sexta-feira, fevereiro 29, 2008

JOGOS DO PODER de Mike Nichols




- Você é sempre assim?
- Assim?
- Reservado.
- Nem tão reservado.
- É que eu já te fiz algumas perguntas para tentar puxar assunto e as suas respostas são sempre tão subjetivas que elas encerram o assunto.
- Eu não me justifico. Só respondo. Você me perguntou se eu era dono de uma locadora. Sim, eu te respondi e disse também que é um trabalho muito bom porque eu sou louco por cinema. Não é uma resposta convincente? Ela responde a sua pergunta, não responde?
- Responde, mas você poderia se esforçar um pouco e conversar comigo.
- Mas estamos conversando. Só achei que se fizesse um monólogo sobre os benefícios de ter um comércio cada vez mais soterrado pela pirataria, pudesse te deixar cansado. Ou te causar a sensação de que eu sou o tipo de cara que adora idolatrar o umbigo e não olha para o lado.
- Eu tô tentando me aproximar de você.
- E me dizendo isso, você acha que agora vamos nos transformar nos melhores amigos?
- Toda vez que te encontro, eu sempre observo como as pessoas são carinhosas com você. Como vocês sentam e conversam e são todos tão íntimos e tão amigos. E nós sempre nos cumprimentamos, somos sempre educados e simpáticos um com o outro, mas não vai adiante. A gente sempre fica nessa sensação inaugural. Nas cordialidades de fazer sala, de cumprirmos as regras, enfim.
- Marquinhos, eu não sei quais são os caminhos para que alguém fique, como dizer... Íntimo, mas eu posso te garantir que quando acontece, quando a gente percebe alguém com mais entusiasmo, com mais afeto, acontece porque os dois permitiram um momento de cumplicidade. Às vezes favorecidos por uma situação, outras só porque se enxergaram e arriscaram uma conversa. É um movimento natural. Dos dias. Mexe com instinto, com deixar fluir, sabe quando flui? E se não acontece, se por algum motivo esse estalo/encaixe/cumplicidade não existe, não há o que fazer. Talvez esperar por uma nova oportunidade. A não-aproximação é tão natural quanto a aproximação. Forçar isso ou tentar forjar é como pegar um atalho de um caminho obrigatório. Você precisa passar por ali para ver como funciona, o que acontece quando você pisa no chão e dobra o joelho e dá o próximo passo. Precisa da vivência.
- Eu entendo o que você diz.
- Às vezes é com o tempo e só com o tempo. Você sente falta de alguém e você nem sabia que podia sentir falta. Ou tem o desejo súbito de encontrar aquela pessoa. Porque só a pessoa tal vai suprir aquela necessidade incompreensível de estar junto.
- Eu não queria falar sobre isso, mas eu queria que você soubesse que eu gostaria de estar mais presente.
- Esteja.
- De fazer parte dos dias.
- Faça. Falando em dia, hoje é dia vinte e nove.
- Verdade.
- Não tem aquele papo de você sair e comemorar, fazer alguma coisa atípica?
- Nunca ouvi nada sobre.
- Eu devo ter inventado, então. Mas pense. Um dia que só existe de quatro em quatro anos, precisa, não precisa, ser comemorado? Se você faz algo importante, se você credita importância a alguém, algum fato, algum acaso, se ele acontece justamente hoje, você só vai comemorar de quatro em quatro anos. Merece ser tratado com respeito, com alguma solenidade.
- É só mais um dia.
- De repente essa frase registra todo o mistério que não nos aproxima. Talvez por você pensar que seja só mais um dia e eu pensar que é um dia especial, esse conflito de idéias, pensamentos tão distintos, nos coloque em posições distantes. Personalidades que não se compreendem, astrologia e suas linhas e suas casas e toda a explicação que eu não sei dar. Talvez a gente realmente não se dê bem.
- Eu queria te dizer.
- Não se apaixone por mim. Não se aprisione. Eu não sou homem para ser cobiçado. Eu não sei reagir a qualquer manifestação de carinho, de afeto. Não sei enfrentar intimidade. Não se apaixone por mim. Porque eu sou aquele que se apaixona e persegue a idéia do amor a dois, até que eu contorne o ponto de partida e volte a ser um. Eu sou aquele que ama sozinho um outro alguém e escreve umas cartas e redige uns textos bonitos, algumas vezes até arrisca falar sobre. Eu sou aquele que ama raso sabendo que no fim das contas vai ter a porta batida na cara para poder encher o peito e falar sobre amor com alguma propriedade. Compreendo estilhaços e desastres. Aprendi a me comportar em situações de urgência e acabei viciado nessa sensação de precipício, por isso eu digo e te peço, não se apaixone por mim. Porque eu não vou saber corresponder. Porque eu não sei retribuir amor. Porque eu não sei ser tão forte.
- Você não quer dar sentido ao seu dia especial?
- Você deve ter bebido muitas cervejas.
- Se você não se deixa tocar, se você não se permite, eu sinto muito. Sinceramente sinto muito por você. Porque amar alguém é lindo e nos faz compreender uma infinidade de detalhes e perceber beleza onde nunca antes havíamos percebido. Mas não se deixar amar, não saber a sensação de que existe alguém louco por você, ávido por um momento de intimidade, disposto a todo tipo de aventura, de paixão, de não lucidez, meu caro, é como me dizer que você não ouviu bem a vida toda. Que você só conhece uma ou duas cores. Que só sabe metade do alfabeto. Que é cúmplice de todas as histórias de amor da literatura, do cinema, do caralho a quatro, mas nunca viveu uma.
- Isso te desaponta?
- Isso me faz te querer mais. Se apaixone por mim. Se apaixone e vamos comemorar todo dia vinte e nove de fevereiro.
- Que brega isso, pelo amor.
- Eu já passei dessa fase de brega.
- Ah é? Passou da fase? Agora então você evoluiu e está acima da humanidade, acima do brega e do chique, do amor e do ódio?
- Dizer o que sente é brega desde quando?
- Não mude o assunto.
- Você mudou o assunto.
- Você não me conhece.
- Sei o suficiente.
- Qual o meu filme preferido?
- Eu vou aprender.
- Meu prato predileto?
- Eu descubro.
- Minha cantora preferida?
- Marisa Monte.
- Como é que você sabe?
- Viu? Eu não te desconheço.
- Marisa Monte é a cantora preferida de todo brasileiro.
- Você podia ter dito Elis.
- Eu quase falei Elis, mas minha geração é outra.
- Que outra? Sei muito bem que você pegou a fase final da Elis. Aquele disco preto que tinha Romaria. Éramos crianças, mas pegamos sim.
- Você tem esse disco?
- Até hoje.
- Você não sabe nada sobre mim, Marquinhos.
- Você também não sabe nada sobre mim. E isso é ótimo.
- Como pode ser ótimo?
- Estamos em branco.
- Você me irrita.
- Isso já é alguma coisa.
- Vamos sair daqui?
- Só se você me prometer que janta comigo amanhã.
- Não.
- Não?
- Janto hoje. Amanhã já é dia primeiro.
Para o Rafa.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008



