sexta-feira, junho 29, 2007

UM LUGAR NA PLATÉIA de Daniele Thompson


- Eu peço desculpas. Mas nós só temos um lugar na platéia.

Ela nos disse no presente, um tanto impaciente, como se nos atirasse no início da noite um ‘e aí, quem vai entrar que eu preciso ir embora’? Sem ação, nos olhamos por alguns segundos, ainda sem saber a resposta de como equacionar duas pessoas na última poltrona disponível do teatro lotado ali no centro da cidade do Rio de Janeiro. Ele sorriu com doçura e deu de ombros. Eu acompanhei seu gesto simples e saímos da fila de desistência, cedendo o lugar a alguém que se aventurasse, sozinho, preencher a audiência teatral carioca impecável e lotada. Ele sorriu com delicadeza. E para contar sobre ele, não posso acompanhar o momento presente. Conto dele, no passado de algumas horas atrás, quando por puro impulso, eu mudei os planos e também a noite e entrei no teatro.

- Com licença, essa fila aqui é para a compra de ingressos?
- Não. Os ingressos esgotaram. Essa é a fila da desistência.
- Como funciona?
- Você fica por aqui uns quarenta minutos. Aguarda a desistência de alguma reserva.
- Então pode ser que eu fique aqui um tempão e não assista à peça, é isso?
- Sim. É uma possibilidade.
- Não sei se vale a espera.
- Eu vou arriscar. Nove pessoas. São nove pessoas na nossa frente.
- A possibilidade de nove pessoas desistirem da reserva é quase nula.
- Ainda assim é uma possibilidade. Quarenta minutos... Não é tanto tempo assim.
- Em quarenta minutos muita coisa acontece.
- Se você chegasse aqui agora, como chegou, você ia comprar seu ingresso e ia esperar pelo horário marcado, não ia?
- Sim.
- Teria que esperar os quarenta minutos, mais o tempo de entrada e do início do espetáculo...
- Com a garantia de que eu assistiria a peça, mais a segurança de saber que eu...
- Então você precisa de certezas.
- Todo mundo precisa.
- Sério?
- Boa parte das pessoas. Ou da ilusão da certeza.
- Não quer me fazer companhia?
- Na fila? Não sei.
- Se não conseguirmos...
- O que é bem provável.
- Se não conseguirmos, eu te pago uma cerveja. Cerveja não que você não tem cara de cerveja.
- Não tenho?
- Algo mais sofisticado. Vinho, então. Uma caneca gorda. Ou um café? Um chocolate!
- Cerveja está de bom tamanho.
- Então você me conta porque veio sozinho.
- Então eu ouço você me contar porque veio sozinho.
- Eu gosto de sair sozinho. E isso de gostar não é tão complicado.
- Gostar não é complicado.
- As pessoas de quem a gente gosta é que são complicadas.
- Fatalmente.

De volta ao presente e ao ruído das canecas de vinho ao se encontrarem. De volta ao improvável que andava em débito ou tímido ou travesso por essas bandas de cá. De volta ao bar da esquina com vinho vagabundo que vai me dar dor de cabeça, no futuro próximo ao despertar. De volta ao jogo de revelar e guardar o melhor para o depois que é sempre o próximo momento. Assim mesmo, como canção romântica, eu sinto que. Mesmo assim, como uma canção do exílio, o meu, eu sinto. E não é suficiente sentir. Não hoje. Solto na escuridão da cidade perigosa que já não me assusta, as linhas não mais se cruzam. Estão paralelas. Hoje eu queria erguer muros para poder derrubá-los. Mas como é que se constrói um muro de palavras? Como é que o texto se transforma em grito e os verbos saem do papel, você me ensina? Não vou me desculpar por ter ido embora no repente. Seria como pedir licença por ser quem eu sou. Dias de leite. Dias de cachaça. O verde ou o vermelho do sinal de um trânsito que eu criei para me compreender. Ou pelo menos tentar. Eu sou aquele que vai embora no final. E imagina como poderia ter sido se tivesse ficado. Coisa de gente com um pé no medo e na coragem. Um olho atento, outro perdido em cores alheias. Como a Calcanhotto que anda prestando atenção em cores de Pedro e Frida. Ando pelo mundo. Eu, no singular, ando pela cidade. As ruas da Lapa na madrugada parecem mais limpas, mesmo com os travestis e as putas tentando a noite. A Lapa é plural. Quero me dizer que é assim mesmo. Dias simples. Dias confusos. Quero me fazer tentar compreender. Deixar de ser só palavra. Sair da tela do computador. Não desejo ser o homem mau. Quero aos poucos e principalmente aos poucos, ser um homem melhor em grandezas, maior em simplicidades, menor em confusões. Viver as minhas histórias curtas o ano inteiro. Você é alguém que eu não sei escrever sobre. Ir embora na madrugada significa um não sei não. Talvez reflita que preciso crescer em atitudes. Ou respeitar minhas vontades. Ou temer a incapacidade gigante de não saber como te classificar. Eu, o homem da certeza. Ou da ilusão da mesma. Talvez nada signifique. E seja apenas a sensação de voltar para casa que eu procuro. Abrir a porta, entrar, deitar, ouvir o cachorro do vizinho, o ventilador, a televisão ligada. Essa miudeza que conforta, dá segurança. Nos faz perceber que é assim mesmo: dias de partidas, dias de retorno. Dias de histórias curtas que se perdem e se encontram.


