidade, meti o pé na poça e saí do táxi, entre o quase grito e o total silêncio.

Desci do táxi tonto da noite, a manhã pronta para nascer, o céu de um azul inexplicável, caminhei procurando chaves, carteira, celular, algum equilíbrio. Encontrei os gatos na portaria se lambendo. Me olharam com descaso, sem susto e continuaram o cuidado do banho com a naturalidade de sempre. Sentei no primeiro degrau, observando a atenção e a disciplina dos movimentos felinos. E percebi que estamos diante de uma nova história. Teu novo amor te enaltece e faz com que eu seja o bom amigo de sempre. Teu novo amor te transforma violentamente numa pessoa mais simples e me transforma, sem saber, em alguém que precisa aprender a ser mais simples. E te quer tão bem que vibra com a tua felicidade e percebe que as histórias ganham novos rumos e desdobramentos. Sopro forte de que é o momento de arrumar a casa, os dias, as flores, a vida, enfim. Coração aberto, a mente fértil, a cidade grande, muito para ler, assistir, estudar, debater e inevitavelmente, amar. Quando percebi tinha um gato no colo e falava cansado com os animais até que minha mãe chegou na janela e era manhã de domingo. Me chamou a atenção e subi para um banho e um café, a cama que não lembro como foi feita, o travesseiro, o sono.

Acordei com a sensação que todos acordam quando bebem além da conta. Com a sensação do quase atravessada. Com a sensação solta de que a noite, embora sem nenhuma conversa objetiva sobre nós, nos definiu e nos acertou os ponteiros do que está por vir. Despertei com a sensação de que encerramos, de que encerrei um nó, de que finalmente, os ventos simplificaram os laços, os afetos, o antigamente. Levantei folha em branco. O tempo nublado por fora, mas aberto por dentro. Um amor deveria ser sempre como o nosso: livre. Viva a tua vida nova e os teus. Viverei a minha. Com a fortaleza do querer bem que nos une e nos leva onde quer que estejamos, amemos seja lá quando. Te espero para uma nova festa, para uma nova bateria de músicas e risadas, cerveja e aquela sensação suada de que dançando a gente se entende, a gente se esbarra, a gente se celebra. Como velhos amigos, como antigos amores, como homens que não temem a novidade, mas a enfrentam com seus medos e angústias, suas certezas e interrogações. Como rapazes que investigam a vida, sem peso, apaixonados por momentos. Pelo minuto que precede a ação, da palavra, do gesto, do que vai ser. Do quase.

Preciso me encontrar entre os extremos. Equilibrar os meus pratos. Sem perder a intensidade, a ternura, o desejo. Ainda tenho medo. Ele não me paralisa. Mas ainda o tenho. Esse é um ponto delicado. Que não muda o parágrafo, mas me levanta questões, como em reticências.

Adoro o inverno com você.

