domingo, abril 29, 2007

NINE LIVES * de Rodrigo Garcia

Não há noite mais longa que essa. Chove desgovernado e também a cidade perde um pouco do controle. Falta luz. E falta também você: a única pessoa com a qual eu quero falar. A única que eu não consigo.

- Posso falar com o Beto?
- Não, você ligou errado. Aqui não tem nenhum Beto.
- Quem está falando?
- Alguém que não é o Beto.
- Fala mais um pouco.
- Como?
- Mais um pouco para eu saber que não é o Beto.
- A representação de objetos complexos no cérebro – não apenas faces – pode empregar códigos ditos esparsos , quando todo o objeto é codificado por poucos neurônios (um só, no limite); ou códigos populacionais , quando um grande número de neurônios contribui para o reconhecimento do objeto.
- Lendo jornal?
- Tentando. A luz acabou. A vela está quase no final. Então, eu sou o Beto?
- Não.
- Como eu imaginava.
- Mas eu sou o Jorge.
- Muito prazer, Jorge. Se um dia eu conhecer algum Beto, eu dou o recado a ele.
- Ele não atende o celular.
- A tempestade bagunçou a cidade. Certamente os celulares devem ter sido afetados.
- Então eu liguei. Nunca tinha ligado para a casa dele antes. Eu devo ter anotado errado.
- Ou discado.
- Ou então ele me deu o número errado.
- Depende. Qual o tipo de relação de vocês?
- Amigos. Quer dizer, nós estamos nos conhecendo.
- Eu marcaria um xis em todas as alternativas.
- Verdade. Não vou mais ligar.
- Se você não telefonar, como é que vai saber?
- Intuição forte. Melhor não valorizar. Deixar o barco seguir.
- Boa metáfora.
- Sou bom com as imagens.
- E uma merda com as pessoas?
- Exato.
- Bem vindo ao meu universo.
- Bem vindo ao meu. E você?
- Eu?
- Você não tem um Beto? Ou uma Maria?
- Não. Eu tinha um Juca, mas morreu depois que foi castrado.
- Sente a falta dele?
- Muita falta.
- Bicho não fala. Tão melhor sem as palavras. Você não cria expectativas. Você não gera significados inexistentes. Você dá carinho e recebe de volta. Agrada e ganha a confiança enquanto ele durar. Deita aos teus pés, dorme ao pé da cama, faz charme para ganhar uma cócega na barriga. E soma.
- Você foi certeiro: tão melhor sem palavras. Apesar da sedução, do impacto e do universo fantástico que muitas vezes se constrói, eu ainda prefiro o silêncio.
- Não tem luz aí?
- Não, eu cheguei do trabalho e o bairro já estava no escuro. Tão diferente você caminhar pelas ruas se guiando pela luz dos automóveis e pela tua sensibilidade. Sabe quando você se pergunta por um segundo, isso é real? Ou é sonho?
- Situações pouco comuns geram esse tipo de dúvida.
- Eu tenho me perguntado freqüentemente se é real ou sonho.
- E a resposta?
- Quase sempre real.
- Então a vida está agitada. É bom movimentar.
- Mas eu sinto que ainda falta, que eu não estou cem por cento. Eu sinto como se eu não estivesse aproveitando devidamente.
- Talvez falte o teu Beto.
- Não sei.
- Ou um novo Juca.
- Um novo Juca eu sou mais favorável.
- Onde você está?
- No meu quarto. Porta fechada. Um toco de vela. Deitado no colchão. Umas folhas em branco ao redor. Um copo vazio. Janela aberta. Vento gelado. Calça de pijama. Pau meio duro.
- Então eu interrompi o teu prazer?
- De forma alguma. É que a calça é larga e a sensibilidade é grande. E faz tempo que eu... escuta, como foi que nós viemos parar nesse assunto?
- Quem começou foi você.
- Bacana o som do seu sorriso.
- Você também tem uma sonoridade agradável.
- E você, onde está?
- Deitado numa rede.
- Mais detalhes, vamos lá.
- Deitado na rede. Uma garrafa de vinho pela metade. A luz bem fraca, quase nada.
- Luz...
- Eu ouvia música, mas o aparelho parou e eu não vou insistir. O sem fio na mão. Cabelo bagunçado. Camiseta branca e moletom que o tempo virou. Nenhuma manifestação sexual, apesar da sua voz. A janela quase fechada.
- Me responde de verdade?
- Sim.
- Não existe nenhum Beto, existe?
- Existe e não existe.
- Eu imaginei. Sua voz é familiar. Não sei de onde.
- É provável que você não lembre.
- Se você me der algumas dicas, eu sou bom fisionomista.
- Uma madrugada em Botafogo. Você saiu chorando da boate e eu te ajudei a pegar...
- O táxi. Você me ajudou a pegar o táxi e me deu um abraço.
- Eu te disse um verso.
- Eu quase te falei um palavrão. Eu chorando, tinha acabado de ver um beijo que eu não deveria ter visto, saio correndo, esbarro em você, que me ajuda e foi importante porque me colocou no táxi e deu rumo ao final daquela noite. E de repente você me diz um verso. E sorri. Eu lembro do teu sorriso. Eu lembro, que loucura. A tua barba fina, os fios claros. Que loucura é a memória.
- Confesso que eu estou surpreso.
- Aquela madrugada, eu me lembro dela com exatidão. Eu me lembro do cheiro de cigarro na camisa. Do gosto da bebida. Eu lembro da temperatura do teu abraço, você não usava perfume.
- Eu não uso perfume. Única bebida é o vinho. Drogas eu já passei do momento e te confesso que eu não gostei dos efeitos colaterais. Moro sozinho, sou engenheiro e trabalho mais do que deveria e nem sempre sou bem remunerado. Não sei cuidar de plantas. Todas as que eu tive, morreram. Minha irmã diz que eu também não sei cuidar de pessoas. Eu discordo.
- E procura pelo Beto.
- Desesperadamente.
- Procura-se Beto desesperadamente. Não tem o filme da Madonna?
- Susan.
- Isso.
- Uma metáfora para o Beto, me ajuda? Procurar o Beto...
- Difícil sem ficar brega. Amor, paixão, felicidade.
- Conceitos tortos, de revista para adolescente.
- Entraríamos numa conversa sem fim.
- E eu não quero te atrapalhar mais.
- A luz. Você trouxe a luz.
- Tem papel e caneta?
- Tenho, mas não preciso te anotar.
- Não?
- Não, você já tem o meu telefone.
- Verdade.

Ou então:

- Posso falar com o Beto?
- Não, você ligou errado. Aqui não tem nenhum Beto.
- Quem está falando?
- Alguém que não é o Beto.
- Obrigado.

Ou:

- Posso falar com o Beto?
- É ele, quem fala?

