quinta-feira, abril 30, 2009



AMOR E OUTROS DESASTRES de Alek Keshishian


De repente, sem esperar, nos encontramos pela escola. Como todas as outras vezes. Observamo-nos, sorrindo pequeno, tímidos, interessados. Então veio o abraço, poucas palavras - nunca falamos muito, a não ser pequenas frases, tudo o que se usa quando duas pessoas não se conhecem muito bem: uns 'obrigados', 'por favor', 'e a vida', nada que pudesse fazer com que nos sentíssemos íntimos ou qualquer sensação semelhante. Eu tinha pressa, minha aula de interpretação estava para começar, ele percebeu que nosso encontro seria mais um encontro relâmpago, segurou minha mão e disse quase que sussurrando:

- Fica comigo.

Então a pressa, a aula de teatro, o texto decorado, a cena que eu ia trabalhar, tudo isso perdeu o sentido, como num estalo. Meus olhos encheram de água, água salgada com uma dose de alegria e dor, de constatar que alguém pode bagunçar o teu caminho e tuas sensações. Olhei o rosto dele e no silêncio que se fez, milhões de pequenas sensações existiram sem me consultar.

- Eu não posso, tenho aula agora, aula prática.

E tudo voltou a fazer sentido: a pressa, a aula de teatro, a escola de teatro, o texto decorado, a cena que eu ia trabalhar.

- Fica comigo - repetiu não mais em sussurro, mas com força na voz e a certeza de que poderia me impedir a aula, como se me conhecesse bem. Como quem faz um pedido que não se recusa, ele fez.

Sempre nos encontramos pela escola. Não conversamos muito, não sabemos quase nada um do outro. O que existe de real: minha atração por ele; a simpatia dele por mim. Que dura pouco tempo, de maneira que nossa relação é quase que subjetiva: os encontros rápidos, as brincadeiras nos encontros rápidos, as apresentações públicas de teatro que assistimos dentro da escola - e nos assistimos - muitos abraços, um carinho gostoso que não se explica e poucas palavras. Ele me segurou pelos braços, reiterou a frase e me soltou, Me aproximei, sem saber exatamente o que dizer ou como dizer e o impulso foi me guiando, o coração acelerado, o sangue correndo pelo corpo, veloz, eu pude sentir.

- Eu quis que a gente desse certo. Mas nós teríamos que ter tentado. Há meses eu tenho me mostrado com vontade, te escrevi algumas coisas lindas, íntimas e esbarrei no teu silêncio, que eu nuca soube como interpretar. Eu pensei em nós dois juntos, imaginei cenas, por mais infantil que isso possa parecer. E todas as vezes que eu me aproximei pra tentar conversar, tentar te conhecer, te desvendar, eu empaquei. Eu me sinto tonto, que não sabe o que fazer cada vez que te encontra por aqui. Não sabe onde coloca a mão, não sabe o que dizer. Eu ando tão frágil, tão assustado com a aproximação do outro e meu carinho por você vai sempre existir dentro de mim, mas eu acho que é hora da gente parar de se tratar como se alguma coisa entre nós fosse acontecer: saliva, cheiro, suor. Não me alimente. Talvez eu mesmo faça isso, você nunca fez nada que me fizesse acreditar em um relacionamento. Ou talvez tenha feito, não posso apontar momentos porque nós não temos momentos. O fato é que eu tenho aula agora, eu perderia a aula por você, ganharia zero por você, mas eu preciso me preservar. Te encontrar. Não sofrer, entende? Te reagir sem intenções bruscas. Não quero deixar o meu carinho se aprofundar, não entranhar tanto ou mais do que poderia, deveria. E nem é tão complicado assim, eu mal te conheço, você mal me conhece. Se não prosseguirmos, fica você achando que eu sou louco e eu te achando inalcançável. Talvez eu tenha a mania de confundir tudo, talvez.

Fez-se silêncio no universo entre nós dois. Nada constrangedor, apenas silêncio quebrado por mim.

- Falei demais, não é?

Sentei na porta do teatro, como quem se arrepende. Cena de filme americano, a personagem explode tudo o que pensa, depois senta em algum lugar, aliviado. De pé, me encarando, olhos fixos em mim, alisa a barba, a língua nos lábios:

- Você acha que tudo deve ser dito?

Ali, sentado, encostado na porta do teatro, encostado na madeira da porta, pude ouvir alguém em cena dizendo um texto que eu sabia decorado. Um diálogo, dois homens, duas mulheres, um casal, não havia muito sentido nas palavras; eu não consegui identificar quem estava em cena, mas a frase era 'Você gosta de palavras? Eu também, mas gosto mais das cores'.

