sábado, março 10, 2012



SHAME de Steve McQueen

Sabe esse fenômeno do tempo que passa e o amigo querido e tão festejado de muitos anos atrás, entre duas ou três viagens, três ou quatro casamentos, uma ou meia mudança de apartamento faz com que você fique oito ou nove anos sem encontrá-lo ao vivo, olhos nos olhos, abraço quente e garrafas de cerveja pelo chão? Então uma ligação aciona qualquer noção de que essa vida de recado em redes sociais não sacia o calor da companhia e a sensação de conforto em ter alguém que te ama ao alcance de um abraço desejado. E você rompe com o tempo, como se fosse ontem que ele te ajudou naquele porre ou te flechou naquele romance ou tocou uma canção no violão para você cantarolar e te roubou um sorriso. Dois sorrisos.

São poucas as pessoas que a gente pode passar muito tempo sem encontrar e parece que foi ainda agora, que nada mudou. Mentira. Que tudo mudou ao redor e o mundo e as pessoas, mas a gente, sabe? A gente sabe que não há porque desperdiçar a noite cobrando o tempo que passou, exigindo explicações, tecendo justificativas mirabolantes. Há esse acúmulo de histórias, há tanto que ouvimos, vimos, presenciamos e legitimamos um ao outro que não importa, meu amigo. Há essa rara sensação de que parece que foi ontem e o sentimento de amizade, resistiu. Um sorriso.

- Namorando?

- Não.

- Apaixonado.

- Não.

- Sério?

- Ando exausto. Pintou um vizinho novo, dois meses inteiros de conversas e descobertas incríveis e muita coisa em comum. Aí eu me dei conta de que isso sempre se repete até que a gente começa a se cansar e inventar desculpas para não aparecer mais. Depois a gente se odeia, se esquece, se apaga até que pinte outro bonitinho e lá vou eu. Faz muito tempo que eu ando sozi... solteiro. Eu nunca tive essa vocação para casamento. Eu sempre tive, tenho, muita dificuldade de me mostrar, de compartilhar intimidade, de me entregar a uma relação. Quando começa a ficar muito sério, eu deserto, eu pulo fora.

- Menos com o Fabio.

- A exceção que provavelmente me traumatizou. Eu me sinto confortável em não estabelecer laços mais íntimos.

- Mas você não sente falta?

- Muitas vezes. Mas acho, aliás tenho a certeza de que o problema é meu. Eu não sou para casar. Eu não sei ser esse cara que você sempre foi.

- Que cara é esse?

- Quando você se compromete, você larga tudo, você vai embora com o circo, você vai morar junto, você começa uma vida nova. Acho tão bonito. Acreditar que vai dar certo, que é para sempre, que esse amor vai te acompanhar pelo resto da vida. Eu... Eu sou o que observa os outros casando, montando suas casas, tendo seus filhos, mudando os planos, se adaptando ao outro por amor, por qualquer coisa parecida. Antes eu me sentia empacado, incapaz de provocar qualquer reação, qualquer ação que fosse me tirar dessa zona de conforto, cada vez mais intransigente, menos paciente. Depois eu percebi que eu não tinha esse desejo de ir junto e dividir. Eu tinha a ilusão dos filmes, dos amores expressos, das cenas de cinema, mas a vida real, um dia após o outro e mais outro, as novas manias, as novas histórias do outro, transbordando, te solicitando a atenção, o carinho todas as noites, esse convívio todo... Eu não sei. Talvez eu seja egoísta demais. Talvez eu tenha me transformado em alguém realmente antissocial.

- Você já tem o diagnóstico, isso é ótimo!

- Não é?

- Eu acho que ainda vai pintar alguém que vai demolir essa sua crença.

- Não vai. Não há príncipes ou cavalheiros numa noite dessas na festa de um amigo que vai bater os olhos nos meus e arrepio, apartamento, filhos. No máximo um olhar desses me levaria a sexo no banheiro sem trocar nome ou telefone. Isso é ilusão. Virou uma espécie de cena de novela mesmo. Não há príncipes no Rio de Janeiro porque tudo aqui já é tão bonito e perigoso, que eles não se encaixam mais no cenário. E a Ana?

