sábado, abril 26, 2008

PRINCESAS de Fernando León de Aranoa

A última vez que eu vi o Vinicius foi pelos bares da Lapa. Ele me ligou, dizendo que estava de passagem relâmpago pela cidade e que ia tomar uma cerveja antes de ir para o aeroporto. Eu ia encontrar o pessoal para tentar entrar no show do Los Hermanos na Fundição Progresso. Dessas boas coincidências que só colaboram porque os fatos, a atmosfera, os desejos, os anjos e especialmente nós, estávamos em sintonia e conseguimos um horário em comum para poder matar um tanto da saudade, saciar um pouco do querer bem. Eu lembro que quando olhei para os Arcos da Lapa, na direção do bar, eu encontrei aquele sorriso lindo se abrindo para mim, pétala por pétala. Era noite no Rio de Janeiro, início de verão e o clima na cidade era quente. Camisetas brancas, uma lua enorme no céu, aquela malandragem carioca solta pelos bares, em forma de risadas, abraços, muitas garrafas de cerveja, algumas intenções e muita conversa boa. A gente se abraçou no olá e a Mariana estava presente. Ela é assim, alguém que sabe ouvir e sabe dizer e sabe que as palavras precisam de cuidado e é tão delicada. Ficamos os três, sem sentir o tempo passar, ouvindo do coração, o que deu certo, o que ainda não deu certo, que a cidade grande assusta, que a cidade pequena ficou menor, que dividir a vida é muito fácil, que dividir o espaço é muito difícil, que gostaria de viajar mais, que gostaria de só viajar, que não deu certo com aquele, que está muito cedo para falar sobre os acertos com o outro, que eu precisava ouvir aquela banda tal, que ela pensou que poderia ter um novo amor, que foi alarme falso, que ele tinha planos de viver aqui, que se ele vivesse aqui eu seria um homem mais feliz, que já sofreu tanto por aquele tal de outros tempos, que eles mal se falam hoje em dia e que esse resquício de afeto não lhe faz muito bem, que todo final assusta, que o final bom é o de poucas palavras e intenções verdadeiras, que todo grande amor antigo já virou alguém pouco interessante, que o olhar manso dele me deixa tão enfeitiçado, que o sorriso bom dele me causa esses desejos todos que eu adoro ter.

Depois nos despedimos e eu pedi que ele voltasse logo e ele fez que sim e a Lapa naquele momento era os dois corpos e um só abraço. Aquele carinho de um até breve e o desejo que a noite permanecesse e prosseguisse entre nós. Só para testar o estar junto. Só para gente prolongar essa afinidade. Faz tanto tempo que a gente se conhece. Que ele veio lá do Sul e se instalou aqui, se hospedou aqui, foi me ensinando essa molecagem, foi compartilhando os dias, trocando o olhar dos olhos, o olhar sobre o que há além da palavra. A gente foi se ganhando. A gente foi percebendo que as afinidades não só nos aproximavam, mas identificava muito dos nossos pequenos desejos gigantes, da nossa sede de querer o mundo e querer todos os homens do mundo e todos os sabores e intensidades. A gente foi se encontrando e isso de encontrar é muito sério. Sério sem solenidade ou pesos desnecessários. Sério porque se encontrar é ser menos só. É perceber o outro. E permitir. Então é sério porque há entradas e saídas e variações sobre esse trânsito e a gente alimenta, a gente cria expectativas mesmo sem saber que não deve. A gente acredita. E crer é coisa séria. Então a gente concordou que existe o tempo e que ele vai se encarregando de colocar a ordem no aparente caos. A gente foi vivendo as nossas histórias, e as nossas histórias foram nos encarregando de nos cruzar o carinho. O nosso carinho foi nos unindo e foi acontecendo. E fomos nos transformando em bons amigos. Aquela sensação confortável de querer saber do outro. De querer que o outro esteja bem. Feliz. Vivendo a vida em voz alta. Aquela sensação gostosa de querer que o outro saiba que você está bem. Que também está vivendo a vida em voz alta. E de contar tudo o que acontece por aqui. As pequenas felicidades. Aquele miúdo que faz a diferença. Arriscar segredos que a gente guarda. Confiar.

Na verdade, o que aconteceu entre nós, é que nos oferecemos a amizade. E ele soube dizer sim. E eu disse sim sabendo.

