sexta-feira, novembro 12, 2010



CARTAS PARA JULIETA de Gary Winick


Milena, eu te escrevo porque você é a única amiga que viveu toda essa confusão ao meu lado. E quando escrevo ao meu lado, estou ciente da distância entre as nossas cidades, mas não houve um momento em que eu precisei te desabafar, que você não tenha se mostrado atenta, ainda que na correria incessável dos dias, entre aulas, contas e amores. Uma mensagem no celular, uma carta, um telefonema no meio do dia só para constatar o meu bem estar. Em alguns momentos, eu precisei tanto de você e das suas palavras e da suz voz segura me abraçando, encorajando impulso para atitudes futuras, que você me encontrou sem eu precisar te avisar.

Alex, nunca pensei que fosse conseguir administrar meu caos sem saber de você: das notícias, dos seus dias, dos menores aos maiores acontecimentos, da intimidade fragmentada que a gente sempre dividiu. E as nossas confidências sempre foram em tom de festa, porque ao saber do lixo e do luxo um do outro, a gente se descortinava mais um pouco. A gente legitimava os nossos segredos e ganhávamos ciência de que o outro não é tão diferente assim da gente. Sempre foi uma delícia todo segredo avulso que a gente tirou do armário. Cada historia confusa ou objetiva que sempre nos colocou lado a lado, dividindo os dias. Dividindo a vida. A companhia.
As horas.

Fer, eu não sou do tipo de pessoa que acredita em transmissão de pensamento, 'energia compatível' ou nesse destino que nos vendem de maneira panfletária. Mas acredito no amor - no tempo do amor - entre duas pessoas que se conheceram dentro de uma universidade confusa e descobriram que a vida acadêmica, na verdade, era coadjuvante. Que a juventude, sempre confusa, nos revelava cada vez mais situações e experiências, que de um jeito também juvenil, nos criou essa sensação de futuro, de longevidade, de querer que o outro permaneça o máximo de tempo. Que não acaba, a gente já teve muito mais que uma rodovia de distância e não vou fazer as contas - por receio de constatar mais cabelos brancos.

João, essa é só uma carta, quase um bilhete, para reclamar saudade. Eu recebi o e-mail do amigo-oculto e achei super generoso me colocarem na lista. E fiquei pensando que eu não deveria estar nela. Sem drama ou jogo de palavras ou realidade aumentada. Eu realmente não deveria estar nela. E ainda não encontrei uma forma educada de recusar o convite. Além de não ter intimidade com duas ou três pessoas, eu quase não conheço as demais. Ou quase não sei mais nada sobre. O que andam vendo, lendo, quem andam amando, enfim. Seria desconfortável demais. Reconheço que reclamo de uma saudade que eu cavei. E não tenho jogo-de-cintura (eu quase nunca tive) para retomar afeto, criar caminhos para que as pessoas tentem me compreender. Acho isso muito chato, as perguntas são as mesmas, as respostas também. Adoro todo mundo daquela lista. De coração. Com cada um (ou a maioria) tenho carinho, história e afeto de sobra porque foi uma época tão boa, tão urgente, tão incrível, que eu percebo que é dessa memória viva que vem o meu querer bem. Por cada um deles. E aqui me cai a ficha que por você também. Eu tenho carinho por sentimentos de outra época. Eu te adoro e te compreendo baseado em sensações antigas. Todo o resto é fragmento: de informações, de conversas com outros, de papos picotados no telefone, cartas rápidas, manchetes de jornal. A gente foi soltando os fios, sem dor, sem afobação. Acho que é assim mesmo. Algumas coisas a gente renova. Outras a gente ressente. Outras se alimentam do que passou, talvez porque não exista futuro para elas. Quero dizer que parece natural e não existem culpados, me entende?


Brenda, acredito em alguém cujas afinidades eram tão distantes das minhas, mas que ao se aproximar, soube enfrentar a aflição de respeitar a natureza da diferença. Desse respeito, nasceu minha admiração e dela, feito a cauda de um pavão aberto, possibilidades. Inúmeras. Então eu descobri o sabor da mostarda porque você me deu todas as dicas e me desafiou. E você me olhou nos olhos. E todas as noites de conversa em Ipanema. E todas as voltas de carro pela cidade, entrando em ruas sem saída, repetindo trajetos e quarteirões só para continuar o papo. O coração, toda boa banalidade, os desejos, os homens todos e cada um. Quanta fumaça não fizemos nos fundos da faculdade, matando ou atrasando uma aula ou outra? Nossa sagrada antipatia gratuita pela dona do restaurante.

Acredito em você, Mi. Que me ensinou a dançar bêbado com as sombras do apartamento cheio de gente. Que me ensinou a cantar aquela música do Queen, uma das nossas canções em comum. Tenho tanto carinho pela nossa história. De acordar atrasado para a primeira aula - sempre - e sair correndo de cueca, entre lençóis e latas, para te acordar. O banho de portas abertas enquanto se improvisava o café-da-manhã, a bagunça da nossa bagunça. As nossas manhãs. Você me ensinou que óculos-escuros salvam qualquer madrugada não dormida e são o melhor disfarce do universo.

Conseguir driblar o que um dia eu senti e julgava terminantemente insuperável, me acende muitas questões. Naturalmente, relacionadas a mim e minhas urgências. Não enlouqueci, não morri, não assaltei um banco. Fiquei atordoado, doente e peguei um empréstimo, além das inúmeras cartas e textos sem direção com direção. Eu me sinto desconectado. Fora do contexto. Forçando a barra em um cenário onde eu não me enquadro. Descompassado. Não se trata de amor. Ou de saber quem eu sou, no real. E de quem você é. Não é isso. Também não é negar o que existiu, o que acendeu, o que pegou fogo, o que virou fumaça, toda boa porrada - e não foram poucas - e toda adoração e compreensão e cada 'que incrível, amigo'.

Outro dia li uma escritora muito talentosa, Fabi Mariano, não lembro se no blog dela ou no twitter e ela lançou uma frase que me deu motivos para ir e voltar na história de nós dois, na história de tantos ao redor: " Eu te amo, mas vivo sem você. Sorry, não é amor". Me tomou horas de sono, me assaltou algumas convicções, mas no fim ou no meio do caminho, eu ouso não concordar com ela. Porque amar e vou tentar deixar tudo o mais claro possível, continuar te amando, só foi possível porque eu descobri uma maneira de viver sem você. Administrei um vulcão, não sei uma boa metáfora para essa sensação. Permanecemos porque separamos os dias, as horas, as madrugadas. E nos mantivemos por alguns fios atados ao passado e alguns minutos, horas de convivência.

Eu sinto saudade. Muito mais de nós dois. E do silêncio confortável. E da independência dependente. De Copacabana ao teu lado. Mas aprendi um monte de coisas novas, sem divã, que volta e meia, ainda me sugam as palavras, como alguém que torce um pano molhado e percebe que saiu pouco, muito pouco do todo.

Fique bem.

Te amo sempre, mesmo você dormindo de olhos abertos.

Com o carinho mutante e incansável,