terça-feira, novembro 27, 2007




HALF NELSON de Ryan Fleck


Delicadamente percebo em tuas mãos algum tipo de pano vazado, nem tão pesado nem tão leve. Aos poucos, durante a conversa, você abre o pano e com todo cuidado, revela uma rede, dessas de circo, e me pede ajuda para prendê-la, extremidade por extremidade. E eu te ajudo porque ela nos servirá, você me sopra. Então sentamos no sofá e você me olha nos olhos e não quer perder o meu olhar, você me diz sem me dizer. Eu desvio por alguns segundos e retomo a tua retina que brilha e me despe de truques, de manias, de qualquer movimento sintomático que pode me ajudar a te enfrentar durante essa conversa. Teu olhar verdadeiro busca o meu olhar verdadeiro e a rede já está presa. Você amarrou bem a parte que te coube? Eu não me lembro bem e talvez ela não seja necessária, já parou para pensar? Talvez ela não seja necessária. Talvez ela represente apenas o cuidado de ambos, por razões diferentes, eu presumo, mas talvez seja apenas o cuidado natural com que ambos nos descobrimos, universo infinito. E delicado. Essa percepção de que sendo tu tão apaixonante sendo eu tão apaixonado e vice-versa, a rede nos amorteceria se por algum momento, ousássemos. Se. Algum momento. Um de nós, ou os dois, vai saber, arriscasse um salto. Mesmo que seja sem impulso, apenas para saber a sensação de se deixar levar e fechar os olhos e perceber o corpo cair. Assim.

Eu, de tão caseiro, comprei flores para a janela. Quando tenho desejos incontidos de ruas e luzes, saio pela cidade aproveitando as curvas e as pessoas. Madrugada passada voltei para casa numa dessas vans enormes que socorrem os passageiros notívagos e sem dinheiro para o táxi. Atravessei a cidade em menos de vinte minutos e cheguei em casa para um banho frio para espantar o álcool e a fumaça. Dormi tanto e sem preocupação que levantei depois do horário do almoço, preocupado com as flores, que precisavam de água. Doce sensação de saber que agora não sou mais tão só eu mesmo. Que precisam de mim as flores da janela para controlar a luz do sol, a intensidade da água, o cuidado dos dias. Que independente de tudo o que há, agora elas existem dentro do apartamento, dentro dos meus dias, dentro de tudo o que é frágil e te tudo o que é laço. E são companhia, são companheiras, são poesias futuras. Entre nós, não é preciso nenhum tipo de cuidado, além do que se tem. Nada de redes que amortecem. Nada de saltos ou quedas. Não. Aqui é assim, elas crescem e eu cuido. Elas florescem e eu ajudo. Nessa troca óbvia que também enobrece. Nessa relação justa que a ambos favorece. Sem pedidos. Sem promessas. Sem o medo. Algo ente uma permuta justa entre quem cuida e quem é cuidado. Verdadeiros e atentos, sabendo que se um dos dois, por motivo qualquer, se descuidar, algo pode desandar, alguém pode enfraquecer. Sem lições porque o ensinamento nasce dos dias e das necessidades. Então atenção, porque tudo é divino maravilhoso. Mas existe o compromisso.

Não há nada para te dizer porque ainda não sei como dizer, o jeito de dizer, eu quero dizer. Tenho dias de verborragia e silêncio, como qualquer um. Momentos de clareza e momentos de confusão como qualquer outro. Ouço segredos de amigos, compartilho amores e ilusões, dou risada e aplaudo de pé e também me calo diante daquilo que não me provoca. Daquilo que não me move. De tudo o que não me importa e eu procuro me importar com os mínimos de cada um porque deles brotam a confiança, o cuidado, o carinho, a via de duas mãos. Eu te abandonei na estação de trem e me disseram que você se manteve intacto. Não moveu um músculo da face, não tombou nenhuma lágrima, não suou frio. Eu te deixei antes que o trem chegasse. Eu te disse obrigado e te abracei antes que amanhecesse. Você não me escreveu nenhuma carta. Nenhum recado, nenhum pombo quebrou a minha vidraça com qualquer notícia sobre você. Dentro do silêncio, eu fiz uma canção. Uma canção que preencheu todo o espaço entre a tua partida e a minha chegada. Estou confuso: entre a tua chegada e a minha partida. Deveria ter fotografado. Poderia ter eternizado o adeus, ainda que a confusão de quem chegou e quem partiu, permanecesse. E permanece. Eu não sei do que virá. Eu não sei do que existe entre. Eu só sei das flores. E do meu compromisso. Entre.