sábado, junho 23, 2007

A FRATERNIDADE É VERMELHA de Krzysztof Kieslowski

Atendi o telefone assustado não com a ligação mas porque dormia e não sabia exatamente que horas o relógio marcava, que filme a televisão insistia, em que momento eu me deixei fechar os olhos e embarcar no sono cansado. Tua voz rouca denunciava a madrugada interrompida, a minha voz confusa denunciava a surpresa e a sensação estrangeira de acordar e não saber exatamente quanto tempo dormi, que dia e que horas são, uma série de detalhes que me situavam no espaço e no tempo, essas seguranças mínimas que todos nós gostamos de saber. Sobre a nossa conversa eu te digo. Um amor a gente não afoga. Uma história a gente não apaga ou esquece ou perde na memória. Sensações são efêmeras, uma pessoa não. E esquecer o real é tarefa árdua. A ilusão a gente desfaz. Os fatos não. O desejo a gente até dribla. O coração eu não engano. Não eu. Porque além de perda de tempo, é salto sem volta. Linda metáfora a do Kauffman sobre zerar a memória que você tão bem citou. Mas vamos combinar que eu não sou o Jim Carrey e tu também não és a Kate Wisnlett. E que esse amor insistente de nada adianta se é no mesmo lugar que eu me encontro. Se é do outro lado do túnel que te encontras. Hoje eu estou cheio de imagens e eu te disse no telefone que eu era o Che e você era o rio que eu precisava atravessar para chegar ao meu destino. Ou vice-versa. Ousamos falar em amor e tantos assuntos sem importância e mais uma vez eu desligo com a sensação de que estou suspenso no ar. Observando como fantoche a vida avançar e com toda a delicadeza do mundo, eu celebro a metáfora e te digo, sem telefones na madrugada ou túneis que nos separam o endereço, através da palavra universal que sempre me fez melhor homem do que realmente sou, que é chegado o momento de cortar as linhas de nylon com a tesoura mais afiada que encontrar. E entrar no fluxo novamente, descer e subir, esbarrar e alcançar, girar em linha reta. E me lançar.

quarta-feira, junho 20, 2007

EXTERMÍNIO 2 de Juan Carlos Fresnadillo


A parede, ao explodir, estilhaça o vidro de todos os carros. Quem não foi atingido pelos destroços, ainda teve tempo de saquear os rádios e todo e qualquer objeto, tivesse valor ou não, do estacionamento lotado. Na correria, apesar do alvoroço e dos ruídos, eu te vi. E isso de te ver, é determinante e eu vou tentar te explicar. Se eu não tivesse te visto, eu continuaria a correr sem fim, como todas as outras pessoas. Eu deixaria o pânico me dominar e explodiria também os muros e roubaria o que pudesse, me juntando ao bando que se classificava por afinidades. Eu não saberia onde me encaixar, o que não seria grave, eu nunca soube onde me encaixar. Se meus olhos não tivessem te visto e isso de te ver é fundamental porque havia a poeira e o excesso de pessoas nas ruas e toda a sujeira e tão pouca luz. Se eu não tivesse visto você, eu teria caminhado para o fim de todas as coisas, que é onde não existe você. Foi muito difícil me aproximar por todos os motivos que eu já listei, especialmente pela poeira e pelo número de pessoas ao redor e não só ao redor, mas entre nós. E isso de estar entre significa preencher todo e qualquer espaço de onde eu te descobri e de onde estavas. Fiz mais do que um esforço para não te perder de vista. Usei todos os meus sentidos. Também toda a intuição. Também qualquer senso de direção, desses que nos guiam sem a gente saber como. Fixei a retina na tua figura e sorte, se houve e deve haver e também algum anjo soprando os meus passos para que eu não te perdesse. Eu não suportaria te perder. Mas o desejo, foi o desejo de te tocar, o grande desejo que move e também destrói, foi o desejo maiúsculo que me indicou e me fez confiante, ainda que houvesse a dúvida. Mas sempre haverá a interrogação.

Houve um momento após o estrondo que me calou e me fez zerar qualquer crença. Imaginei que tudo terminaria ali, antes de chegar até você. Imaginei que eu não conseguiria e isso de não conseguir não importava tanto porque se fosse o fim, o silêncio se faria e eu estaria na direção que sempre busquei. Não sei explicar se na correria e no embaralhar das pernas, o que houve exatamente, mas quando dei por mim, estava na sua frente e teus olhos dentro dos meus:

