sexta-feira, abril 16, 2010



A SINGLE MAN de Tom Ford

“Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, pra dentro de mim
Meu amor”
(Vieste/ Ivan Lins e Vitor Martins)

Vodka. Boa parte da noite. A garrafa na mão. Os goles, entre abraços carinhosos de amigos que não via desde algum tempo. Quase muito tempo, considerando que moramos todos na mesma cidade. Beijos no rosto, um afago no ombro e ‘cara, quanto tempo’ aos montes. Música alta. O corpo tentando encontrar o ritmo no meio de tanta gente. Tanta festa. Centro da cidade. A Lapa. Aquela Lapa. E um lugar escuro, iluminado pelos refletores coloridos. Madeira na decoração do ambiente. Lembrou do teatro de Shakespeare Apaixonado. O lugar lembrava aquele teatro, embora escuro e cheio de pessoas sorrindo, com latas e garrafas nas mãos. Outros goles. Encontros e outros tantos desencontros de gente querida. De gente estranha. Em busca (de contato, talvez). De gente que acaba passando pelo seu caminho porque veio com alguém que você conhece. Alguém que você ama ainda. E que te pergunta no pé-do-ouvido se você quer mais uma garrafa de vodka.

- Quer?
- Claro.

Depois de um tempo, minutos talvez, ele surge no meio daquelas pessoas que dançam em busca (de um ritmo, talvez) com a bebida, a minha, na mão, abrindo a garrafa com as mãos e me oferece um sorriso antes do primeiro gole. Passa a mão pelo meu cabelo e me aproxima pelo pescoço, como quem vai me dizer alguma coisa. E diz. Que sente a minha falta. Tanto. Que eu não deveria sumir. As palavras se misturam ao ambiente. Ao som da música alta. Os gritos das pessoas que dançam seus corpos animados. Embriagadas. Em busca (de outro, talvez). E já não sei bem mais o que é palavra, o que é canção, o que deixou de ser intenção. O que há são esses olhos pretos me observando e essa boca vermelha dizendo verbos, substantivos, pronomes. Essas coisas que já não identifico mais. Outros goles. Outros.

- Obrigado por salvar a minha noite.
- Ou por condenar.

Já não sei mais o que danço. Mas o corpo segue os impulsos sonoros. Eu sempre fui aquele que muda o ritmo dos passos de acordo com o que toca no fone de ouvido. Eu danço conforme a música. E faz tempo que não me deixo levar por festas noite adentro. Perder o hábito é deixar de lembrar. Da sensação, dos trâmites, do jogo da troca, do fio da questão. O corpo dormente, aquecido por dentro que apesar de tudo a noite é fria. Você pega a minha mão e me sopra alguma lembrança. Eu sinalizo com um sorriso e a gente continua a dança com os olhos se olhando. Como se nos equilibrássemos na retina. Como se nos ajudássemos a buscar energia para prolongar a noite. A companhia. O assassinato da saudade. Fecho os olhos e a gente se perde por alguns segundos. Como se estancássemos os laços. Como se arrebentássemos o fio que nos une na pista cheia e animada. Como se soltássemos as mãos unidas para o mergulho.

- Vem comigo?
- Vou.

No caminho sem direção, tropeçamos aos montes em pés que também nos tropeçam em busca (de um eixo, talvez). Ao passar pelo bar, ele me olha nos olhos e eu sinalizo que sim. Faz muito tempo que a gente se comunica sem usar as palavras. Com rapidez. Como se a percepção de um estivesse em exercício concomitante com a percepção do outro. Então encostado na parede, à espera (dele, da vodka, do resto da noite), os olhos fechados, a cabeça balançando ao ritmo das canções, relaxamento parcial dos sentidos. Alguém me pega pelo braço. Suave. Um toque suave. Encontro uma mulher me observando e dois olhos verdes.

- Você é o Junior, certo?
- Certo.