A linha cruzada e eu já não sei mais se eu te vejo como um amigo, se eu posso ser solteiro e de repente deitar no teu colo esperando um carinho de homem que busca delicadezas. Eu gosto desse carinho que não precisa culminar em saliva e lençóis, mas que é íntimo. O carinho que não anuncia a chegada de uma nova estação, o carinho que não denuncia nada além do querer bem. O jeito cuidadoso de tocar o outro como quem descobre o que vai adiante. As mãos que buscam desvendar os fios de cabelo. O cheiro do outro que muda ao toque mínimo que altera a respiração, os batimentos, a temperatura. Quando o quase é fato. Eu gosto desse quase, que é onde avançamos juntos o bom senso da convivência social, seus signos e obrigações e esbarramos no limite do que seria uma intimidade maior, um comprometimento de intenções, uma noção real de que rompemos o véu, mas não extrapolamos. A linha (não) cruza porque a cidade é grande e também as intenções. A velocidade dos dias ou a pressa urgente intensa de quem esbarra e não pede perdão, de quem não tem tempo para olhar nos teus olhos. Tudo isso me confunde e me ameaça. Deixar de valorizar o outro me faria ser outra pessoa. Eu coleciono detalhes. Sou fã do que pode existir entre duas histórias. Do efêmero. Tudo é frágil, meu amigo. Se eu resolver ser frágil, tudo perde a consistência e a massa desanda. As cores perdem qualidade, a luta afrouxa os fios, a música muda a rotação. Então de pé! Adiante! Luta diária, de igual para igual! Deixe os dramas para as grandes atrizes, a violência estilizada para o Tarantino e me roube um beijo que desse assunto eu entendo.

* Título nacional de ‘Questão de Vida’. Nas locadoras em dvd e na HBO, segundo ele.


quarta-feira, abril 25, 2007

MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO de Marc Foster


A cidade de possibilidades e justamente na esquina menos provável, salve a ironia, a percepção leve de um perfume conhecido. Mais que conhecido, íntimo. E a surpresa imediata de ambos os olhos, ao se cruzarem em brilho e exatidão. Como um filme, o cenário ganha contornos mais fortes, as outras pessoas ao redor não fazem a menor diferença e estáticos em algum lugar entre a surpresa e o não saber o que fazer. Sozinho, eu segui adiante. Como se a imagem forte do rosto dele não exercesse qualquer efeito em mim. Como se apenas o encontro, apenas a imagem parada, imóvel, não fosse alterar, pequeno desastre, o resto do meu dia. Ou da semana. Da vida, enfim. Segui adiante, como é necessário e fundamental em boa parte dos casos. Fingi no meio do tremor, que terremoto não havia. Eu deixei de sentir. Deixei? Porém o impulso, única justificativa razoável para qualquer atitude que nos traia o pensamento, o coração e por fim a razão, o impulso sem consultar, em posição de ataque. E ousaria, de guerra:

- Inacreditável. Você por aqui num dia como esses? Veio até a sauna? Não, não pode ser. Você sempre condenou a sauna. Você sempre foi o Hitler das saunas.
- Eu vou bem também. Muito obrigado.
- Corta essa. Corta. Não combina com você. Esse teatro besta, essa tentativa de manter qualquer aparência, por favor, não se esforce.
- E a loja? Como é que vai a loja?
- Muito bem.
- E teu sobrinho?
- Um moleque.
- Tua mãe?
- Lutando contra o cigarro.
- O apartamento, você se incomoda que eu pergunte sobre o apartamento?
- Me incomodo, naturalmente.
- Curiosidade. Eu sempre penso no apartamento.
- Faz o seguinte: pega o teu carro, dirija até lá. Se o porteiro te proibir de entrar, eu ainda moro lá. Se ele permitir, suba, bata na porta e pergunte quem são as pessoas que vivem lá.
- De onde vem essa raiva?
- De você.
- Eu perguntei pelo apartamento por...
- Mentira. Você perguntou para saber se eu o mantive. Se eu ainda moro lá. Se alguém mora comigo.
- Te peguei num dia difícil.
- Me pegou num dia ótimo. Eu estou ótimo. Eu só não imaginei, nem na pior das hipóteses, que eu te encontraria. Que essa cidade ainda me daria mais uma rasteira.
- Você, certamente, está indo para a sauna.
- Eu não te devo satisfação.
- Não precisa realmente. Feriado, tarde livre. Sauna na certa.
- Eu não vou te responder. Eu poderia. Mas não vou.
- Eu vim pegar o Augusto.
- Seu novo cachorro de estimação?
- Meu noivo.
- Noivo? Aliança e tudo?
- Noivo.
- Então ele certamente deve ter te ensinado algumas lições sobre como se comprometer com alguém.
- Se eu me lembro bem, comprometimento nunca foi o seu forte.
- Depende do ponto-de-vista. Você está falando em amor ou em sexo?
- Eu não consigo compreender como é que você consegue desmembrar um do outro e viver sem culpas.
- Entre por aquela porta ali, depois que seu namorado estiver três meses viajando com o primo que acabou de descobrir que é gay. Entre por aquela porta e atravesse o corredor. Abra uma porta, qualquer uma delas e tire a sua toalha. Aí então você vai compreender que sexo e amor são distintos. Podem até ser complementares. Não no meu caso.
- Eu tinha a ilusão de te encontrar um dia qualquer e sentir carinho por você. Por nós dois. Três anos, cara. E a gente só se agride.
- O dia qualquer é hoje. Quanto ao carinho, provavelmente está enterrado em algum lugar que eu não sei. Eu não sei.
- Você foi a pessoa mais carinhosa que eu já conheci.
- Essa pessoa não existe. Eu não sou nada para você. Eu não quero ser nada para você. Eu vim até aqui porque tenho um amigo que mora no prédio ao lado da sauna e precisa de ajuda. Ele adoeceu e não tem família por aqui. Um grupo de amigos se reveza para fazer valer o tratamento dele. Hoje é o meu dia. Ele está bem perto da fase terminal, mas se recusa a ficar no hospital. Ele se recusa. Quer morrer no apartamento. E a gente aceita. A gente se reveza e se despede dele todos os dias porque a gente nunca sabe, a gente nunca sabe...
- Não chora, vai. Me desculpe a grosseria. Eu não poderia imaginar.
- Tudo bem, eu não estou chorando por você. Ou por mim. Nem por ele. Eu só estou chorando porque é foda. É foda você levantar um muro e observar ele se desfazer na tua frente porque você dobrou uma esquina.
- Não chora.
- Não existe muro. Nunca existiu, eu não me lembro de pedras ou cimento. Essas metáforas baratas que a gente acredita como num livro de auto-ajuda. E eu choro sim. Choro porque eu ainda te amo. Ouve bem: eu ainda te amo. O apartamento ainda tem o teu cheiro. Vez ou outra, eu escuto você cantar, olha como eu sou ridículo. Acordei outra manhã sem memória. Eu te ouvi e fui ao banheiro para te fazer companhia no banho. Mas ele estava vazio. Eu abri a porta e você não estava. Aí eu me dei conta do patético absoluto. Eu fiquei sentado no tapete, redescobrindo a memória. Voltando ao plano real, onde o nosso apartamento era só meu. E você havia me abandonado. Sem sequer um bilhete, uma conversa, um recado.
- Eu não te abandonei.
- Nos meus olhos, olha bem nos meus olhos molhados e me diz que você não me largou.
- Eu não te abandonei. Eu só não retornei da viagem. O que ia durar três meses, durou um ano. Você não sabe o que é começar uma carreira profissional em outro país e dar certo? Seria loucura abandonar. Eu te pedi tanto. Eu te implorei. Eu te mandava as passagens.
- E a minha vida profissional? E as minhas aulas, quem ia dar? E o mestrado, quem ia terminar? Você, o seu primo?
- Escuta, nós já conversamos sobre isso diversas vezes. É uma conversa sem fim, você percebe? Eu sempre vou te dizer os meus motivos, que não vão te convencer. Você sempre vai me dar os seus que também não vão. Essa história não tem fim.
- Então boa sorte com o teu bicho de estimação. Boa sorte na vida. Não cruze, não pense em cruzar o meu caminho. Essa cidade é tão, mas tão grande. Quando vier aqui, estacione na rua de trás, sei lá. Tanta coisa aconteceu na minha vida, eu desaprendi. Eu desaprendi. Simples assim.
- O Augusto é gerente. Gerente da sauna. Da famosa sauna.
- Sabe que eu tomei nojo desses lugares? Eu enjoei. Todo mundo passa por um período de experimentações e tal. O meu durou bem pouco. A última vez que eu pisei ali foi a fatídica vez que você insiste em jogar na minha cara. Eu tomei nojo. Dos homens casados, dos pedreiros de pau grande, dos engravatados hipócritas. Toda vez que eu passo por um lugar desses, eu observo o rosto dos homens que entram e saem e tenho vontade de gritar, de sair gritando como um louco, para que todos ouçam do meu nojo.
- Você mudou.
- Eu desaprendi.
- Eu não estou noivo.
- Não?
- Você vê alguma aliança?
- Não.
- Eu posso te ligar qualquer dia desses?
- Não.
- Um cinema, vai, eu não queria me transformar em alguém responsável por ressentimentos tão...
- Não.
- Eu não subo. Eu te espero lá embaixo. Uma volta pelo shopping. Aos poucos, a gente retoma, a gente consegue retomar, eu tenho certeza.
- Não, você é surdo?
- Você ainda me ama?
- Amo.
- Eu também te amo.
- Mas não existe possibilidade. Qual é a tua, cara? Quer fuder com a minha cabeça é isso?
- De forma alguma.
- Então suma. Desapareça. Entra nesse carro e some daqui.
- Quer namorar comigo?
- Desaparece, ta ouvindo?
- Quer voltar a ser meu namorado?
- Quero.