- Vai ficar encarando?
- Desculpe.
- Hoje em dia se você olha nos olhos, você é assaltado.
- Desculpe.
- Eu não sou quem você procura.
- Não?
- Posso te garantir que não.
- Pode?
- Posso. Eu sou alguém que você viu e confundiu com alguém que você espera que eu seja e que eu não sou. Você não é o primeiro a aparecer. E eu espero que seja o último porque eu já enchi o saco.
- Encheu?
- Enchi. O último explodiu.
- Explodiu?
- Sim. Desapareceu. Bum!
- Bum?
- Porra de papagaio você, cara.
- Deixa eu me apresentar.
- Não deixo. Não quero saber teu nome.
- Eu estava do outro lado. Eu te vi.
- E atravessou até aqui só para falar comigo?
- Sim. Pensei que após o último estrondo, eu não ia conseguir.
- Mas conseguiu. Parabéns. Eu preciso limpar os destroços da porta da lanchonete.
- Você trabalha aqui?
- Sou escravizado pelo meu chefe. E depois a confusão passa. Ela sempre passa.
- Hoje a agitação me assustou mais que as outras vezes.
- Ela passa. As pessoas têm fome. Então eu tenho sempre emprego.
- Eu quero te dizer...
- Não diga.
- É que eu pensei...
- Não pense.
- Eu me importo com você.
- Não se importa não.
- Me importo.
- Então vai lá dentro e dê porrada no meu chefe.
- Isso não faz sentido.
- Porque isso seria se importar comigo. Eu ia reclamar contigo, que meu emprego estava em jogo e tal, você entrava na loja tomando satisfação com ele e saía na porrada. Eu te pagando o maior esporro, dizendo que você me fez passar o maior vexame, que perdi meu trabalho, mas no fundo, eu ia estar completamente apaixonado por você. Isso é estar apaixonado.
- Não vejo sentido.
- Ninguém quer mais se comprometer. Mas discursar sobre atração, paixão e amor, olhe ao redor, cara, que amor, que paixão, que ilusão existe em você que ainda te faz acreditar?
- Essa.
- Quer ser útil? Quer fazer parte da minha vida? Ajude a limpar essas mesas.
- Olha bem nos meus olhos.
- Olhos bonitos.
- Você não vê?
- Não vejo nada além do que se vê.
- Isso é música.
- Isso é o que eu sinto.
- Você não age como alguém que sente.
- Eu penso. Por isso ainda estou aqui.
- Eu sinto. E também estou aqui.
- Você tem sorte de não ter ganhado um soco na cara.
- Ainda. Com soco ou não, dói da mesma maneira. E daqui a pouco...
- Daqui a pouco não faz a menor diferença.
- Então qual é a diferença?
- Essa.

Um soco. Um beijo. Uma explosão. Uma ambulância. Um pedido. Um grito. Um fio de luz. Uma esperança. Um adeus. Um bater de portas. Um rifle em punho. Um tapa na cara. Um abraço. Um aperto de mãos. Um pára-quedas. Um buraco no peito. Um último suspiro. Um zíper aberto. Um sorriso tímido. Um não saber o que fazer. Um explosivo nas mãos. Uma lágrima no olho. Um aperto no coração. Uma possibilidade. Uma nuvem de fumaça. Um, quase dois. Um ou outro. Um e outro. Um mais o outro. Um, dois, três, quatro...

Para Kinho


terça-feira, junho 19, 2007


Primeira família de super-heróis da Marvel, O Quarteto Fantástico encara seu maior desafio em Quarteto Fantástico 2. Nesta aventura, o enigmático e intergalático arauto Surfista Prateado chega à Terra com o intuito de preparar o planeta para a destruição. Enquanto o Surfista cruza o globo causando pânico, Reed, Sue, Johnny e Ben precisam desvendar o mistério de sua aparição e ainda enfrentar o surpreendente retorno de seu inimigo mortal, o Dr. Destino, antes que não reste nenhuma esperança.

Concorra a um ingresso para a exibição do filme aqui no Rio de Janeiro,

dia 25, segunda-feira, às 21:30,

no Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85 - Parque do Flamengo).

Para isso, basta responder a seguinte questão:

Se você pudesse fazer parte do Quarteto Fantástico por um dia, no lugar de quem você gostaria de entrar e por qual motivo?

A resposta mais interessante publicada aqui nos comentários até quarta-feira, será escolhida por mim e anunciada na mesma quarta-feira, dia 20, até às 21h.
Respostas encaminhadas nos comentários.
Minha escolhida foi a Carla San. Obrigado a todos pela participação! E até a próxima promoção.
Carla San disse...
É lógico que eu seria a mulher invisível! Imagine só, que delícia, entrar e sair dos lugares sem ser visto por ninguém? Descobrir os segredos daquela pessoa tãããão desejada. Ficar olhando ele dormir, observar o jeito como atira a camisa no chão pra tomar banho. Ligar pra ele do meu celular invisível e ter o prazer de constatar que ele sorri qdo fala comigo, que pára tudo que está fazendo e se aconchega pra curtir melhor a minha voz e que faz gestos de "yes" qdo eu digo que estou com saudades, que desejo vê-lo. Sem dúvida esse seria um poder fantástico!

sábado, junho 16, 2007

NÃO POR ACASO de Philippe Barcinski

Onde estivestes de noite? Eu me pergunto e Clarice responde da sua maneira selvagem de olhar o mundo. Eu estive por aí. Entre ruas movimentadas, sujeito ao improvável que se mostra tímido nos últimos dias. Caminhei por algumas horas. Ouvi canções por alguns minutos. Brindei ao que se costuma brindar em ocasiões de reunião. E por mais interessante que a noite se descortinasse, a interrogação viciada, me reservava armadilhas não só da curiosidade, mas do querer inquieto que te pulsava boa parte da madrugada. E dos dias e das tardes infinitas que avançam e ignoram tais pensamentos. Onde estivestes nas noites anteriores onde não havia ainda a interseção dos círculos? Confiava a quem as tuas madrugadas sem sono? Dividia o silêncio e as horas com quem de qual canto?

