sexta-feira, janeiro 08, 2010



AVATAR de James Cameron

Parado na porta do prédio em Copacabana, respirou fundo e desistiu. Acenou um adeus desconcertado para o porteiro e saiu em outra direção. A praia, quem sabe? Qualquer lugar, quem vai saber? Quando a gente traça um objetivo e por algum motivo deserta, há um momento de insatisfação que desnorteia o mais prático dos homens. Pensou nos beijos ao atravessar a rua. Pensou na temperatura do beijo quando o carro buzinou e o motorista disparou qualquer palavrão. O verão esquenta: as intenções, os nervos, o desejo. O mar de Copacabana agitado. Ondas altas. Areia quente. Pessoas aos montes. Turistas e seus idiomas diversos. E a facilidade que eles têm de se embasbacar com a beleza da cidade. Procurou um banco para descansar.

- Você vai se queimar, cara – foi interrompido pelo rapaz sem camisa.
- Como?
- O banco. Se você sentar, você vai se queimar. Por que você acha que não tem ninguém sentado aí?
- Faz sentido.
- Você tá legal? Tá passando mal?
- É tão óbvio assim?
- Quer uma água, um suco?
- Uma cerveja eu aceito.
- A gente caminha até aquele trailer. Pode ser? Você consegue caminhar?
- Eu tô bem – e desmaiou.

Quando abriu os olhos, não sentiu aquela sensação que os filmes ilustram com a falta de nitidez até o equilíbrio da imagem. Não. A parede era azul. Pensou no céu, mas viu a luminária. Depois um rosto entrou no seu campo de visão. O mesmo rosto de algum tempo atrás, na praia. Sem camisa ainda. E os olhos eram olhos atentos. Olhos que não ameaçavam ou intimidavam. Relaxou o estranhamento de acordar em um lugar inédito com uma pessoa desconhecida.

- Eu desmaiei, não foi?
- Você caiu de joelhos. Enquanto você dormia, eu fiz um curativo. Desinfetei, passei um remédio para não ficar pior. Espero que não se importe.
- Obrigado.
- Abri sua carteira também. Procurando alguma identificação, tentar algum telefone, algum contato.
- Você avisou alguém?
- Não, só encontrei sua identidade e algum dinheiro. Depois peguei seu celular procurando alguém para telefonar. Aí você acordou. Você ficou desacordado por quarenta minutos, eu acho.
- Ainda tô em Copacabana, então?
- Sim, duas quadras antes da praia.
- Me desculpe pelo incidente. Você foi bacana demais, mas eu preciso ir.
- De jeito nenhum. Vamos tomar um café e aí sim, você vai.
- Não, realmente não precisa. Eu me sinto muito melhor – e levantou caindo logo após.
- Eu não sei o que houve com você e se você não quiser falar, eu não vou forçar a barra. Mas uma coisa é certa: você precisa comer. De acordo?

Balançou a cabeça como todo teimoso.

O apartamento era antigo. Não porque parecesse, mas porque era espaçoso. Ar-condicionado central, pensou com frio ao observar as portas abertas e as janelas fechadas. Um cavalheiro, observou ao encontrar uma mesa farta com café-da-manhã. Procurou frases aleatórias que pudessem preencher a situação desconfortável. Não encontrou.

- Eu atrapalhei sua praia. Você deve me achar um saco.
- Você não me atrapalhou. Eu desci para correr e dar um mergulho. Corri e mergulhei. Então você não atrapalhou os meus planos. Certo?
- Certo.
- Já comeu hoje?

Silêncio de olhos desencontrados.

