AZUL É A COR MAIS QUENTE de Abdellatif Kechiche
“A história está completa: wide sargasso sea, azul
azul que não me espanta, e canta como uma sereia
de papel”.
(Ana Cristina Cesar / A
teus pés)
- Eu quero uma soda com vodka –
decidida e um pouco impaciente. Ainda o calor forte, esse trânsito, as ruas
barulhentas, uma correria. As unhas pintadas roçando a toalha da mesa do bar e
restaurante Scorpio, assim como quem tateia sem aguardar o próximo movimento. Mas
não há movimento. Eu posso fumar, querido?
- Não.
- Mas eu te chamei de querido. Nem
assim?
- Não.
Sacou o maço de cigarros e deixou
sobre a mesa. O querido observando. Isso não é uma ameaça, ela pensou ajeitando
os cabelos pretos. Se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber eu bebo.
Olhou as horas. Depois ela tirou o relógio e ajeitou algumas pulseiras
coloridas para que elas ocupassem o vazio e a marca que ele havia deixado.
Respirou fundo. Os lábios secos. Ao pegar o celular, percebeu que não havia
bateria. Constatou uma serie de mínimos detalhes. O dia, esse dia. Veio o
querido.
- Sua bebida.
- Uma garrafa de água, você pode
trazer, querido? Escuta, se você perceber que a pessoa que eu estou esperando
chegar, se ela chegar, uma mulher alta, mais alta que você, os cabelos pretos,
bem branca, muito branca, aí você volta com a água. Se. Vai bem rapidinho. Uma
sede, eu estou com uma sede. Existe algum lugar aqui onde eu possa recarregar o
meu celular?
- Não.
Depois ele voltou com a garrafa.
Ela bebeu com alguma afobação. Ele limpou a mesa e teve a gentileza de trocar
sua bebida por outra, com um pouco mais de gelo. Ela agradeceu, já não usou
mais nenhum adjetivo. Logo depois, Ana
chegou. Não se tocaram. ‘Olá, como vai, eu vou indo e você’ bem cordial, uma
quebrada de pescoço muito sutil, um quase sorriso. Ela se desculpou pela
demora, o calor, o trânsito, as obras, essa cidade. Tudo bem, tudo certo.
- Eu pedi para você me encontrar
aqui porque eles nos conhecem e se você fizer alguma cena ou se eu fizer alguma
cena, nós vamos ser colocadas para fora. Acho que não queremos isso, não mais.
Não agora. Da última vez que nos vimos foi tão...
- Eu me lembro, eu estava lá.
Fique tranquila. Eu não vou repetir aquele episódio.
Sorriram.
- Eu li que você vai lançar teu
livro.
- Vou.
- E aí, tá feliz, tá ansiosa, como
foi, quando vai ser? Conta.
- Tem essa parte de ter que
promover. E assinar papéis. E evitar repetir as mesmas respostas nas
entrevistas, nas poucas entrevistas, não foram muitas. Na verdade, o livro
parece tão distante nesse processo. Eu já escrevi, eu passei pela feitura dele
faz tanto tempo. E só agora, depois de sei lá quantos meses, quando eu começo a
me desligar, quando ele começa a me deixar, ele retorna. Mas não é mais ele. É
o produto. O objeto. É muito louco. Não sei se você entende.
- Um pouco. Deve ser o mesmo
processo de quem faz um filme. O ator se envolve naqueles dois, três meses e
depois de um ano, os caras lançam e começa a divulgação, as entrevistas, o ator
provavelmente já fez outro filme e você tem que manter o frescor.
- Quase isso. Você sabe que eu
dedico o livro...
- Eu sei. Eu sei. Aqui ainda pode
fumar?
- Não. Se eu não te dedicasse o
livro, não teria sentido. Seria mentiroso.
- Eu gosto. Eu fico feliz. Não é
um problema.
- Eu sinto tanto a sua falta.
- Clara – muito doce, mas ao
mesmo tempo repreendendo.
- Ana, vamos sair daqui? Vamos
para casa. Eu cozinho. A gente abre um vinho. Ouve música, fala sobre a vida.
Vamos?
- Não. Não dá. Não. Me perdoe. Eu
não quero. Nós duas juntas, sozinhas. Eu conheço essa cena. Eu sei exatamente o
que pode acontecer quando nós. Sozinhas. Preciso dizer não. Te dizer não.
- Você se apaixonou?
- Por que falar disso agora?
- Só estou investigando a sua
recusa.
- Eu quis te ver. Eu queria te
dizer como eu fiquei feliz pelo teu livro. Eu queria deixar o caminho livre
para que a gente se queira bem. Foi tão boni... Foi tão especial. A nossa
história foi tão...
- Até que você me deixou.
Ana pediu uma bebida. O mesmo que
o dela. Menos gelo. Usou o querido.
- Esse rapaz nunca foi muito com
a minha cara. E eu não te deixei. Não é um capítulo de um livro, ela me deixou
numa tarde fria de setembro e eu nunca mais soube como me virar sem ela.
- Mas eu nunca mais. Nunca mais
soube. Eu. Depois que você foi embora, eu continuei a fazer as mesmas coisas de
sempre. Trabalho, compras, tarefas, contas, obrigações, reuniões. Eu me
obriguei a não parar, embora parar fosse o que eu mais queria. Eu queria parar
a cidade e gritar.