Ontem ele deixou um recado dizendo que vai passar por aqui no feriado do final do mês. Ele dizia que gostaria de passar a tarde da quinta-feira comigo. E respondi de imediato dizendo que sim, porque eu manipularia a minha agenda quantas vezes eu precisasse só para estar livre para encontrá-lo. E quando ele vier, a gente vai se ver e vai se abraçar e falar das coisas boas, daquilo que nos movimenta, das intenções desgovernadas que a gente vai colecionando com a idade, jovens senhores. Digníssimas putas. A gente vai tomar uma cerveja e brindar. Dez cervejas. E deixar a tarde nos embalar em qualquer canto dessa cidade onde a gente possa ser um pouco mais feliz. O Vini me deixou um recado, então a semana começa fácil. O trânsito agradável, veja você, os graus na temperatura certa, as pessoas não se esbarram e é possível cantar ao atravessar a rua. Fim de tarde e o céu entre o azul e o marinho, as estrelas prontas para se pendurarem como suspensas por fios. Tudo muito calmo e simples e é possível perceber os detalhes e os pequenos detalhes nos detalhes, como a cor dos olhos de quem me olha, a textura e o volume do cabelo de quem abraça, o cheiro doce de um suor salgado. Sereno anoitecer e eu diria que hoje a cidade está tranqüila e mais do que ela, eu também estou. Como se funcionasse dentro de uma perfeita ordem, um esquema simples de minutos que duram sessenta segundos culminando em outros segundos que duram minutos e passam as horas. O trânsito flui, veja você. É possível sentir a brisa e o cabelo ventar. É possível cantar e ouvir o som da própria voz entre os ônibus. É possível sorrir e olhar nos olhos ao atravessar a rua. Sorrir segunda-feira é possível e eu havia esquecido. Bastou um recado do meu amigo e a segunda ganhou ares de sábado.
Cidade cheia parecendo vazia.
Muitos carros na rua parecendo seguir o fluxo
sem sinais fechados ou buzinas fora do tom.
Pessoas caminhando na rua como passeando em jardins.
Músicas, telefonemas, conversas e bombom.
Água, segredos, gramática e tons.
Mensagem, carta, pensamento, pulsação.
Bolinho, contos, lágrimas e coração.
Passou uma pantera no meio do meu dia.
E era cor de rosa.
Tinha um sotaque gostoso.
Lá do sul que eu nunca estive, só ouvi falar.
Tinha um sorriso sacana.
Uma sombra de olho borrada.
Um punhado de histórias da noite.
Dos homens, dos paus, das frestas, do desejo.
Ela me falou de um mundo perfeito.
E a gente sabe que o mundo perfeito não é perfeito.
Sabe que ele racha, solta a casca, queima a lâmpada,
vaza a água, cai o parafuso.
Mas a gente sabe também que por algumas horas ele pode ser.
Depende do desejo.
Da vontade. Da intensidade.
Do tom ou do dom.
De transformar ou valorizar ou perceber
ou conceder ou compartilhar ou gargalhar
ou contemplar ou lapidar ou tecer ou ceder
ou ad infinitum de cada um de mim.
Ou de nós.


segunda-feira, abril 21, 2008

O NEVOEIRO de Frank Darabont

O vento frio batendo no rosto e bagunçando o cabelo. Mas não está tão frio e aqui no Rio de Janeiro, basta que o tempo não esteja ensolarado para que os casacos saiam dos armários. Há de ter algum charme nesse vinho que combinamos para o final da noite e esse vento colabora para o clima. Porém o clima que pode existir entre nós é exatamente esse clima de amizade e intimidade de dois velhos conhecidos. O clima de amizade e nada mais sexual ou munido de segundas e terceiras intenções. Ambos já sofremos dores similares ao esbarrarmos as intenções além das de um querer bem e nada mais. Ambos já nos apaixonamos por amigos recém descobertos e também já experimentamos as quase nada saudáveis conseqüências da confusão do desejo. O fato é que o cenário é um bar movimentado numa esquina da zona sul da cidade. E realmente venta, é possível que estejamos no meio de um início de tempestade, mas não importa. É sexta, estamos na boca de um feriado, que vente os fios do teu cabelo e a gente brinda e a gente mata um tanto dessa saudade. Você sabe que não importa a quantidade de vezes que eu te vejo, você sabe que não importa muito se duas ou três vezes por mês, mas a qualidade da nossa comunicação é que faz a diferença. Com você eu sinto que eu posso falar de qualquer assunto e ouvir sobre todo tipo de conversa. O canal aberto que existe entre nós, não sei explicar e não sei dizer quando começou e pensando assim de maneira distanciada, esse tipo raro de evento, não deve ter origem certa. Apenas acontece e a gente percebe a aprofunda no encontro seguinte e assim se constrói sem que a gente saiba toda a base de uma amizade, toda a feitura da confiança, toda a delicadeza de uma vida nas mãos de outra, cientes. Meu amigo.