terça-feira, novembro 20, 2007


NOSSO AMOR DO PASSADO de Hans Canosa

Ninguém me conhece da maneira que você ousou.
Ninguém foi tão profundo
E eu vou usar o mar como metáfora,
Um dos meu maiores medos,
E resistiu por tanto tempo.
O que me assusta
E não deveria
É que não estou dando um peso maior ao fato.
Ou organizando as palavras de forma meticulosa
Para parecer misterioso
Ou interessante.
Não.
De fato, ninguém sabe tanto sobre mim.
Do que não é visível.
Do que não se percebe ao observar
Da forma que você...
Eu não sei completar essa frase.
Você conhece tudo o que não é agradável.
Você sabe quando estou agindo de forma educada
Somente para cumprir formalidades.
Sabe quando eu concordo querendo explodir palavrões.
Das ironias, dos segredos, dos armários
Das insatisfações, receios e despudores
Dos pecados, todos eles e os seus desdobramentos, você sabe.
Algumas vezes sorri para eles e me respeita, cavalheiro que é.
E que me ensina a ser.
Quase sempre.
Você sabe do que me desagrada.
Do que me incomoda.
Do que me paralisa e não sei se é comum
Alguém saber tanto do outro
Mesmo depois de tanto tempo.
Eu não sei se é natural alguém conhecer sobre tanto
Do que é sombra em outra pessoa.
Se é trivial se deixar radiografar sem garantias
Porque com gente é assim:
Sem garantias.
Gostaria de qualquer rede de segurança,
Qualquer direito que me protegesse
Mas se eu resolver listar tudo o que eu gostaria
Poderia escrever por três dias.
Meses, talvez.
Provavelmente, eu não sei tanto sobre você.
Não me aflige não saber.
Não saber, na verdade, me salva.
Não saber, de uma forma bem sarcástica, é minha garantia.
Não saber, só me faz tomar ciência de que sou o tipo de pessoa
Que se deixa decifrar facilmente
E não acredito que somos todos tão misteriosos assim.
Mas permitir é uma escolha
Assim como conviver, ser amigo, amar.
Se permito tão fácil e tão simples,
É também pela qualidade do tempo.
Do amor
Que me sopra que ninguém aproveitou tanto do agrado
Das luzes
Da gentileza
E das sopas de letrinhas da forma como você se lançou.
Tempo do amor, eu dizia.
Ou vaidade deslavada.
E você, homem lindo, já compreendeu
Percebeu
Retribuiu
E se esquiva ou se esconde
Ou talvez não tenha confiança ou carinho ou amizade suficiente por mim
A ponto de se deixar penetrar.
Do equilíbrio entre o sim e o não
É que talvez se explique o fato de que nós dois juntos
Consigamos nos preservar sem tantos espinhos.
Daquelas equações improváveis
Daqueles nós insolúveis
Daqueles casos descartados
Que se alimentam da improbabilidade
De perceber a beleza que sempre existiu
Mas nunca foi provocada.
Ninguém sabe tanto dos meus vulcões.
Ou suportou por tanto tempo todo tremor de terra.