A VIDA DOS OUTROS de Florian Henckel von Donnersmarck


Você não vai implicar comigo só porque não te liguei ontem, não é? Eu fui para Copacabana ver o eclipse. O ônibus demorou quarenta e tantos minutos, eu quase desisti. Cheguei a pensar que era um sinal para eu voltar para casa, mas eu olhei para o céu e lá estava ela, cheia, iluminada. E nuvens, muitas nuvens no céu. Depois atravessei a cidade falando ao telefone, ouvindo música e observando as ruas. Quando eu cheguei em Copa, já não havia mais lua no céu. Ou estrelas. De repente começou a ventar, o tempo fechou e o céu carioca parecia um tapete branco bem macio. Encontrei com ele na esquina inconformado. Mas e o eclipse, ele repetia, e o eclipse? Eu dizia que ele ia acontecer acima das nuvens e nós não poderíamos assistir, ele disse que não, me pegou pelos braços e me colocou no carro. Percorremos a cidade atrás da lua. Confiantes de que em algum ponto do Rio de Janeiro, teríamos a oportunidade de assistirmos juntos o tal evento raro. Lagoa, Ipanema, Leblon. Depois voltamos e ganhamos a praia de Copacabana. E ventava. Entramos em Botafogo e ganhamos as pedras da Urca. Quando chegamos na Urca, um grupo de pessoas bebiam cerveja e conversavam animadas com binóculos e cadeiras. Estacionamos, talvez por solidariedade. Talvez porque tenhamos encontrado um grupo de pessoas que também aguardavam ansiosas a nitidez do céu. Talvez para não nos sentirmos tão sós. Ou querermos cumplicidade. Ficamos ali nas pedras da praia da Urca em silêncio por algum tempo. Driblando a ausência e conversando sobre nada, sobre tudo. O telefone tocou e era ela, reclamando companhia. Voltamos ao carro e fomos encontrar o pessoal. Aí você sabe, né? O pessoal. Cervejinha, cervejinha, ainda comemos um crepe eu e ele, mas a cerveja e as conversas e o que cada um anda ouvindo, assistindo, amando. As risadas fáceis, as implicâncias ilustres e algumas vezes gratuitas, as boas besteiras saudáveis, a mesa do bar e finalmente começou a chover. Chuva fina e leve, nada grave, só para afirmar mais uma vez que o céu estaria encoberto por toda a madrugada. Danilo me pediu um texto, eu não o incluí levianamente quando escrevi sobre o primeiro ano do blog. Mas não sei sobre o que escrever. Nós chegamos em casa e vimos o eclipse pela internet. Ficamos até quase às seis da manhã falando besteira e cochilando, rindo e conversando sobre três ou quatro assuntos diferentes ao mesmo tempo. Dentro daquela dinâmica de arrumar as camas, escovar os dentes, encher os copos de água, trocar de pijama e falar do que estivéssemos afim, do que pintasse no meio da conversa, de banalidades, de desejos íntimos, confissões que a gente só faz para alguém que confia, brincadeiras que a gente só arrisca com quem a gente ama de verdade. Depois dormimos. Não fique irritado se não te dei um alô. Por aqui, tento não me deixar enganar pelo caos. Tento erguer a cabeça e não pensar tanto no que é desordem. Não cair sentado no chão da rua porque eu não consegui ver o eclipse. Qualquer grão sem importância pode mudar o destino desse mapa sem sentido. Não me sopre só para ventar. Já tenho furacões demais. O Botafogo perdeu a Taça Guanabara. A Cate Blanchet perdeu dois Oscars de atriz. Tem gente morrendo voltando do trabalho pelas ruas. A conta do celular venceu e eu não paguei. Meu cabelo está enorme. E vamos parar por aqui. Se tudo o que te move é uma ligação, então eu te digo alô.

Alô, meu caro.

Alô no meio do furacão. Alô enfrentando o tremor das pernas e o tremor de terra. Alô e dessa vez é tão intenso que de tão agudo, me causa a sensação de inédito. Alô e não existe Sara Bareilles que suavize. Alô e as linhas cruzadas me afastam de todas as pessoas que sempre pareceram próximas, ao alcance de um pedido de socorro, um choro preso descontrolado e eu não sei te dizer onde e quando dói mais. Alô no meio da dor, do meu ai mais urgente e sem direção. Alô e eu nunca me senti tão. Alô, meu caro. Alô e não há palavra que me traduza. Não se espante, não se intimide com o meu capotar. O máximo que pode acontecer é eu acordar louco, precisando de cuidados médicos, de alguma dose de injeção que me cause a sensação de realidade. Alguma sensação forte de segurança, de um fiapo de controle. Alô Fernando, você foi embora e me deixou essa flor que só me confunde e me enjoa o olfato. Alô e me poupe da sua ironia, me preserve das suas críticas, me afaste do seu ego assustador e da sua forma misteriosa e tão estranha de me dizer carinho. Eu caminho cansado, tudo o que eu preciso é chegar em casa e tomar um banho quente e demorado que me salve o dia e espante os fantasmas. Minha irmã me disse que posso estar deprimido, mas ela sempre me diz isso, desde moleque, quando ela já estudava Psicologia e eu nem sabia o significado da palavra. De onde é que você tira força para dizer sim? Onde é que você encontra vida quando o céu escurece, a natureza se impõe e te faz sentir um grão? De onde vem a intensidade quando a gente perde a força no meio do combate? Hoje eu não quero você, nem longe nem perto nem no telefone. Eu preciso descobrir - e talvez essa descoberta me faça zerar tudo o que eu sei - como tornar suportável tudo o que me fascina e enlouquece. A cidade enlouqueceu por algumas horas e eu fui junto, me deixei levar. Profundamente. Urgentemente. Intensamente. Não queira me enlouquecer com as suas loucuras. Eu tenho a minha e ela é suficiente. Não me sufoque. Não me toque. Não me provoque. Para você, a irônica sensação de que te dizendo não, eu me digo sim.


