quinta-feira, setembro 16, 2010




GHOST WORLD de Terry Zwigoff

Mais uma vez, eu te esperei

E você não veio.

Não me escreveu.

Não discou o meu número.

Não me assobiou na janela.

Não me mandou recado.

Não me encontrou no calçadão.

Não fez um bilhete.

Não mandou flores.

Ou mensagem no celular.

Você entendeu ou pareceu compreender

Um silêncio que nos acompanha

E que nos distancia.

Uma ausência que sempre se anunciou

E nunca tomou forma.

Onda que afasta e só afasta

Em silêncio que não conforta mais

Porque não diz nada além do fato

De que não há nada para dizer.

Nada que não tenhamos percebido.

Talvez não tenhamos concordado.

Ou admitido.

E é.

De tanto adiar, aceitamos o engano inevitável

E de tantos enganos

Camuflamos os dias

As pequenas falhas

Minúsculas rachaduras

Mofadas

Que agora brincam de nos assombrar.

Desligou o computador sem salvar as palavras escritas. Não se importava em perder o rascunho. Não era importante salvar sua tentativa de mais uma vez, reagir. Ela abriu as portas e desceu as escadas ignorando o elevador e o vizinho atencioso que lhe disse alguma frase perdida no espaço. Saiu urgente como se buscasse socorro, sem destino, sem direção, sem ritmo, sem ar. Caminhou sem perceber o relógio. Perdeu a noção do tempo, a noção geográfica, a noção. Quando a noite caiu, ela tropeçou, pedra perdida na calçada e achou estranho o grito, o som da dor do grito e só não caiu porque a mão dele amorteceu o que seria, de fato, a queda. Desconcertada, ela sorriu. E era estranho depois de tanto tempo vagando aleatoriamente, sorrir. Como se redescobrisse os músculos da face. Ele só não correspondeu porque parecia preocupado com o seu bem estar e disparou uma série de perguntas que ela resumiu com dois ou três ‘estou bem’. Balançaram a cabeça como quem tenta encerrar uma situação. Ela pronta para prosseguir. Ele ainda assustado com o inesperado. O carro de polícia rompeu a avenida urgente e barulhento. As ondas quebraram quase na calçada.

- Você viu isso?

- Vi.

- Viu até onde essa onda veio?

-Vi.

- Eu tive um dia difícil. E se não fosse por você, eu estaria com a cara no chão. O dente ou o nariz quebrados. Eu não agüento sangue. Sangue me enjoa, a pressão cai. Sabe a sensação de desmaio? Não tenho a menor vocação pra vampira. Já se sentiu sendo sugado? A energia, o humor, o dinheiro, o sexo, a gente sente ir embora. Sabe aquela barra de energia dos vídeo-games?

- Sei.

- A gente sente a energia verde entrar no vermelho. Na porrada. E tem que bater mais forte pra que o outro entre no vermelho também.

- É uma comparação curiosa.

- No finalzinho eu sempre aperto todos os botões. Xingo, bato, tento. Às vezes dá certo.

- Às vezes não.

- Você quer tomar um café?

- Não.

- Não?

- Mas uma cerveja eu tomo.

Um botequim. De esquina. Quatro garrafas depois. A lua cheia no céu e a primavera dando indícios de que se aproxima. O vento fresco. É isso. Ele falou mais do que previu, se houve alguma previsão. Da cidade, da lei seca, do preço alto do cinema, do calçadão imundo, do Fluminense líder do Brasileirão, das músicas da Pitty que ele descobriu. Falou com propriedade. Personalidade forte. Algum conhecimento de causa e uma sedutora irritação. E intimidade, o mais bacana de tudo. Chegou a pensar de onde viria tal intimidade, mas preferiu aproveitar sem questionar. E você, ele perguntou. E você?

- Eu não sei. Eu não gosto dessa pergunta. Normalmente ela vem após esses monólogos sobre os mais diversos assuntos. Acontecem para que o outro respire ou tome sua cerveja, sem o menor interesse em ouvir a resposta. Eu não sei. É tudo o que eu posso dizer. Obrigado por me salvar hoje.

- Não agradeça, não fiz nada.

- Eu conheci um cara. A gente se falou duas, três vezes pelo telefone. E todas as vezes que a gente se falava ele me perguntava sobre os meus planos. Vai ficar em casa? – ele sempre se encaminhava pra essa pergunta. Quase sempre eu respondia que sim, que queria ficar em casa. Depois ele questionava com um ar de superioridade ‘mas ficar em casa na sexta’? Como se eu fosse obrigada a ter planos incríveis para todos os finais de semana. Pior. Como se ficar em casa fosse um lance assim tão trágico, tão ruim. Qual o problema de ficar em casa? Deveria ser natural querer ficar em casa. Não existe conforto maior.

- E ele?