- Este é o império da palavra, moço. Se você não me diz nada, seja objetivo nas tuas ações. Preciso de nitidez nas imagens que você cria no teu silêncio e isso não acontece. Então eu suponho e tudo fica exaustivo. Não acho que tudo deva ser dito, você sabe que não, mas o suficiente já me bastaria.

Tudo o que eu disse me pareceu sutilmente como uma cobrança e me senti ridículo, aliviado. A escola de teatro funcionando como um dia letivo normal. Os dois parados, ali na porta, em silêncio. 'Do lado de lá o faz de conta, do lado de cá, a realidade de duas pessoas que não se conhecem. Dois atores'. O pensamento dissipou-se quando ouvi a voz dele sorrindo:

-Vamos sair daqui!

Saímos os dois juntos pelas ruas do centro da cidade. O céu absolutamente azul, um dia fresco. Poucos carros na rua, nenhum trânsito, um vento forte, um dia atípico. Andamos por dois, três quarteirões, não trocamos uma palavra, parecíamos ter pressa e eu não entendia muto bem nossos impulsos. 'Eu deveria estar em cena', pensei, seguindo automaticamente os passos dele. Então a velocidade dos passos aumentou, quando percebi estávamos correndo e sorrindo, brincando como crianças, pelas ruas cinzas da cidade. Correndo e sorrindo, sorrindo fácil. Os olhos dele dentro dos meus, o sorriso dele gigantesco dentro do meu, leveza nos movimentos, gargalhadas e estávamos correndo em direção ao nada, rindo um do outro, um para o outro e era bom, era tão bom... As pessoas percebiam e sorriam conosco uma alegria inexplicável.

Foi então que chegamos em uma praça: bancos, pombos, um coreto, árvores, velhinhos jogando cartas, cachorro vira-lata, pipoqueiro, nós.

- Esse lugar é meu, esse lugar sou eu - me disse ainda sorrindo e eu ainda ofegante, ainda feliz, fui ouvindo: eu nunca trouxe ninguém aqui porque nunca encontrei alguém que eu quisesse apresentar esse lugar. E tenho ciúme. Tá vendo aquele banco? Li a primeira carta que você me deu ali. Lia e relia sentado no banco da praça que é minha. Eu não sei se a gente pode ficar junto porque eu entendo amor de outra maneira, sem tantas palavras no meio. De repente cheiro, suor, como é mesmo que você disse? Saliva. Achei bonito, mas compromisso, namoro, relação. Eu fiquei pensando uma maneira de te dizer isso sem parecer presunçoso, não sei se é essa a palavra, não sou muito bom com as palavras. Eu pedi pra você ficar comigo pra gente conversar, pra ficarmos juntos por mais tempo, pra gente ver se combina, se a gente se entende porque a gente pode até não se curtir.

Eu já não sorria mais. Meu rosto sério e eu percebia muita coerência em tudo o que ele me dizia. Percebi um cuidado no dizer, como se alguma palavra não pudesse ser dita e eu o interpretasse mal. Para que não me magoasse. Eu não quis dialogar, quis o silêncio. Ele me abraçou e ficamos os dois ali, no meio da praça que eu já julgava um pouco minha, naquela tarde linda e eu ouvia o coração dele bater no meu ouvido e me sentia um pouco parte dele, aquele homem lindo que era mais do que lindo, era a praça.

- Vamos para a minha casa, a gente ouve música, passa um tempo juntos.

Sorrisos leves e tudo entre nós sempre me pareceu como uma estréia, sensações inéditas despertando e só tínhamos exatos trinta anos, jovens demais. Há perigo quando dois homens estão juntos embriagados pelo mistério do inexplicável. E em fração de segundos, chegamos na minha nova rua, onde minha nova casa estava sendo pintada aos poucos e como ainda não tinha me mudado, poucos móveis, quase nenhuma roupa, com cara de minha pela bagunça mas ainda vazia de matéria, de dia-a-dia. Destacou que a casa era aconchegante, clara, essas coisas que a gente diz meio que instintivamente.

- Ainda não trouxe ninguém aqui. Ninguém. Essa é a minha praça. Me mudo em menos de dois meses e tirando os pintores, você é o primeiro que visita.

Sorriso. Olhos brilhando.