quarta-feira, fevereiro 20, 2008


BROKEN ENGLISH de Zoe Cassavetes


- E você, onde é que está?
- No metrô, indo encontrar o pessoal.
- Eu tô deitado na rede. Ouvindo Beatles. Sabe que hoje eu ouvi Beatles a tarde toda?
- Não sabia que você era fã.
- Nem eu. Acordei cantarolando Let it Be. Depois coloquei um disco. Depois outro. Assim foi o dia todo.
- Se eu tivesse vivido a época dos caras, acho até que eu seria um daqueles fãs histéricos. Mas hoje em dia, eu acho bonitinho.
- Seu pai sempre te empurrou os Beatles.
- Mas não é por isso que eu não gosto.
- Ele voltou para mim.
- Agora eu entendo melhor o seu sumiço.
- Ele voltou para casa, para os meus lábios, entende?
- Eu não sei se eu tenho saco para te dizer tudo o que você já sabe.
- Voltou me deixando ciente que vai partir. Eu tinha certeza que ele ia conseguir uma maneira de fazer com que eu percebesse que mesmo retornando, ele partiria.
- E você?
- Eu sorri e disse que a natureza humana é encantadora e imprevisível. E que é preciso que seja assim, dessa maneira, para que a gente compreenda certos detalhes, para que a gente compreenda que talvez não haja compreensão.
- Já parou pra pensar que não querer dar nome, é também uma forma de se proteger? Fica mais simples de conduzir se a gente sabe, mas não diz. Se a gente sabe, mas finge que não sabe, sabendo.
- Ele olhou dentro dos meus olhos e me puxou para um beijo demorado. Um beijo que não era só a constatação do carinho, mas um beijo que abria a porta do apartamento, que desfazia as malas.
- Desculpa, querido, mas não tô afim dessa sua poesia ultrapassada.
- Um beijo que dava sentido ao colchão de casal, aos lençóis novos, aos dois travesseiros.
- Tenho assistido Lost. Não consigo largar. Tô no meio da segunda temporada.
- Eu voltei, percebe, eu voltei hoje e quem sabe pelos próximos dias, pelos próximos meses, pelas próximas horas.
- Assistir Lost me causa a libertadora sensação de que estar ou me sentir perdido, faz parte e é natural. Não é um bicho-de-sete-cabeças. Te falei da noite de ontem?
- Não.
- Descemos para a boate. Depois chegou um grupo com a Cris. Eram seis rapazes. Provavelmente vinte, vinte e tantos anos. Todos super malhados, o cabelo da moda, a roupa super de acordo. Quase padronizados. Sentaram com a gente, tinha um grupo grande. A Letícia apareceu, olha que bacana!
- E?
- E aí que eu fiquei um pouco horrorizado com suas opiniões encarceradas. Com a pouca habilidade de falar sobre todo tipo de assunto. Preocupados excessivamente com a imagem, o cabelo, a dobra da manga da camisa, com o fulano que chegou com o outro com a calça tal. Mal me olharam na cara. Talvez porque eu não seja como eles. Não me vista como eles. Não seja sarado como eles. Um elemento estranho, um peixe fora d’água, que não merece a atenção da perfeição.
- E pensar que como eles existem centenas.
- Milhares. Fiquei preocupado. Eu não queria paquera. Eu estava acompanhado e a gente só queria se comunicar, trocar, conversar um pouco. Uns seis rapazes que provavelmente só sabem ser gays. Qual a sua ocupação? Eu, bem, eu sou gay. Sim, mas qual a sua ocupação? O que eu faço melhor é ser gay. Como se ser gay credenciasse alguma coisa. Eu tive que beber.
- Se estivesse com vocês também tomaria um porre.
- É uma geração, cara. Uma galera. Lembra quando nós íamos ao Gaivota's, éramos quantos, uns vinte? Nós íamos para ficar juntos, para dançar, lembra da Pati subindo no queijo e se acabando? A gente curtia a noite, a putaria, as paqueras, mas o grande lance era o nosso grupo Era a festa.
- Você não pode julgar pessoas que você conheceu por uma noite e não gostou.
- Não, não posso. Mas eu ouvi o suficiente. Eles cultuam exclusivamente o corpo. E se você não tem um corpo como o deles, você não presta. Você está numa escala menor. Você não vai ser notado. Você é lixo.
- Não generalize. Você bebeu hoje?
- Quase nada. Mas pensa, como é que se conhece alguém normalmente. Independente das vias, o que desperta interesse sexual, afetivo, enfim, o que te causa uma impressão é algum detalhe. Varia muito, eu sei, mas às vezes um corte de cabelo, as mãos firmes, a forma de dizer as palavras. Segundo os nossos amigos padronizados, isso não existe. Existe sim, o abdômen, o braço, a perna malhada. Eu ouvi um deles dizer que o rosto poderia ser um estrago se o corpo fosse gostoso. Me explica isso?
- Você acha que relações baseados numa perna malhada duram?
- É fast food. Comi esse ontem, amanhã vou comer outro em outro lugar. Não se fala ou se pensa mais em relacionamentos.
- Isso não deveria te irritar.
- Isso me causa pânico. A gente está perdendo essa força avassaladora do encontro. Desvalorizando a oportunidade de deixar alguém entrar nas nossas vidas. E permanecer. Trocando por vitrines, por um padrão absurdo de revistas, de catálogos sexuais.
- Eu entendo.
- Eu acho lindo um corpo no lugar. Braços fortes. Pernas e tudo mais. Mas não acho justo que as pessoas se sintam obrigadas a se adequar. Corram atrás de uma imagem distante. Queiram desesperadamente se encaixar, se moldar. Isso é doentio. Poderiam estar se apaixonando. Poderiam se preocupar com o que vai além da imagem.
- Tá parecendo discurso de gente feia.
- De gente que não se encaixa. Que não quer se encaixar só para seguir a boiada. Tô mais preocupado com gente que conhece tão bem os caminhos que me guiam que é com propriedade e segurança que conduz cada gesto. Como se eu fosse um mapa, como se eu fosse a cidade e ele dobrasse cada esquina, dominasse cada trecho com sabedoria, com perfeição, ouso. Há alguém assim para cada outro alguém?
- Eu espero que sim.
- Que nos olha e ao olhar, reconhece a intimidade, a afinidade, o pensamento e pode nos invadir com fúria ou delicadeza, que não pede para entrar, apenas reconhece no momento a permissão e penetra sem invadir - água e esponja, o preencher inevitável que depois esvazia para que novamente possamos - provoca sem violentar, explode sem que haja dor. Há de existir alguém assim para cada outro alguém, eu espero que sim. Todo o mundo precisa dessa sensação de confiança, fechar os olhos e se jogar do oitavo andar sem rede, sem medo, sem o racional. Apenas a certeza de que lá embaixo existe o outro que vai te pegar e se não te pegar, vai te amortecer a queda e se não amortecer, vai cuidar de você independente do mundo. Todo o mundo deveria saber essa sensação: que existe alguém pronto para mergulhar. Alguém para cair na cama e compreender a luxúria, a gula, o que pode existir quando duas pessoas se deixam levar pelo sim. E depois de todo o durante, dure quanto durar, a gente sorri para não tombar e diz até breve, seja feliz com outro, mergulhe fundo porque só assim a gente entra em contato com o que há de mais interessante e profundo e especial ad infinitum. Grite se doer, chore para aliviar, recomece se perceber que se perdeu, olhe nos olhos e não se arrependa. Leve na bagagem o que precisar, o que for importante vai com você no teu compasso, não com os livros e as roupas. Beije, respeite os desejos e ultrapasse o limite. Reconheça os erros, aprenda a se desculpar e respeite o silêncio e o que não é palavra. Mas não faça disso sua bandeira. Perca o fôlego, durma pelado, aprenda a cozinhar, surpreenda-se, presenteie alguém sem motivo, dê vida a qualquer lugar que você entre, faça com que os objetos e os afetos ganhem significado. Tome um porre, tome água, tome leite, tequila, vinho quente, cerveja, champagne, tome vergonha na cara e não seja mesquinho. Dance e grite, torça pelo seu time preferido e comemore o gol pulando e abraçando quem estiver por perto. E quando sentir que é o momento, na tua cadência, diga adeus. Parta sem dor, sem remorso, sem a sensação de abandono. Parta para compreender a saudade, para desbravar novos horizontes e novas possibilidades. Existe sempre alguém para gente mergulhar. Parta e escreva uma carta e conte o que houve, da importância do que houve e da necessidade do que virá. Parta para poder um dia retornar sem ressentimentos, as portas abertas e o abraço intenso de quem partiu porque assim é.
- Let it be, meu amigo. Let it be. Vou ver o eclipse da lua. Quer ir?
- Quero.