A cidade de possibilidades. E um beijo na esquina. Duas histórias interrompidas por motivos diversos insaciáveis. E um reencontro não previsto, não escrito, sequer imaginado. Porque assim a vida é: unpredictable. Repleta de fugas de emergência. E pronta para o inédito. Retomar os caminhos abandonados, também é uma forma de dizer sim ao amor. E disseram sim os dois rapazes e dizem sim todos os dias para que permaneçam juntos enquanto amor houver. E há. Ontem pela manhã, um deles despertou sem memória ouvindo uma canção. Foi até o banheiro e abriu a porta lentamente. Sorriu um bom dia e cantarolou baixinho. Hábito antigo e real. A cidade encerra certas possibilidades quando algumas certezas bônus nos saltam aos olhos. Comprometer-se. E abrir o pára-quedas.


segunda-feira, abril 23, 2007

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA

do Armazém Companhia de Teatro *

- Você não acha?
- Não totalmente.
- Explique-se.
- Sem chances.
- Mas se você não se explicar, como é que eu vou te entender?
- É que você enxerga o universo através da ótica do romance. Você é romântico por natureza.
- Vamos supor que eu seja...
- Você é.
- Sim, hipoteticamente.
- Não.
- Você me classifica. Me encerra num tipo de definição que você encontrou para me justificar e que eu não concordo muito. A sensação que eu tenho quando você diz que eu sou romântico por natureza, não é boa. Eu encaro como censura. Como se a paixão te incomodasse.
- Não me incomoda. Mas é curioso.
- Você fala dessa forma só porque eu te contei que talvez eu esteja gostando de alguém?
- Do novo rapaz.
- Novo rapaz? Houve centenas antes dele? É isso? E por isso eu sou um romântico nato, é isso? Um galinha, atirando para o primeiro que sinalizar.
- Existe sempre um novo rapaz na sua vida.
- Você está falando merda.
- Não estou.
- Como é que você pode me dizer isso, assim, de cara limpa?
- Dizendo. Existe sempre um novo alguém na sua vida. Que te renova as sensações. Que te dá novos impulsos.
- Amigos, você quer dizer?
- Amigos que você transforma em amores.
- Cinco anos apaixonado por você...
- Amores viciados que nunca seguem adiante.
- Cinco anos apaixonado por você. Feito um cego diante da multidão. Debruçado sobre os teus problemas, a tua vida, os teus amigos, os teus grãos. Cinco anos. Sei lá quantos dias são, eu não sou bom de contas. Apaixonado por você, areia movediça que quase me leva junto. Que me manteve atado, em cima de um muro sem tomar partido do teu sim ou do teu não. Teu amor por mim sempre foi despedaçado. Um fragmento de carinho no meio da ventania. Eu passei por cima do teu descaso, teus namoros, tuas paixões, tua desatenção. E todas as vezes que eu tentei fugir, todas as vezes que eu te deixei, você me trouxe de volta para que eu continuasse a alimentar o teu ego incontrolável.
- Você está falando merda.
- Essa é a primeira vez que eu te falo depois de cinco anos, que eu gosto de alguém. Eu gosto. Assim fácil. Com paixão e receio. Com calma e tempo para descobrir. E você me acusa de romancear. Em tom de censura e ironia barata. Como se fosse um hábito eu tentar. Como se desejar alguém que não você, ousar, não pudesse valer à pena.
- Em dois meses ou menos, você retorna dizendo que não deu em nada. E escreve um texto melancólico. Até que apareça um outro.
- Não existe outro. Os outros que você insiste, todos eles, são você. E de você, eu compreendi, ainda que eu tenha demorado todo esse tempo, eu não posso ou não devo querer ser mais do que o grande amigo que eu fui e sou e provavelmente vou ser. Eu não vivo sem você, eu sei. A diferença agora é que no meio da confusão, alguém apareceu. Alguém que eu não esperava. E é bom, tão bom, poder optar por apostar. Sem a tua sombra. Sem as tuas sobras.
- Boa sorte, então.
- Obrigado.
- Sem mim, me parece que a tua vida fica mais simples.
- Muito mais. O que não significa que eu não te queira nela.
- De verdade?
- Sempre.
- Eu acho que eu tenho medo.
- Explique-se.
- Eu tenho medo, eu acho, de que você acerte.
- Por definição, você deveria ser a pessoa que mais deveria torcer por mim. Você não acha?
- Eu torço. Eu tenho medo de que você me apague. Não é isso. Não é apagar. Mas perder a importância entende?
- Entendo porque eu também vivi essa aflição.
- Eu não conseguiria te perder para uma pessoa depois de tanto tempo.
- Não é perder. Não é competição. Eu não estou dizendo que eu vou casar amanhã e me mudar para Ipiratininga. Eu só te contei dele. Da forma simples e interessante de como nos aproximamos. Do quanto foi bom, tocar, sentir o cheiro, abraçar.
- E que você contou com tanto entusiasmo. Cheguei a pensar que era para me provocar.
- Contei para desabafar. Porque o meu coração acelerou, eu comecei a suar, eu não sabia onde colocar as mãos.
- E ele?
- Eu não sei. De verdade eu não sei. E não saber zera tudo. Eu até compreendo que você me acuse...
- Não é acusar...