- Ou ontem? Desde quando você não come?
- Não sei. Eu preciso te agradecer. Te dar uma explicação. Eu...
- Você não precisa me explicar nada. Sirva-se, por favor.
- Ele viaja hoje de noite. Eu queria... Eu pensei que se... Eu passei a noite acordado tentando ganhar coragem. Aí eu lembrei que eu tinha esse comprimido. Uma menina me deu outra noite. Ela me disse que era pra usar quando eu precisasse de coragem. Que ia me... Que eu ia... Eu pensei que se eu aparecesse, que ele ia, sabe? Ele ia abrir a porta sorrindo e a gente ia se despedir. Tomar um café contando histórias, cantando. Como foi da outra vez. A outra viagem. Eu tomei o maldito comprimido. Só me deu pânico. Só me causou terror. Eu passei a noite aterrorizado, suando frio, tomando susto com o vento, a buzina dos carros, o barulho do elevador do prédio. Olhando para a parede, para a porta, achando que os apartamentos iam ser invadidos.
- O espelho de Alice.
- Ainda bem que eu não saí de casa. Por mais louco que eu fique, alguma coisa em mim sempre me preserva. Eu deitei, vi a parede girar, vi os cômodos trocarem de lugar, as cores brincar com a retina. Os sentidos se alteraram. A boca seca.
- A gente não toma um comprimido sem saber o que pode causar.
- A gente faz um monte de coisas que não deveria fazer.
- Posso te fazer uma pergunta?

Ele acenou com a cabeça enquanto mastigava.

- O que te impediu?
- O medo.
- Você veio para se despedir. Por que não se despediu?
- Quando eu entrei na rua dele, eu vi o carro de outro cara que... Na verdade eu não sei bem se eu vi, mas eu acho que eu vi o carro do... Nós não somos mais dois, entende? Nos separamos, mas continuamos juntos. Sem dar nome. Sem definir o que a gente estava fazendo, vivendo. Eu sempre fui um cara que precisou de rótulos. Casado, fiel, apaixonado, esses nomes que parecem grandes, mas são apenas o compromisso entre uma pessoa e outra. Essa indefinição moderna, essa não qualificação, eu não sei como reagir. Depois que eu vi o carro...
- Ou achou que viu o carro.
- Voltou a paranóia. Os ruídos, as pessoas, esse céu azul, o barulho do mar. Eu cheguei a visualizar a cena de tocar a campainha e ser recebido numa saia justa. Não conseguir dizer nada, nem adeus. Eu encarei o porteiro e um medo, um medo grande, de me paralisar, me impediu os movimentos.
- Você não quer usar o telefone? Posso chamar ele aqui. Ou algum amigo.
- Não, obrigado. Eu quero voltar para casa. Obrigado. Por tudo. Pela atenção. Pelo cuidado. Pela gentileza.
- O importante é que você fique bem.
- Tô ainda na onda do comprimido. Ou então usando esse episódio como justificativa para toda essa cena.
- Não houve cena. Se bem que não é muito comum homens desmaiando aos meus pés – e sorriram.
- Desculpe, eu não me apresentei.
- Mas eu sei o seu nome, sobrenome, seu números da identidade, sua filiação. Eu me chamo Luciano.
- Eu me chamo Alessandro.

Na urgência dos fatos, falaram sobre alguns assuntos em comum e a identificação imediata era gostosa. Quando divergiam, sorriam a diferença com a compreensão quase óbvia de que são elas que aproximam muito mais que o contrário. O tempo passou sem que sentissem. E a admiração era recíproca. Como se um compreendesse o outro sem questionar o antes e o que antecedeu ao antes. A manhã atravessou os planos de ambos e os assuntos transbordavam-lhe aos montes, entusiasmados e surpresos, porque tanto um quanto o outro precisava falar. E ser ouvido. Tudo era motivo e toda frase desencadeava em histórias, situações e lembranças.

- Você tem alguém, então?
- Tenho. Ela deve estar chegando, inclusive.
- Ela, a pessoa?
- Ela, a mulher. Ela se chama Ana e estamos juntos por quase nove anos.
- Planos de casamento?
- Eu não preciso desses rótulos – e sorriu para ser contestado. A gente se dá muito bem. Sou apaixonado. Ela é apaixonada.
- Eu sempre ouvi as pessoas falando que eu era um cara promissor. Que eu ia dar certo. Que todos os meus desejos... Os meus amores... Mas eu não passo de um ensaio que quase deu certo. De um blefe quase incrível. Um promissor Zé ninguém. Sem direção traçada. Um filme que a gente perde o interesse no meio. Eu sou aquele que quase, entende?
- Acho que sim.

E despediram-se.