- Faz mais de um mês que eu não sei dele.
- Não sente vontade de ligar? De saber o que anda fazendo?
- Muito pouco. Chega uma hora que a curiosidade é tão grande e tão intensa, você pensa que vai enlouquecer, mas da mesma forma que veio, ela vai perdendo a importância. Porque você se percebe em perigo, em grave risco de se descontrolar, de perder o controle da tua razão, das tuas emoções, da tua noção geográfica, emocional. Você vai ocupando a cabeça com outras urgências. Encontra outras pessoas. Lê os livros atrasados, assiste aos filmes que deixou de lado, escreve outras histórias. E o coração se alimenta de outras sensações.
- Você parece forte.
- Decidido. Tô muito longe de parecer forte. Meu humor oscila, minha sensibilidade está desgovernada. Essa cidade faz isso com a gente. Às vezes o teu corpo está em estado de relaxamento ou tua energia está mais concentrada e de repente, por qualquer motivo, trânsito, violência, pivetes, falta de educação, essa tua privacidade ou é ignorada ou é violada bruscamente. Como é que eu não enlouqueci ainda, me diz?
- Certamente pelo mesmo motivo que eu. Por se manter jovem, por ter coragem de arriscar alguma análise sobre os teus ais, sobre as tuas dores...
- Também as minhas alegrias.
- Especialmente. Seriedade assusta se a gente perde o controle do bom senso.
- Vaca Profana total.
- Nem tão profana assim.

Ventou mais forte e fomos todos para o interior do bar procurando proteção. Veio a chuva e com ela o ruído dos raios e mais vento. Pingos fortes, grossos, decididos que em coro choravam um temporal ali no coração do Flamengo. A gente pediu mais vinho. A gente beliscou uma batata, um frango, a gente bebeu mais e a chuva não cessou. A chuva não deu trégua e eu tinha lido que a meteorologia tinha previsto dias de chuva, mas você sabe que eu nunca acreditei nessa história de previsão do tempo. Não é que os caras acertaram? Um
brinde a tudo o que a gente deixou de querer controlar. Tudo o que a gente percebeu maior que o nosso desejo de querer trancafiar. Ao nosso medo de perder a batalha já perdida. Toda a mesquinharia de saciar a nossa sede com uma noite e por uma noite apenas. Todas as manhãs que acordamos e percebemos a cama vazia, a casa vazia, os lençóis bagunçados. Quantos alguns até a gente perceber que sim, é agora a minha vez e logo depois, antes do próximo suspiro, acode aqui o meu coração com mais um band-aid. Um brinde ao verbo entregar que nunca deixou de ser só essa conjugação empoeirada copiada de algum filme em preto e branco. E aos nossos corpos cansados, inteiros. Bombardeados, mas disponíveis. Cheios de desejos infinitos, aptos, eretos, que de tanto abdicaram, que nunca pensaram em deixar de querer, que se acostumaram com mãos de tantos e diversos lugares, mas que nunca recusaram um toque carinhoso. Um brinde ao que não cessa, essa energia que não seca, esse monstruoso desejo de querer o avassalador, o intransponível, a fantasia da felicidade de um paciente inglês e uma Juliette Binoche para cuidar. Um brinde aos meus trinta novos anos e tudo o que virá, incluindo a curiosidade e o temor de que não haja mais música. Há de haver. Porque a gente cai, mas também se mantém de pé. A madrugada vai ser de chuva que lava e leva. Chuva que limpa. Preciosa em todas as metáforas de todos os escritores e poetas. O bar é nosso e que assim seja.

- Sente falta dele?
- Sinto uma falta enorme. É mais do que ausência.
- Nunca te vi tão decidido.
- Eu nunca estive tão decidido.
- Te admiro.
- Por me manter fiel?
- Sim.
- Voltar atrás seria me trair. Seria esvaziar o meu discurso. Perderia a credibilidade comigo.
- Mas você não está sendo orgulhoso?
- Seria se não estivesse seguindo consciente do que eu quero. Seria irresponsável se estivesse batendo os pés somente por bater, sem considerar o antes e o agora.
- Mas você sente falta.
- Eu sinto falta de poder dividir. Sinto saudade do tom da voz dele chamando o meu nome. Do timbre dele quando o assunto era sério. Sinto falta de ser o primeiro a saber. De ser a última ligação da noite, da madrugada, da manhã. De ser atendido a qualquer hora só porque no dial do telefone dele apareceu o meu nome. Sinto falta de ser o ombro amigo. A confidência íntima. O comentário sarcástico. A sinceridade absoluta. Secreta. Do café, do sorvete, da comida para todos, eu sinto falta. Das banalidades infinitas em comum, da sensação de aconchego. O carinho tímido. De todas as brincadeiras e de todos os filmes que eu indiquei e ele assistiu só por esse motivo. De todas as nossas canções em comum e do desejo de querer que o outro participasse de todo o tipo de descoberta. Sinto falta de como a gente driblava quando não se entendia no meio do campo. De como a gente equilibrava a cidade acontecendo ao nosso redor, sem que perdêssemos o foco um do outro. Sabe um farol no meio do mar? Sinto saudade e sinto falta da natureza do nosso amor. Um amor não é só o amor no peito. Um amor é também essa falha na comunicação. Essas imperfeições no querer de um e no compreender do outro. Disso eu sinto falta.