Ela diz que me conhece. E diz seu nome e a memória é realmente intrigante porque ao dizer seu nome, lembrei imediatamente e apenas balancei a cabeça para confirmar a certeza que ela esperava. E ganhou. Ela continua a falar. Reforça a época, as circunstâncias, o ano. Correspondo o abraço sem a vodka nas mãos e disparamos frases que se perdem pelo espaço. Fragmentos de palavras que às vezes ouço, às vezes não. Até que ela fala o nome dele. E a sensação de ouvir o nome dele depois de tantos anos é estranha. Como se eu não soubesse reconhecer a pessoa citada. Como se o tempo esvaziasse o significado de alguém que foi tanto e hoje em dia, é apenas um estranho. Mais um. Ela insiste em repetir o nome e diz que ele está bem. Que se separaram. Que eles foram felizes. Que terminaram. Que ela encontrou um novo amor. E se mudou para o Rio. De vez. Que hoje é feliz ao lado de uma mulher. Uma grande mulher, ela fez questão de destacar. Me senti encolhendo. Desaparecendo dentro da roupa, feito Alice. Falou muito. Eu só ouvi. Voltou a me abraçar e me disse suavemente no pé-de-ouvido para que nenhuma palavra escapasse:

- Ele se apaixonou por você de um jeito que eu detestei. De um jeito inédito que eu nunca tinha visto. Eu, a namorada. E eu te odiei por isso. Tanto.
- Essa história se encerrou faz muitos anos, lindona.
- Eu queria te fazer uma pergunta.
- Não faça.
- Queria saber se vocês dois...
- Eu não vou te responder nada. Eu não tenho que te explicar nada. O Guilherme só me fez mal. Ele foi um vício. Eu me fudi todo por ele. E ele só me falou sobre você no dia que você chegou de Minas e ele disse que tinha uma surpresa. Eu também te odiei. Porque você foi uma das surpresas mais desagradáveis que eu já tive. Naquela circunstância, você foi.
- Eu era tão diferente. Poderia ter sido de outro jeito.
- Foi como deveria ser. E você está muito mais bonita hoje. Não te reconheceria na rua.
- Então vocês dois?
- Insiste não. O que eu vivi com ele, foi com ele. Um pedaço de tempo que a gente se permitiu viver. E ninguém no mundo estava ali. Ninguém presenciou. Ninguém viu. Ou falou sobre. Escreveu. Ninguém fez um filme. Não é assim? Aquilo que a gente vive com o outro, naquele instante, é só de quem está ali. Sem testemunhas. Sem provas. E se a gente não fala sobre, se a gente guarda, se a gente deixa pertencer só a quem viveu aquilo, ninguém precisa ficar sabendo. Ninguém precisa legitimar. Ou tomar ciência. Um universo paralelo. Que se perde se a memória falha. E só existe e se existiu um dia, só interessa aos envolvidos. Eu preciso ir. Tem um rapaz lindo ali no bar me chamando com uma garrafa de vodka na mão. E eu nunca digo não para uma garrafa de vodka.
- Bom te ver. Eu acho.
- Sim.

Eu sei que ele vai me perguntar sobre ela. Quem é. Por que me abraçou. Por que se aproximou e me falou coisas no ouvido. Vai insinuar qualquer brincadeira. Vai querer saber sobre o que eu não sei mais falar. Entorpecido, eu diria. Confortavelmente. Uns dois ou três amigos jogando piadinhas sobre a mulher que me abraçou. Que nenhum deles nunca viu antes. E só existiu para mim, oito, dez anos antes por duas noites. Que namorava o homem que me namorava por cinco meses de encantamento. Que nunca me falou da existência dela, que morava em outra cidade. Que ao chegar matou a confiança do amor recém-nascido. Que não suportou as intransponíveis falhas de comunicação. E se desfez feiamente. Com palavras escrotas. Portas batidas. Objetos deixados para trás. Um nunca mais que se manteve. E doeu para que eu enlouquecesse. Mas que passou. E se perdeu no tempo da lembrança. Sem qualquer vestígio.

- Pensei que ela fosse te beijar.
- Pensou errado.
- Quem era?
- Alguém que eu conheci.

No táxi, o motorista me perguntou se eu gostava de forró. Eu disse que sim, que o grande barato do forró é dançar juntinho. Veio o caminho todo me falando sobre os grupos preferidos. Sobre a história e os diferentes tipos de forró. Me perguntou se eu queria tomar o melhor café da cidade. E eu disse sim ao motorista como quem diz sim para um amigo. Paramos na Feira de São Cristóvão, lugar que se celebra a cultura nordestina no Rio de Janeiro. O melhor forró do mundo, segundo aquele senhor divertido.

- Sua noite foi boa, não foi boa?
- Foi diferente.
- Seus amigos ficaram na festa?
- Eu saí sem me despedir.
- Por que?
- Eu fiz o que eu quis fazer. Quantas vezes na vida a gente faz o que tem vontade de fazer?

O vento faz estragos com freqüência. Mas ocasionalmente, também coloca as coisas no lugar.