terça-feira, maio 27, 2008

CANDY de Neil Armfield

- É como se eu tivesse uma puta particular.
- Explique, eu já não entendo mais nada.
- Ela é minha puta virtual. A gente se encontra vez ou outra na internet. Eu ligo a câmera. Ela me telefona. A gente tem uma transa sem limites, enlouquecedora, sem restrições porque ela é minha puta e assim vai.
- Você se exibe na câmera? E ela?
- Ela não tem. Ou diz que não tem. Por isso ela me telefona. E só liga quando eu mando.
- Então você nunca viu essa mulher?
- Não. Sim. Eu já vi fotos dela. Várias fotos.
- Ela sabe da tua vida?
- O suficiente.
- Teu nome, tua profissão.
- Sabe meu nome, sabe que eu sou noivo, sabe que não pode me ligar a não ser que me avise antes. E o principal, ela sabe como me deixar maluco.
- Você já parou pra pensar que essa mulher pode nem ser mulher de verdade?
- Claro que é mulher! Eu já falei com ela diversas vezes. Conversas longas. Eu teria percebido.
- Se eu quiser afinar um pouco a minha voz pelo telefone, eu me passo por mulher, Felipe.
- Você está com ciúme. Querendo me boicotar. Ela tem uma filha, é noiva também. Por que mentiria?
- Por você ser gostoso? Hetero? Você não sabe que os gays adoram fantasiar com homens que nunca tiveram uma experiência antes?
- Você fantasia?
- Fui apaixonado por você.
- Você não se apaixonou por mim por esse motivo.
- Você nunca me quis pelo motivo inverso.
- A gente não vai entrar nessa discussão, vai?
- O que eu quero te dizer é que você não conhece essa mulher.
- Ela é minha puta.
- Ela te faz acreditar nisso. E não te dá nenhuma garantia, a não ser a voz pelo telefone, que num momento de excitação pode nem fazer tanta diferença assim. Você sabe que em dias de cio, não precisamos de muito esforço para curtir uma putaria.
- Ela é mulher, tenho certeza! Nenhum homem, por melhor que fosse, ia conseguir me deixar da forma que ela me deixa.
- Será?
- Como é que você pode saber?
- Eu tenho parâmetros.
- Papo para me confundir. Onde é que você quer chegar com essa conversa?
- O que me atraiu em você, de cara, foi essa tua ingenuidade. Essa cara de homem pedindo proteção, fácil de conversar de verdade porque você não intimidava. Você não causava desconforto ou desconfiança. Você olhava nos olhos e era de verdade. Não havia motivo para te mentir. Nós ficamos amigos rápido porque percebemos que era só dizer a verdade que o caminho estava aberto. A vida não te castigou com a crueldade de gente usando da tua ingenuidade para conseguir algum benefício.
- Mas o que eu teria a oferecer, cara? Não sou rico ou dono de nada. Por qual motivo alguém poderia querer me enganar? O que lucrariam com isso?
- Felipe, quando você foi lá em casa chorando, querendo entender porque eu tinha sumido depois de uma temporada de grosseria e irritação declarada, eu te abracei e disse que eu não ia mentir pra você. Que eu era apaixonado por você e eu sabia que você ia pedir a Roberta em casamento, por isso eu não poderia participar daquele momento. Você lembra, não lembra?
- Claro que eu lembro.
- Eu respeitei o teu amor. Eu engoli o meu sentimento por você, sabendo que ia ser foda de levar adiante, mas a amizade, essa nossa estranha relação, esse amor que a gente sente um pelo outro, sempre falou mais alto.
- Certo.
- Se existe um homem se passando por mulher para tirar proveito da tua ingenuidade – e do teu corpo gostoso, do teu sorriso lindo e da tua intimidade – eu tenho o direito de tentar te alertar e desmascarar esse pilantra.
- Sabe o que eu acho? Que você deve fazer coisas desse tipo. Criar uma personalidade feminina e enganar os caras por aí. Por isso é tão desconfiado.
- Bom saber o que você pensa, mas não. Enganar as pessoas não faz parte dos meu planos.
- Então relaxa. A gente só se fala duas vezes por semana, sempre no final da noite, antes de ir deitar. Não vá fazer um drama.
- A Roberta, como é que ela ficaria se descobrisse que você tem uma amante?
- Eu não tenho uma amante!
- Você tem uma puta, é verdade.
- Eu não sei por qual motivo eu resolvi te contar essa história.
- Também não sei. Você é sempre tão reservado com a tua vida pessoal. Se a Roberta souber disso...
- Ela não vai saber. Ela não tem como descobrir.
- Não deixa de ser traição.
- Seu moralismo me irrita. Você sai com garotos de programa.
- Eu sou solteiro.
- Eu nunca encontrei essa mulher. Ela só existe quando eu ligo o computador e procuro por ela.
- Se essa mulher realmente existe, por que nunca se mostrou? Por que nunca ligou a câmera dela?
- Porque ela não tem. Você também não tem uma câmera e nos falamos todos os dias pela internet.
- Saímos para beber, para dançar, a gente vai ao cinema, ao teatro, somos amigos. Você tem a chave da minha casa. Você nunca teve curiosidade de saber como seria encontrar com essa mulher ao vivo?
- Já tentei diversas vezes.
- Me deixa adivinhar. Ela sempre te dá uma desculpa, dizendo que não vai dar, que outro dia, quem sabe?
- Porque ela é noiva também, é complicado.
- Isso dura desde quando?
- Quase dois anos.
- Vou te contar uma coisa, meu amigo. A sua puta é homem.
- Deixa de ser ridículo.
- Aposto o que você quiser.
- Ridículo!
- A puta para quem você fala obscenidades e se mostra pelado, é homem, meu caro. Uma pena você não ter me contado antes. Eu não posso deixar de dizer que é uma puta... puta... uma puta ironia, logo você, que já teve todos os amigos gays loucamente apaixonados por você, sempre tão convicto na tua disciplina heterossexual, com o discurso sempre tão ensaiado e convincente de sejamos amigos, cair na conversa de um senhor esperto, devo admitir.
- Ela não é ele. Você está viajando. Não vou me sentir culpado porque alguns caras já me cantaram e eu disse não.
- Eu estou incluído entre esses caras?
- Eu não quis dizer isso.
- O que você quis dizer?
- Não me confunda!
- Se eu estiver incluído nessa seleta lista de homens que te cantaram e você disse um não, eu quero te dizer que...
- Não estou falando de você.
- Eu quero te dizer que eu não te cantei. Não olhei para você e pensei olha que bonitinho, vou investir para ver se eu como ou se ele me come primeiro. Eu não esbarrei com você pelas ruas. Eu não te vi numa discoteca e me aproximei pelo teu corpo sarado ou teu sorriso desconcertante. Não é físico, Felipe. Não vou te explicar como é que uma pessoa se apaixona por outra, a cada um o seu cinema, mas o meu amor por você aconteceu por razões muito mais relevantes que o teu rosto bonito. A gente se conheceu muito cedo. Muita antes da vida nos encher de porradas. Uma época de descobertas, a gente bateu punheta pela primeira vez com a mesma revista. Você enterrou o meu irmão comigo. Existe uma história entre nós. Indelével. Depois que o tempo passou, só depois com a idade é que eu tive calma para compreender que o que eu sentia por você não era só um carinho de amigo.
- Melhor amigo.
- Que esse excesso de cuidado, esse desejo incontrolável de te querer cada vez mais presente, era amor. E o que você faz com esse amor quando o outro recusa esse sentimento? O que você faz com essa sensação latente quando o teu amigo se aproxima emocionado e te diz que vai casar? Sabe responder? Porque não dá para desamarrar o amor e fazer ele subir feito balão de gás. Não dá para abrir a porta do armário e jogar o amor lá dentro junto com a bagunça. Como é que resolve? Como é que fica quando o homem da tua vida chega para você e diz que anda traindo a noiva com alguém que ele nunca viu antes, só ouviu por telefone? Que ele abre o zíper da calça e se excita sem saber se do outro lado, existe alguém que sente pelo menos ternura por ele. Porque provavelmente é só prazer. Só o vício do prazer que se sacia em segundos. Como é que faz? Sabe responder? A gente engole. A gente sufoca e se maltrata e passa por cima do que existe de mais nobre, de mais bacana, que é a capacidade de se doar. De poder se entregar ao outro sem exigir nada em troca. Isso é amor! Não uma cantada estúpida de gente que só quer uma trepada rápida só para depois ter o que dizer aos mais próximos.
- O que você espera que eu faça? Me diz. Você quer que eu admita que eu posso estar sendo enganado? Não me interessa mais, se você quer saber. Faz tempo que essa mulher existe na minha vida. Eu me acostumei. Eu acredito nela. Nas fotos dela. Na voz dela. Na safadeza que ela me desperta. Ela me provoca. Com a voz, às vezes só teclando. Ela aparece na internet e eu já fico excitado. O que você quer que eu faça? Eu gosto, cara. Eu adoro. Se é mulher, se é homem, se é uma velha perneta, eu gosto de ter prazer com essa pessoa. Eu nunca falei dela com ninguém. É o meu segredo, entende? Só meu. Hoje eu resolvi te contar, você é a única pessoa que sabe realmente quem eu sou, você sabe, não sabe? Faz tempo que eu penso em te falar sobre isso, mas sempre achei que você fosse me achar ridículo ou se sentir incomodado.
- Eu não quero ser a sua puta.
- Quer.
- Eu não quero.
- Você sempre quis atingir esse grau de intimidade, você sempre questionou as minhas preferências. Sempre tentou ou saber ou de alguma forma participar das minhas fantasias, das minhas taras, do que me satisfaz. E agora, sabendo dessa história, você deve se sentir...
- Você não pode dizer o que eu sinto.
- Você deve sentir que alguém te ultrapassou. Esse teu lugar desejado. E se esse alguém for um homem, ele te rouba essa chance. Ele toma o teu lugar. Porque a única coisa que não aconteceu entre nós, o único caminho que a gente realmente desconhece um no outro é justamente o sexo.
- Você não precisa ser sempre o centro das atenções.
- Eu te conheço.
- Nem tão bem.
- Vai me surpreender?
- Me beija?


sexta-feira, maio 23, 2008



O MARIDO DA CABELEIREIRA de Patrice Leconte


Senhor você,

Outro dia a Fal me soprou a lembrança do Sem Você, do Tom Jobim e do Vinícius de Moraes. Eu acho que essa é a música mais triste de todo o mundo. Especialmente a versão do Ney Matogrosso no maravilhoso O Cair da Tarde, que é assim um disco para ouvir a vida toda, porque ali só tem Villa-Lobos, Tom e Vinícius. Ainda estou na quarta linha e já citei cinco artistas, dentre os quais, amo com especial atenção a minha querida amiga Fal, que é escritora e sabe das palavras e sabe também das alegrias plenas e das dores injustificáveis. E eu começava falando sobre as linhas da música mais triste do mundo, porque lá no finalzinho, concluindo soberanamente, ela diz:

"Meu amor/
Meu amor/
Nunca te ausentes de mim/
Para que eu viva em paz/
Para que eu não sofra mais/
Tanta mágoa assim/ No mundo sem você".