Sei também eu das tuas e dos teus desvios
Conheço os atalhos
Sei da roupa amassada
Da fome gigantesca
De quando os holofotes descansam
E a maquiagem derrete
Da lágrima que ninguém viu, eu sequei cada uma.
Aqui vou me desdizer
E deixar de ser poeta:
É recíproco - sim - porque ambos compreendemos
Que é preciso alguém para dividir qualquer tesouro
Empoeirado ou não.
Companheiros, me sopra o racional
Se não fosse essa leve sensação de não se deixar tocar
De te exigir atitudes
Mendigar migalhas
Eu, com reserva para tantos invernos.
Camille Claudel que me assalta a sensação de não satisfação
E que não chega a ser nada além de uma sensação
Tola
Que não esbarra na história real de nós dois.

Ninguém nunca me resistiu por tanto tempo.
Ao meu amor. Carinho. Ou qualquer outra urgência branda.
Ninguém foi tão meu amigo por tantas quadras
Me entregando a sensação de que cada dia é um novo dia.
Nova página para rabiscar
Ávidas crianças diante da tinta abundante e plural.
Ciente dos cuidados, da conquista que se refaz
Feito tecelão dos bons diante da sua melhor roca.
Era sobre isso que eu queria escrever:
Sobre essa responsabilidade
de ser e estar
Que a gente vai honrando com sal pimenta
E um açúcar nada amargo.

The first time ever I saw your face…
Essa canção não sai da minha cabeça.
E eu ainda não consigo concluir essa frase.