- Que você sugira que eu observe o mundo de forma romanceada. Hoje, vinte e dois de abril, eu concordo. Porque eu me envolvi com a possibilidade de querer acertar. Eu preciso desse salto. E eu me sentiria muito melhor sabendo que você me apóia, que torce por mim e que isso não te exclui da minha vida. Como é que você pode imaginar, depois de toda a nossa história, que eu ia abrir mão de você? Eu deixei de lado foi a idéia de te namorar. Por uma questão de bom senso. Mas eu continuo aqui e talvez pela primeira vez, abrindo o meu coração.
- É que é muito estranha essa sensação de te ouvir falar de outra pessoa..
- ...que não seja você.
- Exato.
- Toda a nudez será castigada. Hoje eu compreendi que não é só a nudez do corpo. Mas qualquer outra. Dos sentimentos, dos olhos nos olhos, se despir de qualquer convenção, de qualquer vício resulta também em algum tipo de castigo
- Profundo para uma e quinze da manhã.
- Obrigado por me ouvir. As nossas conversas movimentam a minha vida.
- Ultimamente as nossas conversas estão... não sei a palavra... mas que estão, estão.
- Estão.
- Boa sorte com o teu pequeno.
- Eu acho o fato de termos nos encontrado, por si só uma boa sorte.
- E esses olhos brilhando?
- É o abismo da descoberta.
- Faz um texto com essa idéia.
- Outra noite. Agora vou descansar.
- Escuta uma coisa.
- Diga.
- Eu não sei, quer dizer, você me conhece bem e sabe. Eu me enrolo, eu gaguejo. Mas é que eu não sou como você... romântico. E me enrolo, eu me enrolo. Eu quero dizer, você sabe, não sabe?
- Sei.
- Então tá. Vai lá, durma bem. Me liga amanhã durante o show para eu ouvir uma música com você?
- Ligo sim.
- Fico te esperando.
- Também te amo.


* foto de Léo Bittencourt, disponível no site da Companhia

terça-feira, abril 17, 2007

ENSINA-ME A VIVER de Hal Ashby

Eu tenho segundas intenções é com a possibilidade do amor.
Não exatamente com você.
Quero o gol que não é o do território marcado.
Mas o gol da comemoração, da comunhão.
Então eu escrevo
Um ensaio de um poema atrevido
Sem vergonha Sem destino Sem endereço
De amor e do homem e de tudo o que é
Não sendo

É que eu te amo demais
Que eu não vou brigar contigo
Que não vou deixar ocê tocar meu ouvido
Com essa sua voz macia que não tem destino
É que eu te amo demais
Que te escrevo cartas de amor coloridas
Que não há sol, chuva ou rima
Que te afastem da beleza da subida.

E se um dia ocê acordar e
Tiver uma vontade estranha
De experimentar uma loucura ( e eu for essa loucura)
Não deixe passar não...
Não reprima não...
Aparece lá em casa
Pra gente efetuar
Pra gente se entender
Pra gente se enroscar
Pra gente compreender
Pra gente se amar

Aí então ocê vai saber
Da intensidade do meu querer
Aí então ocê vai ver
Que não há nada demais
Na minha vontade de ocê.
Que suor, cheiros e gemidos
Meu amigo
Existem para homens e mulheres
E eu me disponibilizo na qualidade
De garfo, facas, seus talheres!

É que eu te amo demais
Que ouço tuas palavras como quem descobre o ouro
Faço o garimpo diário
Quitando as folhas desse imenso crediário
Escorregando aqui, desequilibrando ali
Fazendo festas em funerais
Sorrindo sem dor alguns dos meus ais
Tecendo nesse enleio, uma colcha descomunal
Com o teu retrato no meio.

Se existe incompatibilidade no ar
Ela há entre os pontos de vista:
Há do meu olhar
Há do teu observar
E se fica clara a tua intenção de me dizer
Que ocê não me ama e não vai me querer
Por que é que eu tenho tanto dúvida
Dessa nossa história, quer fazer o favor de esclarecer?
Não há dúvida pior que o não saber
Quando se trata de ocê
Por que, seu cão imundo,
Ocê deixa sempre uma pulga no meu travesseiro
Quando ocê vai embora feito um tiro certeiro?

Se um dia ocê quiser
Se um dia ocê quiser a resposta do mistério
Do mistério que não tem resposta
Se um dia ocê acordar
Disposto a loucuras juvenis
Descompromissadas
E por sacanagem do destino
Eu ainda te amar dessa maneira
Toque a campainha
Disque o número
Arrisque teu desejo!
Porque a única maneira de você entender
O amor de um homem por você
É arriscando todo o seu currículo de pessoas lindas
E aderindo à loucura de fazermos juntos uma rima.


sábado, abril 14, 2007


FILHOS DA ESPERANÇA de Alfonso Cuarón

De forma, que de tanto ensaiar e dar nome, vou tentar por agora, me deixar levar pelas sensações. Eu falei tanto de um texto não escrito. A expectativa também era minha antes de ontem pela madrugada. E ainda é, de fato, porque houve encantamento. E quando acontece assim, a velocidade do pensamento faz alguns textos sem corpo, sem forma, sem pretensões que se dissipam antes mesmo de chegar ao papel. Não preciso que me compreenda, mas é como se durante os silêncios, eu tecesse de algum retalho mínimo – nosso – o desejo de te dizer do encanto, que ainda não virou palavra porque não quero me surpreender. Eu não te escrevi lindamente cartas entusiastas. Eu não te fiz um texto cheio de cor e de som. Eu ainda não sentei para pensar que sim, se não uma surpresa, você é uma válida descoberta que se manteve interessante desde o caminho do olá até ontem à noite, quando você não estava presente e me perguntaram por que tão poucas palavras. Eu não soube responder. Sopraram que deveria ser o coração. Provavelmente o coração. E entre amigos, eu ensaiei falar sobre você. De como a cidade e as linhas e também as coincidências, promovem os encontros e ou as despedidas.