Depois que nos falamos, eu comecei a te escrever uma carta no computador. Era um texto muito justo, um discurso muito seguro, parecia ter uma visão imparcial, eu diria, sobre os nossos últimos acontecimentos. Das minhas falhas, da tua carta, das nossas dores. Mas por algum motivo, o word deu problema e ele não conseguiu salvar todo o conteúdo da carta. Salvou apenas o primeiro parágrafo, que depois na releitura perdeu o sentido já que os outros dois haviam sido excluídos. Me senti sem chão porque eu tive a sensação de que não ia conseguir reproduzir o que havia escrito, como de fato não consegui. Eu te escrevi uma carta perfeita que se perdeu na confusão da tecnologia. Eu conseguia te dizer da minha burrice, do meu amor e da nossa amizade com muita simplicidade e muita clareza. Eu conseguia te dizer que não me incomoda estar errado ou fazer burrices se tenho a oportunidade de pedir desculpas, de reconhecer olhando nos olhos, que também eu, posso estragar um momento. Posso fazer merda. E que nem nós nem ninguém estamos livres de um erro bobo. De uma atitude impulsiva, de um ato involuntário. A maneira que eu encontrei de dizer que estava doendo, não foi a melhor, eu sei. Mas eu ainda preciso te dizer o que eu senti tão intenso e tão sem controle, que me fez te deixar no metrô e seguir o meu destino, a minha noite planejada.

Eu te devo um sincero pedido de desculpas. Porque me escondi atrás das palavras em fuga irreversível dos olhos nos olhos. Sei que esse tempo de uma conversa, esse vazio dos dias em que não existimos, se deve muito ao fato de ter medo das minhas reações. De uma certa forma, eu te protegi do meu destempero. De uma certa forma, eu fugi de uma situação que me deixaria vulnerável, tendo que te explicar as minhas razões, dar nome aos meus motivos. Burramente, eu achei que escrevendo um texto, que redigindo uma carta, eu conseguiria solucionar uma aflição, eu conseguiria ajustar uma inquietação. E então, meu amigo, mais uma vez a vida ensina - e eu achava que era óbvio, cruelmente óbvio - que as palavras são instrumentos fortes, mas não substituem os olhos nos olhos, a temperatura da voz, o momento presente. Qualquer tentativa de anular ou substituir a franqueza de uma conversa, a potência de um diálogo, me soa no mínimo, estúpida. Por isso não me incomodo de pedir desculpas. E te escrevo aliviado porque sei do nosso encontro na segunda-feira. Sei que o real, dessa vez, vai se ocupar de nos dar destino. Ou seja lá o que tiver que explodir, sabe se lá das direções das tonalidades dos desfechos que nos aguardam. Me perdoe pela forma. Não pelo conteúdo. Sobre ele, acertaremos ou criaremos outro compasso. Nossa cadência mudou, você há de concordar.

Dos dias de silêncio, o que mais ecoou foi não ter a tua voz no ouvido. Não ter os teus olhos em direção aos meus. A companhia no metrô. A noite avançando pela cidade e a certeza de que independente de qualquer evento, o importante é que eu tinha você ao lado para qualquer aventura. Para qualquer ônibus, qualquer táxi, qualquer cerveja, qualquer perigo. Eu não quero te perder. Não quero um ponto final. Não quero tapas. Mas também não quero me contradizer e nem é por orgulho, mas por me manter fiel ao que estou sentindo. Por isso - e tenho mais uma vez a certeza de que uma carta não pode resolver a vida de duas pessoas - precisamos nos encontrar e conversar. Nos ouvir. Jogar na mesa as armas, tirar as armaduras e enfrentar os fatos como eles são: reais. Porque tudo entre nós, embora muito bonito e verdadeiro, sempre foi muito poético, onírico e fantástico. Porque somos atores, daí você vai rir e acho lindo que nossa história tenha sido traçada com todos esses elementos que nos fazem ainda mais fortes, que nos saltam em importância e intimidade, mas precisamos nos compreender e compreender esse momento. Aprendi que não podemos exigir nada de ninguém, especialmente se o alguém em questão, não pode nos suprir ou porque não quer ou porque não pode. Aprendi que existem diferenças definitivas entre o querer e o poder. Aprendi também que não posso estar sem você. E também não posso estar com você. Quero saber o que você aprendeu para podermos, com amor - e daí vem toda a magia - não nos perder. E eu te adianto, eu não quero. Mas eu posso.

Assisti o filme lindo do Patrice Leconte, que eu procuro desde nem sei quando e lá no final, a mulher mais feliz do mundo, satisfeita com a vida e com o seu amor, se atira no rio. Ela interrompe a perfeição. Termina antes que terminasse. Ciente de que um dia sua vida e seu amor e suas conquistas, perderiam o frescor, aniquilando a sua paz. A Anna Galiena abre a porta do salão, depois de fazer amor com o marido, no meio de uma tempestade e corre em direção ao rio. No auge da paixão, ela se atira.

Fiquei pensando nos caminhos e nos seus desdobramentos. Do espaço enorme que existe entre as cartas de amor e o amor que nos faz produzir cartas. Do tempo que investimos idealizando estar com alguém e o tempo que percebemos que o nosso ideal poucas vezes está em sintonia com os nossos planos. Das rachaduras da comunicação. Da fragilidade de um não. Do poderoso decreto de um sim. Ou vice-versa. Eu penso em nós dois e no pote lotado de histórias. Na quantidade de tempo, de convívio e expectativa e surpresas e decepções e também lágrimas e gargalhadas que a gente se cedeu. A tal da permuta. Que me enche de desejo. O desejo latente de viver uma história boba, mas uma história minha. Simples, carioca, divertida, apaixonada, real. A vida real, agora. Essa urgência do minuto, sem fazer desse minuto, um grande espetáculo. Dar importância ao que nos move. Esquentar os tamborins e cair na folia. Cair. Para levantar. Com você.

