sexta-feira, outubro 29, 2010



ANFETAMINA de Scud


“ O momento passou e eu compreendi que tinha acontecido qualquer coisa”.

(Michael Cunningham / Uma Casa no Fim do Mundo)

- Você vai comigo?

- Vou.

Encontraram-se no final da tarde. Felipe saiu do trabalho eufórico com as férias começando e se dirigiu ao metrô, à espera de João. Enquanto esperava, ouvia música e percebia as pessoas ao redor, com pressa. Suas linhas de expressão, suas roupas e combinações, as cores e o tons dos cabelos. O céu perto de escurecer, nuvens brancas cheias, o vento tímido que bagunçava os cabelos, a desatenção atenta aos que entravam no seu campo de visão feito flechas sem direção. João chegou.

- Desculpe pelo atraso.

- Sem problemas, querido. Como você está?

- Nervoso. E você?

- Apreensivo.

- É a sua primeira vez?

- Segunda, mas eu fiz sem saber a primeira vez. Quando fui admitido, eles me pediram um hemograma completo. É a primeira vez que eu faço um exame específico.

- É a minha primeira vez. Um pânico. Medo. Estômago embrulhado. Lembra do americano?

- Não.

- Que eu namorei. Carnaval de sei lá, dois, três anos atrás.

- O que tinha cara de skinhead?

- Ele não tinha cara de skinhead. A gente tem trocado e-mails. E ele me contou que... Ele se infectou. Recentemente. Ele descobriu em abril. E me contou essa semana. Desde que ele me escreveu, isso não sai da minha cabeça.

- João, se o cara se infectou em abril desse ano, qual o medo? A última vez que você se viram foi em dois mil e oito. E vocês sempre se protegeram. Pelo menos você sempre me disse que vocês se protegiam.

- Pois é. Eu menti. E quem disse que camisinha é eficaz? Elas rasgam, estouram, machucam, melam. E sexo oral? Eu nunca fiz sexo oral em ninguém que usasse camisinha. Nunca fui chupado usando camisinha. Até porque normalmente eu tô sempre tão chapado, que só de pensar em colocar uma dessas, é como se eu precisasse fazer uma conta de multiplicar complicadíssima.

- João, pensa comigo. Não vou montar um discurso paternal, te alertando sobre os perigos que você já conhece de sexo sem proteção. Até porque, te confesso, também me descuidei duas, três vezes. Tanto que eu também não estou confortável com esse exame. Mas pensa, ainda que vocês não tenham usado camisinha algumas vezes.

- A maioria das vezes.

- Ainda que vocês não tenham usado dois anos atrás num final de carnaval carioca durante os dias que vocês estiveram juntos.

- Seis meses.

- Certo. Se ele não estava ainda doente, se ele não tinha o vírus, então a chance de você estar contaminado é pequena. Confere?

- Pensando dessa forma novela da globo, asséptica, eu concordo com você. Mas eu começo a lembrar de outros furos e começa o inevitável ‘e se’. A minha cabeça anda confusa. Eu não dei aula direito hoje. E se ele já estivesse infectado quando nós estávamos juntos? Se os sintomas só começaram agora?

- Então você enlouquece. Ou para de trepar. Ou sublima o sexo com drogas. Ou comida. Não dá para entrar nessa neurose, João. Perguntas sem respostas enlouquecem se a gente insiste em saber o que não dá pra saber. Eu entendo a tua preocupação. Mas também entendo que você procurou a melhor das opções nesse momento. Que é o teste.

- Fica pronto em vinte minutos.

O prédio do Centro da cidade não era dos mais bonitos. Foi uma caminhada razoavelmente curta, levando em consideração que quando entramos em uma conversa que interessa ambas as partes, o tempo deixa de ser protagonista e a gente nem percebe que ele passou. Pediram informações ao porteiro e subiram para o último andar, onde mais um lance de escadas os levaria ao terraço. A subida pelo elevador foi tensa e enquanto João treinava sua simpatia ao fazer contato com uma criança de 8 anos, Felipe balançava as pernas tentando domar sua ansiedade. Tocaram a campainha. Felipe respirou fundo e encaixou a sua mão na de João. Uma adolescente abriu a porta animada e os recebeu com um sorriso.