Ao meu amigo querido Lemu.


quinta-feira, fevereiro 14, 2008


NA NATUREZA SELVAGEM de Sean Penn

Dessa de não perceber com atenção, a gente tropeça na facilidade de dar nome ao indefinido. Então não vou dizer que eles tinham muito em comum. Porque alguns filmes e umas tantas canções preferidas, não são ou não deveriam ser motivos suficientes para qualquer, não, não vou dizer tentativa, mas para qualquer oportunidade dada se transformar assim numa boa história com amor. Afinal, se você não sinaliza um sim, se você não permite que o outro chegue, natural que casos específicos sejam casos específicos, mas se você diz não, olhando olhos nos olhos, se você já não é mais tão adolescente e se sente um tanto mais seguro e confortável para dizer não, querido, não perca seu tempo comigo, porque não bateu, eu não tenho interesse, eu prefiro a solidão das madrugadas enormes, eu não sou para você, me entende? Não sou para namorar você. Não que você vá encontrar homem melhor por aí e não é que eu ostente esse título de boa praça, indispensável, super bom de cama e tals, mas há de se ter qualquer sombra de percepção que me faz perceber que tem muito homem afim de um fast food, de um bom perfume e com opiniões encerradas sobre todos os assuntos do mundo, lidas ou ouvidas em algum lugar, certamente. Muito homem por aí, então não perca aqui, o seu tempo precioso porque não é não mesmo, sem subtexto, sem joguinho de quero te dar depois que você insistir a noite toda. Não. Voltemos ao que pretendia, antes do quase tropeço.

Eram apenas dois jovens rapazes em apartamentos diferentes, gerações próximas, em cidades diferentes em países diferentes. E se encontraram porque nos dias de hoje, o globo é redondo e toca nele quem quer. Essa facilidade da modernidade, hot dog, globalização e sim, a internet. A trajetória dos cliques nos aproxima de assuntos com a mesma intenção que pode também, nos afastar. Nos aproxima também pessoas. Nos dias de hoje, são mais do que apenas os tais seis graus de separação. Eles se conheceram porque um dia alguém disse para ele que ele precisava, cara, você realmente p-r-e-c-i-s-a entrar na página tal e ler as coisas – coisas? – que ele escreve. Porque você vai se identificar e vai. Olha, devo dizer que entusiasmo gratuito me irrita, então vamos contar essa história de maneira mais adequada e menos histérica. Tem esse site aqui, dá uma lida e depois me diz o que você acha. Obedeceu numa dessas tardes ociosas. Catou do bolso um papel amassado, onde havia anotado o endereço. Digitou. Chegou. Entrou. Leu o primeiro, não gostou. Leu o segundo, detestou. O terceiro não chegou nem a concluir. Fechou a página antes do ponto final. Você não me conhece mesmo, moço. Como é que eu poderia gostar desse cara? O que te fez pensar que eu poderia me interessar pelo que ele faz? Além dos tropeços, a gente também se engana. Boas vezes em tempo de não se envolver tanto e depois, depois tudo se transformar naquela merda toda de desilusão, de nunca pensei ou mais um para engrossar o coro dos putos sem noção. Outras vezes quando a gente percebe, já levaram a mobília, já dobraram a esquina, já subornaram os guardas e tu senta e chora. Ou nem chorar chora, fica puto, dá de ombros e vamos lá que o tempo, ai Cazu. O tal do tempo.