A sensação de querer ter você por perto, pelos mais variados motivos - pode ser um livro, uma canção, uma lembrança - era para te dizer da falta de lógica dos fatos, da não seqüência das sensações, do desperdício do tempo e do carinho, do sentido que a gente encontra nos detalhes, daquilo que existe em nós como referências para caminhar. Mas a cidade, tão grande é também tão pequena porque ela nos reúne sempre em algum bar fatal de uma daquelas noites de um elegante frio, que ainda são suportáveis ou de um safado calor, quando nos esbarramos em intimidades de saliva e suor. Cidade pequena que nos reúne em filas de cinema, em esbarrões de quem não ousou esbarrar, em telefonemas que a gente se habituou a discar, com amigos que compartilhamos sem repartir. Existe sempre o caminho que por ironia ou putaria do acaso, insiste em nos mapear os passos. É como se nunca tivéssemos partido. É como se nunca estivéssemos partidos. Existe sempre uma parte minha em contato com a tua, porque tudo parece cíclico, mesmo quando não é. Do que eu disse, da desordem, não dá para querer mapear toda uma história em que a ordem dos fatores não existe de forma racional. Não existe ordem entre nós, no sentido de tempo, eu falo de início, meio e fim, dessa maneira clássica dramatúrgica novela das oito, talvez porque não sejamos clássicos e estejamos em busca de alguma classificação possível. Outro dia eu pensei onde é que nos encaixaríamos, que tipo de relação é a nossa na estrutura nominal dos relacionamentos, sabe aquele papo de dar nome aos bois, aquela teoria que nos provoca mais desespero que alívio. O nosso amor não acaba, ele parece se renovar e é assim, dessa maneira desordenada, que a gente se ama e a gente se perde porque amar é também se perder e cansar um do outro e ir em busca daquele um que está em algum lugar e enquanto ele não chega, a gente vai se amando assim, de se encontrar e se perder e tecer pensamentos flechas com caminhos específicos e de sentar e conversar e trocar as palavras delicadas sobre os dias e sobre as nossas vidas e os nossos detalhes e o carinho, o colo, o abraço, o beijo e a noite, sem fim, sem meio, sem início, como se estivéssemos presos um ao outro mas inteiramente livres. Livres homens atados por uma história que se cruzou, misturando o teu no meu, onde não existe adeus, onde não existe o final, tudo é início, tudo é meio, irreversível fato longe de qualquer cartilha, impossível em qualquer manual, por mais fofo e italiano que seja.

Sem qualquer sentido, nunca te ausentes de mim.


sábado, maio 17, 2008


P.S. EU TE AMO de Richard LaGravenese

“but remember this/every other kiss, that you ever give/ long as we both live/ when you need a hand of another man/ one you really can surrender with/ I will wait for you/ like I always do/ there’s something there/ that can’t compare with any other"

(George Michael / Kissing a fool)

Não fosse o vento frio que corre solto pela cidade, ele seria apenas um homem com o cabelo bagunçado, na porta do cinema à espera de um outro homem. Não fosse a cumplicidade e tudo o que houve após o encontro desses dois homens, tudo o que deixaram para trás, tudo o que tentaram construir após a compreensão óbvia da felicidade de alguém dizer sim quando o outro também diz sim, seria apenas alguém parado, talvez aguardando um amigo, talvez algum familiar, quem sabe uma namorada? Não fosse o fato decisivo de há duas semanas atrás, por volta das vinte e duas horas, ao entrar no apartamento, perceber algo entre uma vertigem imperativa assustadora e a sensação de capote, sucessivo capote, tontura, barulho seco de ferragens em atrito e encontrar uma trilha estúpida e clássica de roupas jogadas pelo chão que seguidas, revelavam seu amor, seu amor de sempre, seu amor de anos, seu companheiro, enfim, nos braços de um outro qualquer. Qualquer não por desprezo ou despeito ou também ciúme, surpresa ou vingança, mas qualquer por não saber de quem se tratava. Um estranho. Não fosse seu temperamento explosivo, teria feito uma grande cena de ciúme, batendo portas, arrumando as malas, gritando palavras desconexas para desabafar a sensação de impotência, mas para surpresa do companheiro e principalmente a sua, observou os rapazes flagrados na cama, não moveu um músculo do rosto, virou as costas e saiu do apartamento, embora o outro disparasse frases desesperadas que tentavam justificar o ato, que não é nada do que você está pensando, que eu não queria te magoar, que me perdoe, por favor, me perdoe, patético ajoelhado sem roupas na porta do apartamento.

- Eu deixei de sentir, repetiu enquanto o elevador descia com destino ao térreo, ele que não tinha destino.

Ganhou as ruas, talvez anestesiado. Entrou no primeiro botequim que encontrou pelo caminho e pediu uma água.

- Uma garrafa de água com gás, por favor.
- O senhor está bem?
- Enjoado.

Sacou o telefone da mochila e ligou para casa.

- Algum problema se eu passar a noite aí, mãe?
- Claro que não, querido.
- Eu vou demorar um pouco, vou encontrar o Pedro não me espere.
- A chave está no lugar de sempre. Aconteceu alguma coisa?
- As coisas não param de acontecer, mãe. O tempo todo.
- Meu filho, você bebeu?
- Tenho que desligar

Olhou para a rua e viu uma mulher fazendo sinal para o ônibus, que não parou. Um menino pedindo moedas, quase na esquina. Um grupo de adolescentes comia um cachorro-quente na barraca improvisada quase no meio da calçada. No final do balcão, um senhor pedia a terceira dose de cachaça. Os carros e seus faróis que cegam. Os prédios altos e suas luzes acesas e todas essas pessoas e suas histórias.

- As coisas não param de acontecer.

Pedro chegou de mansinho, como era de se esperar. Pedro é um dos poucos que você ainda pode esperar alguma atitude. Ele chegou e ouviu o desabafo do amigo. Ouviu em silêncio, sem interromper, sem questionar, sem fazer cara de interessado, sem demonstrar alarde ou horror ou condescendência.

- Eu tive vontade de ir embora.

Teve vontade de tentar compreender. No meio da noite. No meio da semana. No meio do seco sentir e de uma inusitada preguiça. Preguiça de voltar lá e mandar ir se fuder, de perguntar qual é cara, trazer um estranho para dentro de casa, poderia ter ido para um motel, eu poderia nunca saber, entende? Preguiça de brigar, de argumentar, de discutir a relação, de ouvir justificativas absurdas, de ser aquele que vai sentar em frente ao outro e deixar que ele fale mentiras programadas. No final de tudo, provavelmente, ainda vai ser acusado. Vai se sentir culpado. Preguiça maiúscula. Teve vontade de passar o domingo sozinho. À vontade no sentir e no pensar. Sem obrigações com o agir. Perdido em pensamentos e conclusões. Buscando o nexo entre livros e vídeos. Roupas e canções. Cartas que não olham nos olhos. O apartamento vazio. Como antes. A simplicidade do lugar comum. A naturalidade do cotidiano.

Teve o desejo real de querer a verdade. Sem linhas congestionadas. Sem atos shakesperianos. Sem questionamentos freudianos. De resolver a situação, da forma que optassem, mas de maneira verdadeira e sem alarde. Olha, eu te traí e isso não significa que eu não te ame. Aí um falava e outro ouvia e também falava. Podiam até quebrar o pau, um vai tomar no meio do seu cu, mas que fosse verdadeiro. Vou tirar as coisas do apartamento e vou voltar para a casa dos meus pais e você fica lá, vai arrumando a vida. Conversa de verdade sem ter que arrastar tantos móveis, sem ter que carregar tanto peso e dar tantas explicações. Pensar em te abandonar, ele pensava, me dá muita preguiça. Eu queria pegar a mochila e adeus. Acordar no dia seguinte sem ter que reconstruir, sem ter que me adaptar, sem ter que começar de novo.