- Nós viemos fazer o teste.

- No final do corredor, do lado esquerdo.

Cautelosos, em silêncio se encaminharam pelo corredor. Tudo aconteceu tão rápido que era impossível tentar adivinhar o que se passava na cabeça dos rapazes enquanto se aproximavam da sala. Ao abrir a porta, foram recebidos com simpatia. Um rapaz aguardava no sofá o resultado do seu exame. O psicólogo homem levou João para outra sala para a entrevista. Felipe ficou sozinho e encarou algumas revistas. Precisava da sensação de estar atento a qualquer coisa. A psicóloga mulher chamou o rapaz que aguardava no sofá. A enfermeira abriu a porta e Felipe recebeu as instruções de como seria o exame. Que se ele tivesse alguma dúvida, poderia perguntar. Que assim que a psicóloga o entrevistasse, ele seria o próximo a ter o dedo furado. O rapaz abriu a porta e antes que ele saísse, a psicóloga mulher saiu e lhe deu duas listas com nomes de médicos e telefones para contato. Falou também sobre os horários de atendimento e fez um pacote com camisinhas e algumas caixas de remédio. Felipe não teve coragem de encarar o rapaz, mas antes que ele saísse, sentiu sua mão no ombro:

- Boa sorte.

- Para nós.

A psicóloga se apresentou e os dois se trancaram na sala branca, minúscula com uma mesa, duas cadeiras e um calendário com pessoas felizes e saudáveis. Ela o advertiu de que as perguntas que faria seriam diretas e que seria interessante se ele pudesse dizer a verdade, nada mais que a verdade. Mesmo que fosse desconfortável. Mesmo que de alguma delas, ele ficasse com vergonha. Mesmo que.

- Entendido.

De fato, perguntas sobre as suas práticas sexuais, não são tão agradáveis de responder. Se você está entre amigos, tudo é permitido e todo questionário se transforma em confidência. Mas naquela circunstância, o mais eficaz e menos constrangedor era responder, sem rodeios. Sim, não. Fiz, não, fiz. Comi, dei. Usei, não usei. Não lembro, talvez. Ela explicou da grade de segurança, que era importante ele saber a data da última relação. Que o teste não seria cem por cento eficaz se ele tivesse furado essa grade de dois meses sem sexo.

- Ando numa fase de masturbação.

- Então se você estiver me dizendo a verdade, o resultado do seu teste, sendo negativo, vai te garantir por mais seis meses. Então eu te peço uma nova visita.

Mais perguntas. E o desconforto era menor. À medida que você se revela você também estabelece algum tipo de confiança – ainda que entre um profissional e o paciente – e as perguntas e as respostas ganham cadência. Seria quase uma conversa, se depois de vinte minutos, ela não abrisse a porta e o encaminhasse para a enfermeira. Entre uma sala e outra, viu João no sofá aguardando seu resultado com o dedo envolto num esparadrapo acenando um ‘oi’ carinhoso.

Ela se chamava Ruth. Mostrou como seria o procedimento e repetiu algumas frases das quais ele só registrou algumas palavras como ‘abrir’, ‘esterilizado’, ‘rápido’ e disse que não ia doer nada. Pediu o seu dedo, passou um algodão com álcool, colocou dentro de um tipo de caixinha de plástico lilás e fechou com pressão. O dedo furado e o sangue escorreu forte. O vermelho pingando na mobília branca e ela sorriu ‘quanto sangue, rapaz’. Fez a coleta e limpou o excesso. Depois colocou o esparadrapo e com muita serenidade, completou:

- São vinte minutos e os psicólogos vão te chamar.

Os dois no sofá. Trocando as informações. Querendo saber se as perguntas foram as mesmas. Como cada um enfrentou as questões. Se mentiram em algumas das respostas. As mãos dadas. Abraços nervosos. Qualquer assunto do universo para descontrair. Qualquer afago nervoso para acalmar a ansiedade.

- Qual foi a pior pergunta?