quarta-feira, novembro 14, 2007


POSSUÍDOS de William Friedkin


- O pão acabou.
- O pão acabou? O pão acabou na padaria? Você me diz que nessa padaria, que vive de vender pão, não tem pão, é isso?
- Nós vendemos outros produtos também. Aquela prateleira, por exemplo, está cheia de bolos, biscoitos, uma série de outros alimentos em grande quantidade e dentro da validade. Pão, o pão é que acabou.
- Meu senhor, eu saí de casa para comprar pão.
- Perdeu a viagem.
- Essa chuva, esse vento frio, eu saí de casa no meu dia de folga. Eu só quero pão. O senhor pode chamar o gerente?
- Eu sou o gerente.
- O dono, então. Chame o dono.
- Eu sou o dono, o gerente, o faxineiro, o balconista e o caixa.
- E o padeiro, o senhor não é o padeiro?
- Não, eu não sou o padeiro. O padeiro adoeceu.
- O senhor não sabe assar um pão, a massa, o senhor não sabe fazer a massa? Eu posso pagar.
- Eu não aceitaria. Eu não sei cozinhar. E isso encerra a nossa conversa. O próximo, por favor.
- Não encerra não. Eu entrei aqui para comprar pão e eu só saio daqui com um pacote na mão. Quero comer um cachorro-quente, deixei pronto o molho. Não posso aceitar que não tenha pão.
- Daqui a pouco, rapaz, você vai bater o pé no chão e vai gritar que quer porque quer.
- Mas eu quero!
- Feito criança mimada que merece correção. O próximo, por favor.
- Nada de próximo não senhor.
- Você está atrapalhando o andamento da minha padaria.
- Padaria que é padaria tem pão!
- Eu só não chamo o segurança...
- Porque o segurança é o senhor, acertei?
- Porque são duas horas da manhã e posso eu mesmo te colocar pra fora.
- Exatamente por ser duas horas da manhã é que eu preciso de pão. Não existe outra padaria aberta. Ou supermercado. Se eu estivesse em Copacabana, tudo bem. Mas por aqui, o senhor entende, não entende?
- Perfeitamente. Quem parece que ainda não compreendeu foi você.
- Moço, eu só quero comer pão. Eu não tô pedindo uma iguaria, não quero nada exótico. Eu só preciso... Por que é tão difícil de entender o que eu preciso? Por que é que todos os dias, eu preciso me fazer compreender? Explicar, repetir, cuidar para que o que eu digo não perca a força, não ganhe outro sentido. E tudo se perde, é tão exaustivo. Por mais cuidado, zelo, por mais carinho que se tenha, nunca é suficiente para que não se perca o controle. Nem que seja por uma fração de segundos. O senhor entende, um pão que seja e eu tô usando essas palavras que não sei o que significam – tudo, nunca, controle – e o que eu queria mesmo, moço, eu queria chegar aqui e não precisar abrir a boca. Queria que o senhor me olhasse nos olhos e compreendesse que eu quero um saco de pão. Eu observaria o senhor me servir gentilmente, porque o seu olhar é doce e agradeceria também sem dizer nada. Eu não suporto essa cidade engarrafada, essa temperatura instável, o excesso de vozes e ruídos, freadas bruscas, gente se xingando por destempero gratuito, celulares e funks e gente demais, moço, gente demais no mundo. Se você sai para dançar, é um pesadelo. Você deveria se divertir, relaxar, mas volta tenso, zonzo. Outro dia eu fui dançar em Ipanema, era um bar gay e eu me senti tão desconfortável. Eu sei quem eu sou, eu não preciso de jaulas, eu resolvi ir para comemorar com as pessoas. A música tão alta, ninguém se ouvia bem. Para avisar ao meu amigo que eu ia ao banheiro, eu precisei gritar no ouvido dele. Ninguém se ouve e só se paqueram os que estão de acordo com o ambiente, padronizados com músculos e sem camiseta. Não tenho nada contra os músculos, até acho bonito, mas eu me sinto menos pior numa roda de samba, ali na Lapa tem uma ótima, toca até Chico.Outro dia eu tive que explicar para um garoto de dezoito anos quem era o Chico Buarque. O senhor não acha o cúmulo um menino viver dezoito anos com saúde, sem saber quem é o Chico?
- Acho.
- Eu mandei Os Saltimbancos para o meu sobrinho no dia seguinte, ele vai fazer sete anos.
- Fez bem.
- Não tô falando de solidão não. Ou de amor. Eu tô falando de desencaixe, de me sentir descolado, desgarrado do todo, fora da página. Sinalizando, etiquetando em negrito para ser ouvido, para que as pessoas percebam que eu tô aqui, que eu quero pão, um pãozinho para que eu seja mais feliz, mais completo. Menos desordenado. Não sei se é natural se sentir dessa forma: sem forma. Eu também não sei se é reflexo da modernidade, que se foda. Que futuro é esse sem compreensão? Que tempos modernos são esses onde as pessoas não se relacionam, não se percebem, não fazem contato umas com as outras? Eu sei que não adianta reclamar. Não adianta perceber tudo isso, sair daqui e voltar ao meu universo virtual. Porque isso é compactuar com a inércia, o pão, maldito pãozinho, o senhor entende, não entende?
- Meu filho, assim que amanhecer, eu mesmo te levo um saco de pão quentinho. Por favor, anote aqui o seu endereço para que a gente não perca o contato.

quinta-feira, novembro 08, 2007



DESEJO E REPARAÇÃO de Joe Wright


Havia a cidade de possibilidades. E havia principalmente a juventude urgente de quem tem vinte e tantos anos e precisa se sentir vivo. Arriscar, pensou alto e é possível que tenha falado em voz e volume. Ele agora fala sozinho, e pior, fala alto como se conversasse consigo mesmo. Arriscar porque é quase o fim do ano e a cidade é tomada por uma confusão de carros, intenções e pessoas arriscando. Como se a população duplicasse nas ruas. O que não é tão mal. Não. Existe beleza no final de uma tarde movimentada com o sol caindo e avisando que é quase verão. Existe belezano fim. Esbarrões nos braços de gente que passa e cruza as histórias de vidas que não se conhecem.