- Isso não é desistir. É desistir, Pedro?

Teve vontade de ir. Mas não foi. Ficou. Ancorado pela curiosidade. Atado por diversos motivos, sendo o mais forte a falta de coragem. Ciente de que mudar exige disponibilidade. Exige força. Culhão. Preguiçoso. Moleque. Urubu.

Pedro, que não disse uma frase a noite inteira, quando se despediu, ali na intimidade do abraço, disse:

- Sabe que eu não entendo o motivo de voltar para alguém que não te quer? Porque ele não te quer. Te querer seria te respeitar. Respeitar o espaço, o amor, a intimidade. Eu entendo o tesão. Eu entendo até o que leva um cara como ele procurar uma aventura fora da relação. Falando a verdade, nenhum de nós é santo. O que me deixa bem incomodado, você sabe que eu te amo, é que eu já te vi muitas vezes ou chorando ou se questionando sobre as tuas ações, sobre a tua maneira de cuidar, sobre as tuas questões. Sempre se colocando em movimento, sempre achando que o problema, se há problema, vem de você. Porque ele não te deixava espaço para ser questionado. Para se encarar no espelho e admitir que tem defeito. Que é humano, que não é mais aquele cara invencível imbatível, que depois dos meses de sonho e entusiasmo, você descobre um homem normal, que pode te causar sensações o resto da vida, mas o encanto, o encanto se perde, não há Marlon Brando que resista ao tempo. Eu fico puto de ver você procurar respostas, de ver você em análise constante, como se estivesse dentro de ti alguma chave, alguma alavanca que acionada, resolveria a solidão do mundo, salvaria qualquer problema conjugal, resgataria algum lapso. Nós erramos. Isso não é bom. Não é mal. É assim.
- Eu não tenho vontade de largar tudo, Pedro.
- Você não tem coragem. Você tem trinta anos e age como se estivesse perto de morrer. Incapaz de gritar por vida. Incapaz de se amar. Absolutamente entregue ao cotidiano sem graça de uma história de plástico, baseada em aparências, coberta de clichês, você virou um clichê, me perdoe que eu te diga com essa ponta de rancor, mas qualquer mulher reprimida dos anos vinte, se daria mais valor. Você não ama o Maurício. Você só não quer deixar alguém que não te ama para encontrar alguém que queira te amar.

Então o homem de pé, aguardava na porta do cinema. Maurício chegou depois de quase quinze minutos de atraso. Eles entraram e foram direto ao café. Duas semanas depois, a poeira havia baixado. As formas ganharam um pouco mais de nitidez e se existe algum nexo em qualquer relação, a mágoa estava mais branda.

- Eu quero que você leia essa carta.
- Agora?
- Em algum momento, eu quero que você leia essa carta.
- Você quer falar sobre... Eu digo, você quer conversar?
- Eu só queria te ver, Maurício. Aqui no cinema porque o cinema exerce tanta influência em mim, então eu te pedi para que me encontrasse aqui para juntar o que existe de ficção entre nós dois com o que precisa existir de realidade.

Conversaram de verdade por algum tempo. Depois perceberam no silêncio, que não precisavam de um abraço de despedida. Ou qualquer palavra que legendasse o que compreenderam. Um pouco mais do que o tempo de um café. Veja você, como se resolve uma história. Não saber é uma grande putaria. A gente nunca sabe onde uma história vai terminar. Não sabe se o esforço, o trabalho, a leveza também, vai valer o tempo de dedicação, de cuidado. Essa fragilidade esquizofrênica dos dias nos deixa tão vulneráveis. Patéticos carentes que seguem o rastro de qualquer possibilidade.

Com fúria e com vontade de ter você em meus braços, eu te. Querendo acertar, eu te. Mas as pedras do tabuleiro não se moveram. Por isso eu peço para sair do jogo de nenhum de nós. Termine o jogo sem fim antes da próxima rodada? Eu saio em busca de partidas mais simples, sem tantos nós presos na garganta, sem tantos nós. Vou pensar o singular. Eu. Vou me permitir mais adiante, quem sabe? Por isso te peço sem doer exagerado como uma canção do Cazuza, que não me procures mais. Escreva tuas linhas longe das minhas. Que haja amigos aos montes, amores coloridos, momentos para desfrutar, motores para ouvir, marés para te acalmar e muitas luas entre nós. Entre. Saia. E não bata ao sair. Que minha vida aconteça longe da sua vida que acontece. É inevitável o tempo das entrelinhas que costura nossas fábulas de homens brasileiros, de dois mil e oito anos. Preciso de uma pausa. Um olhar do alto, situando forma, conteúdo e caminhos para querer seguir.

Maurício não chorou ao ler a carta. Na verdade, não sabe se sentiu alívio ou remorso.