- Parou de me procurar. O que eu queria dizer é que eu sou caseira. Gosto de receber as pessoas. De curtir o apartamento. De estar sozinha. Eu gosto de morar sozinha.

- E essa aliança de noivado?

- Embaraçoso. Nós estamos separados, mas ela não sai. Ou não quer sair. Já tentei óleo, sabonete, água quente. Ela não sai. Simplesmente. Parece empacada como se quisesse me dizer alguma coisa. Ou me ensinar alguma lição.

- Ele te ensinou alguma lição? Teu noivo?

- Ex-noivo.

- Ensinou?

- Sério isso?

- Claro.

Ela sorri como se fosse atacar e desiste.

- É que esse papo de que a gente aprende toda vez que entra numa relação, não sei. Se eu quisesse aprender alguma coisa, eu faria um curso de alemão, cerâmica, qualquer coisa. Mas paixão emburrece. Cega os sentidos. Atrofia a lógica.

- Não sei se concordo.

- Mas tem uma coisa que ele me ensinou que eu acho muito bacana.

Ele a encara e levanta uma das sobrancelhas interessado.

- Ele me ensinou que usar uma calça verde com uma camisa azul pode ser confortável. Que existe uma estranha harmonia entre as cores e eu sempre evitei misturar.

- Já é alguma coisa: arriscar.

- Arriscar a cor das roupas que eu uso é só uma questão de bom senso. Ou de falta de senso.

Ele ia rebater, mas ela não deixou.

- Obrigada, mais uma vez. Por tudo: por me segurar, pelas cervejas, pelo papo que fluiu tão bem, pelo diálogo. Eu sinto falta de dialogar. Hoje a gente fala sozinho o tempo todo. Enfim, obrigada. Preciso voltar agora.

- Eu posso pedir seu telefone?

- Se eu disser que não, você vai se ofender?

- Você foi tão categórica. Não considerou a dúvida. Não me sinto ofendido, mas curioso.

- Foi tudo tão inusitado, tão leve, bom. Libertador, eu diria. Ser a mocinha salva pelo príncipe charmoso das mãos e voz macias. Se eu te disser o meu número, oito números, a possibilidade de estragar tudo é real.

- Sem tentar? Tô falando em te ver outra vez. Só isso. Outras garrafas de cerveja sobre a mesa, novos diálogos.

- Em algum momento confundir a dança, trocar os pés?

- Não! Quer dizer, não sei. Mas não é assim que a gente conhece as pessoas? Insistindo?

- A gente conhece as pessoas por desejo, eu acho. E eu não quero conhecer ninguém.

Por um segundo os olhos se encontram e se perdem e voltam a se encontrar.

- Tudo bem, você deve ter razão.

- Quer o meu e-mail? Eu adoro receber cartas.

- Eu tenho um certo pavor de internet. Uso para trabalhar, compras e tal, mas eu tô te oferecendo realidade. Isso aqui: um boteco sujo em Copacabana, a minha atenção integral, tempo para o diálogo, olhos nos olhos e você quer me encarcerar no seu e-mail? Você quer uma carta? Eu te escrevo. Várias.

- Você é bom de papo. Qual foi a última mulher que caiu no teu discurso anti-tecnológico?

- A minha esposa. Ex-esposa. Você é de ficar em casa. Eu sou de casar.

- Duas pessoas recém separadas juntas só pode dar merda. É sede de ilusão demais.

- Eu não sei o que acontece comigo, não sei se é novela demais vendendo a idéia do mocinho apaixonado... Incorruptível. Eu adoro um romance, mas eu não correspondo, eu não sei corresponder essa imagem. Eu gosto de realidade. Tenho amigos que conhecem mulheres pela internet. Passam três, quatro semanas conversando, dizendo do que gosta, o que fez, pra onde vai, o que comeu e alimentam a expectativa, vestem a roupa da personalidade que muitas vezes eles nem têm, só para corresponder o outro. Depois do primeiro encontro eles entendem que o tempo investido naquela farsa – porque não deixa de ser – foi mais uma vez o desejo de viver uma novela, uma cena de filme, um romance bem escrito. Depois eles voltam pra internet e conhecem outras mulheres dentro de um círculo vicioso e sem fundo.

- Eu preciso terminar de escrever uma carta. Preciso terminar. Na verdade, eu preciso recomeçar a escrever uma carta. Me manda um e-mail e me passa seu celular que eu te ligo. Eu faço a sua vontade e você faz a minha. O que você diz me interessa. E isso é tudo o que eu posso te dar nesse momento: o meu interesse.

Em casa, encarando o computador ela apagou todas as frases. Letra por letra. Como quem deleta dentro de um ritmo muito particular e especialmente consciente não só as palavras da tela, mas alguma sensação não escrita.

Silenciosamente ela começou a compreender e descobrir a temperatura dos seus pés no chão.