- Quando ele me perguntou quantos parceiros eu tive. Foi a pior. Comecei a gaguejar. Ela percebeu e me aproximou um número. Eu concordei. E ela subiu uns quinze. Eu sorri e concordei. Eu não sei. Nunca contei isso. Matematicamente

- Comigo foi a mesma coisa. Ela aproximou também.

- Você tá nervoso, né?

- Em pânico. Eu quero esse resultado. Quero sair daqui. Tomar uma cerveja.

- Já vai acabar.

- E você? Feliz com as férias?

- Feliz.

- Eu tinha certeza que você viria. Obrigado.

- É importante, João. Eu sempre quis fazer esse exame. Você só me deu a oportunidade de apressar essa situação. Imagina quantas pessoas podem estar doentes e não têm coragem de enfrentar essa pressão? É importante estar aqui. Mesmo que eu não tenha motivos para me preocupar ou que você esteja lotado deles. Saber qualquer diagnóstico, o mais cedo possível, é importante demais. Vamos descontar o nervosismo, mas esse discurso de auto-ajuda faz muito mais sentido agora, passando por essa situação.

- E os filmes?

- Continuam me encantando. Sabe que eu ando meio irritado com as pessoas em geral? Neguinho não se enxerga mais. Não tem mais isso, sabe? Conversa quente, real, olhos nos olhos, essa preocupação com o outro, torcida pelo outro, enfim. Saí para dançar com a Iza. Um monte de gente falando no celular. Interrompendo conversas, paqueras, risadas. Para falar no celular. Depois fui ao shopping, a praça de alimentação cheia de gente com seus notebooks abertos, conectados, compenetrados, ignorando tudo, todos. Pior foi entrar no cinema e perceber durante o filme, veja bem, durante o filme, as pessoas com seus celulares checando e-mails, redes sociais, mandando mensagens. Se o cara for médico, eu até entendo. Porra, um filme dura menos que duas horas. Há uma urgência nas pessoas. Algum vício esquisito no imediato, na sede do agora. Isso me assusta um pouco. E você? Um medo. Um medo real.

- Morte lenta. Dolorosa. E você?

- Sei lá, will you still love me tomorrow?

A porta se abriu e ela chamou primeiro o João. Antes de se levantar, eles se abraçaram. Ela fechou a porta. Lá fora, tentando manter a calma, ele ouviu um grito de comemoração.

- Puta que o pariu! – ele gritou aliviado.

Mais um cinco minutos de conversa e a tentativa de conscientização. Que é importante se cuidar. Que hoje em dia todo mundo pode se contaminar. Que as doenças estão aí. Quando ele abriu a porta para sair, além do sorriso estampado, o João também trazia uns dez, quinze pacotes de camisinhas roxas.

- Eu tô limpa – ele sacaneava o travesti do Rodrigo Santoro em Carandiru.

- Vamos entrar, Felipe.

Antes, um abraço esperado que dizia sem dizer.

- Felipe, eu confiei muito no seu discurso objetivo e na maneira segura como você se comportou durante a entrevista, então o resultado não poderia ser diferente. Negativo. Vou pedir para que você volte semestralmente. E que daqui para frente, tente não ter motivos para que você tenha dúvidas. Hoje em dia, mesmo para quem se relaciona apenas com uma pessoa, a camisinha é muito importante.

- Obrigado, doutora. Esses vinte minutos de espera são, na verdade, uma bela lição. Daqui para frente, acho que algumas atitudes vão mudar.

- Posso te dizer que as coisas não mudam assim. Muito pelo contrário. Normalmente o paciente sai daqui tão aliviado que comete uma imprudência logo em seguida. O interessante, mais do que a reflexão, é o que essa experiência pode afetar nos seus hábitos sexuais. Isso é com o tempo. E você tem que ter sorte até compreender esse tempo.

Ao abrir a porta, João abraçou Felipe e ali ficaram um tempo sem dizer nada. Alguma ou outra palavra de felicidade. Alguma frase para quebrar o silêncio. Alguma brincadeira para preencher os corações. Anoitecia e para ambos, o sol acabava de nascer. Antes de sair, cruzaram no corredor com um travesti de mais de quarenta anos.