Mas todos sabemos, por experiência, vivência e sina que há ironia no tal advento, vamos chamar de advento sem evocar deuses, religiões ou crenças, do encontro. Ironia porque o tal rapaz, mesmo não simpatizando com os dois textos e meio, um dia leu uma folha solta e amassada, antiga e impressa em tinta preta, algum trecho, cuja autoria lhe parecia familiar. E gostou. Gostou tanto que quis mais. Leu o nome do autor e pensou que não, evidente que não, afinal dois textos e meio já seriam suficientes para que sentenciasse um nunca mais voltarei. Mas a ironia – e há ironia – nas curvas do, eu não vou falar em destino, prometo, dos reencontros foi acionada e aquela velha história de que a vida dá voltas, porra, e não é que é? Ligou para o amigo, pegou o endereço de novo, respirou fundo e entrou contrariado, querendo não gostar, porque não existe nada mais másculo do que insistir uma opinião para se manter fiel, inteiro, não contrariado. Dois dias depois, humano, algum momento particular, alguma frase de efeito, alguma atmosfera similar, o tom, ele mais tarde compreendeu, fez com que escrevesse uma carta, um e-mail, sem muita esperança de que fosse lido, mais um desabafo, algumas linhas tortas que informavam a redescoberta daquilo que não interessava antes, aquela decisão de nunca mais revertida sabe-se lá num futuro ou se numa parede branca sem placas de sinalização. O outro, porque achou bonitinho – porra, bonitinho? – resolveu responder o e-mail e logo depois foi respondido e logo depois respondeu e logo depois já se falavam todas as noites. Telefone, celular, msn, webcam, microfone, skype e todas essas coisas, titio já falou do globo, etc e coisa e tal, como diria a Fal. Boas noites sem dormir e a conversa que no início era interessante e educada, depois ganhou contornos de flerte e como eu diria, competição. Porque você sabe que o rito da conquista trata-se antes de tudo, armas sendo afiadas, de um bom desafio. Aquilo de atrair a presa, de mostrar a artilharia, de honrar histórias hercúleas e exibir o pau em riste para impressionar antecede e em alguns casos substitui a delicadeza e alguma naturalidade encantadora que também me parece atraente, mas como falo deles e deles somente falarei, exibiam-se e enalteciam-se. Só que depois de um tempo, esse refletir e revelar, além de se esgotar, cansou. E como eram dois jovens rapazes que moravam em cidades diferentes, países diferentes – jura que você vai repetir a introdução? – a fadiga se instaurou com mais rapidez. Ambos perceberam que o jogo não resultaria em cama ou em sexo ardente. Talvez umas punhetas pela webcam, mas não iria além. E o globo, por mais interessante que aparente ser, por mais promissor e plural e cheio de coisinhas legais e super práticas, o globo não nos oferece o toque. A carne ali nas mãos, entre os dedos, o cheiro da nuca, o suor descendo, umas tapas, puxão de cabelo. O globo não é real. E homens, pessoas, gente de sal e som, precisam dessa experiência – de sentir o outro - para se tornar vivo, útil, macho, fêmea, espécie. Precisa do outro dentro, fora, apaixonado, parindo, chegando, abraçando, beijando para compreender da vida. Para poder admirar o que é bonito. Para poder se entristecer. O globo não é vivo. Ele parece vivo porque está em movimento constante, mas meu caro, eu não posso te tocar. Se eu não posso te tocar, o meu amor escorre pelo ralo. De que adianta essa paixão de longe, essa relação maquiada, esse interesse louco pelas tuas palavras, essa curiosidade insana sobre cada tom se não há realidade nisso tudo? Meus amigos todos os dias me xingam porque eu estou em casa, esperando você chegar dentro do computador. E quando você não chega dentro do computador ou quanto falta energia ou quando os horários não coincidem, porra puta que o pariu merda de vida.

A vida é tão linda e tão sacana que os dois se amavam e sofriam porque não era real a realidade do amor que plantaram. Eram um senão ambulante, rugas de preocupação, alívio de terem se encontrado no meio da confusão, mas sempre haverá um mas que também significará não estacione ou vaga para deficientes ou contra-mão. Me perdoe, mas eles nunca existiram e isso me entristece terrivelmente que choro ao escrever.

Até que ontem, pela tarde, você pode chamar de milagre, eu chamo de amor, o telefone tocou:

- Fui transferido. Chego no Rio em duas semanas.

Em duas semanas, o tal do globo vai ser chutado em campo lotado. E a vida real, enfim, triunfará legítima, insubstituível e deliciosamente imperfeita.

domingo, fevereiro 10, 2008


ATÉ AS VAQUEIRAS FICAM TRISTES de Gus Van Sant

De tudo o que escrevo aqui, daqueles fatos que verdadeiramente aconteceram, por uma questão de cuidado com os envolvidos, eu mudo os nomes. Algumas vezes nem cito qualquer nome para não me comprometer. Mudando o nome, eu tiro da reta a responsabilidade de dar o crédito a pessoas, cuja privacidade e intimidade, merecem o cuidado da não exposição. Também por cavalheirismo. Ou por pensar que eu não tenho o direito de iluminar qualquer amigo, namorado, amante, pretendentes ou afins, apenas e simplesmente apenas porque existe em mim a necessidade de escrever. Mas hoje – e vale dizer que eu completo um ano nesse espaço – eu resolvi dar nome aos bois. A alguns deles. Feito um vaqueiro com ferro em brasa, por pura necessidade, eu resolvi escrever e citar alguns e algumas que me iluminam os dias, alimentam a minha fome de idéias, incentivam a minha ironia, fazem da minha vida real, um campo dos sonhos. Que se realizam.

