
A igualdade hoje deveria ser vermelha.



MISS POTTER de Chris Noonan
Eu não ia escrever porque por aqui o tempo fechou de tal maneira e hoje, ao acordar, eu liguei a televisão e lá dizia o locutor da cnn que o furacão atingiu o nível cinco lá no México. Pensei que se eu atingir o nível cinco dessa confusão que me encontro, talvez o estrago chegue a proporções irreversíveis. Talvez não. Não dizem que é no meio do caos, que muita gente encontra ordem para as suas vidas? Logo depois eu tomei um banho e caí na rua para tentar chegar ao trabalho sem me atrasar, hábito que preciso mudar. Se você me perguntar eu não sei te responder exatamente, mas acredito que trabalho sete horas por dia. Sete horas por dia eu uso para que as minhas contas sejam pagas no início do mês. Isso se o meu salário não atrasar, como de fato, está atrasado, motivo principal da minha irritação constante. Que normalmente, também anula a minha intimidade com a escrita. Não o salário, ou a falta dele, mas a irritação. Irritado eu empaco, feito burro na areia molhada. Controlo a emoção para que não exploda, fagulha fácil em estágio avançado. Fogo de palha. O que preciso dizer é que faço a travessia do arame equilibrando e segurando todo e qualquer impulso. E isso não é saudável.
Eu seguro o impulso. Travo o desejo. Porque muitas vezes eu tenho vontade de parar de discutir e te arrancar um beijo só pra ver como é que a minha boca se comporta na tua. Mas tem sempre uma pedra, tem sempre um 'mas' que me congela a intenção, que faz ventar uma palavra qualquer, uma desculpa enfim para que eu pareça apenas uma pessoa comum, encontrando motivos para esses desentendimentos naturais, essas catástrofes mínimas que nos diferem e nos refletem, amém. E te encontrar hoje me fez bem. Sentar e te ouvir falar de um coração que eu sei como funciona porque também eu tenho um coração viciado. E aqui eu te confundo porque você acha que tudo o que eu escrevo é para você e talvez seja, mas nem sempre. Como uma conversa com três ou quatro. Como uma conversa comigo mesmo. Te confundo porque não estive com você hoje ou ontem e faz um tempo que não nos encontramos de verdade. Falo de carinho, de mão no cabelo, afago, quentura, ouvidos atentos, palavras na ponta da língua esperando o trampolim agir. E eu fui conferir Miss Potter que é lindo. Para mim é lindo. Tão lindo. Não me importa o mundo, as críticas, os intelectuais. Hoje é lindo, entenda. Me sensibiliza, me fornece material para acreditar que é possível e tem que ser. Não acreditar nos mataria. Logo depois eu peguei um trecho na televisão de A Dona da História e lá fui eu, fodam-se os jornais, foda-se quem odeia os filmes da Globo, eu fui. E ir assim, dentro de casa, aquela cena final de um amor chorado no meio da rua e é você quem eu quero para o resto da minha vida, uma mulher optando que quer viver a sua vida inteira com um homem e que dói sim, fazer escolhas. O abraço, as lágrimas, os sons do abraço, som de quem é humano, quem chora e gargalha, não compreende, mas sente. E é sobre isso que eu quero escrever. O sentir. Porque eu tenho vivido confusões e eu já não sei mais o que dizer ou para quem dizer. Já não me importo de escrever que talvez eu te ame e que todas as pessoas leiam. Sempre assinei os meus textos, sempre assumi as minhas merdas, mesmo no pior dos dias. Desde cedo eu aprendi que somos responsáveis pelos nossos atos. Brotem sementes ou explodam em desastres. Minha mãe me ensinou isso com um nó na garganta. Escrevo destravando. Rompendo o laço. Gritando que é difícil não saber como agir porque não sei o que sinto. E se existe algo entre nós que precisa ser resolvido é que eu preciso dar nome, explicar passo por passo, da mesma maneira que explico ao meu sobrinho como colar figurinhas no álbum, como nascem as plantas, porque é dia ou noite. O mistério, o que não tem nome, esse subjetivo me tira do eixo, me puxa o tapete. Se posso evitar essa introdução, se tudo é o que é, não me desafie, por favor. Eu quero jogar uma partida a dois. E se é apenas um, mais uma vez um, não desperdice o nosso tempo porque seria injusto conosco. Escrevo destravando, desatando, sem parar porque eu te amo pra caralho e eu quero te abraçar e eu quero te contar da minha infância, das músicas e filmes, momentos do cinema que me encantam. Eu te mostro, eu te indico, sentemos juntos. Vamos ler poesia, trechos de imortais, deixe-me saber de você, do que fazia antes da areia nos reunir. Eu quero chorar. Me deixe chorar sem pedir explicações, sem crediário ou data de vencimento. Me mostrar. Te reconhecer. Soltar o desejo, explodir o impulso, transformar-me em nós.

ÍDOLOS - TEMPORADA 2

NA CAMA de Matías Bize
- Qual parte você não compreendeu?
- Você está se precipitando. Eu entendo que você esteja chateado. Faz um tempo que eu quero parar para conversar com você e simplesmente conversar...