Havia o desejo de arriscar. Risco de tinta interrompendo o branco do papel. O desejo porque é quase seu aniversário. Mais uma vez seu aniversário e a soma de um ano devidamente vivido, esses quase trinta anos. Pensou na irmã que compreende com segurança os signos e as estrelas e que ela havia descoberto que ele é capricórnio com ascendente em peixes. E esses peixes deveriam significar um cuidado especial com o coração e as intenções, você entende? Ele não compreendia. Sabia o óbvio de terra, ar, água, fogo, os símbolos de fácil acesso. E era terra, pés no chão para sentir o quente, o seco, o úmido, o frio. Mas lua, estrelas, ascendentes e outros afins, não só não entendia como não fazia esforço para tentar a compreensão. Lembrou da irmã e sorriu bobamente porque sempre teve todo o cuidado, excessivo muitas vezes, com seu coração. E suas intenções.

Arriscar e sentir o coração batucar tambor gigante que grita vida. Mas como arriscar o fim da tarde no centro movimentado da cidade? Pensou em cinema, mas a amiga querida tinha planos diferentes e é assim que funciona com pessoas que se amam e se respeitam. Pensou em matar a saudade da loura linda, mas a correria dos compromissos os impediu. Buscou o tal rapaz de sempre e a central de telefones informou friamente que o celular estava fora da área de cobertura. Detestava essa mulher que repetia entre duas ou três vezes com a mesma indiferença. Até que estalou delicadamente que esse fim de tarde, esse pôr-do-sol era seu e inteiro. As tentativas fracassadas de encontrar companhia não refletiram solidão. Hoje não. Hoje o espelho soprou a palavra risco e escreveu o verbo arriscar com maiúsculas letras de um alfabeto particular. Pensou em sexo fácil, desses de sex-shop ou guetos descartáveis, mas percebeu cuidadosamente a trilha e os violinos não combinavam com o suor descompromissado de um outro alguém que talvez deixe o telefone e quem sabe outra vez, se os dois no fim, gostarem um do carinho do outro. Descartou o sexo, ele que já conhecia algumas putas pelo nome, ele que levava camisinhas extras para os travestis. Ele que hoje não queria o risco do prazer de plástico. Queria intimidade. Um abraço demorado somente para sentir o outro. O pulsar das veias, o ritmo do coração, a velocidade da respiração, cheiros. Um beijo molhado. Um segredo compartilhado. Arriscar-se no outro, no que há de nobre e selvagem, doce ou azedo. Deixar a luz do sol entrar.

Havia o desejo em demasia. Mas desejar e somente desejar, não basta. É preciso que O Desejo signifique em forma e conteúdo, em fogo e música para que o outro compreenda. Qualquer outro no universo. Os que já fazem parte. Os que ainda vão chegar. Os que passam e somente passam. Havia tão intensamente o desejo que enfrentou o final da tarde com um fio de melancolia. Resolveu ir para casa, lar de todos os lares, metrô cheio de vidas que podem se encontrar um dia, quem sabe? Ele não saberia dizer. Lembrou do tal rapaz dizendo que seu texto era simples. E sorriu bobamente porque é difícil atingir a simplicidade. É bom o simples e lhe faz bem que tudo seja como é e as folhas sejam de variadas cores mas sejam folhas. Ouvia violinos, a trilha de um cinema da memória que não saberia precisar e não era o Paradiso do Tornatore. Havia o céu nublado na saída do metrô e era bom e era lindo em profundidade e nuvens. Até que esbarrou no ombro de um homem que passava distraidamente, como ele. Uma vida que encontra outra no repente e que ao perceber o instante, os olhos reconhecem no outro uma vida que já encontrou a dele faz muito tempo atrás. Amigos de bairro, de infâncias e adolescências. Vidas que se conhecem desde a ingenuidade dos corpos no banho à descobertas dos pêlos. Do calafrio do tesão ao toque inédito no universo do corpo do outro. Vidas que comemoraram gols de Copa, que choraram perdas, que trocaram camisas quando um foi ser ator e outro militar. Vidas que se arriscaram e se arriscam todos os dias em simplicidades necessárias. Beberam o encontro depois de tanto tempo e foi bom, tão profundamente bom. Como se um fosse o risco do outro. E sequer se procuraram. Se encontraram no meio de tudo, no fim de tarde, no recomeço de um desejo. Informaram-se. Precisaram-se. Experimentaram-se. E a intimidade de quem se arrisca provoca o belo, o abismo, a comunhão, o susto. Não é assim? Vidas que se perdem e se encontram porque não se perderam, na verdade. Arriscar sempre, sorriu bobamente.