- Junior, o show já vai começar.
- Eu já vou. Entrem que eu só vou fazer uma ligação rápida.
- Não demora, vai? Não é você que detesta pegar as coisas depois de terem começado?
- Detesto, mas não vou morrer se eu perder a primeira música. Vou?
- Lado direito, lá na frente. Não demore.
- Eu ia te ligar nesse momento.
- Conversa.
- Eu ia. Estou com o telefone na mão. Por isso te atendi de primeira.
- Ia ligar nada.
- Ia. Vou. Prefere que eu te ligue?
- Não. Só liguei para te ouvir. Você não apareceu.
- Eu estou no show do Caetano.
- Por isso o barulho.
- Sim. Ele acabou de entrar no palco.
- Os cariocas são barulhentos, não?
- As pessoas são barulhentas.
- Você não tem aparecido. É engraçado...
- Engraçado?
- Curioso porque a gente cria certos hábitos. E quando rompemos com eles, por qualquer motivo, não sei explicar, me causa a sensação de estranheza. De casa em obra, sabe como?
- Não.
- Da mobília fora de lugar. Da poeira excessiva. Desconforto.
- Eu não estou em obras.
- Você me entendeu.
- Talvez. Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem...
- Mais apropriado impossível.
- Fazendo?
- Falando no telefone.
- E antes de me telefonar?
- Eu queria ver um filme, mas não sei qual.
- Quais as opções?
- Queria ouvir uma música que eu não sei bem.
- Não sabe?
- Ler um livro sem saber exatamente quais os seus caminhos.
- O inédito. Você quer a sensação de recomeço. A novidade.
- Não gosto quando você vira terapeuta, mas talvez eu concorde com você.
- Escreva um poema. Esse é um tema universal.
- Não sou bom com as palavras.
- Existe um poema que diz isso, não existe? Eu me lembro de ter lido na tua casa. Que fala sobre esse desejo do novo.
- Essa sede.
- Existe, mas não me lembro quem escreveu.
- Liguei também para te desejar...
- Não faça isso.
- Por que não?
- Porque não somos o que o dia de hoje comemora.
- Não somos de fato. Mas eu acredito que, por algum motivo que eu não sei qual, eu sinto vontade de te desejar...
- Muito obrigado. Para você também, se isso fizer qualquer sentido. Mas hoje para mim foi um dia comum. Sabe que eu nunca liguei muito para essas comemorações do comércio? Eu nunca dei importância.
- Eu acabo me deixando levar.
- Confesso que estou surpreso.
- Por eu querer te desejar um feliz dia...
- Sim. Porque somos bons amigos. Porque a gente não se entendeu muito bem no início, o que é perfeitamente compreensível quando dois universos se encontram...
- Colidem.
- Quando dois universos colidem da forma como aconteceu. Precisa de um tempo para reconhecer o solo alheio. Precisa de confiança e disponibilidade.
- O que te deixa surpreso? Não fuja.
- Não fujo. Não mesmo. Me surpreende que depois desse tempo, desse micro-tempo que você agiu na contra-mão – ou fui eu quem agiu? – você corresponda essa conversa querendo me desejar um feliz dia de qualquer coisa. Faz parte do teu irrepreensível sadismo me esperar colocar o carro na rota natural para se colocar em oposição ao meu? É só uma brincadeira de mau gosto?
- Não estou brincando. E eu não fiz nada além de pegar o telefone e discar teu número para te desejar...
- Sabe o que é? Não é por acaso que eu estou nesse show. Existe um grupo de amigos solteiros enrolados aventureiros e absurdamente disponíveis ao amor. Essas pessoas estão lá dentro me esperando para beber a noite. Para cantar uma música juntos. E comemorar, sim, esse dia, não pelo que ele representa para a parte da sociedade que está casada-feliz-em paz-celebrando o romance e seus afins. Mas para comemorar a solidão, que não prejudica mais ou menos do que qualquer outra sensação-fato. Que não abdica da ilusão do amor, mas que existe e faz parte dos dias. Eu ia te ligar agora para te contar que eu estava aqui e ia te deixar ouvir uma canção, quem sabe, para fazer parte desse rito. Desse bloco.
- Não sei o que te dizer.
- Não diga. Eu quero que essa noite seja boa. Sem culpa. Sem remorso. Sem a porra da publicidade fazendo com que eu me sinta uma aberração por estar solteiro. Sem você brincando de confundir as minhas intenções.
- Nunca quis te confundir.
- Mas sempre deu um nó no meu querer.
- Sem perceber.
- Eu acredito em você.
- Talvez esse teu desejo pelo inédito, essa busca incansável pelo sopro na nuca que vai se multiplicar em múltiplos desejos, se justifique no fato de você querer apostar uma nova história. Acho lindo que você queira tentar. Mesmo com outro, outra, a cidade está inteira. Mas seja claro. Ou sinalize. Ou se faça compreender. Caso contrário, a gente cai na armadilha de achar que é o que não é.
- Vai curtir o teu show.
- Feliz todos os dias para ti. Feliz todas as horas. Você é um cara tão especial para mim. Porque você pintou no momento em que eu pensava que havia perdido o interesse pela paixão. E mesmo a tua recusa e mesmo o teu estranhamento inicial, apesar dele, eu ainda te adoro da mesma forma. De um jeito tão particular e tão inteiro que talvez você não compreenda jamais, que talvez eu não seja capaz de me fazer entender nunca. Eu abriria mão de muitos vícios por você. Um amor não é só o amor no peito. Um amor é também essa falha na comunicação. Essas imperfeições no querer de um e no compreender do outro. Eu te quero tão bem. Eu só te quero bem, aliás. Eu vou curtir o meu show. Boa noite, boa todas as noites sempre. De coração. Onde eu estiver de noite, eu vou lembrar você.

