domingo, dezembro 20, 2009



AMOR E OUTROS DESASTRES de Alek Keshishian

(Reedição desse texto porque faz sentido e porque eu adoro a Brittany Murphy nesse filme)

De repente, sem esperar, nos encontramos pela escola. Como todas as outras vezes. Observamo-nos, sorrindo pequeno, tímidos, interessados. Então veio o abraço, poucas palavras - nunca falamos muito, a não ser pequenas frases, tudo o que se usa quando duas pessoas não se conhecem muito bem: uns 'obrigados', 'por favor', 'e a vida', nada que pudesse fazer com que nos sentíssemos íntimos ou qualquer sensação semelhante. Eu tinha pressa, minha aula de interpretação estava para começar, ele percebeu que nosso encontro seria mais um encontro relâmpago, segurou minha mão e disse quase que sussurrando:

- Fica comigo.

Então a pressa, a aula de teatro, o texto decorado, a cena que eu ia trabalhar, tudo isso perdeu o sentido, como num estalo. Meus olhos encheram de água, água salgada com uma dose de alegria e dor, de constatar que alguém pode bagunçar o teu caminho e tuas sensações. Olhei o rosto dele e no silêncio que se fez, milhões de pequenas sensações existiram sem me consultar.

- Eu não posso, tenho aula agora, aula prática.

E tudo voltou a fazer sentido: a pressa, a aula de teatro, a escola de teatro, o texto decorado, a cena que eu ia trabalhar.

- Fica comigo - repetiu não mais em sussurro, mas com força na voz e a certeza de que poderia me impedir a aula, como se me conhecesse bem. Como quem faz um pedido que não se recusa, ele fez.

Sempre nos encontramos pela escola. Não conversamos muito, não sabemos quase nada um do outro. O que existe de real: minha atração por ele; a simpatia dele por mim. Que dura pouco tempo, de maneira que nossa relação é quase que subjetiva: os encontros rápidos, as brincadeiras nos encontros rápidos, as apresentações públicas de teatro que assistimos dentro da escola - e nos assistimos - muitos abraços, um carinho gostoso que não se explica e poucas palavras. Ele me segurou pelos braços, reiterou a frase e me soltou, Me aproximei, sem saber exatamente o que dizer ou como dizer e o impulso foi me guiando, o coração acelerado, o sangue correndo pelo corpo, veloz, eu pude sentir.

- Eu quis que a gente desse certo. Mas nós teríamos que ter tentado. Há meses eu tenho me mostrado com vontade, te escrevi algumas coisas lindas, íntimas e esbarrei no teu silêncio, que eu nuca soube como interpretar. Eu pensei em nós dois juntos, imaginei cenas, por mais infantil que isso possa parecer. E todas as vezes que eu me aproximei pra tentar conversar, tentar te conhecer, te desvendar, eu empaquei. Eu me sinto tonto, que não sabe o que fazer cada vez que te encontra por aqui. Não sabe onde coloca a mão, não sabe o que dizer. Eu ando tão frágil, tão assustado com a aproximação do outro e meu carinho por você vai sempre existir dentro de mim, mas eu acho que é hora da gente parar de se tratar como se alguma coisa entre nós fosse acontecer: saliva, cheiro, suor. Não me alimente. Talvez eu mesmo faça isso, você nunca fez nada que me fizesse acreditar em um relacionamento. Ou talvez tenha feito, não posso apontar momentos porque nós não temos momentos. O fato é que eu tenho aula agora, eu perderia a aula por você, ganharia zero por você, mas eu preciso me preservar. Te encontrar. Não sofrer, entende? Te reagir sem intenções bruscas. Não quero deixar o meu carinho se aprofundar, não entranhar tanto ou mais do que poderia, deveria. E nem é tão complicado assim, eu mal te conheço, você mal me conhece. Se não prosseguirmos, fica você achando que eu sou louco e eu te achando inalcançável. Talvez eu tenha a mania de confundir tudo, talvez.

Fez-se silêncio no universo entre nós dois. Nada constrangedor, apenas silêncio quebrado por mim.

- Falei demais, não é?

Sentei na porta do teatro, como quem se arrepende. Cena de filme americano, a personagem explode tudo o que pensa, depois senta em algum lugar, aliviado. De pé, me encarando, olhos fixos em mim, alisa a barba, a língua nos lábios:

- Você acha que tudo deve ser dito?

Ali, sentado, encostado na porta do teatro, encostado na madeira da porta, pude ouvir alguém em cena dizendo um texto que eu sabia decorado. Um diálogo, dois homens, duas mulheres, um casal, não havia muito sentido nas palavras; eu não consegui identificar quem estava em cena, mas a frase era 'Você gosta de palavras? Eu também, mas gosto mais das cores'.

- Este é o império da palavra, moço. Se você não me diz nada, seja objetivo nas tuas ações. Preciso de nitidez nas imagens que você cria no teu silêncio e isso não acontece. Então eu suponho e tudo fica exaustivo. Não acho que tudo deva ser dito, você sabe que não, mas o suficiente já me bastaria.

