quinta-feira, setembro 25, 2008

HOUSE de David Shore

Acontece que a cidade faz isso. Quando na verdade, pelo seu tamanho e pela quantidade de pessoas e também pelo fato simples de cada indivíduo ter uma vida, cheia de compromissos e horários que quase nunca estão em sintonia com os seus e também uma outra série de motivos ou por nenhum deles ou para resumir de forma elegante sem querer contrariar todo o senão, a cidade faz isso: brinca com o acaso. E a gente samba no meio da avenida sem compreender. E vamos ver no que dá.

O vagão não estava tão cheio. Eu ouvia música. Cansado da noite, da festa do dia anterior e do dia trabalhado. Eu ouvia música no canto do vagão. De pé. O metrô parou. Ele entrou como quem procura um lugar na multidão. Ele entrou, eu vi exatamente o momento em que a porta abriu e ele deu o primeiro passo para dentro do vagão. Ele usava um jeans surrado e uma camisa do Flamengo. Ele se posicionou ao meu lado. Eu senti um perfume que não era exatamente um cheiro industrializado. Era um perfume natural. Eu pensei – que cheiro gostoso – e ele abriu um livro. Nós passamos sete estações um ao lado do outro. Sem dizer uma palavra. Eu queria não perder o momento. Eu queria abrir a minha mochila e deixar que aquele cheiro gostoso entrasse e me acompanhasse até a minha casa. Eu queria saber qual era o livro que ele estava lendo. Eu vi que o rosto era um rosto exato. Você tem o seu exato. Eu tenho o meu. No meu conceito de exatidão, cabiam dois olhos negros e um nariz felino. Um cabelo bagunçado castanho, muito liso e muito pesado. E um brinco de roqueiro, bem discreto na orelha direita.

Quando a porta abriu, nos perdemos na escadaria. Deixa eu reformular: eu me perdi dele assim que as portas se abriram porque a cidade faz isso, especialmente para quem tem pressa. O atropelo é inevitável e as pessoas se misturam. As pessoas se perdem. Eu o perdi de vista e ainda tentei buscar pela camisa clássica do Flamengo, mas deixei que ele fosse embora da mesma maneira que ele apareceu. Indo. Rompendo. Foi na fumaça cinza dos desenhos animados e fez ‘puf’. Eu apenas suspirei.

No segundo dia, eu saí de Botafogo um pouco mais tarde e entrei no vagão do final do trem. Foi quando a porta se abriu, na Cinelândia, que eu vi pela segunda vez, um dia após o outro, uma camisa vermelha entrar. Um mamute preto, algum animal enorme preto na camisa mais uma vez vermelha. O cabelo mais bagunçado ainda. Quando as portas abriram, ele entrou lendo um livro. E seguiu mais sete estações absolutamente enfeitiçado pelas palavras daquele livro. Eu queria, naquele momento, que aquele livro morresse, eu queria enfartar aquele livro, para que ele, o rapaz, soubesse que eu estava ali. Eu, aquele estranho de ontem que ele sequer notou. Tudo o que eu consegui foi descer as escadarias um pouco atrás dele antes de pegar o outro trem. Feito um espião patético, eu o segui sem a menor cerimônia. Eu queria pedir um pouco daquele perfume. Eu queria sentir aquele perfume outra vez. Eu queria me apresentar e dizer seja bem vindo, eu nem sou Flamengo.

Na estação, nós esperamos pelo mesmo trem. E ele lia e lia sem perceber o universo lá fora das páginas. Ele lia e passava as mãos na barba e cada vez mais se entregava às palavras e o universo aqui fora não fazia o menor sentido. Eu queria rasgar aquele livro. Eu queria devorar aquele homem. Quando o trem chegou, ele sentou no banco na minha frente. A sua nuca branca e lisa foi a minha paisagem por alguns minutos. Eu estava pateticamente enfeitiçado pelo tom da sua pele branca. E ele lia. Passou a mão pelo cabelo duas ou três vezes e o universo aqui fora não existia.

Dentro da minha esquizofrenia, eu comecei a tecer sentido. Eu tentei adivinhar um nome, um endereço, uma ocupação. Eu o imaginei como um vizinho de bairro, quem sabe um dia ele não aluga um filme na locadora e me encontra e me abre um sorriso e me diz que não importa que eu seja Fluminense. Um pouco mais baixo que eu, proprietário de uma barriguinha, o vermelho daquela camisa e como é que aos trinta anos, eu me deixo levar pela solidão monstruosa desses trilhos do metrô? Ele desceu uma estação antes da minha e de fato, deve ser meu vizinho de bairro e eu gostaria que se chamasse Francisco e estudasse Letras e já tivesse uma turma para dar aulas sobre os seus livros fantásticos.

Não existe nada mais sexy do que um homem lendo.

No terceiro dia, ele não estava lá. Eu esperei pela porta que abriu. Não houve camisa vermelha. Não senti o perfume. A paisagem da nuca eu não tive. Em vão, eu esperei. Onde ele está? Em outro vagão, quem sabe? No próximo trem, vai saber? Voltei para casa pensando que a cidade faz isso. O acaso é raro. A possibilidade do encontro é uma loteria dificílima e incalculável. É mais fácil se perder e mais comum também. É natural o nunca mais e a gente segue o fluxo e nem dói tanto, porque a cidade faz isso.

No quarto dia, nunca mais.

No quinta dia, uma camisa vermelha que não era a tua.

No início da semana, você já não pulsava tão forte. A lembrança também faz isso. Ela deixa de latejar. E a gente percebe e já não pensa tanto e deixa a vida se distrair com o que há, de fato, ao redor. A gente vê o Dr. House. E mergulha no Festival de cinema. E pensa que uns trinta e tantos filmes do festival são ilusão suficiente para que a realidade deixe de reinar. Pelo menos por duas semanas. A gente lê a Fal e pensa que ela é que mulher de verdade. E se sente uma farsa. A gente ouve a mãe reclamar que está exausta porque fez faxina. A gente ouve o pai torcer pelo gol que virá, ele acredita mais que o próprio time. A gente lê. E ouve canções que dão umas tapas na cara e desliga porque o poder do ‘on’ e do ‘off’ eu ainda tenho. A gente vê um desenho com o sobrinho e sorri. A gente aceita um convite para jantar porque precisa de gente ao redor. A gente se sente miserável e solitário e fora da ordem. A gente sente que a onda é grande e que o tombo é certo. A gente vive nessa de se afogar e tomar o fôlego e retomar os sentidos e a gente não sabe muito bem da maré. A gente usa metáforas e compra chocolate. A gente sonha com estranhos. A gente faz planos com transeuntes. A gente é ridículo. E quando eu digo ‘a gente’ é porque eu não tenho coragem de me colocar em primeira pessoa.

A gente paga as contas. E trabalha mais. Para pagar as próximas.

No oitavo dia, eu te vi. E te escrevi um texto.

Se outro dia eu te encontrar, eu vou te dizer para ler.

quarta-feira, setembro 03, 2008

Não estou fechando o blog.
Mas estou escrevendo um livro.

Tenho o desejo de escrever de forma contínua.
É um desejo inédito.
Boa parte do material publicado aqui
me estimula e me alimenta nessa escrita.
E eu não sei quanto tempo isso vai levar.

Hoje eu consegui esqueletar a abertura
e também o início do primeiro capítulo.

Então eu vou deixar de escrever aqui.
Cheio de intenções de retornar em breve.

Eu não sou um cara que consegue equilibrar
todos os pratinhos.

Sendo assim, eu preciso desse tempo.

Qualquer coisa, tô sempre aqui:

A gente se encontra logo logo.