segunda-feira, junho 11, 2007


LOS HERMANOS – O ÚLTIMO SHOW *
Fundição Progresso

- Você pode me ajudar?
- Posso tentar.
- Eu me perdi de três amigos. Eu não sou do Rio e é a primeira vez que eu entro aqui.
- Algum deles está com o telefone? Posso ligar para eles.
- Deixamos no hotel. Eu não faço idéia se eles subiram para a arquibancada ou ficaram aqui embaixo. E o show já vai começar.
- Ainda falta. Está marcado para meia-noite e ainda são onze e vinte.
- Ainda?
- Sim. Quer dar uma volta? Meus amigos estão ali. Eu só vou entregar essa cerveja e subimos para procurá-los. Pode ser?
- Pode.
- Primeira vez no Rio, então? De onde você é?
- De longe.
- Você está de férias? Veio a passeio? Tem algum parente?
- Não. Eu vim só para o show.
- O último show.
- A idéia era assistirmos os três últimos. Mas só conseguimos ingresso para hoje.
- O último dia.
- Sim. Pensando melhor, hoje é de fato, o último show.
- Meu amor, me diz o que você faria...
- Como?
- A canção... Que o Moska canta... Que fala sobre o último dia... Meu amor... Enfim...
- Acho que eu sei qual é.
- Quando você vai embora?
- Amanhã após o almoço.
- Que aventura...
- Quando eu li que era o último show, imediatamente comprei o ingresso pela internet. Quando eu percebi, já estava na estrada.
- Quase que eu perco esse show.
- Mas você é carioca, estou certo?
- Sim, mas não atentei ao fato de ser uma despedida. Não achei que fosse esgotar tão rápido.
- E como você veio parar aqui?
- Sorte, destino, o sopro dos deuses, entenda como você acreditar.
- Como é que você acredita?
- Uma combinação de todos os itens anteriores. Eu fui ao teatro com dois amigos adoráveis. Depois um amigo do sul, tão querido que assistiu o show ontem, me telefonou dizendo que estava por perto e queria me ver antes de ir embora. Encontrei com a mais linda de todas, que estava bebendo com o meu amigo do sul. Ela viria para cá algumas horas depois e eu tenho um amigo que é chefe da segurança daqui. Foi esse homem anjo, que ao me ver, me deu um convite de cortesia e desde então eu não consigo parar de comemorar. Quer uma cerveja?
- Quero sim.
- Abre essa aqui.
- Muitos amigos. Percebeu que em uma frase você citou uns três ou quatro.
- Não fiz de propósito. Você me perguntou como eu cheguei aqui.
- Eu sei.
- Foi, de fato, uma combinação de fatos que se encaixaram. Não sei tentar explicar, mas a noite foi me trazendo para cá. E eu agradeço.
- A quem?
- Aos amigos, a mim mesmo, ao meu anjo segurança especialmente, ao meu amigo do sul que mudou a minha rota. Minha amiga lindona que foi quem me deu o impulso. Estou me sentindo no Oscar, fazendo um discurso de agradecimento por ter ganhado o prêmio. A mim mesmo, por ter contrariado a preguiça. Eu ia ficar em casa, veja só. Já tinha três filmes na estante.
- Não sou de sair sozinho.
- Nem eu. E quando eu entrei aqui, três amigos me ligaram dizendo que estavam lá fora chorando para os cambistas e conseguiram, os três, entrar.
- Então você está rodeado.
- Estamos todos.
- Não trouxe a namorada?
- Não, ela ficou em casa cozinhando, maltratando as crianças, passando a roupa, lavando a louça, fingindo que eu estou no quarto dormindo. Porque eu fugi pela janela, fiz como nos filmes e amarrei os lençóis.
- Sério, não trouxe?
- Não há uma namorada.
- Você tem cara de homem comprometido.
- Isso é papo, diz que é papo vai?
- Não, não é. Aliás, por que diabos todo homem comprometido pergunta se é papo justo quando a gente afirma o óbvio?
- Se você me disser que eu aparento como um maluco ou um tarado ou um ce dê efe, eu vou te levar a sério.
- Maluco comprometido, pode ser assim?
- Então você me analisa depois de cinco minutos de conversa.
- Dez minutos.
- Caso você não encontre seus amigos e eu já estou com medo de perder os meus, você pode ficar conosco.
- Não tenho opção.
- Tem. Muitas, inclusive assistir sozinho. Ou puxar papo com outra pessoa.
- Fico com você. Se não for problema, eu digo...
- Não é problema algum. Sabe o que eu mais gosto no show dos caras?
- Diga.
- É que depois que eles entram em cena, a platéia toda, todas essas pessoas ficam amigas por duas horas. É uma grande farra.
- Gosto do jeito como você descreve as imagens.
- E eu gosto da sua boca.
- Obrigado.
- Sabe o que é uma grande loucura de pensar? É que eu não estaria aqui. Eu alterei a minha noite programada. Eu brinquei de contrariar e encontrei com você, justamente com você, que veio sabe-se lá de onde, mas que é longe e nós cruzamos as linhas. Eu não posso te beijar hoje. Eu não vou te dizer o motivo. Mas eu posso ser seu amigo. Por toda a noite. E podemos também beber e cantar e gritar até perder a voz por todas as canções.
- Eu topo.