domingo, maio 11, 2008

HOMEM DE FERRO de Jon Favreau

- Eu queria um tanto do teu otimismo.
- Eu gostaria que você tivesse.
- A gente se acostuma a perder o horizonte de vista. Porrada de todos os lados, te puxam o tapete, bombardeiam a sala de estar. Você perde o campo de visão. Você bagunça com as linhas e cada dia vai deixando de ser. Vai deixando de lado. Vai deixando e permitindo. A gente perde o horizonte.
- Se eu te disser o que eu penso, vai parecer auto-ajuda.
- Então não diga. Ando sem paciência. Intolerante com gente que rebate tudo com frases feitas de jornal, com fundo de piedade. Quer me ajudar? Não me diga que tudo vai ficar bem. Que é melhor que seja assim. Essa conversa me causa enjôo.
- Você precisa acreditar.
- Desde que a Xuxa cantou a música do basta acreditar, que as pessoas repetem isso em todas as conversas. Como se o refrão do Lua de Cristal fosse arrumar a vida de alguém.
- Não é isso.
- Obrigado, querido. De verdade. Mas eu acho que não há nada para dizer para alguém que foi abandonado. Um clássico da rejeição e não existe palavra que coloque a vida no lugar.
- Então vamos beber!
- Não quero.
- Uma cerveja, qual o problema?
- Não quero beber. Não quero fumar. Não quero nada que possa alterar a minha sensibilidade. Não quero filme de amor. Não quero abraços e tapinhas nas costas dizendo que vai passar. Não quero olhares tristes. Não quero a cumplicidade de quem compreende o fim. Não quero comentários sobre os problemas que eu não resolvi. Não quero opiniões sobre os meus atos. Não quero veneno escorrendo. Não quero estranhos agindo como se fossem íntimos. Não quero festas, noitadas ou novas bocas para beijar. Não quero sexo para esquecer. Não quero música para lembrar. Não quero abrir nenhum livro novo que me faça querer embarcar em qualquer nova história. Eu quero ficar aqui. Deixando essa sensação latente impiedosa surtir todo o efeito que precisa para que depois – e eu preciso acreditar que o depois virá – eu retorne ao início da largada. Mais uma vez ao início.
- Você se incomoda que eu beba?
- Fique à vontade.
- Uma cerveja, por favor.
- Se você vai beber, peça algo mais forte.
- Uma cerveja está de bom tamanho. Não me derruba. Só me causa a leve sensação de tontura. É o que eu pretendo. Nada além de uma sensação confortável de tremor.
- Eu dispenso.
- Você vai ficar amargo. Vai explodir.
- Nem tão amargo. Não vou explodir porque não estou sufocando as sensações. Só estou dando a elas o tempo de vida que elas precisam. Sem camuflar. Sem querer substituir o cachorro morto por um novo filhote.
- Amargo.
- Você se acostumou.
- Como?
- Você se acostumou, cara. Pessoas sorrindo sem vontade, dizendo frases que não compreendem, abraçando só para cumprir a etiqueta, pensando na vida, nas compras, nas contas. Sem fazer contato real. Sem te ver de verdade.
- Me atacar não vai solucionar qualquer problema.
- Não estou te atacando. Qualquer reação não calorosa, qualquer ação não padronizada, de acordo com a tua cartilha rosa chá, você classifica como amargura. Eu compreendo como diferença de opinião. E não existe nada mais natural e também bonito do que a diferença. A possibilidade da diferença. Então, meu amigo, não é ataque. É só um outro olhar que talvez entre em conflito com o teu.
- Seja positivo.
- Eu sou. Não estou por motivos óbvios. Não me transforme num cara depressivo trancafiado nos seus nós. Eu não sou esse cara. Eu não quero ser esse cara. Só quero ter o direito de sentir de verdade as porradas que eu tomo. Porque pancada dói e se a gente não sente a dor ou finge não sentir a dor, a gente acumula para o futuro uma série de ais não resolvidos, de lesões não reivindicadas. Uma água, por favor.
- O que eu acho é...
- Esse é o problema. Eu te digo que eu não quero que achem nada por mim. Você é um bom amigo, sempre me cobre de carinho e atenção. Mas tem o hábito de julgar as minhas ações. Normalmente não me incomoda e eu até gosto de saber o que você pensa.
- Não me ataque.
- Eu amo a maneira como você senta e cruza as pernas. Me passa serenidade. Se eu acordar vinte minutos mais tarde e tomar banho mais rápido, chego ao trabalho no mesmo horário. Descobri, depois de muitos anos, que sou insone. Nunca estive tão longe de alguns amigos. É provável que eu mude de provedor. Minha dentista me ama. Não é recíproco. Meus dias estão fragmentados. Ando desperdiçando o meu tempo. Banalizando algumas horas. Esse é o inverno menos frio que já tive notícias. Será que com o avançar do tempo e a confusão da meteorologia, teremos um verão frio? Eu não sei muito sobre cinema. Já assisti muitos filmes, o que não significa muito. Eu não sei muito sobre tudo. Ando cansado ultimamente. E alimentando a neurose, que vai entrar na mais rigorosa das dietas. Gostaria de me apaixonar por quem se apaixonasse por mim. Minha preguiça me impede. Seria bom descobrir como não deixá-la em primeiro plano e transformá-la em coadjuvante. Falta de organização, a minha, me incomoda. Mas bagunça faz bem ao espírito. E quando ela acontece em estado potencial, te ensina como se safar no meio do caos. Isso é um aprendizado para a vida: sobreviver ao caos. O inesperado é um grande presente que não deve ser desperdiçado.
- Você me surpreende.
- Desfaz essa cara feia, vai.
- Não tô de cara feia.
- Te confesso que sinto um tanto de medo.
- Medo?
- De não saber do que virá. Não sei como agir quando sinto medo.
- Não é você que sempre me diz para não fazer nada quando não sei o que fazer?
- Aí eu fujo com segurança para o sorriso, a comédia, a textura da leveza me conforta.
- As comédias-românticas que hoje você dispensa.
- Tenho medo de altura e do mar. Adoro o alto e a praia com a mesma intensidade. Adoro o encontro. Aquele instante em que teu coração percebe que chegou alguém que pode não ficar o tempo que você previu, mas que é alguém que significa nos teus dias, no teu instante sagrado.
- Alguém que vai embora.
- Não gosto de despedidas. Ir embora me dói muito. Mas chorar faz bem. Chorar alivia. Chorar incha. Assim como rir alivia. Rir faz bem. Rir não incha.
- Essa sensação de solidão vai passar.
- Existe muito espaço entre duas pessoas. Não espaço físico, compreende? Por essa razão é tão importante festejar quando é fácil chegar ao outro. Sem preocupações com qualquer abismo, qualquer vão, qualquer fato que impeça. Todo mundo olha o mesmo espelho. Não olha?
- Provavelmente. Você tem certeza que não quer uma cerveja?
- Você quer me embebedar? Vai me deixar tonto e vai abusar da minha condição?
- Não mais. Alguns anos atrás, eu poderia pensar que sim. Álcool em excesso e você de repente me beijaria e faria sexo comigo sem saber muito bem onde, quem e por qual motivo. Mas hoje em dia, depois de todo esse tempo, depois de ver você sofrendo por outros homens que não eu, amando outros caras, se permitindo outras histórias com gente que você nem conhece bem, gente que você viu uma ou outra vez na noite e depois correu atrás, gente que não te tratou como você gostaria ou deveria ser tratado, que não liga muito para você, viciados no reflexo do espelho, viciados em moda, viciados em corpos esculturais, essa cultura pop que eu consumo com alguma moderação, hoje em dia não. É muito difícil ter opinião. Articular um pensamento legítimo. Que nasce e brota do teu pensamento, baseado em tudo o que você leu, viu e viveu toda uma vida. Sem se deixar influenciar pela tv, cinema, pela propaganda. Pelo outro. Natural que existam referências. O meu amor pela arte esbarra em gente que tinha uma opinião, uma marca, uma digital, enfim, meu lindo. O que eu quero te dizer é que eu não abusaria de você usando o álcool como justificativa.
- Nós ficamos amigos, não é?
- Os melhores.
- Você é o único que consegue assistir Enigmas da Medicina comigo.
- Você me viciou nesse programa.
- No fim de tudo tem sempre um começo que vai terminar.
- No fim de tudo tem sempre um começo que vai terminar.


terça-feira, maio 06, 2008

A LOJA MÁGICA DE BRINQUEDOS de Zach Helm

Eu liguei para a farmácia, pedindo pastilha para a garganta, cotonetes, uma caixa e um xarope que pudesse ajudar resgatar a minha voz. Quinze minutos depois, o interfone toca. Aquele óbvio de atender, perguntar quem é, liberar a porta e esperar a campainha. Quando ela tocou, meu telefone também tocou e a água ferveu. Aquela situação típica de pensar qual urgência atender primeiro. E achar que a vida está uma loucura só porque o telefone resolveu tocar junto com a campainha e a água fervendo. A vida não está uma loucura, a verdade é essa. E eu preciso parar de me comportar como se ela estivesse.