Tudo o que eu disse me pareceu sutilmente como uma cobrança e me senti ridículo, aliviado. A escola de teatro funcionando como um dia letivo normal. Os dois parados, ali na porta, em silêncio. 'Do lado de lá o faz de conta, do lado de cá, a realidade de duas pessoas que não se conhecem. Dois atores'. O pensamento dissipou-se quando ouvi a voz dele sorrindo:

-Vamos sair daqui!

Saímos os dois juntos pelas ruas do centro da cidade. O céu absolutamente azul, um dia fresco. Poucos carros na rua, nenhum trânsito, um vento forte, um dia atípico. Andamos por dois, três quarteirões, não trocamos uma palavra, parecíamos ter pressa e eu não entendia muto bem nossos impulsos. 'Eu deveria estar em cena', pensei, seguindo automaticamente os passos dele. Então a velocidade dos passos aumentou, quando percebi estávamos correndo e sorrindo, brincando como crianças, pelas ruas cinzas da cidade. Correndo e sorrindo, sorrindo fácil. Os olhos dele dentro dos meus, o sorriso dele gigantesco dentro do meu, leveza nos movimentos, gargalhadas e estávamos correndo em direção ao nada, rindo um do outro, um para o outro e era bom, era tão bom... As pessoas percebiam e sorriam conosco uma alegria inexplicável.

Foi então que chegamos em uma praça: bancos, pombos, um coreto, árvores, velhinhos jogando cartas, cachorro vira-lata, pipoqueiro, nós.

- Esse lugar é meu, esse lugar sou eu - me disse ainda sorrindo e eu ainda ofegante, ainda feliz, fui ouvindo: eu nunca trouxe ninguém aqui porque nunca encontrei alguém que eu quisesse apresentar esse lugar. E tenho ciúme. Tá vendo aquele banco? Li a primeira carta que você me deu ali. Lia e relia sentado no banco da praça que é minha. Eu não sei se a gente pode ficar junto porque eu entendo amor de outra maneira, sem tantas palavras no meio. De repente cheiro, suor, como é mesmo que você disse? Saliva. Achei bonito, mas compromisso, namoro, relação. Eu fiquei pensando uma maneira de te dizer isso sem parecer presunçoso, não sei se é essa a palavra, não sou muito bom com as palavras. Eu pedi pra você ficar comigo pra gente conversar, pra ficarmos juntos por mais tempo, pra gente ver se combina, se a gente se entende porque a gente pode até não se curtir.

Eu já não sorria mais. Meu rosto sério e eu percebia muita coerência em tudo o que ele me dizia. Percebi um cuidado no dizer, como se alguma palavra não pudesse ser dita e eu o interpretasse mal. Para que não me magoasse. Eu não quis dialogar, quis o silêncio. Ele me abraçou e ficamos os dois ali, no meio da praça que eu já julgava um pouco minha, naquela tarde linda e eu ouvia o coração dele bater no meu ouvido e me sentia um pouco parte dele, aquele homem lindo que era mais do que lindo, era a praça.

- Vamos para a minha casa, a gente ouve música, passa um tempo juntos.

Sorrisos leves e tudo entre nós sempre me pareceu como uma estréia, sensações inéditas despertando e só tínhamos exatos trinta anos, jovens demais. Há perigo quando dois homens estão juntos embriagados pelo mistério do inexplicável. E em fração de segundos, chegamos na minha nova rua, onde minha nova casa estava sendo pintada aos poucos e como ainda não tinha me mudado, poucos móveis, quase nenhuma roupa, com cara de minha pela bagunça mas ainda vazia de matéria, de dia-a-dia. Destacou que a casa era aconchegante, clara, essas coisas que a gente diz meio que instintivamente.

- Ainda não trouxe ninguém aqui. Ninguém. Essa é a minha praça. Me mudo em menos de dois meses e tirando os pintores, você é o primeiro que visita.

Sorriso. Olhos brilhando.

Os assuntos aconteceram naturalmente. Aos poucos, a conversa fluiu e uma intimidade começou a brotar. Cumplicidade. No ritmo adequado, no decorrer do desvendar, durante o conhecer melhor, uma ponta de intimidade nos tornou cúmplices. E era gostoso não sentir o tempo passar, era gostoso estar com ele, ali, na minha casa, decifrando, observando o observar, me permitindo uma possibilidade permitida.

Fim de tarde, início de noite, os dois deitados no chão da sala entre almofadas e o cd da Adele bem baixinho embalando as intenções. Me lembrei de um trecho de um conto do Caio Fernando Abreu que eu tinha na mochila. Anotações sobre um amor urbano, do livro Ovelhas Negras, que eu não largo. Pausei. Abri o livro e li, sentado de frente para os seus olhos exatos:

“Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço pra tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nessa janela, já dissemos tudo o que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação, impressão, ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e com a ponta dos meus dedos tocar você, natural que seja assim: O toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.

Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha pra mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi pra saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá dizer: Não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, conhaque, vermelho, os dentes se chocam, leve ruído, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo. Escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos”.

Deitou no meu colo. Os olhos abertos absolutamente entregues ao momento. Meus dedos sobre suas grossas sobrancelhas. Olhos nos lábios, recebia meu calor-carinho até que nos beijamos. E tudo perdeu o sentido. E tudo ganhou sentido.