O Benjamim vai embora hoje. E não há nada mais comovente do que abraçar esse francês e chorar de felicidade ao ouvi-lo chorar dizendo ‘meu amigo’. Foram três meses e milhões de histórias inesquecíveis. Foi tão fácil e tão rápido encaixar o seu lado europeu no nosso lado malandro carioca. Foi tão natural e surpreendente como o nosso grupo de amigos percebeu que ele era um dos nossos. De como todos nos apaixonamos pelo seu sorriso de cabelo bagunçado. Você já faz falta. Nossos programas turísticos jamais serão os mesmos sem a leveza das suas observações. E quem é que vai rir de mim quando eu jogar a camisa pela janela e o mendigo roubar e sair correndo? Como você mesmo me disse, eu acredito, sim, que nos veremos em breve.

Baba cortou o cabelo para a segunda fase da novela. Deve ter sido um alívio mudar o visual. Depois de pouco mais de um mês sem nos encontrarmos ao vivo, ele me espera do outro lado da rua com o abraço carinhoso de sempre e já engatamos tantas histórias e segredos e besteiras. Nós conseguimos conversar sobre diversos assuntos ao mesmo tempo e nos compreendermos, sem nos perdermos. Acho, na verdade, que essa é a nossa grande química. O entendimento. Especialmente quando não existem palavras.

Mila, também depois de um mês, me contou de todas as fantasias do carnaval e eu lamentei secretamente por ter ficado tanto tempo em casa, sem lhe ceder um único dia que fosse. Mas essa sede de folia, não me contagiou esse ano, você sabe. E se existe algo de bom com o passar do tempo, é que você compreende melhor que precisa respeitar as suas vontades. Me perguntou sobre aquele outro emprego que pouca gente sabe e eu disse que talvez as minhas férias continuem por um tempo. Não falaram em renovação de contrato e a minha conta bancária, que já é instável, sofrerá abalos sérios.

João me contou que se apaixonou. Me deixou surpreso. O que é perfeitamente comum, natural e compreensível é que as pessoas se apaixonem por ele. Me deixou com uma ponta de preocupação acesa e me disse ainda que andou chorando. João vai morar sozinho. Dessa vez não vai dividir nem a vida nem o apartamento. Agora é sozinho e lindamente completou: ‘eu preciso disso’. Querido, eu só te desejo o melhor. E vou ser seu hóspede e levarei filmes e seremos todos muito felizes. Depois a noite seguiu e chamamos a Mila num cantinho e sem combinarmos, chegamos a conclusão de que ela precisa melhorar o seu gosto para escolher suas paqueras. Definitivamente.

Milena, louca, mais apaixonada do que nunca. Ela sabe e sempre soube que duraria pouco. Que sendo ele de outro país, seu namoro teria prazo de validade. Mas Milena é guerreira e passional, uma tigresa morena e disse sim para o amor. Catou o francês, deu-lhe uns beijos e percebeu que entre eles havia algo além da química. Inverteu as posições, decidida e o pediu em namoro. Ele, que não é bobo nem nada, aceitou. Depois que ele embarcar, a gente fica aqui com ela e toma um bom porre, para lavar a alma, para levar as lágrimas. Depois que ele for embora, a gente segura as pontas.

Fal me mandou uma garrafa de whisky. Lá de São Paulo. Me mandou um envelope amarelo com uma carta também amarela, que eu li tantas e tantas vezes quanto foi possível. Nos conhecemos pela internet, veja você. Foi desses casos imediatos de paixão. São cinco anos de um amor assim nem sei. E que eu não sei falar sobre porque é tão grande e tão bom, que as palavras não alcançam, sabe como? Tudo o que eu posso dizer é que a Fal é tão generosa que ela me deu a Carla San (meu melhor conselho), a Alline (minha alegria azul), o Claudim (minha birra e meu rei), a Ana Paula (o abraço mais gostoso), a Juju (minha hóspede do barulho), a Sil (minha companheira de American Idol), a Telinha (que eu quero e vou comer seu bolo, se ela me aceitar de volta), o Mauro (e nossos filmes), Lyra (nossa tarde em Resende ninguém tasca), a Mani (que vive me presenteando canções, só para me ter o resto da vida), Bel (que chegou e olhou nos olhos tão fácil e tão bom). Me deu também a Patsy e seu marido (eu já quero um novo encontro) e a Mel (linda, doce e querida). A Fal é assim: ela reúne, aglomera, cria um tumulto para que as pessoas se esbarrem, se observem, se conheçam porque ela sabe que não dá para ficar sozinha nesse mundo. A gente precisa desses anjos. Isso sem falar nas meninas que eu ainda não conheço (viu Maloca, Esther, Ana, Vera?) e quero porque quero logo logo, me aguardem.

Poderia escrever sobre tantas pessoas. Dar nome aos queridos, tecer palavras generosas sobre os encontros e desencontros que a cidade me proporciona. Que o Mínimos Óbvios me presenteou. Eu agradeço o tempo de leitura, a visita, os poucos comentários, os muitos e-mails, quem se aventura no msn. Meu querido Teco, sempre anjinho, sempre me atualizando o fone de ouvido. Meu doce Alex, dono do melhor café das redondezas. Kinho, meu amigo que corre atrás da vida com tanta intensidade e nem se dá conta de que o amor te pegou, meu lindo. Vini Mariano, piranha amiga, sem a menor pretensão de sujar sua imagem, mas tu veio, tu me conquistou, tu ficou meu amigo, lembra da Alanis tocando? Meu querido, de todas as nossas, fica sempre a risada de quando eu lembro que tu me meteu dentro de um apartamento no Leblon. E eu fugi! Vem aqui? Não tem mais Los Hermanos, mas tenho muitos lugares para te levar. Chico e o seu olhar inteligente sobre o cinema. Melhor crítica de filmes e o melhor texto, desde muito tempo, sem dúvida. Me ensina a ter paciência, Chico? Lamenha, meu amor, meu leitor, meu amigo e meu contato imediato desde a primeira carta que li. E leio sempre. Lemu, meu lindo e a nossa torcida anual pela melhor voz da temporada. Aguarde que os teus dvd’s vão chegar. Força e fé, querido. Rafa e sua curiosidade e a minha não curiosidade. Você faz falta nas madrugadas. E já me cativou. Mariana, que gritou, pulou e chorou comigo no último show do Los Hermanos. Tanto amor por ti, ai ai. Saleme, meu cantor preferido, meu amigo mineiro, meu cinema corrido, minha conversa fácil e sempre tão atenta. Venha mais ao Rio. Venha? Marcio, onde anda você? Te fiz uma pergunta e você nunca me respondeu. Mais o Fabinho (meu melhor olho no olho, com você eu posso tudo), Vini (meu diretor preferido, bem antes da indicação ao prêmio Shell, que eu não sou puxa-saco) e Éder (meu pequeno, tanta história boa, quero um abraço e o meu presente de Paris!). O trio mais inusitado me encontrou e formamos um quarteto mais do que fantástico.