- Eu não quero conversa. Não quero discutir relação. Não quero ouvir seus argumentos. Não tenho vontade de parar por um minuto que seja, para justificar, para me justificar. Eu não quero mais.
- Eu vou tomar um banho, a gente sai e vai jantar. Só preciso de dez minutos.
- Você não precisa tomar banho para se sentir mais limpo.
- Você não precisa ser grosso.
- Eu não quero mais. Sem drama. Sem música de fundo. Sem lágrima. Simples, seco, verdadeiro.
- Eu te fiz alguma coisa? Eu não compreendo.
- Sabe que eu detesto essa palavra? Coisa. Você não me fez coisa alguma. Eu não preciso explicar. Você faz essa cena parecer como a de um casal que está junto há dois, três anos. E nós saímos desde julho. Se eu for colocar no papel, não saímos juntos nem seis vezes. Então compreenda que eu não te quero. Eu não quero mais você aqui em casa. Ou na minha cama. Especialmente na minha vida.
- Você não parece o cara que eu conheci.
- O cara que você conheceu curtiu a sua cantada. Embarcou a primeira vez na tua conversa e não foi tão difícil. Eu tinha a sensação de que você seria mais um desses homens casados, insatisfeitos sexualmente, que precisava da adrenalina da putaria, da atmosfera do proibido para te colocar em movimento intenso.
- Eu nunca escondi nada de você.
- Você não escondeu a aliança.
- Eu te contei sobre a minha esposa. Te falei dos meus filhos. Que os horários dos nossos encontros seriam...
- E eu aceitei. Eu sequer pedi qualquer satisfação. Eu não tive a oportunidade e nem a vontade de te contar nada sobre a minha vida. Só que eu não sou seu analista. Eu não preciso de tanto por tão pouco. Eu não quero me sentir responsável por você. Sabe quanto tempo eu demorei para me sentir dono da minhas escolhas? O que eu quero te dizer, é que eu não quero mais. Certamente você é um homem interessante. Só que eu não quero mais. Eu não quero.
- Eu pensei que a gente fosse ficar junto.
- Junto comigo? Como num relacionamento? Dividir a vida, a casa, os amigos? Você vai abandonar a sua vida e se mudar para cá? É isso?
- Isso é ridículo.
- Ridículo é você querer me fazer acreditar numa mentira barata. Como se eu fosse uma amante dos anos trinta e você não tivesse coragem para abandonar a tua mulher e me enrolasse por meses, anos a fio, sem fuder nem sair de cima. Eu não quero que você abandone ninguém por mim. Você não teria coragem de quebrar a sua vidraça.
- Olha a situação que você me colocou.
- Eu não te coloquei em lugar algum. Aliás, te coloquei na minha cama seguidas vezes. Qual a parte, eu repito, que você não compreende? Ou o orgulho feriu? Ninguém nunca te deu um fora, cara? Eu não quero mais putaria.
- Então você acha que tudo o que houve entre nós foi isso, putaria?
- Putaria da boa. Putaria masiúscula. De me deixar de cabeça para baixo, de me fazer gritar na cama. Você é ótimo parceiro. A gente combina, se entende, se encaixa e em tão pouco tempo, eu sou obrigado a te dizer que essa química é admirável. Só que eu acordei hoje cedo, sozinho, me olhei no espelho e entendi que se eu não fizer por mim, eu vou ser esse cara solteiro, que trepa com desconhecidos ocasionalmente e que se satisfaz com três ou quatro orgasmos por semana.
- Eu adoro a nossa cama. Eu adoro te pegar pelo cabelo e te xingar...
- Você é alguém que me usa para descortinar o homem que você não tem coragem de ser.
- Eu não sou uma farsa.
- Você diz essas sacanagens na hora do sexo para me estimular, para me convencer, para que o meu desejo de te dar prazer seja maior. E quando eu faço o que você me pede, quando você consegue sinalizar o que você quer, o que você gosta, quando você me coloca na tua melhor direção e explode, eu vejo os teus olhos. Eu vejo você e a sua máscara quebra. É assim que você se entrega. E se mostra. Só assim, nesses segundos de intimidade, é que você tem coragem para ser quem você é.
- Vai se fuder, garoto.
- Com você eu não quero mais.
- Você me analisa de acordo com a sua experiência.
- Eu já tive medo. Eu nunca fui casado e nunca tive que romper uma relação antes, mas eu sei bem como é ter medo para poder se expressar e por mais que você negue, o que para mim é perfeitamente natural, em algum lugar com um outro alguém, em qualquer época, você um dia ainda vai lembrar dessa conversa.
- Acho improvável.
- Mas não impossível.
- Fica assim, então?
- Fica assim. Eu não tenho nada contra você. Eu te abri a porta da minha casa. Você é tão lindo e tão cheio de delicados problemas. Só preciso de um movimento. Preciso largar essa vida de plástico. De cinema escuro. De pau sem nome. Patético e clássico. Eu quero acordar, me olhar no espelho e não estar sozinho.
- Eu não posso te oferecer isso.
- Eu não pedi.
- Eu sei que não. Posso te pedir uma última vez? Uma despedida?