Saímos do bar direto para o táxi e o dia amanheceu coberto por qualquer fenômeno parecido com uma neblina. Eu segui para casa e antes, abracei o meu amigo por alguns minutos sem dizer nenhum palavra, sem usar qualquer símbolo para que ele compreendesse o meu obrigado, a minha gratidão pela deliciosa noite. E no abraço dele, sem também dizer nenhum verbo, eu compreendi e retribuí o carinho. O táxi dele sumiu no meio da fumaça branca que desceu até as ruas do Flamengo. O meu táxi enfrentou a neblina até que chegamos em Laranjeiras e o sol frágil, foi dissipando as nuvens, como o taxista chamou diversas vezes – as nuvens desceram hoje, moço – e a arquitetura dos prédios, a geografia particular da cidade foi novamente ganhando força. Contornos. Aos poucos e com muita delicadeza, eu fui voltando finalmente a enxergar.


terça-feira, abril 15, 2008


ONCE - APENAS UMA VEZ de John Carney

Eu vou te escrever pela primeira vez. Eu vou te escrever tentando também te descrever a situação. Estou dentro do ônibus e ao abrir as folhas brancas desse caderno, é possível te observar do lado de fora da rodoviária, ao lado de uma garrafa de cerveja e seu bloco amarelo de anotações. Desde que eu te conheço, você compra desse bloco amarelo e eu sempre achei lindo que você se mantivesse fiel aos seus pequenos luxos. Esse objeto sempre me pareceu uma extensão de quem você é. O filtro dos seus pensamentos. Tua cachoeira de idéias íntimas. Teu parque de diversões impenetrável. Então eu resolvi te escrever, meu amor, a primeira carta da minha vida, meu tão querido amor e é possível que você esteja me escrevendo neste mesmo momento. Me escrevendo mais uma das tuas cartas, enquanto espera o ônibus deixar a plataforma e bebe dessa tua cerveja, envolto em letras e nessa sensação de adeus de que tanto nos perseguir, hoje se fez fato. Então eu vou tentar te escrever, embora a escrita não seja em definitivo a minha melhor maneira de me fazer compreender, mas se eu estou aqui dentro e você está aí fora, o melhor canal são essas palavras. Perdoe a falta de intimidade ou habilidade com que te escrevo pensando e quase dizendo. Eu vou embora porque eu tenho essa grave sensação de apesar de todo o nosso amor e de toda a nossa cumplicidade, de que acabamos nos misturando e nos perdendo além do permitido. Eu fui deixando de ser uma mulher independente inteligente consistente e fui me transformando em nós dois sem direção sem medida sem regras ou conseqüências. Eu virei a tua mulher. Ao me transformar na tua mulher, quais os rumos que a mulher que existia antes tomou? Quais as vias que me levam até ela? Eu sou mulher dele, eu dizia. A minha mulher, você me anunciava e me encarcerava nesse conceito machista talvez e sociológico nem tão necessário assim. Eu fui deixando de ser aquela e fui virando essa coisa a dois, essa mistura de eu mais você, de mulher mais homem, sem olhar para trás. Ou para frente. Daqui de dentro do ônibus, as coisas parecem um tanto repetitivas. Acho que numa rodoviária, as pessoas executam movimentos padronizados e aparecem todos inseridos num contexto onde a mecânica predomina. Existe o motorista, algum fiscal que coordena os horários e atrasos, existem esses seguranças que ajudam as pessoas perdidas, o outro rapaz que ajuda a abrigar as malas e todo esse pessoal que trabalha no comércio local. Isso sem falar no fluxo de pessoas que entram e saem por aqui todos os dias. Não sei por que, mas toda vez que eu saio ou chego nessa cidade pela rodoviária tenho uma sensação de abandono enorme. Toda vez que eu saio daqui, eu me sinto melhor, como se eu estivesse indo em busca de uma vida melhor para mim. Como se eu estivesse saindo para resolver alguns nós, saindo para procurar justiça ou encontrar um amor. Saindo para ser um eu melhorado do que o eu que mora e vive aqui. Saindo para depois voltar. E voltar é sempre um aconchego. Voltar me parece uma grande certeza quentinha e saborosa. Voltar é contar do que houve, é observar o trânsito lento, as cores do céu dessa cidade, essa mistura de pessoas sem educação e levemente malandras com pessoas cheias de esperteza e seus pequenos medos. Voltar é ter um ninho, é saber que algumas pessoas e seus tantos objetos estarão ali, à sua disposição, sem alterações bruscas. Te olhando nos olhos e dizendo verdades ou mentindo algum carinho só para agradar. Eu vou embora porque eu preciso saber como a minha vida funciona sem a tua direção. Só por isso. Fora daqui, assim que esse ônibus ganhar a estrada, eu começo a viver uma aventura íntima e deliciosamente intransferível, que eu venho me prometendo desde que eu percebi que nós dois tínhamos conseguido nos atar de tal maneira, que qualquer vento e toda a tempestade jamais nos afastariam. E isso é um susto. Um susto maiúsculo. Então eu vou para voltar a ser eu mesma. Ou descobrir outra mulher inteira que nunca se deixou despedaçar. Até que você surgiu e me disse poesia e me escreveu cartas de amor como eu jamais ousei receber. Como eu jamais supus existir. E eu fui compreendendo dessa mulher inteira que nunca se espatifou em tantos pedaços. Que cedeu e concediu. Que foi deixando a represa avançar sem a menor preocupação com o volume da água. Você me permite abusar das metáforas e das frases de efeito? Eu não sei o caminho. Eu só quero te escrever enquanto você também me escreve. Certamente palavras muito mais interessantes e menos confusas. Quero que você saiba que nunca nenhum homem ousou e chegou tão perto e tão intensamente e tão inteiramente e por todos os lados, que me fez acreditar e eu acreditei sem questionar, que não poderia jamais me afastar. O ônibus vai partir, os motores foram ligados e eu só desejo sorte para ti. Sorte para mim. Para nós.