Então deve ser mesmo o coração. Coração, moço, que vai além dos amantes e do efêmero. Coração de gente jovem. Coração de homem que se deixa levar por gentileza. Sem exigir tanto, porque tanto é desnecessário. De tanto procurar significados, percebi depois que arquitetar qualquer justificativa para aliviar o desconforto do não saber, é tentar em vão, viver acomodado. Na zona de conforto, onde o sim é sim. O não é não. E onde tudo permanece em ordem sem nunca ter saído da ordem. Ordem não há, saiba. A memória é recente e talvez eu não saiba dizer tudo o que eu quero e não é por não ter o que dizer, é por não saber classificar e escrever na afobação da temperatura do impulso. Uma das minhas piores liberdades. Deve ser mesmo o coração, então. Coração que foge do óbvio do eu te quero entusiasta. Coração leviano, que aceita mais um para que a viagem não seja tão monótona. Coração do querer bem que não é só festa que não é só paz. Que não é só dor. Coração das letras. E dos parágrafos. Confusões nem tão confusas porque com o tempo, a gente percebe que é no simples onde o fluxo faz mais sentido. E sentido, você sabe, não há.

Eu sentei para te escrever na sala de espera da oftalmologista. Eu esperei mais de uma hora e escrevi apenas uma frase. Retomei a escrita no trânsito que me prendeu por volta de quarenta minutos e mais uma frase eu consegui te escrever. De noite, já bem casando, esperei por um amigo chegar pouco mais de meia hora e tentei retomar as palavras e não consegui continuar. Você me intimida. Me encanta. Você que eu não conheço. Que de nada eu sei. Você me instiga. Me coloca em estado de alerta não por me oferecer perigo, mas por ser um mistério. Você talvez não seja um mistério para mim porque eu enxergo de forma muito simples. Sou um homem que sonha, mas os pés descalços gostam mesmo é da terra molhada. Filho da esperança. Children of revolution. Whatever. Quando a gente complica, a gente também encerra possibilidades. E eu me deixo levar, sem muito sentido, sem a preocupação com o sentido, mas atento ao comprometimento porque quando duas pessoas se encontram, sejam as vias quais forem, elas estabelecem de imediato algum laço de afinidade que se alimentado, gestação natural e responsável, vira compromisso. Não de contas pagas, satisfações ou papai e mamãe. Mas o compromisso com o sagrado, o secreto e a confiança do outro. É mais simples do que parece. E eu acabei de perceber que dei nome ao que ainda não tinha.

Eu não sou um personagem de filme.

Eu tenho alguma inteligência, que paga umas contas e faz os amigos sorrirem.

Eu erro muito. E me sinto muito à vontade para recomeçar.

Adoro o acaso. Ironia. Humor. Raciocínio rápido. Inteligência.

Eu não gosto de teias.

Eu já gosto de você.

Um beijo


quarta-feira, abril 11, 2007

O PECADO DE TODOS NÓS de John Huston

O tempo abafado, como de costume. Sem camisa, esperando o dia passar sem qualquer preocupação grande. Ou urgente. O apartamento em desordem. Um copo de água bem gelada. Algumas contas pagas esperando qualquer mão que as dobrassem e as guardassem. Roupas espalhadas, toalhas jogadas sobre os móveis. Aguardando também uma mão. Uma série de bagunças menores em total sintonia com o todo. A lata de lixo coberta de folhas amassadas, papéis de bombom, algumas pilhas usadas. Faz tanto tempo que o lixo não é trocado que lá por baixo, ainda existem vestígios daquele sexo com aquele tal rapaz que eu não vejo desde quando? Não sei. Se fizer um esforço, talvez lembre do rosto dele. Ou do nome.

- Fazendo?
- Porra nenhuma.
- Eu também.
- Um saco esse feriado. E para completar, meu pagamento atrasou.
- Sem dinheiro fica pior.
- Muito pior.
- Demorou para atender.
- Procurando o telefone. Um chiqueiro. Essa casa tá um chiqueiro.
- Pensei até que você não estivesse.
- Tava embaixo das almofadas. Mania de falar no telefone deitado, aí eu durmo e ele vai escorregando. E se perde por aí. Ouvindo Joplin é?
- Summertime. Tão alto assim?
- Não. Ouvindo Joplin, fazendo nada, me ligando...
- Sabia que você ia entender.
- Não sei se dá para fumar maconha agora, baby.
- Como não? Não tem mais?
- Tem, claro. Sempre tem. Mas a vizinha, a putona que fez a denúncia da outra vez.
- O que tem a putona?
- A janela dela está acesa. E acabou o incenso.
- Nós fumamos maconha pelo telefone faz uns dois anos. Essa vaca...
- Putona, chama de putona que eu me sinto melhor.
- Essa putona não pode acabar com o nosso ritual.
- Vou descer para comprar incenso. Te ligo quando voltar.
- Não demora.

Ela de camiseta preta. Saia longa, bem soltinha e confortável, dessas dos anos setenta, estampadas e retas. O quarto em perfeita sintonia. As paredes brancas. A cama repleta de almofadas, coberta por uma colcha lilás, de onde era possível ligar o aparelho de som, que já estava ligado e tocava Janis Joplin, não mais Summertime, mas o cd corria solto, sem rumo, como a noite. O telefone sem fio, ao seu lado. E deitada, lia algum livro sem muita atenção, aguardando o telefone retornar a ligação. Alguns móveis e alguns cacarecos coloridos, pedras ou cristais ou perfumes em excesso, organizados por tamanho. Incensos espalhados por todo o espaço. E um tapete enorme no centro ao lado do cabideiro, com bolsas e cachecóis e cordões pendurados. Um pote com moedas na mesinha ao lado da cama. E uma televisão tímida perto do aparelho de som.