- Não, não pode. Também não pode me ligar. Também não quero mais mensagens sacanas. Não pode. Você não pode mais. Eu não permito.
- E se um dia a gente se esbarrar?
- Olha, eu não sou louco nem nada, cara. Se uma dia a gente se encontrar, a gente se cumprimenta, a gente faz como todo mundo faz. Só preciso te pedir um último favor.
- Claro.
- Saia da minha casa.


... mudamos de cor, de tom, de clima, de atmosfera, o metrô cheio, a testa suada, o fone no ouvido e de longe um violino e de longe a cidade em movimento e alguns raios cortam o céu e sacodem a cidade e então a chuva forte e a roupa molhada enquanto caminho sem urgência enquanto os demais correm com pressa, fugindo da água, fugindo das poças, fugindo da tempestade. Os pingos grossos, o calor subindo do asfalto, faz mais calor e nem é verão enquanto caminho cada vez mais molhado cada vez mais aliviado cada vez mais feliz porque estou eu também no meio de uma tempestade íntima, o que me faz cúmplice do vento e dos ruídos de todos os raios de todo a cidade em estado de alerta que dá um nó quando a natureza resolve agir impulsiva por excelência e eu admiro excelências.
... alguns passos mais tarde estava eu na locadora e papai falava sobre a diferença que pode aproximar os interesses que pode afastar os percursos. Éramos dois homens ignorando a tempestade para conversar e é tão raro conversar e perder a noção do tempo, apenas ouvir e dizer e debater e discordar, sem lanças ou escudos, sem disputas ou preocupações com o que vai ser dito, conversa sem pódios, sem medalhas, apenas os olhos nos olhos e o momento. Fechamos as portas e ao entrar em casa o sobrinho agitado e sempre impressionado com o inédito e a festa de todos os dias, as palavras e o carinho, mínimos que eu respeito. As contas de sempre e uma carta de um amigo que se perdeu de mim faz muito tempo. As histórias descobriram outras paisagens, outros personagens abriram a cortina, ganhou outro desfecho o nosso encontro. A lembrança viva, a letra que eu sempre achei tão linda e tão segura, o tempo que passou, a sensação que nunca deixou de existir e lá estava ele, entre raios e trovões e os meus olhos molhados observando a chuva cumprir seu ritual, as janelas abertas, a casa dando as boas vindas.
... depois ela me ligou e me avisou que ele chega na semana que vem. Que vai ficar pouco tempo, mas que virá nos visitar. E faz pouco mais de um ano e foi tão forte e tão decisivo. Veio de um encontro pela internet que nos aproximou os interesses, ele gostava dos meus textos e eu gostava das suas fotografias. Ele gostava do meu verbo e eu gostava do olhar dele. E quando ele chegou trazendo o sotaque do sul, nos apaixonamos dentro de um fast food sem dizer uma palavra sequer e nos reconhecemos e vivemos dias tão felizes pela cidade imponente e sua arquitetura hipnótica e toda a liberdade e a molecagem de ser carioca mais a praia e o chinelo e os meninos do rio e do Caetano provocando arrepios. Depois ele voltou para sua cidade e eu senti muito e aprendi porque ele me deixou ensinamentos e a certeza de uma amizade e de um carinho e de uma história que é tesouro e corre nas veias. Depois ela se corrigiu, que não leu o e-mail direito, ele só chega em janeiro e já dei muita risada porque ela quer tanto que ele chegue que antecipou a sua vinda. E janeiro é quase ali se a gente for somar. Antes ainda tem os meus trinta anos e eu me reservo um porre porque são trinta anos e eu quero celebrar, não me pergunte as razões e depois o ano vira provavelmente na praia, se ela quiser me acompanhar mais uma vez, provavelmente em Copacabana, paraíso dos turistas, bairro que eu particularmente acho claustrofóbico, globalizado em demasia e que de tanto circular pelas ruas, acabei me encontrando ali no canto da Barão de Ipanema no colo do melhor amigo.
... então ele outro chegará. E eu tenho alguns meses para alimentar a idéia de novamente abraçar e novamente sentir meus olhos no sorriso e novamente o carinho e sempre o carinho e as noites para que possamos ouvir todas as músicas para que a gente possa lembrar da chuva do vinho e do tom. Anyway, eu tinha um conto para contar que se perdeu entre as linhas. Não importa. Aqui eu brinco de me perder e me encontrar. Aqui é como todo lugar. Onde cada um enfrenta as suas cifras, equilibra seus maiores sonhos, realiza os seus pequenos desejos, rega as flores porque aposta na beleza, acredita no outro porque é preciso se lançar em histórias de carne e osso, de sangue e suor. Como toda cidade-pessoa, a gente percebe que o ideal mesmo é não ter um ideal. Que o real é mais fascinante por esse mesmo motivo: é real, no tempo de agora. Cada um se ajusta ou implica com a montanha-russa do acaso, dos encontros inusitados, dos esbarrões insuspeitados, dos olhos que nos descobrem quando não esperamos, quando não queremos descobertas, apenas o velho dia-a-dia. O bom e saudável dia após o outro.