Daqui de fora eu não consigo ver o teu rosto, mas eu sei que você está aí dentro. Também sei que você deve estar ouvindo música para não pensar no adeus que você não me deixou te oferecer. Eu não sou dos mais espertos, existem alguns mistérios que eu não compreendo, como a morte, destino, telefones celulares e internet. Também não entendo porque você está me deixando enquanto tento te escrever no bar mais sujo da rodoviária, rabiscando palavras que você não vai ler. Eu tento te escrever e nessa tentativa vã eu lembro do Caio Fernando Abreu e de todas as vezes que eu te li ‘Para uma Avenca Partindo’. Lembro dele porque o teu ônibus também vai partir e eu também tenho uma porção de coisas para te dizer. Mas eu não vou dizer ou eu não sei dizer porque eu não entendo e eu vou repetir que eu não entendo por todo o tempo, até que comece a fazer qualquer sentido, porque eu não deveria estar aqui fora sem você. Eu não deveria estar em qualquer lugar sem você. Em alguns minutos, eu vou ser obrigado a reaprender o verbo ser sozinho. E essa idéia me causa medo. Faz tanto tempo que eu aprendi a ser eu mesmo com você. Depois que você chegou, você sabe. Você sabe, não sabe? Na nossa última conversa você me dizia que sentia falta de ser você mesma. Que precisava resgatar a sensação de se sentir indivíduo, cidadã, um ser singular. Nunca tive a intenção de te roubar de ti. Sempre achei que o teu trabalho, as tuas pessoas, as tuas preferências e adorações, te causassem essa certeza de ser única. Você sentia falta de uma identidade que insistentemente você afirmava existir antes de mim. Eu te digo que antes de você, eu era filho sem pais declarados, homem sem documentos. Indigente sem rumo. Até que você chegou e me legalizou, me tornou cidadão, homem da cidade. Ciente. Me vestiu roupas, me ensinou o alfabeto, deu sentido a ele. Eu fui aprendendo, você foi me guiando e eu compreendi que sou o tipo de homem frágil que precisa do amor de uma mulher como você para se sentir legítimo. Para perceber sentido em tudo o que há. As palavras secaram porque eu escrevo lentamente e o motor do teu ônibus acabou de ser acionado. Física química matemática maldita. Dois corpos merecem ocupar o mesmo espaço. Mas eu aqui. Você aí. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. As palavras secaram. As palavras secaram. Secaram as palavras. Teu ônibus partiu. As minhas lágrimas secaram.