- Porra de farmácia vinte e quatro horas que não tem incenso.
- Nunca teve incenso ali, Thiago.
- Não?
- Eu nunca vi. Nós compramos no mercadinho da esquina a última vez.
- Tá fechado.
- Mas é cedo ainda.
- Feriado, esqueceu?
- Esqueci.
- Sabe quem me ligou? O Fabrício.
- Sério?
- Tão estranho falar com ele depois de tanto tempo. Pegou o seu?
- Peguei. Vai acender assim mesmo?
- Vou. Fechei a janela. O que é pior, porque quando eu abrir, o prédio todo vai sentir.
- Um, dois, três e foi. E o que ele queria?
- Espera, o isqueiro.
- Ih, já foi. O meu já está aceso.
- Quebrando a corrente, hein Nina.
- Não vai querer que eu apague agora. Vai?
- Não. Um, dois, três e foi. Sei lá o que ele queria. Eu entrando na farmácia e ele me dizendo umas coisas meio sem sentido. Queria ouvir a sua voz, ele disse.
- Ele ligou agora?
- O tempo de entrar na farmácia e o celular tocou.
- Bem curioso.
- Sabe que me balançou? Não nos falamos desde janeiro. Três meses. Ele me perguntou se podia aparecer.
- Hoje?
- Não foi específico. Perguntou sem data certa, eu acho.
- Sua resposta?
- Que não.
- Seco assim?
- Não é não e não é seco. É objetivo. Eu me senti tão seguro falando com ele. Sem ressentimentos. Eu disse que agora é o momento mais importante para mim. Que é agora que eu retorno às minhas atividades. E que um encontro ia fuder com tudo.
- Ele não insistiu? Ele concordou? Acreditou?
- Não sei, Nina. Mas ele respeitou.
- Boa essa maconha.
- Sim, eu dei uma chamada nos caras. Falei com eles que eu era um bom comprador e ainda indicava os amigos. Que era sacanagem mandarem ela tão misturada.
- Você é louco.
- Falei em paz. Me pediram desculpas e me fizeram um desconto bom.
- A última vez que eu reclamei, eu fumei erva-doce. Me deram um cigarro de erva-doce, que eu fumei feliz acreditando que era um baseado.
- Mas você não sentiu diferença?
- Bem depois. A onda psicológica já tinha batido. Bateu uma calma, uma paz.
- Erva-doce é sacanagem.
- Antes ela do que camomila. Eu sou alérgica. Lembra do acampamento?
- Posso te ligar em dois minutos?
- Mas a gente ainda nem fez a viagem. Eu ando tão inspirada com as nossas histórias.
- É rápido. Dois minutos, Nina.

Perto dali, no quarteirão da praia, a luz baixa do apartamento e a música ambiente faziam companhia ao rapaz que sozinho, tomava uma taça de vinho e comia uma pizza. Sinatra. Para estapear a solidão. O apartamento pequeno, porém aconchegante. A mobília toda de madeira. Limpo e organizado. Sofisticado sem pretensões arquitetônicas. As janelas abertas, o tempo parece querer mudar. Mas ainda abafado. Ao lado da mesa, o telefone celular recém desligado. E uma pasta com algumas folhas dentro. Alguns cd’s por perto e enquanto comia, analisava o encarte do que havia escolhido para ouvir.

- Por que você me ligou?
- Thiago?
- Sim. Por que você me ligou Fabrício?
- Para te ver. Porque eu tive vontade de te ver.
- Depois de três meses?
- Quatro. Já se passaram quatro meses desde a última vez.
- Então você resolveu telefonar. Como se não tivesse... como se não estivéssemos...
- Relaxa, cara. Eu liguei porque deu vontade. Queria saber se você estava bem.
- Nunca estive tão bem.
- Se eu te conheço bem, você e a Nina estavam fumando maconha pelo telefone.
- Você ligou para ela?
- Não. É porque alguns hábitos não mudam. E esse feriado todo pela frente. Já que você não viajou, eu pensei que...
- Pensou errado. Aliás, não deveria pensar em mim. Ou na Nina. Ou na maconha.
- E a putona da denúncia?
- Uma merda. Não mudou muita coisa. Tem que fechar a casa toda porque não tem incenso. Parece uma câmara de gás, fumaça por tudo o que é canto...
- Isso faz mal. Acenda um fósforo, queime um pedacinho de papel e abra as janelas. O cheiro some.
- Você perguntou se podia aparecer. Aparecer hoje?
- Sim.
- Não. A resposta continua sendo a mesma.
- Você parece magoado.
- Surpreso. Irritado, não sei. É que eu já havia me acostumado sem você. Eu já estava bem, sem ficar lembrando de detalhes ou histórias ou da tua voz.
- Eu não esqueço. E não quero esquecer.
- Escuta, eu vou desligar. A Nina está me esperando. A gente ainda nem começou a viajar. Ela vai ficar triste comigo.
- Eu pedi uma pizza. Eu só liguei para te convidar para comer uma pizza comigo.
- No seu apartamento?
- Sim.
- E o Rafael, onde é que está o Rafael?
- Viajou, foi passar o feriado com os pais.
- Sinatra. Você está ouvindo o Sinatra.
- My Funny Valentine.
- Obrigado pelo convite. Mas eu jamais iria ao seu apartamento com o seu namorado viajando. Eu detestaria saber que o meu ex-namorado visitou a minha casa quando eu estava viajando, sem poder fazer nada, sem sequer ser consultado.
- Mas ele não ia ficar sabendo.
- Alguns hábitos realmente não mudam. Pelo visto, você continua enganando as pessoas que te amam.
- Eu tenho provas para corrigir. Você podia me ajudar.
- Não sou seu secretário.
- Você podia se desarmar um pouco. É impossível conversar com você me atacando.
- Me defendendo.
- E o Nicolau, como vai?
- O peixe morreu. Morreu durante o carnaval.
- Morreu?
- Sim, morreu. Provavelmente porque eu esqueci de alimentá-lo. Ou porque encheu o saco da vida. Ou porque o aquário estava sujo e fedia. Eu disse, não disse? Eu disse para você levar o aquário quando fosse embora.
- Você parece tenso. Quase histérico.
- Eu acho que tudo é um saco. Agora eu ando assim: o apartamento uma zona, se você procurar qualquer livro, se eu procurar o meu travesseiro, eu não encontro. O pior é que eu não me importo. Eu sequer me importo. Enfie as suas provas no cú. Engula sua pizza e apague o meu número do seu celular. É vergonhoso você me ligar para me chamar para comer na sua casa. Seria fácil dizer sim. Seria fácil fazer a barba e chegar aí com o perfume que você mais gosta. E trepar a noite toda. Para matar a saudade, aniquilar o desejo, para ficar menos ressentido. Eu ia guardar esse feriado como um prêmio, como uma lembrança de uma provável vingança. Eu ia fazer exatamente o que o Rafael fez, só que na casa dele, na cama dele e com o namorado dele. Mas eu não quero. Eu digo não, mesmo que por dentro eu esteja morrendo de vontade de dizer sim e chegar aí e te beijar e te provocar porque eu te conheço bem e sei o que te deixa maluco. Não quero te dar prazer. Você não merece que eu te agrade. Eu me viro com uma punheta, uma putaria no computador, um vídeo pornô, com o vizinho novo, o entregador de pizza, com a Nina. Eu não sou a sua puta.

Fabrício desligou. Havia acionado um vulcão que explodiria frases de efeito a noite toda. Em nenhum momento, pensou que pudesse receber um não. Em nenhum momento pensou em sexo.

Thiago foi presenteado com uma crise de choro. Bebeu todas as cervejas que haviam na geladeira e dormiu abraçado a uma camisa de Fabrício.