- É aqui que faz o teste?

- Sim. É só entrar que eles te atendem.

- Obrigada.

Saíram festeiros. Abraçados. Aliviados. Cheios de juventude. De novos e velhos desejos em riste. Renovados. Aquela festa. Aquele filme. Aquele cara. Aquele beijo. Aquela música. Aquela camisa. Aquela cor. Aquele pôr-do-sol. Aquela atriz. Aquela peça de teatro. Aquela carta. Aquele livro daquela escritora. Aquela cicatriz. Aquele sorriso. Aquele bar. Aquela galera. Aquele time. Aquele jogo de futebol. Aquela trilha daquele morro. Aquele carro. Aquele jogo. Aquela lua. Aquela praia. Aquele fim de tarde. Aquela experiência. Aqueles dois juntos. Aquela amizade. Aquele brinde. Aquele abraço.

Para o meu João Carlos, com atraso e com amor

sexta-feira, outubro 08, 2010

MEU FESTIVAL DO RIO 2010 EM IMAGENS



1.THE HOUSEMAID de Im Sang-Soo


2.LEBANON de Samuel Maoz


3.SOLITARY MAN de Brian Koppelman e David Levien


4.NOWHERE BOY de Sam Taylor-Wood


5.SUNSHINE CLEANING de Christine Jeffs


6.THE LAST STATION de Michael Hoffman


6.THE RUNAWAYS de Floria Sigismondi


7.BABIES de Thomas Balmès


8.THE KIDS ARE ALL RIGHT de Lisa Cholodenko


9.A SUPREMA FELICIDADE de Arnaldo Jabor


10.WE LIVE IN PUBLIC de Ondi Timoner


11.A WOMAN, A GUN AND A NOODLE SHOP de Zhang Yimou


12.NASCIDAS PARA SUFRIR de Miguel Albaladejo


13.HA' MESHOTET de Avishai Sivan


14.LA VIDA DE LOS PECES de Matías Bize


15.LES AMOURS IMAGINAIRES de Xavier Dolan


16.COMPLICI DEL SILENZIO de Stefano Incerti


17.THIS IS LOVE de Matthias Glasner


18.ESSENTIAL KILLING de Jerzy Skolimowski


19.KÓNGAVEGUR de Valdís Óskarsdóttir


20.LO QUE MÁS QUIERO de Delfina Castagnino


21.KABOOM de Gregg Araki


22.LIFE, ABOVE ALL de Oliver Schmitz


23.DES HOMMES ET DES DIEUX de Xavier Beauvois


24.A L'ORIGINE de Xavier Giannoli


25.CURLING de Denis Coté


26.LOS LABIOS de Iván Fund e Santiago Loza


27.BARTÔ de Onon Gunter Sarfert


28.MALU DE BICICLETA de Flávio Tambellini


29.R U THERE de David Verbeek


30.ROUTE IRISH de Ken Loach


31.WOMEN ARE HEROES de JR


32.MACHETE de Ethan Maniquis e Robert Rodriguez


33.AMÉRICA de João Nuno Pinto


34.O BOLO de Robert Guimarães


35.COMO ESQUECER de Malu Di Martino


36.UNCLE BOONMEE WHO CAN RECALL HIS PAST LIVES de Apichatpong Weerasethakul


37.MEMÓRIAS DE XANGAI de Jia Zhang-ke


38.O CIÚME MORA AO LADO de Mika Kaurismäki


39.BON APPÉTIT de David Pinillos


40.COPIE CONFORME de Abbas Kiarostami


41.VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS de Woody Allen



42.SOMEWHERE de Sofia Coppola


42.COPACABANA de Mark Fitoussi


42.CARANCHO de Pablo Trapero


43.TOURNÉE de Mathieu Amalric


44.LIFE DURING WARTIME de Todd Solondz


45.DOIS IRMÃOS de Daniel Burman


46.THE KILLER INSIDE ME de Michael Winterbottom


47.POESIA de Lee Changdong


48.VIÚVAS SEMPRE ÀS QUINTAS de Marcelo Piñeyro


49.PASSIONE de John Turturro


50.ONDINE de Neil Jordan