quinta-feira, abril 10, 2008

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA de Julian Schnabel

Ele parecia um rapaz especial... Não, deixe eu recomeçar, preciso criar uma imagem mais séria. Ele parecia um homem especial, com sede e vigor. Tão jovem e tão bonito - falo de traços, do desenho dos lábios vermelhos, do instigante sorriso branco, da pele macia e morena do sol carioca. Tão bonito, às vezes lindo, excepcionalmente lindo - falo de situações e fragmentos, muitas vezes delicados, muitas vezes atencioso em pequenas observações, em olhares direcionados de quem observa a vida com interesse. Não era tão alto mas era grande - falo de caráter, responsabilidades, comprometimentos. Ímã tinha a virtude de reunir ao seu redor um número expressivo de pessoas. Do todo, alguns se aproximavam para desfrutar sua beleza, outros para sentir sua energia, aproveitar a atmosfera misteriosa/instigante/especial - e definir especial me parece subjetivo. Do todo, a maior parte viciava. E vício, você sabe como é. Pode demorar muito, pode levar pouco tempo, em algum momento, pode ser em minutos ou meses, algo entre uma rasteira e um susto. Ente o mágico e o trágico. De tanto viciar, tinha também seus vícios, alguns muito claros. Alguns ele fazia questão de omitir. Tratava todos com muita atenção, muita alegria, mas sua simpatia até então aparente, era um padrão comportamental que o defendia. De entrar na vida, estabelecer intimidade, contato real, mergulho. Como um quadro interessante que desperta a atenção, causa sensações, mas não permite o contato. Como todo espelho, atenção era fundamental. Mais do que o reflexo, os olhares sobre o reflexo eram mais importantes. Pareciam ser mais importantes.

Até que um dia, lascou, risco entre as superfícies, irreversível. Em algum momento - e não saberia dizer quando - algum estalo, alguma pressão, um atrito leve ou intenso, porém abrupto. E o olhar alcançou um novo campo. E o que antes não fazia sentido foi, aos poucos, ganhando importância. Então o trampolim, as pernas e o tremor, o desejo do salto, a necessidade do mergulho, de ser como todo mundo que é. Descobriu que sabia amarrar o laço dos sapatos. E que laços se desfazem. Muitas vezes quando não percebemos. Que nadar faz bem ao corpo. Que nadar melhora a qualidade da vida. E descobriu os peixes, as cores, a velocidade, a variedade. Descobriu que podia descobrir. E era bom. Era possível. Agora não mais parecia, mas era um homem especial. Desses cheios de vida. Sua beleza não encantava pela plasticidade, mas pelo carinho com que conduzia os seus afetos. Descobriu o outro. E descobriu também o túnel escuro e algumas - poucas vezes - o não, o feio, o trágico. Pensou que a vida é também o outro. E em algumas ocasiões, necessariamente o outro. Pensou em dois. Em mil. Em poucos. Pensou em mim e no que existe entre nós. No que nunca foi dito. E me disse:

Eu te digo que já abandonei. Já fui abandonado. Já chorei na janela olhando o céu. Já bebi e dancei por algumas horas para esquecer que o amor bate as portas. Já fiz sexo como um louco desgovernado para sentir uma sensação mais forte que a da partida. Já escrevi palavras deprimidas e esqueci em algum canto. Já ouvi música triste e cantei alto as letras mais melancólicas para reafirmar meu ponto-de-vista. Já telefonei e desliguei antes do alô. Já comprei presentes que mudaram de destino. Já esperei muitas noites por um toque no telefone, uma mensagem na caixa do correio, um sopro qualquer de longe, de perto, um sopro. Já derramei lágrimas no escuro anônimo do cinema. Já disse poucas e boas para um você imaginário e quando o você real apareceu, tudo o que eu havia dito se transformou em sorriso e incapacidade. Já estanquei o nó na garganta e transformei em alguma palavra que não era a palavra, mas o nó virando verbo. Já abracei querendo não largar. Já dormi junto de não querer ver o tempo passar. Já festejei e enterrei com a mesma intensidade. Já fui e sou como qualquer um que ama e conjuga.

Na verdade, ele não falou nada disso. Ele me olhou nos olhos com a firmeza da certeza e então finalmente disse:

sábado, abril 05, 2008

DICAS DE ABRIL

Nasceu da ponta de uma conversa uma idéia. Ela me dizia que sentia falta da minha opinião em relação aos filmes. Que não ficava claro se afinal, estaria eu indicando ou não os filmes que servem de pano-de-fundo aos textos que alimentam esse espaço. Então, resolvi. Todo início de mês, listarei algumas indicações. Deixando claro que vale todo tipo de filme: os antigos, os lançamentos, aqueles que se aproximam mais do meu coração, da razão ou nenhuma das alternativas anteriores. Dicas curtas que não encerram ou validam a vida longa de uma obra. Nada perto de uma crítica de cinema – para isso, os links na barra ao lado de gente que escreve sobre cinema de forma muito mais interessante do que eu jamais me propus. Dicas. Se houver interesse ou curiosidade. Deixem dicas e opinem!


1 Em Paris de Christophe Honoré
Paul e Jonathan são os dois irmãos do centro da história. O primeiro volta à casa do pai em Paris após dolorosa separação amorosa; o segundo é um sedutor esperto que nos narra o filme. Delicadeza, sensibilidade e pelo menos duas cenas para não esquecer. E eu ando assim, enfeitiçado pelo Louis Garrel.