A noite foi um delicado sorriso doce.
De homem para homem.

quinta-feira, novembro 01, 2007



SOBRE CAIO E FERNANDO *



Os olhos fixos um no outro. Como a certeza de que aquela talvez fosse a última vez que se olhariam. Que seus olhos registrassem, então, o maior número de expressões, de imperfeições, de reações. A última vez, pensou o rapaz com os olhos fixos, ancorados no fundo dos olhos do outro.

- Então é isso...

A frase rasgou o silêncio como se fossem mil alarmes. Levantar de âncoras, é preciso continuar a viagem, sou jovem, essas coisas que as pessoas pensam o tempo todo e não dizem.

- Então fica assim...

Merda de português... a gente nunca fala nada coerente numa hora como essas, fica assim... assim como? O silêncio não era constrangedor, era bom. Aí vem essa tentativa imbecil de querer dizer alguma coisa pra que se justifique essa situação e eu não sei, eu não...

- Não sei, pensou em voz alta.
- O que?
- Nada, desculpa... pensando alto.

Ficaram em silêncio, mas não se olhavam mais. E o silêncio agora perturbava, constrangia.

- Olha Caio, eu quero que você fique bem.
- Eu estou bem, respondeu quase simultaneamente.
- Eu gosto de você, verdade, mas eu não posso...
- Escuta - sério, coração acelerado descompassado lâminas olhos felinos - não estraga esse momento com essas tuas frases feitas vazias não.

Soou como um pedido, um delicado pedido rude de quem se conhece com intimidade e pode ser cruel quando quer. Suspiraram juntos. Caio sentado, as costas para frente, os braços apoiados nos joelhos, quase calmo quase nervoso quase chorando quase nunca mais. Fernando de pé, lento pela sala, as mãos na barba fina, camiseta e jeans. Pegou a mochila no chão com pouca decisão, como quem não sabe o que fazer.

- Eu vou indo.

Sentado, os olhos de Caio na fechadura da porta de madeira, balançou os ombros sem saber o que dizer, doendo ali, naquele pedaço do apartamento daquela cidade louca.

- Nando, eu...você não quer, quer dizer, está frio, um pouco tarde... E se você ficasse até amanhecer?

Máquina de hospital que dá choque em pacientes com parada cardíaca no fundo do corredor imenso. Tentativa um, tentativa dois, tentativa três, me desculpe, mas o paciente não resistiu e nos deixou às nove e quarenta e cinco desse noite de inverno no Leblon.

- Só até de manhã, você pode ir direto pra loja e a gente poderia conversar, eu não sei, comer alguma coisa ou então a gente fica em silêncio, sei lá, faz silêncio, curte um som, um baseado...
- Eu prefiro recusar o seu convite, desculpe.
- Tudo bem, claro. Você quer ajuda com as malas? Eu posso chamar o Chico.

Desapontado, sem rumo, extremista. Já que não pode ficar então vai embora logo e me deixa em paz.

- Não precisa, eu me viro - e sorriu, como se o que tivesse dito surtisse em si mesmo um efeito cômico. E repetiu: - Eu me viro.

Portas abertas, barulho do elevador, um latido ao longe de cachorro assustado, malas arrastadas, oito meses indo embora. Caio sentado, imóvel, ainda sentado ainda doendo, um abismo na sala do apartamento, qualquer passo em falso e a queda que o momento exige aconteceria, a máquina de choque, a voz do pensamento, as tentativas em vão, porra de cachorro chato, nunca gostou do Fernando, deve estar festejando, ele nos deixou às nove e quarenta e cinco, fizemos o que estava ao nosso alcance, o senhor gostaria que eu avisasse a família?