Os assuntos aconteceram naturalmente. Aos poucos, a conversa fluiu e uma intimidade começou a brotar. Cumplicidade. No ritmo adequado, no decorrer do desvendar, durante o conhecer melhor, uma ponta de intimidade nos tornou cúmplices. E era gostoso não sentir o tempo passar, era gostoso estar com ele, ali, na minha casa, decifrando, observando o observar, me permitindo uma possibilidade permitida.

Fim de tarde, início de noite, os dois deitados no chão da sala entre almofadas e o cd da Adele bem baixinho embalando as intenções. Me lembrei de um trecho de um conto do Caio Fernando Abreu que eu tinha na mochila. Anotações sobre um amor urbano, do livro Ovelhas Negras, que eu não largo. Pausei. Abri o livro e li, sentado de frente para os seus olhos exatos:

“Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço pra tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nessa janela, já dissemos tudo o que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação, impressão, ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e com a ponta dos meus dedos tocar você, natural que seja assim: O toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.

Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha pra mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi pra saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá dizer: Não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, conhaque, vermelho, os dentes se chocam, leve ruído, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo. Escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos”.

Deitou no meu colo. Os olhos abertos absolutamente entregues ao momento. Meus dedos sobre suas grossas sobrancelhas. Olhos nos lábios, recebia meu calor-carinho até que nos beijamos. E tudo perdeu o sentido. E tudo ganhou sentido.

quinta-feira, abril 23, 2009



HUNGER de Steve McQueen


Não me deu tempo para recusar. Me pegou pelas mão e disse que era logo ali, é só uma conversa, uma bebidinha para relaxar e eu penso que tenho frequentado bares em demasia. Mas bar é como cozinha da casa da gente, com a definitiva certeza de que não vamos precisar limpar nada depois. Eu ia dizer que tinha dois filmes na bolsa e que ia fazer uma pipoca, mas ela puxou a cadeira e começou uma conversa sem fim sobre a namorada, que precisa da minha opinião e que dessa forma não dá para continuar. Eu pensei que não sabia que éramos tão íntimos assim, que a nossa vida particular tinha em comum o fato de dançarmos na mesma boate uma vez ou outra e a carona para voltar para casa, já que moramos perto. Não sabia que a minha opinião era tão importante e não me lembro de alguma vez antes, ter dito qualquer frase significativa. Olha, eu não sei o que dizer e também não acredito que qualquer linha de pensamento que eu venha a ter, vai resolver a sua vida e a da, como é mesmo o nome dela? Então, é tudo tão pessoal. Eu não tenho o direito de opinar porque eu não convivo com vocês, mas se quer saber, eu normalmente sou a favor da tolerância. Você deve ser passivo, ela concluiu e eu quase disse um foda-se, mas falávamos de tolerar, então eu retrocedi e disse que às vezes a gente precisa tentar compreender. Que é importante a tentativa, é um esforço que quase nunca é em vão porque ele te desafia, te coloca em movimento e em alerta porque o terreno não parece seguro. E que tolerar não significa aceitar o mundo e suas imperfeições e sentar para se resignar. Tolerar é compreender que o outro não é igual e não age da mesma forma que você. E que é na troca que as relações florescem, avançam ou qualquer outra figura de linguagem. Quando você percebe que é nos espaços do outro, que você pode se deixar derramar para preencher. Honey, muito bonito o seu discurso, mas na prática ele não funciona, eu garanto. Não é um discurso, saiba, é assim que eu sou, que eu aprendi a ser. Não é certo não é errado, é a minha maneira de participar da vida. Respeitando. Tolerando. Em diálogo constante com o terreno do outro. Natural que com cada um seja diferente, eu só posso falar por mim porque eu nunca olhei pelos olhos de ninguém. Mas você deixa te manipularem, você concorda com tudo. Mas tolerar, eu cortei, não significa ficar de quatro e pedir para chutar não. Não é ser tapete para limparem os pés. Exige treino árduo. Você não me conhece. Não me conhece de verdade, não é frase de efeito. Você não me conhece. As suas conclusões são rasas e precipitadas. Tolerar não é se anular. É se fazer presente e inteiro. Parece simples de compreender, mas exige disponibilidade.