Nina, de tanto esperar, adormeceu esperando o telefonema do amigo. Uma das histórias que ia sugerir para tecer a viagem com Thiago, era a de uma menina que viajou para a lua e encontrou o príncipe interrogação. Adormeceu e acidentalmente fez com que o cigarro caísse sobre o tapete. Acordou no hospital, com queimaduras leves e boa parte da mobília danificada.

Também no hospital, Thiago encontrou Fabrício, que procurava sem muitas notícias, o quarto de Nina. E se abraçaram tanto e tanto choraram, que nenhuma palavra precisou ser dita. Nunca mais se falaram. Nunca mais foram os mesmos.


quarta-feira, abril 04, 2007

O CHEIRO DO RALO de Heitor Dhalia

- Eu te amo
- Como?
- Eu te amo, a canção. Já ouviu?
- Não. De quem é?
- Do Chico.
- Science?
- Buarque. Chico Buarque.
- Ainda não.
- Você tem um sotaque gostoso. Você é baiano?
- Capricórnio com ascendente em peixes.
- Não gosto do mar.
- Mas os peixes são inofensivos.
- Presos na jaula, como todo mundo.
- Sério que você não conhece o Chico?
- César?
- Buarque. Chico Buarque.
- Não, não ouvi.
- Ninguém fala de amor como ele.
- As pessoas estão mudas.
- Uma puta carreira.
- Carreira?
- É.
- Ele cheira?
- Ele quem?
- Deixa para depois.
- É melhor.
- Um cigarro, você tem?
- Não. Eu não fumo.
- Não bebe também?
- Não bebo.
- Existe alguma coisa que você faz?
- Eu tenho medo de me comprometer.
- Medo.
- De me comprometer.
- A internet matou o comprometimento.
- Como?
- A internet.
- A internet não fuma, não bebe.
- Ela assassinou o compromisso. Você não acha?
- Talvez.
- Você casa, vamos supor que você case. Você paga o condomínio. Tem um cachorro.
- O meu morreu.
- Sim, mas você brinca de playmobil: você trabalha, pagas as contas e sua esposa é clássica. Cozinha, limpa, passa e não deixa o caos dominar. Clássica.
- Como os filmes do Godard.
- Fellini. Fellini é clássico.
- Sim.
- Então você enche o saco da vida de brinquedo. Você enche a porra do saco. Mas não pode jogar tudo para o alto.
- Não pode?
- Não deve. Porque demorou muito para levantar o muro. Deu trabalho demais erguer para jogar tudo fora só porque encheu o saco.
- Encher o saco é um luxo menor?
- Sim.
- E o que você faz?
- Eu? Eu não sou casado.
- Estamos falando hipoteticamente, não? E o que você faz?
- Você entra na internet.
- Dentro dela?
- Então se a tua esposa é frígida ou tímida ou condena o sexo, você compra uma câmera e se mostra para quem quiser ver ou quem quiser comprar a tua fantasia. Você espera ela ir dormir após a novela e se acaba na punheta com homem, mulher, velho, adolescente, criança ou tarados. Você escolhe. Depois você desliga a máquina e volta ao real para dormir. Se ela te perguntar, você diz que estava trabalhando. E dorme.
- Eu durmo muito pouco.
- Eu também. No dia seguinte, você vai ao supermercado sem qualquer sombra de culpa.
- Eu prefiro o sol.
- E quando surgir a oportunidade, é só você ligar o computador.
- Sem culpas?
- No sol. Porque você não traiu a tua esposa. Você não destruiu o muro. Você preservou a imagem.
- O quadro não se alterou.
- Na superfície. Mas se você olhar bem de perto.
- Ou de longe, bem de longe.
- Vai perceber alguma mudança. Mínima. Imperceptível. Minúscula.
- Mas quem vive dentro do quadro percebe.
- Se quiser. Quando quer.
- Eu não tenho computador.
- Entendo.
- Eu ainda me comprometo.
- Você leu os jornais?
- Não.
- A quantidade de vítimas. Bala perdida.
- Perdida uma porra, tá sempre encontrando alguém.
- Uma hora você deixa de acreditar.
- Medo de andar na rua. De voltar tarde para casa.
- Vai deixando a palavra perder a força.
- Ando assustado.
- Quando você percebe, criou uma forma de se defender. De não se deixar envolver.
- Pânico.
- E o valor da palavra, o comprometimento vai pelo ralo. Com as pessoas, com você mesmo, com os teus projetos, a tua energia jovem.
- Outro dia eu vi roubarem uma mulher na rua.
- E você passa a contar com você.
- Eu vi a cena toda: um carro parou, saiu um homem na direção da mulher e puxou a bolsa dela.
- Exclui as pessoas das tuas decisões.
- A mulher gritou e ninguém fez nada.
- Dos teus novos sonhos, se sonhar ainda for possível.
- O homem entrou no carro e eles arrancaram gritando, xingando.
- E dentro do próprio universo, a gente participa do outro universo.
- A mulher ficou em silêncio. Não chorou. Não fez escândalo.
- Não tinha um filme que falava de universo paralelo?
- Resignada, me pediu o telefone para ligar para a casa. Eu dei. E não disse uma palavra.
- Sou péssimo com nomes.
- Perder o ânimo, aos poucos, é também deixar de se comprometer.
- Foi o homem.
- Concordo.
- O homem que encerrou com o compromisso.
- Foi deixando de ser. Deixando de ser. Deixando.
- Até chegar aqui.
- E como é que sai daqui?
- Não sei.
- Eu vou ler o Chico.
- Buarque?
- Bento. Chico Bento.
- Eu vou ao cinema. Você sabe como eu chego no Flamengo?
- No time?
- No bairro.
- Não sei. Tenta o metrô.
- Muito sal. Tem muito sal e me enjoa.
- A pimenta?
- O balanço. Fico enjoado.
- Você volta?
- Para onde?
- Você retorna?
- Sim, claro.
- Palavra?
- Não.
- Era o que eu esperava.
- Vou ouvir eu te amo.
- Ama nada.
- Escuta, qual o teu signo?
- Sou de Salvador.


segunda-feira, abril 02, 2007


enquanto o seu lobo não vem

(Diálogo extraído do filme Antes do Pôr-do-Sol,

escrito por Julie Delpy, Ethan Hawke e Richard Linklater).

Celine – Achei melhor parar de romancear as coisas. Eu vivia sofrendo o tempo todo. Tenho muitos sonhos que não têm nada a ver com a minha vida afetiva. Isso não me entristece, mas as coisas são assim.

Jesse – Por isso, tem um relacionamento com quem nunca está por perto?

Celine – Obviamente, não sei lidar com o cotidiano de um relacionamento. É emocionante. Quando ele viaja, sinto saudades, mas não morro por dentro. Ter alguém por perto sempre me sufoca.

Jesse - Não, espere. Você disse que precisa amar e ser amada.