Anny, minha querida. Bruno te disse que agora é meu leitor? Pois eu desejo que o amor de vocês dure e se renove e que seja bom. Melhor que canção de amor. Mais bonito que qualquer texto apaixonado.

Hamilton me ligou ali do Japão e me desejou feliz aniversário e eu estava no estacionamento do Cirque du Soleil, emocionado com o show e principalmente com a ligação. Das melhores surpresas, para guardar na gaveta dos presentes inesquecíveis.

Daiana, você foi o melhor dos meus casos. Meu ouvido, meus olhos na madrugada. De você veio boa parte da minha força. Você me fez e me faz ver o que eu não sei. Você me faz um cara mais bacana. E você é responsável por não ter deixado eu dar um chute nas palavras. Eu te amo.

Brenda, você não me lê mais. Mas eu não presto e te amo mesmo assim. Você faz falta aqui no Rio. Você me ensinou a gostar de mostarda. Você sabe de coisas que ninguém sabe. Só você, Brezuda, sabe o quanto eu amei aquele tal.

Glauce, amor de uma vida inteira, desde a sexta série – nem barba eu tinha! – e meu amor de sempre. Madonna, Maria Rita e muita, muita história para contar. Vambora sambar e tomar umas cervejas? Agora a pergunta: desde quando tu sambas, homem?

Esse não é um texto de despedida. Estou apenas lambendo a minha cria. Registrando o meu carinho pela vida real. Que é fonte de inspiração de qualquer texto. Que faz a gente perder e ganhar com um pouco mais de certeza de que não estamos tão sós e de que não somos tão tristes, porque tem uma série de pessoas, que estão dispostas a falar e a ouvir. Gente que não complica o simples. Que ajuda a simplificar o complicado. Simplicidade que aproxima e cativa os olhos que conferem senhas, registros, abraços. E é fácil sorrir ou chorar, dizer ou calar, agir ou observar. A terra deixa de ser estranha e ao pisar no chão, sente-se muito parecido. A temperatura é comum. A base é a mesma. Há dias em que é fácil chegar ao outro sem esforço algum. Pela ponte de um sorriso, pelos olhos que em sintonia nem pedem palavras ou justificativas. Compreende-se em união. Simples como deveria ser. Sem mistérios, barreiras ou interrogações. A vida é. E nada além. Sem tantos riscos. Sem tantas investigações.

Eu hoje escrevo para registrar meu carinho. Sem vergonha. Orgulhoso.
Ando farto de ver tanta gente criticando, cuspindo opiniões, usando a palavra como escudo.
Hoje eu escrevo para as minhas pessoas.
Eu hoje só escrevo para dizer obrigado.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008


LONGE DELA de Sarah Polley


E foi divertido, não explosivo, mas sutil, aquele sorriso pequeno agradável. Ele se aproximou com a mesma pergunta que todos me fazem sempre. 'E o que você tem feito, cara'? Porra, o que eu tenho feito? Eu tenho feito coisas. Não sei o que acontece, mas às vezes eu tenho uma preguiça ancestral em me comunicar. Porque o que eu tenho feito ultimamente só eu tenho feito, exceto quando eu saio com os amigos, ainda assim eu continuo fazendo alguma coisa junto com mais alguém. Mas eu vou ao cinema vez ou outra. E cinema para mim funciona muito bem pela tarde. De noite eu durmo no escuro. Ando cochilando com facilidade. E aí aquele papo de que eu só consigo dormir na minha cama e na minha casa, foi implodido por esse novo hábito. Com uma vontade louca de sair com os amigos para jantar e pagar a conta. Eu tenho assistido esses seriados americanos. De Lost a Will and Grace. Acho divertido. E melhor, são curtos. Entrei numa onda de tesão declarado pelo Gael Garcia Bernal. E vi um filme atrás do outro. Encerrei a fase com Má Educação. Sinto falta de muita gente na minha vida. Sinto saudade. Nada que me deixe triste. Um fio espetando sem muita intensidade. Vou trabalhar todos os dias. Muitas vezes acordo em cima da hora. Outras desperto cedo, arrumo a cama, a casa, o pensamento, o cabelo, arrumo os objetos para que a vida pareça estar sob controle. Mesmo sabendo que. Eu ando de metrô porque adoro ver a cidade em movimento. Ouço muita música. Gostaria de ouvir menos e falar mais. E acredito que em alguns casos, é bom que nos submetamos a algumas imposições para que nossa vida melhore. Eu, por exemplo, quero ler mais. E é importante que tenhamos desejos. Possíveis. Simples. Pequenos. Enormes. Distantes. Chorei por alguns minutos porque prendi o dedo na escada. Mas não chorei pela dor no dedo. Outras dores velhas me tiraram lágrimas. Precisei de um abraço e precisar de um abraço que não veio me fez chorar ainda mais. Eu conheci o Santiago Nazarian pelas mãos de um querido amigo que me tirou de casa para um sarau. Costumo ler meus textos para a Daí no telefone antes de publicar, mas algumas vezes nos desencontramos porque eu costumo escrever de madrugada e nem sempre ela está acordada. Fico na locadora todo sábado. Muitas vezes me divirto. Outras eu faço faxina e deixo rolar um dvd na televisão. Outro dia consegui ver o filme do Clooney quase sem ser interrompido. Ah, sim. Eu tenho sonhado de madrugada. Vez ou outra sou atropelado por algum pesadelo. Tenho saído de noite. O que eu faço, depende do dia. Um jantar, uma conversa, uma caminhada pelo shoping. Aí eu pego um táxi que me deixa em casa menos tarde do que eu chegaria normalmente. Outra noite eu abri a porta do carro e o motorista tinha acabado de fumar um baseado. Entrei, o cheiro que fala por si só, o rapaz cabeludo, barba por fazer, sorriu e me perguntou ' e aí, bichooooo, vamos pra ondeeeeeee?'. Deu medo. Mas a corrida foi tão rápida e tão divertida.