Existe sempre o momento que precede a ação. Falo do antes, do quase, do segundo que define o próximo passo, a próxima palavra, o olhar. O momento de seguir quando o sinal abre, quando o sinal fecha. A gente sempre avança, a gente sempre freia quando o sinal fecha no repente. Eu estou tentando te falar do quase, do que ainda não é, mas vai ser e é preciso algum tipo de equilíbrio e sanidade para que esse quase se transforme em fato. Qual é o momento em que eu decido o que fazer, como agir, que direção trilhar, que beijo roubar, que carinho tecer?

Me deixei levar pelo trânsito da noite animada, cerveja e a grande festa do adeus você, um feixe de clareza, pensamento iluminado, ainda que embriagado, entre a adrenalina e a leveza e a doce certeza de que seguimos adiante o nosso amor de ontem que hoje encerra um passado confuso e sem foco. Percebi pulando, sorrindo para o teu sorriso, que a nossa história segue adiante com velhos cuidados novos. Com o coração compreendendo sutilezas, com novas pessoas entrando na história e trazendo sabedoria e encantamento. Como se o olhar ganhasse profundidade por um segundo no detalhe que alguém - qualquer alguém - percebeu e que mudou para sempre as cores da história. Algum momento de clareza onde percebemos e concordamos que simplificar nos coloca em movimento e em contato com o real.

De tão confuso, entre linhas embaralhadas, abandono, por uma questão de bom senso, a tentativa de compreender as razões maiúsculas de tudo o que é.

Pra nós todo amor do mundo.

____________________________

* foto de Mauro Nascimento

sexta-feira, junho 08, 2007



A LIBERDADE É AZUL de Krzysztof Kieslowski
Chega de viciosos círculos. Volto ao vício primário de um baseado para dormir. Volto ao cenário carioca, sujeito ao surpreendente e ao improvável. Ao imprevisível permitido, de fatores e faturas. Volto ao subjetivo necessário. Completo de memórias, ciente de todas as histórias ocas e transbordadas. Em dez segundos a mochila estará nas costas, a porta será delicadamente fechada e deixe que eu mesmo gire as chaves. Não estou trancando possibilidades. Estou abrindo a vida. Você consegue compreender? Sem exclusão, sem complicações, sem substituições ou armadilhas. A vida real é sem cortes e no tempo exato dos minutos. Sem música ao fundo, sem close no rosto, sem corte e sem planos. Eu tenho planos. E desejos mínimos e simples. Nossa história, nosso amor, nosso encontro me fez melhor, maior, me enobreceu o olhar. A vida não é tão limpa como você imagina. Não é tão exata ou controlada. Confusão, concessão, tudo isso é natural. Não confunda sua efêmera beleza, sua aparente tranqüilidade, sua frágil segurança com qualquer outro sentimento, com qualquer outra sensação que não sejam as reais. Pessoas são sonhos também. É nos olhos do outro que nos permitimos também voar. Mesmo no meio da mais desordenada confusão, mesmo na velocidade intensa da cidade. Eu te amei. Eu te amo. Mas eu quero mais. Quero ser amado. Quero quem me ame. Te encontro no futuro, te convido para um sonho, aceito teu convite para um jogo, vamos juntos ao cinema acordar um tanto dos dias. Um amor vivido a gente aproveita e soma. Por dez segundos, por dez anos, dez sopros. E repensa na primeira oportunidade. Eu repensei você hoje.

domingo, junho 03, 2007


PARIS, TE AMO

de Olivier Assayas, Frédéric Auburtin e Gérard Depardieu, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Joel Coen e Ethan Coen, Isabel Coixet, Wes Craven, Alfonso Cuarón , Christopher Doyle, Richard LaGravenese, Vincenzo Natal, Alexander Payne, Bruno Podalydès, Walter Salles e Daniela Thomas, Olivier Schmitz, Nobuhiro Suwa, Tom Tykwer, Gus Van Sant e Emmanuel Benvihy

Eu não vou te olhar mais como um personagem. Um galã à espera do movimento da câmera para estar em ação no seu melhor ângulo, na sua mais perfeita e detalhada e porque não subjetiva, beleza intocável. Eu quero o possível. De roteiros e sensações roubadas, fico com o cinema. Porque ele não me engana. Ele me fascina mas me deixa estar sem ser. Eu gosto de descobrir. Eu gosto de poder me surpreender redescobrindo.