Se alguém atropela o teu dia, se passa na sua frente e não pede licença, não avisa que está chegando, simplesmente corta os demais e te ultrapassa, bagunçando os teus passos, ventando o teu rosto com poeira e velocidade, se alguém não te olha nos olhos porque tem pressa e ainda assim, tropeça nos teus pés e não se desculpa, faça de conta que não foi com você. Que estar dentro da cidade em movimento não significa necessariamente ter que agir como alguém que não olha mais nos olhos, que não usa os mínimos que eu tanto insisto: ‘obrigado’, ‘com licença’ ou ‘por favor’. Eu dizia dessa forma e ela quase brigava comigo: mas como fingir que não é comigo? Tem que gritar, sinalizar o espaço e dizer, ei, olhe bem nos meus olhos e perceba que da mesma forma que você está em busca, eu também estou e não quero engolir poeira vindo de você. Eu sorri e disse que eu estou cansado, que talvez por estar muito gripado e qualquer outro motivo, eu cansei de ter que parar e tentar explicar e tentar me fazer ouvir que não é bem assim, que é preciso respeitar o meu espaço e essas coisas que todo mundo diz. Cansado e consciente de que preciso poupar energia porque esse histerismo coletivo de gente em constante urgência, me suga a força da energia. Mas e o meu aniversário, honey, ela pergunta e eu acho graça do honey e nem sei dizer a razão. E a despedida do nosso amigo que está indo para Europa, ela me diz como se eu ainda não soubesse. O que há para saber? Pois o meu aniversário eu faço questão de uma grande farra. E eu só desejo estar o mais recolhido possível. Recolhido da multidão. Em paz. Você está louco, rapaz, ela me diz com um certo sarcasmo e eu pergunto a razão. São vinte e nove anos, Meu último ano na casa dos vinte. Você tem que sair e comemorar, beber e brindar. Eu repito que eu quero me recolher, entende, só isso. Além do mais o aniversário é seu. Ano que vem eu festejo, são trinta anos. Uma festa assumida e desejada, certamente. Mas eu não aceito recusas. Eu te conheço, você não quer aparecer para não ter que encontrar com ele não é mesmo? Ok, eu já entendi, mas ainda assim eu exijo a sua presença, honey. E eu, feliz como bebê:

- Honey é o caralho.