2 Azulescurocasinegro de Daniel Sánchez Arévalo
Depois de passar anos cuidando do pai e estudando, Jorge pensa em começar uma vida nova. Quando conhece Paula, entra numa relação diferente. Filme bonito com um olhar especial sobre a amizade do protagonista com seu vizinho em processo de descoberta da orientação sexual.


3 The Bubble de Eytan Fox
Sempre tive vontade de fazer um texto lindo sobre esse filme, mas ele sempre me toma a palavra. Em um bairro de Tel Aviv, três jovens israelenses dividem um apartamento: o balconista Noam, Yali, o gerente de um café, e a vendedora Lulu. A harmonia do grupo é abalada pela chegada de Ashraf, um palestino que inicia um namoro com Noam. Muito difícil tentar resumir. Mas imperdível.


4 Evening de Lajos Koltai
Um drama que explora o passado romântico e o presente emocional de Ann Grant e suas filhas Constance e Nina. Ann está no seu leito de morte e relembra os momentos de definição de sua vida há cinqüenta anos atrás, quando ela era jovem. O elenco é o grande atrativo e a gente lembra o quanto a Claire Danes é boa atriz e a Vanessa Redgrave é estupenda. Pena que eles desperdicem a Toni Collette, mas não faz mal. Meloso para quem não gosta de açúcar.


5 Once de John Carney
Tudo o que posso dizer é que faz muito tempo que um filme não me faz chorar tanto. De molhar a camisa. Joga a depressão para longe e comove porque é bonito. Lindo. Pelas ruas de Dublin, um músico toca suas composições para arrecadar alguns trocados. Uma turista tcheca se encanta pelas melodias e entra, sem querer, na vida dele. Quando menos percebem os dois dão início a uma parceria musical e afetiva. O filme terminou e eu troquei a camisa molhada.


6 Les Chansons d’amour de Christophe Honoré
O que anda me atraindo na direção e dos roteiros dele, é que a narrativa é cheia de elipses. Ele dispensa algumas explicações desnecessárias e suas personagens têm vida e velocidade própria. O final de Em Paris me deixou feliz. O desse aqui, me soprou a sensação de que não importa onde, mas ainda existe, viu, a possibilidade latente para cada um de nós. E claro, o Louis Garrel.


7 The Wedding Wars de Jim Fall
Filme feito para televisão, extremamente bem humorado e romântico. O que aconteceria se todo gay americano entrasse em greve? Essa é a pergunta feita pelo protagonista, que encara um conflito político e quase pessoal com seu irmão, às vésperas do casamento. Leve e divertido, me fez cair no choro no finalzinho.


8 Glue de Alexis dos Santos
As primeiras experiências com drogas, a alienação da família, o homoerotismo, a frustração sexual e a descoberta de si mesmo. A narrativa gira em torno de Lucas e seu melhor amigo Nacho, que passam o dia tocando numa banda, andando de bicicleta e falando sobre sexo. Entra em cena Andréa, e os três rapidamente passam a formar um trio que proporciona os momentos mais líricos do filme, com seus comentários sem sentido, silêncios inoportunos, risadas bobas e reflexões quase-filosóficas. Adorei.


9 Extermínio 2 de Juan Carlos Fresnadillo
Sou fã de filmes de zumbis. E aguardei ansioso a estréia dessa seqüência. Um vírus mortal aniquilou a Grã-Bretanha há 6 meses. Os Estados Unidos anunciam que a guerra contra a contaminação foi vencida, com a reconstrução do país tendo início. Porém um de seus integrantes carrega consigo uma variação do vírus, ainda mais mortífero que o original. Ou seja, maravilhoso.


10 Tá Dando Onda de Ash Brannon e Chris Buck
Meu sobrinho já foi desculpa para que eu assistisse desenho. Hoje vejo mais que ele e ainda me divirto em dobro. Um pingüim que sai de sua casa para participar de uma competição. Durante sua aventura ele conhece o galo Chicken Joe, melhor personagem do filme. Para Cody, vencer é o que mais importa até conhecer um velho surfista que irá mostrar que um verdadeiro vencedor não é sempre o que chega em primeiro lugar. Adorei porque é em tom de documentário e leve.