- Você tem essa vocação, linda,
linda vocação de transformar a gente em palavras. Você lê a nossa história de
uma forma que parece outra história. Que é um filme na televisão, a gente se
envolve, mas de maneira distanciada.
- Como quando a gente perde
alguém. A morte, sabe? Você questiona tudo ao redor. Por que me vestir? Por que
ir ao trabalho? Por que pagar a conta? Por que continuar se tudo morre, se tudo
termina, se tudo se vai, em algum momento, tudo se vai?
- Clara, eu estou aqui. Viva. Na
sua frente. E você está me assustando com esse papo fúnebre.
No início, ficou muito claro que
o encontro, a colisão, como gostavam de chamar, era daquelas que com o impacto
desarrumam as coisas do lugar e nessa desordem, as partes, muitas delas,
encontram a sua nova forma no espaço do outro. E vice-versa. Era como se ao
estilhaçar de um espelho, pudessem brindar o acidente porque nessa quebra
podiam se enxergar melhor. Podiam, nos cacos, observar o reflexo. Isso sou eu
aqui. Isso é você aí. Isso somos nós duas juntas, eu brilho e você brilha e a
gente se vê. De frente uma para a outra. Como se não houvesse a cidade. Como se
não houvesse o tempo. Como se não houvesse as estrelas, o universo, os
planetas. Uma epifania enorme. A percepção do encontro que move histórias. Cria
vida dentro da vida. Revela e repensa conceitos. A gente aprende a ceder. A
gente aprende o outro. Apreende o outro.
No meio, ficou muito nítida a
certeza de que uma e outra aproveitaram-se ao máximo. Elas concordaram em não
questionar. Já compreendiam mais a intensidade uma da outra. Já era possível
socializar. Trazer alguns amigos para perto. Observavam-se de longe, sem
ciúmes, nas suas relações com as demais pessoas. Porque o encontro também
promove outros encontros. Os mais íntimos de Ana, aqueles que realmente
importam. Os mais íntimos de Clara, aqueles. No mesmo ambiente, se conhecendo.
Os mais íntimos são pessoas de extrema importância e geralmente são muito
críticos e duros. Costumam ser pessoas com muita intimidade, cheio de
brincadeiras particulares, recheados de histórias antigas, as melhores, as
maiores. Os mais íntimos conhecem a pessoa em questão muito melhor do que a
nova namorada. Por isso algum ar bobo de superioridade, como se dissessem: ‘você
é bonitinha, podem ser muito apaixonadas, mas eu sei muito mais sobre ela’. A
disputa inerente a quem tem e a quem não tem maturidade.
No final, Ana perdeu o chão, ela
que sempre teve por maior característica, os pés na terra. Mais tarde,
conversando com um dos mais íntimos, ela disse que se perdeu dentro dela, que
não se reconhecia mais ao lado de Clara, que agia como se fosse outra pessoa.
Que havia amor e muito carinho, mas que havia essa percepção forte de que
quando estavam juntas, ela era outra pessoa. Como se estivesse sequestrada a
maior parte do tempo. E eu quero voltar. Eu quero voltar ao que eu era, dizia lágrimas
borrando o lápis de olho, vodka nas mãos, o clichê do bêbado chorão que ela
sempre abominou. Que não era possível que o amor fosse tão desordenado e tão
bom.
Depois houve uma briga feia. De
objetos quebrando pelo apartamento e o vizinho chamando a polícia. Depois houve
um tempo de anestesia. Como se conseguissem dominar suas fúrias, seus demos
vermelhos em água morna. Depois crises bobas de ciúme. E mais brigas e não quero
que essa vaca te ligue nunca mais. Depois Ana: não é mais amor. Virou outra
coisa que não é amor. Não me faz mais sorrir. Não me dá mais prazer. Não me
sinto mais segura nos seus braços. Não quero mais saber do teu livro, dos teus
dias, da tua vida. Não quero mais voltar para casa e te encontrar assim.
Olhos nos olhos. Intimidade te
faz perceber claramente quando alguém diz algo e é para valer. E dói o peito e
racha a pele e você sente o frio percorrer a espinha, o suor na testa quando se
percebe diante do abismo do: eu não te quero mais.
Depois, muito tempo depois, Ana ligou. E marcaram um
encontro no bar e restaurante Scorpio.
- Clara, eu te liguei porque eu estou
me mudando. Eu vou para Recife. E antes de ir, eu queria te ver e te dizer que
eu te amo. E que foi o maior, o melhor, o mais apaixonante beijo da minha vida.
Tudo foi maior, melhor, tudo.
Olhos nos olhos. Para valer.
Clara sorriu. Os olhos cheio de água.
- Eu vou para Recife. Eu vou
atrás do sol. Vou atrás do céu azul. Vou atrás da Casa Amarela.
As duas mãos estendidas sobre a
mesa. Um carinho. Lágrimas escorrendo no meio do sorriso e do batom vermelho.
- Um lenço, senhoras.
- Obrigada, querido.
No meio do silêncio, ficaram ali
um tempo, acariciando as mãos, sem pressa, sem agendas. Sem palavra quase
nenhuma. Percebendo delicadezas, mínimos óbvios apenas para as duas, um
infinito particular que nem os mais íntimos vão saber. Ou compreender.
”Voei pra cima : é agora, coração, no carro em fogo
pelos ares, sem uma graça atravessando o estado de São
Paulo, de madrugada, por você e
furiosa : é agora, nesta
contramão”.
(Ana Cristina Cesar / A
teus pés)