- Oi Ana. Posso te ligar depois? É que eu to no meio de uma confusão agora.

Ana diz que sim, sem problemas. Quero te perguntar sobre um filme, nada urgente. Só não esqueça de retornar a ligação, porque eu quero ver se alugo o filme ainda hoje, você sabe que a locadora é longe, tenho que passar no banco e pegar dinheiro, aliás, eu tô te devendo trinta reais, eu sei, eu te pago quando te encontrar e Ana fala e fala e não desliga o telefone e eu tiro a água do fogão e deixo dentro da pia, está realmente fervendo e eu posso me queimar se eu não pegar a chaleira com um pano úmido. Ana fala do filme e eu não compreendo muito o que ela diz. Ana tem péssima dicção e no telefone fica ainda pior. Mas tem um cara. Ele é deformado, mas não é o Homem Elefante não. Tristíssimo, inclusive. O filme é mais recente, nem tão recente, é da década de oitenta, ele tinha o rosto deformado, eu não sei muito bem o que acontece.

- Marcas do Destino. É com a Cher e o Eric Stoltz faz o rapaz. História baseada na vida real, esse cara existiu mesmo. E a Cher ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes, acho que em oitenta e cinco. Agora me deixa ir?

Ana pergunta novamente o nome do filme e eu repito por três vezes. Só na quarta vez, ela anota e a paciência escorre como as partículas da água na chaleira e o rapaz da farmácia, onde é que andará o rapaz da farmácia?

- Beijo, Ana.

Ela insiste e pergunta se não encontrar o filme, se eu poderia baixar porque a minha conexão é mais forte, que ela já cansou de reclamar com a empresa de telefone e que também não tem paciência para esperar baixar um filme, que o seu computador é lento e enquanto Ana fala sem parar, eu penso secretamente que ela me parece tão carente que já não ouve mais o outro. Não importa que eu esteja ocupado ou que a água esteja fervendo. Ela quer falar e mais do que falar, Ana precisa da sensação de que alguém está ouvindo as suas palavras. Pensei que nós não passamos de uma solidão ambulante, procurando desesperadamente alguém para poder existir.

- Então me liga quando chegar da locadora, Ana. Um beijo.

Corro para a porta e abro no repente. Ele aparenta irritação. Ele é lindo. Fisicamente lindo. Os traços, o corpo, a geografia dos músculos, a simplicidade arrebatadora da beleza na minha porta para entregar os pedidos da farmácia. Eu perco a palavra. Eu gaguejo qualquer sílaba. Ele é lindo e me desconcerta. Eu encontro a palavra.

- Me perdoe a demora. Uma loucura.
- Sem problemas.
- Posso te oferecer uma água?

Um casamento, fidelidade, uma vida libertina?

- Eu aceito.
- Repete.
- Eu aceito.

Eu os declaro marido e marido.

- Entra aí, fica à vontade.

A minha vida é sua.

- Bacana a tua cozinha.

Precisa conhecer a minha cama nova.

- Obrigado. Eu passo pouco tempo em casa. Ela é prática.
- São trinta e dois reais. Você tem trocado? Eu saí na correria, tô em horário de almoço, não trouxe troco.
- Então você vai almoçar?
- Tecnicamente, eu deveria.
- Eu vou almoçar daqui a pouco.
- Você tá me convidando?
- Não, claro que não. Eu não quis dizer. Quer dizer.
- Só porque eu sou entregador?
- Não, não é isso. Eu não te conheço.
- Faz sentido.
- Mas se você quiser...
- Eu não quero, só tô brincando com você. Não sei se minha noiva deixou alguma coisa pronta em casa.
- Noiva?

Sempre existe uma mulher na vida dos homens que me interessam. Vou ligar para o analista, vou freqüentar todos os lugares gays dessa cidade, eu preciso aprender que heteros saem com heteros, homens heteros não saem com homens, alguém um dia usou toda a inteligência para dar nome ao que não tinha nome. Então vamos respeitar esse cara.

- É. Acho que a gente não casa. Quer dizer, acho que ela ainda não é a tal.
- Espero que ela não nos ouça.
- Tenho pensado nisso, Depois que ela veio morar comigo, perdi o...
- Tesão?
- Não, ela é... Ela sabe me deixar maluco. Perdi o lance.
- O lance?
- Acho que ela não é a tal. A que vai me fazer feliz.

Eu posso te fazer feliz. Vem, que a sede de te amar me faz melhor. E eu quero amanhecer ao seu redor. Preciso tanto.

- Mas essa história de felicidade é um tanto discutível. Você não acha?
- Não. Ou a gente é ou não é.
- E você não é?
- Sou. Mas ela me sufoca. Casar não é se sentir preso. Não deve ser.
- Não deve.
- E eu sou jovem.
- Você é lindo.

Silêncio.

- Você só me diz isso porque eu sou o entregador. O fetiche clássico. Entregador versus alguém com o desejo de curtir.
- Eu não estou com o desejo de curtir. O que te faz pensar que eu quero curtir com você?

Mentira pura e irretocável.

- Engano meu, então. Foi mal. Obrigado pelo dinheiro trocado.
- Você é lindo. Lindo e a beleza me causa essa sensação de ruptura com a vida real. Como se eu me desligasse da realidade e mergulhasse em outra dimensão. Um universo paralelo.
- Poético.
- Você é lindo e eu não sei o que fazer com isso.
- Obrigado, eu acho.
- Você deve ouvir isso o tempo todo.
- As pessoas me observam. Elas se aproximam normalmente por causa disso. Antes me incomodava. Hoje em dia, não faz muita diferença. Se aproximar não quer dizer permanecer. Depois de um tempo vão perceber que eu não sou tão interessante assim. Que só isso não sustenta nem uma amizade.
- Mas as mulheres não devem te deixar em paz. Ou os homens.
- Os homens me assediam mais.
- E você já... Quero dizer, você já teve alguma experiência...
- Não. Eu tenho curiosidade. Mas ainda não pintou.
- Você é romântico, então... Deveria ser proibido o romantismo para homens como você.
- Qual o almoço?
- Não vou te convidar para almoçar. Você ia me distrair, não ia conseguir comer. E eu nem sei o seu nome.
- Quer saber?
- Quero.
- O que mais você quer saber?