segunda-feira, abril 06, 2009



CHOKE de Clark Gregg

- Quanto você cobra, hein cara?
- Desculpa, eu... eu só estou esperando o ônibus. Eu não cobro nada.
- Então entra aí. Se você não cobra nada...
- Não, não é isso. Você me entendeu errado. Eu não cobro nada porque eu não faço programa. Eu só estou esperando o ônibus.
- Sei... Esperando o ônibus essa hora? Por que não pega o metrô, um táxi, sei lá?
- Porque eu saí de um teatro aqui perto, porque eu estou cansado para andar até o metro, porque eu não tenho grana para pegar um táxi, enfim...
- E veio pegar o ônibus justamente aqui?
- Aqui, meu caro, é o ponto de ônibus. Ponto final, inclusive.
- Sim, mas também é outro tipo de ponto.
- Entendo. Mas eu realmente estou esperando o ônibus.
- Entra aí. Posso te dar uma carona, o que acha? Tô sem rumo mesmo...
- Acho perigoso. Prefiro recusar.
- Também é perigoso ir de ônibus essa hora. O que me diz?
- Digo obrigado. E digo também que recuso o seu convite gentil. Agora se você me der licença, eu vou continuar aqui esperando o ônibus.
- Aqui é perigoso, hein cara? Têm uns pivetes, não tem policiamento nenhum, acha perigoso não?
- Acho. Mas se eu parar para pensar nisso, eu enlouqueço, eu não saio mais de casa. Eu viro um daqueles loucos que contam os objetos e depois de perderem a conta, choram sem controle.
- Sei... Entra aí, vai?
- Qual é a tua, cara? Não percebeu que eu só estou realmente esperando a droga do ônibus?
- Só tô procurando diversão.
- Boa sorte, então.
- Ah, deixa de fazer doce, vai... tá na cara que você quer entrar. Eu passei por aqui três vezes e nas três vezes você ficou olhando.
- Pois é. Olhei como quem olha atento alguém que se aproxima num lugar como esses. Olhei para saber do que se trata. Olhei para... e essa aliança aí no dedo?
- O que é que tem?
- Como 'o que é que tem'? Você dorme numa boa? Sair por aí catando garoto de carro na madrugada e é casado, cara?
- Vem cá, lição de moral essa hora da noite? A novela das oito já acabou faz tempo, cara... E outra, não te devo satisfação. Vai entrar numa de me analisar porque viu uma aliança?
- Então empatamos. Você entrou numa de me analisar porque me viu aqui parado no ponto.
- No ponto...
- De ônibus.
- Então empatamos. Eu vou nessa, então. Boa sorte aí com o seu ônibus.
- Boa sorte aí com a sua busca... Maurício.
- Eu não disse o meu nome.
- Eu sei que não... Maurício.
- Mas como você sabe o meu nome, cara?
- Olha o mistério...
- Tô falando sério! Como você sabe que meu nome é...
- Maurício?
- Como você sabe?
- Olha Maurício, acho que realmente está tarde. Se eu resolver aceitar a sua carona...
- Não, agora quero saber de onde você me conhece.
- Se eu resolver aceitar a sua carona, você promete que vai me levar para casa? Ou para perto de casa, onde eu possa pegar um táxi?
- Prometo, cara. Mas me diz de onde a gente se conhece que eu não faço idéia.
- Calma, olha o drama. Não foi você que disse que a novela já acabou faz tempo? Então... abre a porta?
- Não gosto desse jogo.
- Que jogo? Quer saber, então eu te digo. Estudamos no mesmo colégio. Turmas diferentes. Por três anos.
- Sério?
- Sério. No último ano, você sumiu. Eu perguntei por você para alguns amigos em comum e ninguém soube me dizer. Disseram só que você tinha sido transferido.
- Eu tranquei a matrícula.
- Eu gostava de te olhar. Eu te observava no recreio. Eu era moleque, tudo era muito novo, tinha uma atmosfera de proibido, eu estava em transformação. Transformação não. Constatação. Eu estava compreendendo.
- Eu tranquei a matrícula. Perdi minha mãe no final do ano, antes do Natal. No ano seguinte, eu não consegui voltar. Eu tentei, mas não consegui. Perdi o ano, perdi minha mãe, perdi.
- Me desculpa. Eu não tinha a intenção de te fazer lembrar de nada desse tipo.
- Tudo bem. Mesmo colégio, hein cara? Mas eu conhecia todo mundo, era o maior garanhão, as menininhas ficavam todas safadinhas comigo.
- Alguns meninos também.
- Sério?
- Sério. A primeira vez que eu me masturbei foi pensando em você. Com o uniforme de Educação Física, suado, cabelo molhado, jogado para o lado.
- Que safado.
- Pois é. E olha o giro que o mundo deu. Você aqui. Eu aqui.
- Sério que você não faz programa?
- Sério que você é casado?
- Tive uma menina, Juliana. Vai fazer dois anos. Está com a mãe visitando os avós em São Paulo.
- E você solto na cidade?
- Solto.
- Na cidade.
- Eu nunca ia imaginar. Você sempre teve o cabelo comprido? Não lembro de você, cara.
- Não, na época do colégio era bem curtinho. Eu era magrelo. Usava aparelho nos dentes. Uns óculos pretos, um horror. Todo adolescente vive o momento eterno de conseguir personalizar a imagem, não é? O início é muito duro. A gente vai tateando. Só deixei crescer o cabelo pouco antes da faculdade.
- Me formei em Educação Física.
- Sou ator.
- Bacana. De novelas?
- Ator.
- Tenho uma academia.
- Bacana.
- Mas uma cerveja você topa, não topa? Ah qual é, não prometi que te levaria para casa?
- Uma cerveja.
- Para começar!
- Uma cerveja.

A cidade parou e nós dois respiramos juntos, no mesmo compasso, na mesma intensidade. Safado cachorro que saiu da lembrança de um passado, de um primeiro esperma lá atrás, tão menino tão sem saber do futuro. Poderia ser outro. Mas fui eu. Fomos nós dois. Equação improvável de um encontro inusitado. Cidade safada menor que a palma da minha mão, sacana que cruza as linhas, mistura as pessoas e ainda brinca de embaralhar as intenções na noite que avança e é misteriosa. A cidade parou e respiramos os dois no mesmo compasso. Suspendemos a vida para um brinde íntimo de pernas. Deixei de lado a minha fossa e o quereres que o Caetano me esbofeteou. Navegar é preciso. Não posso parar e tentar atravessar uma parede intransponível. Preciso seguir adiante. Aprender os jeitos, a maneira de compreender dentro do meu círculo, perceber as minhas facilidades, contrariar a inércia e trabalhar tudo o que me pesa. Hoje eu sou todo teoria, eu dizia. Esse blá blá blá, me perdoe que seja assim, mas na internet tudo é palavra. Hoje eu sou todo teoria depois de ter sido ontem todo prática. E se no início resisti, cordeiro obediente enfileirado, após o toque insistente das tuas mãos nas minhas, baguncei ardentemente o pudor, não corei sequer. O desejo quando é gigante engole a vergonha. Demole a culpa. Estremece a cama.

- São cento e cinqüenta reais.