A
- Vamos sair?
- Não, não. Hoje não.
- Mas hoje é sábado. Vamos sair?
- Quero ficar em casa. Curtir a chuva. O frio.
- Como foi ontem?
- Cansativo, mas muito bom. Cansaço acumulado. Desde que cheguei da viagem, domingo passado, ainda não relaxei.
- Ainda não me viu...
- Porque nossos horários são incompatíveis.
- Desculpa sua esse papo de horário...
- Antes nós éramos incompatíveis. Então a vida brincou, mudou o repertório, nos tornou possível.
- Nem tanto assim.
- Agora os horários são incompatíveis. Viu como progredimos?
- Já ouviu o novo da Bebel Gilberto?
- Sim, ta no i-pod. Aliás, esse negócio de i-pod me transformou em um monstro.
- Sim, sim. Não pode mais me criticar.
- Eu quero todas as músicas do universo. Já tenho quase 10 gigas de música.
- Você é hiperbólico.
- Vou te dizer quantos dias de música eu tenho.
- Se eu disser que não quero ouvir, faz diferença?
- Sete dias, vinte e três horas, quatorze minutos e quarenta e cinco segundos. Quase oito dias ininterruptos de música.
- Você é doente.
- Eu sou.

B
- Não vem dormir?
- Vou terminar de assistir o filme. Falta pouquinho.
- Boa noite, então. Durma bem.
- Suas malas estão prontas?
- Sim, estão arrumadas. De manhã cedo, eu confiro. Alguns objetos pessoais eu levo na mala menor. Eu recolho antes de sair.
- Não vou poder te acompanhar ao aeroporto.
- Sério?
- Sério. Você não ouviu o recado no seu celular?
- Não, eu estou com problemas na caixa-postal.
- Não posso. Me escalaram em cima da hora e eu dou a primeira aula amanhã cedo.
- Você raramente trabalha na parte da manhã.
- Raramente não significa nunca.
- Raramente significa vou trabalhar para não ter que dizer adeus ao meu quase ex-marido.
- Raramente significa cumprir ordens do meu supervisor. Você não vai morrer. Só vai viajar.
- Quando eu retornar, já não moramos mais juntos. Desde que você decidiu a separação, ainda que eu não compreendesse, eu te respeitei. Separamos os quartos. Anulamos o sexo. Comunicamos aos amigos. Apesar de tudo isso, eu nunca levei a sério a tua decisão. Eu sempre imaginei que por morarmos juntos ainda, um dia você ia perceber que seria uma besteira nos separar.
- André, eu não quero e não vou conversar mais uma vez sobre isso. Boa noite, durma bem, boa viagem, compre o que te pedi, dê lembranças aos seus pais, paquere alguém no aeroporto, faça sexo no avião, descanse os dias e volte solteiro, livre, desimpedido e morando em outro bairro.
- Você é frio.
- Eu sou.

Eu não sei repetir um olhar. Eu não sei beijar igual duas vezes. Eu não sei tocar alguém sem valorizar o momento. Nunca é igual. Nunca. Pode parecer, mas o toque, a intensidade, o suor nunca desce pelo mesmo lado, as explosões são inéditas porque a vida é. Eu gosto de fazer com que alguém que eu amo sinta-se especial. Eu gosto dessa sensação de saber. Eu não tenho vergonha quando não sei o caminho. Eu pergunto, eu investigo, eu olho nos olhos. Posso demorar, mas eu chego. Eu quero chegar.

C
- Te incomodo?
- Claro que não.
- Posso entrar?
- O que houve?
- Quero ler um trecho de uma carta. Posso?
- Ta apaixonado, bichinho? Você parece tão frágil.
- Eu terminei de escrever agora. Ainda está tudo muito quente. Muito recente.
- Vou sentir ciúme?
- Provavelmente. Mas você não pode me culpar. Você sempre disse que eu deveria me apaixonar por outra pessoa, que eu nunca te amei, que eu tinha uma idéia de romance com você que não era real.
- Eu sei o que eu te disse.
- Não é ruim estar apaixonado. É?
- Você está me pedindo permissão, é isso?
- Não.
- Fico feliz por você.
- Dessa forma? Feliz por mim sem dar um sorriso? Sem me olhar com carinho? É assim que você demonstra seu afeto?
- Por isso eu não acreditei no teu discurso amoroso. Você é viciado nessa sensação sem nome. Nesse abismo, amor, sei lá.
- Você não acreditou? Você me disse não. Você me fez sofrer. Você me deu um pé na bunda e veio com o discurso de amizade. Você me disse que eu deveria seguir em frente. Sair mais do apartamento. Enfrentar a vida lá fora. Gostar de alguém que possa gostar de mim.
- Eu sei o que eu te disse, merda. Não precisa me jogar na cara.
- E quando, depois de sei lá quantos meses, eu saio de casa, aceito sair de casa e conheço alguém. Alguém bacana, que não me intimida tanto, que me faz sorrir, que me atrai fisicamente, que me ensina tanto e está disposto a aprender, quando eu finalmente encontro alguém que eu já não tinha mais esperanças de encontrar, você faz cena de ciúme? Porra, o que nós somos um para o outro?
- Você não ia ler a carta?
- Foda-se a carta. Foda-se você. Você é egoísta.
- Eu sou.