Celine – Sim, mas quando acontece, sinto enjôo. É um desastre. Só fico realmente feliz quando estou sozinha. Estar só é melhor do que sentir solidão ao lado de um amante. Para mim, não é fácil ser romântica. Você começa assim, mas depois de se dar mal algumas vezes, você esquece os seus devaneios e aceita o que a vida lhe dá. Isso nem é verdade. Eu não me dei tão mal. Mas tive muitas relações sem graça. Eles não foram cruéis. Me amaram mas não havia uma ligação nem emoção. Eu, pelo menos, não senti.

Jesse – Sinto muito. Você está tão ruim assim? Não, certo?

Celine – Não é bem isso, sabe? Eu estava bem, até ler o seu maldito livro. Mexeu muito comigo, sabe? Me lembrou de como eu era romântica, de como eu tinha esperança. Agora, não acredito no amor. Não sinto mais nada pelas pessoas. Me entreguei a esses sentimentos naquela noite e nunca mais senti nada daquilo. É como se naquela noite tivesse dado tudo a você e você partiu. Senti que fiquei fria, como se o amor não existisse para mim.

Jesse – Eu não acredito nisso. Não acredito.

Celine – Para mim, a realidade e o amor são contraditórios. É irônico, todos os meus ex-namorados estão casados. Os homens saem comigo, nós terminamos e depois eles se casam. E depois, ligam e agradecem porque eu lhes ensinei o que é o amor, os ensinei a amar e respeitar as mulheres.

Jesse – Acho que sou um desses.

Celine – Eu quero matá-los! Por que não me pediram em casamento? Eu teria recusado. Mas poderiam me pedir! Eu sei que a culpa é minha. Eu sei, nunca senti que eles poderiam ser o homem certo. Nunca. O que significa isso? O amor de uma vida? Esse conceito é absurdo. Só nos completamos com outra pessoa. Parece uma maldição, certo?

Jesse – Posso falar?

Celine – Eu sofri demais e me recuperei. Agora, não faço mais força. Sei que não vai dar em nada. Não adianta nada.

Jesse – Não dá para viver a vida evitando a dor à custa...

Celine – Falar é fácil. Preciso sair daqui. Pare o carro. Quero descer.

Jesse – Não, não desça. Fale. Eu quero te ouvir.

Celine – Quero ficar longe de você. Não me toque. Quero pegar um táxi.

Jesse – Por favor, não faça isso.

Celine - Por favor, encoste.

Jesse – Não. Ouça, estou muito feliz por estar ao seu lado. Estou. Estou contente porque você não esqueceu de mim.

Celine – Não esqueci. E é isso o que me deixa puta.Você vem a Paris, todo romântico e casado. Certo? Então, dane-se. Não me entenda mal. Não estou tentando te conquistar ou qualquer coisa do tipo. Um homem casado é tudo o que eu não preciso. Muitas coisas aconteceram que não têm nada a ver com você. Foi um momento no tempo que se perdeu para sempre. Eu não sei...

Jesse – Você diz isso, mas nem se lembrou do sexo. Então...

Celine – É claro que eu lembrei.

Jesse – Lembrou?

Celine – Sim. As mulheres fingem.

Jesse – Fingem?

Celine - Sim, o que eu poderia dizer? Que eu lembrava do vinho no parque e de olhar as estrelas sumirem enquanto o sol nascia? Nós transamos duas vezes, idiota!

Jesse – Sabe de uma coisa? Fiquei feliz por ver você. Apesar de ter se transformado numa ativista colérica e maníaco-depressiva, eu ainda gosto de você, de estar ao seu lado.

Celine – Eu sinto a mesma coisa. Perdão. Não sei o que me deu. Eu precisava desabafar.

Jesse – Sem problemas.

Celine – Meu namoro e minha vida afetiva são infelizes. Parece que não ligo, mas estou morrendo por dentro. Por estar amortecida. Não sinto dor ou excitação. Não estou nem amargurada. Estou...

Jesse – Acha que só você está morrendo por dentro? A minha vida é eternamente ruim.

Celine – Sinto muito.

Jesse – Não, não sinta. Só me sinto feliz quando passeio com o meu filho. Já fiz terapia de casais. Fiz coisas que eu nunca imaginei que teria de fazer. Acendi velas, comprei livros de auto-ajuda, lingerie.

Celine – As velas ajudaram?

Jesse – Nem um pouco. Eu não a amo do jeito que ela precisa ser amada. Não vejo sequer um futuro para nós. Mas eu olho para o nosso filho sentado à mesa perto de mim, e penso que eu passaria por qualquer tortura para estar com ele todos os minutos da vida dele. Não quero perder um momento. Mas na minha casa não há nem alegria, nem risadas, sabe? Eu não quero que ele cresça nesse ambiente.

Celine – Sem risada? Que terrível. Meus pais estão casados há 35 anos e dão risada até quando brigam.

Jesse – Não quero ser daqueles que se divorciam aos 52 anos que chorando reconhecem que nunca amaram seu companheiro e que sentem que a vida foi sugada por um aspirador de pó. Quero uma vida boa. Quero que ela tenha uma vida boa. Ela merece. Mas vivemos um casamento simulado por responsabilidade. Vivemos como as pessoas supostamente devem viver. Mas eu tenho uns sonhos...

Celine - Que sonhos?

Jesse – Eu sonho que estou de pé numa plataforma e você fica passando dentro de um trem. Você passa, e passa, e passa. E eu acordo suando muito. E ainda tenho outro sonho também... e você... está grávida, nua, ao meu lado na cama. Quero tocá-la, mas você não deixa e desvia o olhar. E eu a toco mesmo assim... a partir do seu calcanhar. Sua pele é tão macia, que acordo chorando. Minha mulher me observa e sinto que estou muito longe dela. Sei que existe alguma coisa errada. Que eu... não posso continuar a viver assim, sabe? A vida é mais do que comprometimento. Depois, penso que talvez eu tenha desistido da idéia do amor romântico. Que talvez eu tenha desistido de tudo depois do dia que você não apareceu. Acho que talvez eu tenha feito isso.

Celine – Por que está me contando tudo isso?

Jesse - Me desculpe. Eu não sei. Eu deveria... eu não deveria ter contado.

Celine - É muito estranho. A gente acha que só a gente tem problema. Quando eu li teu artigo, achei que a sua vida fosse perfeita. Tinha mulher, filho e um livro publicado. Mas a sua vida pessoal é mais encrencada que a minha. Me desculpe.

Jesse – Então você fica aliviada sabendo que minha vida está pior do que a sua?

Celine – Sim, graças a você, estou melhor.

Jesse - Ótimo. Fico feliz.

Celine – Eu realmente te desejo o melhor. Não desejo mal aos outros por não ter uma boa relação e família.

Jesse – Eu acho que você vai ser uma ótima mãe.

Celine – Certo. Certo. Chega.