Provavelmente, meu querido, eu esteja fazendo muito mais do que eu consegui te dizer. Mas me pegastes de surpresa. E hoje acordei econômico. Como quem observa a vida. Sinto que fui superficial e eu não costumo ser profundo, pelo menos quando falo. Mas esse frio todo e o barulho da chuva, todo esse cenário me expõe lembranças e desejos não cometidos. Por falta de oportunidade, coragem, entrega, reciprocidade. As nossas vidas estão distantes. Então não vou te dar a resposta que você espera. Aliás, nem sei se você espera por alguma resposta porque normalmente quando me perguntam o que eu ando fazendo, não querem ouvir nada além do que um 'ah, tô por aí'. E eu me sinto como aquela personagem do Creme de alface, do Caio, falando sem fim, falando loucamente, por favor, me estacione com um beijo, um tapa, as costas viradas. Eu só não quero a sensação estúpida de estar falando para ninguém. O que nos aproximaria, de uma certa forma. E essa conversa não tem fim.

Amanhã de noite vou fazer compras. Me acompanhas?

domingo, fevereiro 03, 2008


SENHORES DO CRIME de David Cronemberg


- Eu roubei uma lapiseira do garoto que sentava ao meu lado na escola. Quinta série, ou sexta, não sei. Um dia ele mexeu na minha mochila e encontrou a lapiseira no bolso da frente. Eu lembro do vermelho do rosto dele. Da raiva dos olhos dele, que me observavam com um ar de superioridade, um subtexto de ‘eu vou te fuder’. No mesmo dia, mais tarde, já em casa, o telefone tocou. Eu tinha certeza que a ligação era para denunciar o meu roubo. Eu só lembro da minha mão improvisando um perdão meio engasgado. Lembro do tom da voz dela, um tom decepcionado e ao mesmo tempo muito seguro de que resolveria a situação. Depois eu apanhei. De cinto de couro. Foi a última surra que eu tomei da minha mãe. Depois desse dia, ela nunca mais me bateu. Ela me batia e dizia gritando que a mãe do garoto estava pensando em ir à direção da escola. Que roubo era expulsão imediata. Que eu não podia, que eu não devia, que ela não encontrava razão, que nunca me faltou nada, que ladrão vai para a cadeia. Na escola, eu tirei de letra. O tal garoto, além de pouco popular, tentou me queimar de todos os jeitos e não conseguiu resultado. Eu reuni a turma e contei o que havia feito. Usei o humor, fiz piada com o meu próprio umbigo, me coloquei o apelido de ‘lalau’ e tudo o que ouvi dos colegas foram risadas e também um ‘ele merecia’. O que eu nunca disse antes, para não parecer justificativa vazia de um ato adolescente, é que eu era loucamente apaixonado pelo garoto. Tão perdidamente apaixonado aos catorze anos. E aquela lapiseira roubada foi a maneira mais infantil que eu vi surgir para chamar a atenção, para ferir o coração dele, para ser notado. O que eu nunca disse também é que eu escrevi a minha primeira carta de amor com aquela lapiseira. Nunca entreguei. Tenho ela guardada, o grafite bem frágil. O tempo faz com que a intensidade perca um tanto da força. É assim também com as pessoas, os sentimentos, as perdas, a esperança. Com o passar do tempo, se não houver reparo, zelo, cor, a gente deixa apagar. Já adulto, eu com uns vinte e cinco anos, esbarrei com ele, o garoto, dentro da madrugada de uma boate. De imediato, não o reconheci. Mas ele pegou a minha mão, olhou dentro dos meus olhos e me chamou de lalau. Lalau, você mudou tanto. Eu disse:
- Edu?
- Eu!
- Ele me puxou para um abraço de corpo inteiro. Eu senti o pau dele roçar o meu. Senti o cheiro do perfume dele, o toque macio do rosto e da barba perto do meu pescoço, o peito dele apertava o meu. Era um abraço com desejo. É fácil perceber quando alguém te deseja. Não é um toque casual, um toque sem pretensões. Não. Todo homem sabe sem dizer uma palavra quando a intenção vai além: os cheiros, os estímulos, a própria natureza sinaliza e ele sabe que você sabe e se você permite, os dois sabem que existe ali algo além do ato, algo que se pretende, o desejo de ancorar. Nos beijamos. Depois de anos. Depois da adolescência. Cada um para um lado da cidade. Partidos. De repente um beijo. Um beijo no tempo que passa para fazer a gente dar risada da vida, achar graça das curvas do calendário, demolir qualquer tipo de opinião que diz que toda história tem um ponto final. Não pode ter. Porque a gente não sabe de nada. A gente pode tentar prever a meteorologia. Fazer uns cálculos baseados nas nuvens e nas máquinas. Mas se a natureza resolver contrariar, a gente fica com cara de bobo e justifica o óbvio. Que de nada sabemos. Eu passei aquela noite com o Edu. E também alguns meses ao lado dele. A gente se entendia. A gente não falava tanto sobre o nosso amor. Por medo de dar nome ao que nos era tão precioso. Mas o carinho, o cuidado, o sexo e tanto mais, era tão gostoso e tão fácil. Tão simples e tão confortável para transitar. Quando eu conheci o Henrique, eu lembro que eu tive muito medo de conversar com o Edu sobre o efeito que ele me causava. Medo de não saber como ele reagiria, de saber se poderia ser tão franco, sem rodeios. Eu cheguei em casa, encontrei o Edu sentado no sofá, banho tomado, penteado, barba feita, perfumado. Ele me disse antes de sair:

- Eu sei que você não me deixaria se não fosse por amor.

Um ano depois, logo após o Henrique me deixar, eu voltei a roubar. Objetos miúdos: canetas, moedas, pedras, velas, coisas. De volta ao crime, enfim. Honrando qualquer gota de sangue italiano que me esquenta o corpo. Nem tão Corleone assim. Eu só não quero que descubram. Eu só não quero perder a liberdade.