- Nunca mais.

- Jura?

- Outro dia eu entrei no metrô cheio. Eu tava ouvindo música, distraído, no automático. Aqueles rostos que não se olham. Até que eu vi uma mulher. Era a Ana. Mas a porta abriu, mais gente entrou, todo mundo se misturou. Era ela. Eu a reconheceria em qualquer lugar. A gente se perdeu. A gente foi se perdendo dentro daquela casa enorme. Dois estranhos, no final de tudo. Foi bem feia a nossa separação. Feia porque não houve uma conversa, a gente precisa das palavras quando alguma coisa termina, quando um amor termina. As palavras, nem que seja para agredir, reivindicar, apontar o dedo. Dar nome para as coisas, sabe? Mas com a Ana, a mulher da minha vida, que tanto, tanto me ensinou, que foi tão amada, que me amava tanto... Aí começou o silêncio que incomodava. Uns pequenos ódios que se transformaram numa coisa monstruosa, num bicho medonho. O silêncio da percepção. O clique. Esse silêncio acabou comigo. Eu queria que ela me pegasse com outra, que ela me contasse que tinha dois amantes, que queria viver outra história com outra pessoa, que eu era um merda, eu queria as palavras. O dicionário. O significado. A explicação. Mas ela fez tudo em silêncio, ela me deixou em silêncio. A mala feita, os armários vazios, umas contas pagas. Sem som. Ela me olhava nos olhos, os olhos dela brilhavam, ela fazia aquela coisa de esfregar os dedos quando ficava nervosa, mas não dizia, não saía som.

- E depois da dor?

- Depois veio a Sofia. Mas foi um puta trabalho porque ela não queria morar naquela casa. Tinha uma neura com ciúmes que eu encarei como fofura, eu precisava daquilo, de me sentir importante, amado. Aí mudamos para um apartamento na Lapa. Durou três meses. Nenhuma relação dura se você morar na Lapa. É mulher demais, é cerveja demais, é violão demais, é muita vida te chamando.

- Eu imagino.

- Depois teve o Fabinho.

- Fabinho?

- Eu nunca falei sobre isso com ninguém.

Os olhos brilhando.

- Eu não sei se eu quero ouvir.

- Eu não contaria pra nenhuma outra pessoa. Eu nunca imaginei, você sabe, eu sempre te respeitei tanto e quando você se apaixonou por mim...

- Você foi gentil e recusou. Porque você gostava de mulheres. E você me disse que nunca sentiu curiosidade e que se eu quisesse ser o seu amigo, o seu melhor amigo, haveria espaço para isso.

- Não entra nessa onda. O Fabinho foi inexplicável, foi mais forte que qualquer rótulo, que qualquer olhar torto. Eu não queria saber de nada.

- Sabe que na época da faculdade, havia um grupo que apostava que você era gay? Eles te monitoravam nas festas, nos bares, nas reuniões. Doidos para pegar uma cena, para registrarem um momento em que você ia se trair e beijar algum cara. Você ia ao banheiro, eles iam atrás. Uns urubus. Por que é que as pessoas têm tanto interesse na vida sexual das outras?

- E você?

- Eu sempre acreditei em você. Você tinha esse ímã, as mulheres caíam em cima, você estava sempre namorando, sempre apaixonado. Eu acreditei e isso não se transformou numa questão, eu não pensava nisso, o problema era seu. E você sempre foi tão carinhoso. Eu nunca confundi o teu carinho, a tua alegria com nenhuma suposição estúpida que ia alimentar a minha fantasia tola de ‘será que ele é’.

- Alguns meninos insistiram. Mas eu nunca tive vontade. Ou curiosidade. Naquela noite que você me pediu um beijo, lembra? Essa foi a única vez, a primeira vez que eu cheguei a considerar. Atender o teu pedido para que você não se sentisse tão mal. E corresponder pelo menos naquele momento, o teu carinho.

- Fico feliz que você tenha recusado. Eu aproveitaria o beijo, certamente, mas seria pior descobrir depois que teria sido por pena e não por vontade.