A última mala e Fernando na porta do apartamento, um rosto delicado, quase feminino não fosse a barba fina, irretocável na sua exatidão de ser Fernando, passou a mão no cabelo olhando Caio que também o olhava diante do seu abismo:

- Se cuida...

Alguns silêncios em silêncio. O tempo de ouvir o outro, de assimilar a frase e produzir uma resposta automática, inconsciente que resumisse a relação, os oito meses, aquele momento.

- Você também, Fernando. Se cuida - a voz trêmula, preferiu calar, poderia chorar mas desistiu.
- Uma coisa a Adriana Calcanhoto tem razão, Caio... O inverno aqui no Leblon é quase glacial.

Sorriram os dois, olharam-se os dois, talvez pela última vez, pensou um, talvez pela última vez, pensou o outro. Portas fechando. Primeiro a do apartamento, depois a do elevador, os ruídos ficando ao longe, cada vez mais distantes, cada vez mais.

Levantou sério, balançou a cabeça como quem reprova uma atitude, ligou o som procurando um cd na estante, ele que tinha muitos cd's. Escolheu uma cantora brasileira, não selecionou faixa alguma, apenas deixou tocar até que a música encheu a sala e em poucos segundos, todo o apartamento. Abriu uma caixa pequena, verde, um sol amarelo enorme na tampa, coisa de hippie como diria sua mãe, pegou seu baseado, certificou-se de que estava devidamente enrolado e jogou-se no sofá.

Acendeu, tragou, prendeu, soltou.

- Ele deve estar pegando o táxi.

Tragou, prendeu, soltou.

- Não precisa avisar ninguém não, doutor. Já descobriram a causa?
- Ainda não, mas há indícios de sufocamento. O coração não resistiu, sabe como é.
- Sei.

Cabeça jogada na almofada jogado no sofá. Teto branco, ventilador no teto precisando ser limpo, luminária rachada. O apartamento voltou a ser apartamento. Pensamento desordenado, porrada no trânsito como se tivesse atravessando a rua e de repente o susto, o impacto, o barulho. Lembrou do acidente do filme mexicano que assistiram na semana passada, Amores Brutos, a cena do acidente mostrada de três ângulos em diferentes momentos...

- Amores Brutos... é isso... então viva da forma que você deseja, receba telefonemas de antigos, volte aos lugares de sempre, esqueça os momentos, os instantes, os segundos...

E riu chorando ou chorou rindo. Sozinho na sala, no apartamento frio, solteiro, sozinho agora. O cd tocando baixo, quase imperceptível, a voz suave de Adriana Calcanhoto preenchendo o vazio, a solidão, o inverno no Leblon cantado no menor volume enquanto Caio chorava por Fernando que estava num táxi no meio da cidade com suas malas e lembranças. Caio chorava por Fernando, pelo adeus, pelo nunca mais, pelos tantos meses juntos, pela sensação de abismo, pela brutalidade do amor e ria pelos mesmos motivos, gargalhava. Até que dormiu. Dormiu no sofá da sala como um anjo, criança cansada de tanto brincar. Teve um sonho lindo, perfeito, impossível. Sonhou como a muito tempo não sonhava.

Acordou feliz e foi ver o mar.

Para Adriana Calcanhoto
Caio Fernando Abreu
e Goya Toledo


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* esse conto, escrito em 2003, me revisitou essa semana, ao ganhar o quarto lugar de um Concurso Nacional de Contos. Felicidade tola, mas que me causa boas sensações. E me entrega expectativas.


* Imagem do filme Amores Brutos, de Alejandro Gozales Inarritu, que serviu como material bruto para a feitura do conto, assim como as canções de Adriana Calcanhotto e o desespero diabólico da atriz Goya Toledo, no filme.