D
- Eu queria te dizer, homem doce de tantos anos atrás, que eu ainda encontro espaço para te amar esse sono de menino com urgência para virar homem. Que ainda existe em mim um tempo de amor, cíclico que de quando em quando me pega de surpresa e chega de mansinho como o inverno até a estação seguinte e assim por diante até que a próxima flor cresça e pétala por pétala, despeça-se de mim para um novo florescer. Compreendes essa história de flor, semente, esse processo óbvio de renascimento e cuidados para poder brotar? Eu te observei dormir por vinte minutos. Depois avancei pelo corredor profundo e frio, entrei no elevador e eu pude ouvir a música crescer, algo parecido. O elevador descendo, ao volume crescente, as emoções expostas ao caminhar pela rua e esbarrar em todas aquelas vidas que você não conhece e não sabe se vai ter a oportunidade de conhecer um dia. A luz do sol tímida no início da manhã e o céu azul de outono, ainda ouço o mar na rua de trás e hoje definitivamente não é um dia para observar as ondas. Faz frio apesar do sol. Faz tempo que faz frio. Eu sou um homem de imagens e palavras. Muito mais de imagens. Eu gostaria de poder te dizer imagens. Eu gostaria de poder te dizer meses de amor. Te informar noites e poemas e o quanto eu te adorei. O quanto eu adorei te adorar. Para mim, você vai ser sempre esse homem admirável, que me surpreende com os carinhos mínimos e me encanta os olhos sabendo ser tão criança e tão desprotegido. Tão íntegro e seguro, quase um adulto. Essa delicadeza bruta confusa e exata.
- Obrigado, querido. Qualquer resposta positiva e a nossa produtora entra em contato.
- Até logo, então.
- Você pode chamar a próxima atriz, ao sair?
- Posso.
- A propósito, o seu teste foi muito interessante. Você é muito intenso.
- Eu sou.

Eu não gosto de textos repetidos. A idéia pode parecer a mesma porque tudo já foi dito e pensado, mas o texto precisa ser outro. Não gosto de mistérios e cenas desnecessárias. Porque isso é cinema. E eu quero o real. De todo o faz de conta, o que me interessa é o amor. Por isso eu não vou te olhar mais como um personagem. Dessa falha dramática, eu corrijo o perfil da minha personagem. Para seguir adiante.

E
- Eu gosto de você, é isso. Não existe outra forma de te dizer isso. Me desculpe, eu me sinto bobo, frágil, imaturo. Eu gostaria de não ter que passar por essa situação mais uma vez e você provavelmente vai me dizer lindamente que me vê como um amigo, mas que em nenhum momento nos imaginou como um casal e que gosta muito de mim, mas que a minha amizade é tão importante, que não devemos estragar tudo isso, sabe que eu odeio essa palavra – tudo – detesto quando alguém me deseja tudo de bom... o que é esse tudo? Eu gosto de você. Desde a primeira vez que eu te vi. Antes de te ver na verdade, eu já tecia pensamentos românticos em relação a nós dois e...
- Eu adoro você. E não é como amigo. Não é só como amigo.
- Agora eu estou em pânico.
- Por quê?
- Faz tanto tempo que alguém não me corresponde que...
- Faz tanto tempo que não me sinto tão especial.
- E como é que a gente faz?
- A gente se beija? Pode ser?
- Sim, claro, pode, mas e depois do beijo? Eu quero dizer, e depois do depois?
- A gente coloca em prática todo o teu lindo discurso. E deixa o carinho nos conduzir.
- Eu vou explodir.
- Eu também.
- A minha mão, olha a minha mão tremendo?
- Me beija?
- Beijo. Mas eu estou tremendo tanto que não conseguiria te beijar.
- Não?
- Eu te beijaria, mas seria um beijo tremido, torto.
- Você é divertido.
- Eu sou.

Você se observa no espelho com atenção e ao observar, logo após piscar os olhos, percebe que o olhar nunca é o mesmo. Esse fragmento sempre me interessou. Por isso eu divago tanto sobre os mínimos. Por isso eu ainda tenho milhares de esperanças. Em mim. No outro. No amor. Na arte. Na amizade. Na família. Na conta bancária. No sexo efêmero. Nos saltos. No jantar. Nos sorrisos. Na palavra escrita. No destino de tudo o que a gente planta. Atenção ao desperdício. Quando a gente não espera, a vida muda o jogo. A gente não é avisado, não dispomos de tempo para reavaliação, é no movimento que a gente equilibra e cai sentado, é no desequilíbrio que a gente acerta e ganha um coração, que a gente chora e vira saudade. Atenção ao desperdício: ao que é de isopor, aos desafetos desnecessários, aos gritos sem necessidade, às palavras desgovernadas. Você observa o outro se observar no espelho. E percebe sem dizer a ninguém que ...