- O Fabinho apareceu quando o grupo estava na Alemanha. Nós fizemos uma temporada de 3 meses ou quase isso e todos os grupos estavam no mesmo hotel.

- Brasileiro?

- Brasília. Eu tive um problema com o braço e ele também fazia sessões com a fisioterapeuta. Foi tudo muito rápido e quando aconteceu pela primeira vez foi tão assustador.

- Por que?

- Eu sabia como me comportar. Eu sabia instintivamente o que fazer, foi natural o meu comportamento. Não havia receio no toque, eu não tive dúvidas sobre o que fazer ou como fazer. A gente se encaixou e isso me assustou o tempo todo. Como é que eu posso saber como agir se eu nunca passei por isso antes?

- Instinto.

- Foi um caso, como ele insistia em dizer. Durou aquela temporada, depois ele foi embora com o grupo dele, eu com o meu. Às vezes ele me manda alguma foto. Sem rodapé, sem especificar o lugar, sem qualquer explicação. Uma foto e pronto, eu sei que ele está por aí e é isso.

- Depois dele, você...

- Não. Eu não tive vontade. Pau, bunda, barba, eu não tive vontade. Pode ser que um dia desses eu acorde e parta para um bar desses que eu costumava ir te pegar no fim da noite e quem sabe?

- Você não combina com esse cenário. A pegação. Glory holes. Corredores escuros. Sexy shops. Banheiros públicos. Cinemas pornôs. Dark room. Boates.

- A gente muda.

- O tempo todo. Mas você é o cara da delicadeza, da gentileza, todos os ‘ezas’ que eu conheço. Você encontra um amor caminhando no calçadão. Você nunca vai achar nada parecido em nenhum buraco desses. Ali é fast food, meu amigo. Você não sabe nem o nome das pessoas, muitas vezes o que se ouve são só os gemidos. Nem o tom de voz você consegue. Quando muito, um convite para um trio, uma orgia.

- Mas você não sai de lá.

- Porque é mais fácil. Porque eu escolhi. Porque eu não sei me relacionar feito um adulto e tentar ter a vida que você sempre teve. Eu não sei me comprometer, eu não sei. Todas as minhas tentativas fracassaram em pessoas que nunca mais vão querer me ver na vida. Todo o meu esforço em tentar manter uma relação só me violentou e me afastou do que para você sempre foi a melhor parte: se revelar, descobrir o outro. Me interessar platonicamente por alguém impossível, ser rejeitado, escrever mil textos e depois sair para trepar com um estranho. Esse sou eu. Você trouxe o violão?

- Claro! Você não estava dividindo o apartamento com a tua prima? Cadê ela?

- Fugiu com o circo.

- Eu acabei de me separar.

- Para variar.

- Posso? – sabe a cara do Gato de Botas?

- Você e eu morando juntos? Nem pensar.

- Não vou perguntar de novo.

- A gente vai se odiar. Você é dos meus amigos mais antigos. A gente vai se odiar.

- Não estou te pedindo em casamento, estou querendo dividir o apartamento.

- Não, isso aqui vai virar um inferno. Um bando de mulher atrás de você. Vou acabar virando teu cúmplice e mentindo para elas. Menor possibilidade. E vai que você resolve passar uma temporada soltinho, isso aqui vai virar um parque dos horrores com homens e mulheres atrás de você.

- Minta.

- Como?

- Diga: ele é meu. E não está disponível.

- Besteira.

- Você sabe, não sabe? Agora eu também tenho um Fabio que fudeu com tudo.

O brinde aos desencontros e também aos encontros que nos tiram do eixo. Mas qual seria o eixo? E aos amigos que se perdem e se encontram e percebem que embora tudo mude o tempo todo, não muda tanto assim o afeto de lugar. Ao sorriso, ao abraço, ao silêncio confortável que a Mia Wallace fala em Pulp Fiction, pouco antes da overdose. Aos amores, aos amantes, aos sinais abertos, aos amigos que morreram, aos parceiros que nos deixaram, a tudo o que pode ser bonito para quem vê. A quem tem alguém para falar sobre qualquer assunto, sem medo, sem rede, sem hora para acabar, sem vergonha onde não deve haver, um brinde.