Eu quero saber das esquinas. De todas as curvas. Da velocidade. Do som do trovão. De saber como é ficar molhado na chuva. Da filosofia íntima das tuas coxas. De todo talho, toda dor e todo vão para que eu possa confortar. Quero saber do som da tua risada. Provar o sal da tua língua e mergulhar sem fim na escuridão assustadora de um outro universo. Quero entrar no labirinto, escancarar as portas e todas as janelas e rasgar todas as cortinas para olhar nos olhos e diretamente nos olhos descobrir. Eu quero um sim. Um acerto. Um trevo de quatro folhas. Um gol. Um grão de sim. Partícula que não escorre quando ferve. Eu quero alguém para me fazer existir.

- Você pode dizer o que quiser.
- Que bom.
- Você pode também não dizer nada.
- Você é bacana.

Bacana
1
palavra que exprime idéias apreciativas;bom;excelente;
2
pessoa rica e requintada.


Do outro lado da cidade, Ana encontrou o filme que procurava. Pensou em me telefonar, mas guardou o celular, como quem doma um desejo grande. Talvez para testar sua capacidade de controle da intensidade do querer. Talvez para se sentir independente. Partícula nem tão solitária assim.

- Obrigado. Bacana me parece bom.
- Do que você tem medo?
- De acordar maluco.
- Fale mais.
- Tenho medo de embrutecer. De embrutecer dentro de casa. Ainda tenho a possibilidade da lágrima provocada por um filme. Eu tenho medo de ficar cinza, como tantas pessoas pela cidade que estão cinzas e não sentem sequer a falta das cores, do som alto, de um grito para extravasar a vida porque não adianta ser uma grande pessoa e não caber em si. Ser do tamanho adequado para não ser desperdiçado e eu me sinto vez ou outra esvaziando como uma bola de gás furada pela roseira, eu já me senti perdendo os tons, perdendo o compasso sem ninguém por perto e eu precisei ver um filme para ter a consciência de que eu não devo embrutecer, que os dias são tão delicados e plurais, que a beleza é fácil de compreender que a chuva e o fogo, o sublime e o grotesco, tudo isso cabe em mim e é preciso apenas encontrar espaço, que não seja maior nem menor, eu estou em busca de? Uma equação que solucione os meus dias? Alguém que provoque a minha escala Richter, um amor, um amigo, um pedaço de atenção, uma possibilidade de futuro, o improvável, uma carta, quem sabe? Estive chorando e é bom chorar porque me sinto vivo. Desembaralho as palavras e desisto do jogo consciente. Eu quero o som alto, a desconstrução, os vidros espatifando, a pista cheia, as cores vibrando, o suor na testa, paus duros, bocas meladas, a voz clara e perfeita, o coração no ritmo de um gato, o vento ditando as regras, eu quero flores em você.

sexta-feira, maio 02, 2008

DICAS DE MAIO


1 Viagem a Darjeeling de Wes Anderson
Três irmãos americanos que não se falam há um ano embarcam em uma viagem de trem pela Índia, de autoconhecimento e também para estreitarem os laços entre eles – com o objetivo de tornarem-se irmãos novamente, como costumavam ser. Ou você embarca junto e se envolve com os rapazes ou pode achar tudo muito estranho. Eu adoro. (em DVD)

2 Maré, nossa História de Amor de Lúcia Murat
Analídia é filha de um chefe do tráfico que briga pelo poder com o irmão de Jonathan. Separados pelas facções rivais, eles se apaixonam no grupo de dança da comunidade. Livremente inspirada em "Romeu e Julieta", eu confesso que entrei no cinema com medo. Mas a diretora vai te inserindo no contexto e a Marisa Orth nos lembra como ela é uma grande atriz. (NO CINEMA)

3 Penélope de Mark Palansky
Penelope Wilhern é filha de colunáveis ricos e atormentados por uma maldição secreta de família que transforma a sua cara na de um porco. Mas há uma esperança. De acordo com a família, a maldição pode ser quebrada quando ela for amada por alguém semelhante. Importante saber que eu compro essa idéia de fábula. Que a Christina Ricci é a Penelope e o James McAvoy é o príncipe... (em DVD)

4 O Nevoeiro de Frank Darabont
Ilhados em um supermercado, moradores de uma cidade pequena enfrentam um nevoeiro que esconde estranhas criaturas. Seguinte, é filme de monstro. Mas também de uma série de delitos. Daqueles assim, que me interessam. Marcia Gay Harden rouba a cena do monstro do meio para o final e ela sim, é assustadora. Um dos finais mais impactantes que eu já vi. (baixado)

5 Piaf – Um hino ao Amor de Olivier Dahan
A vida da cantora Edith Piaf, de menina abandonada pela mãe, até o seu reconhecimento internacional, tornando-se uma das maiores intérpretes de todos os tempos. Muita gente acha um filme francês metido a americano. Não importa. O que me fisgou, quando eu assisti no festival do Rio no ano passado foi a performance arrebatadora da atriz Marion Cotillard. (em DVD)

6 A Outra de Justin Chadwick
A história das irmãs Mary e Anne Boleyn, que na Inglaterra do século 16 brigaram ferozmente pelo posto de esposa do Rei Henrique VIII. Tem um caráter histórico, aquela coisa meio Elizabeth para estudantes. Mas aqui há uma considerável diferença quando entra em cena a atriz Natalie Portman para esmagar com a Scarlett Johansson. (baixado, mas entra em cartaz em junho)

7 Plata Quemada de Marcelo Piñero
Dois matadores tomam parte de um grande assalto ao caminhão de pagamentos, que carrega 7 milhões. Porém, o que parecia ser um trabalho simples se transforma em um massacre, fazendo com que eles precisem fugir para o Uruguai. O melhor detalhe é que os matadores são também amantes. Sou fascinado pela atmosfera do filme. (Em DVD)

8 Rent – Os Boêmios de Chris Columbus
Inspirado na ópera La Bohème, Rent é um musical de rock ambientado em Nova York. A exemplo do original, em que os artistas parisienses do século 19 lutam contra a tuberculose, os personagens da versão atualizada enfrentam o pesadelo da Aids e das drogas. Eu resisti nas primeiras cenas, mas depois que a gente compreende o elo entre as personagens, dá até pra chorar. (em DVD)

9 Horton e o Mundo dos Quem de Jimmy Hayward, Steve Martino
Baseada no conto infantil de Dr. Seuss, autor de O Gato e O Grinch, a animação flagra a heróica saga do elefante Horton para salvar uma partícula de poeira. Embora ridicularizado por seus vizinhos, que o consideram maluco, o grandalhão tem lá seus motivos. Horton fez uma descoberta — a poeirinha abriga uma cidade de seres microscópicos. Adorei. (nos cinemas)

10 Um Dia de Cão de Sydney Lumet
O filme é baseado em eventos reais: um homem e um cúmplice estão cercados em um banco, com os funcionários como reféns, ao tentarem assaltá-lo. Em torno do acontecimento, que deveria durar apenas dez minutos, acaba durando horas e a mídia torna tudo um evento que tende a não acabar bem. Já em 1975, Lumet já anunciava que a mídia pode extrapolar os limites. E Al Pacino... (em DVD)