terça-feira, abril 01, 2008

UM BEIJO ROUBADO de Kar Wai Wong

- O microondas queimou.
- A comida?
- Não, ele queimou. O Aparelho queimou. Fui esquentar comida de madrugada. Apagou tudo.
- Você come de madrugada, né?
- Como quando tenho fome.
- Se eu comer de madrugada, eu não consigo dormir.
- Eu não consigo dormir nunca, então não faz a menor diferença quando eu tenho fome.
- O que você fez?
- Tentei esquentar a comida no forninho. Mas coloquei um pote de plástico que queimou. Derreteu, sei lá. Ficou um cheiro de coisa queimada pelo apartamento. Plástico e comida. Um horror.
- Acende uns fósforos. O cheiro some.
- Jura?
- Quase sempre dá certo. Se o cheiro é muito forte, o fósforo queimado elimina o odor, diminui um pouco. Truque de quem divide o banheiro.
- Vivendo e aprendendo. Depois parti para o biscoito.
- Sem dormir?
- Só dormi quando o dia amanheceu. Aliás, eu entrei nessa rotina: passo a madrugada acordado e durmo depois das seis. Vou até a hora do almoço. Virei um bicho preguiça.
- Eu detesto a parte da manhã.
- Eu nem vejo passar.
- Prefiro a noite. Especialmente a madrugada.
- Eu também.
- Mas você nunca foi de dormir horas. Seu sono sempre foi picotado.
- Quando nós morávamos juntos, Gabriel, a nossa vida era fragmentada. Cada dia era uma aventura, muitas vezes interrompida por amigos que chegavam sem avisar.
- Lembra quando você teve a idéia de fazer uma cópia da chave para os meninos?
- A pior idéia de todos os tempos.
- Concordo.
- Passado. Vamos deixar para trás.
- Época boa.
- Que passou.
- Você sempre evita quando eu falo sobre nós dois.
- Eu não evito. É que você tem essa necessidade de falar sobre a nossa vida de antigamente. O apartamento, os momentos, tudo o que já foi.
- Você parece não se importar.
- Porque eu não alimento a tua carência?
- Esquece, a gente vai brigar.
- A gente sempre briga.
- Não deveríamos.
- Vai ver que pessoas que se amam e se conhecem muito, também sabem como acionar os destemperos pegando uns atalhos.
- Vai ver.
- Desemburra, vai. A gente tem tanta coisa para falar. Teu emprego novo, tua casa, teu projeto de cinema.
- Vou ficar em silêncio. Porque tudo o que eu digo, todo assunto que eu jogo na roda, ou é ignorado ou é substituído por outro.
- Briga, certo?
- Para ficar duas semanas sem te ver e depois quando te encontrar, começar essa sessão incessante de irritação?
- Me conta do trabalho, vai. Alguém interessante ou ainda não teve tempo de averiguar?
- Não quero. Tô irritado.
- O que você quer Gabriel? Que eu reaja aos seus questionamentos? Que eu disserte sobre a vida que a gente levava?
- Eu quero conversar com você.
- Estamos conversando.
- Quero saber o que você pensa.
- Você sabe o que eu penso. Sabe quem eu sou. A sensação que eu tenho é que você quer que eu diga alguma coisa que eu não posso dizer. Que eu nem sei o que é. Pára com essa mania de querer que eu cumpra as suas expectativas, que eu diga frases que você quer ouvir. Joga fora esse desejo de me transformar no cara que você quer que eu seja. Assim a gente não briga mais. Assim a gente pode se ver toda semana e tomar uma cerveja sem essa nuvem de implicância rodeando as nossas cabeças.
- E vamos falar sobre o que? Sobre a pipoca do microondas que quebrou?
- Queimou.
- Você me trata como se eu fosse uma dessas pessoas que te rodeiam o tempo todo, essas moscas. Não são amigos, não são amores, estão aí para fazer volume.
- Como é que você gostaria de ser tratado?
- Não se trata disso.
- Só se trata disso. Desde que a gente se conhece, você me cobra intimidade. Você me alfineta com a idéia de que eu não te trato da forma que você gostaria. Busca uma relação que eu não compreendo. Não existe ninguém que saiba tanto sobre mim. Depois que fomos morar juntos, achei que isso fosse passar. Não existe intimidade maior do que dividir os dias, a casa. Só que não passou. Eu não sei o que você quer e você também não fala com clareza.
- Vamos esquecer.
- Vamos resolver.
- Não há o que resolver.
- Você quer saber tanto sobre mim, quer me mapear, desvendar o que eu penso, o que eu sinto. E você sabe de tudo, não existe onde me esconder. Não mais. Poxa, já parou para pensar que é você quem não se revela? Nós moramos juntos por quase dois anos e eu sempre respeitei o teu espaço, a tua individualidade. Eu nem sabia do seu truque com o fósforo.
- Observe com atenção, então.
- Eu tenho essa sensação de que você sempre vai me cobrar uma postura que eu não sei me encaixar. Não é para te irritar ou para criar confusão não. É para afirmar quem eu sou. E isso não é te amar menos. Não é deixar de corresponder o teu carinho. É agir de acordo com a minha personalidade. Se eu não te agrado, se eu não me encaixo nas tuas expectativas, não espere nada de mim. Se você quer alguma coisa que eu não te dou, peça. Reclame. Mas abandone essa idéia que você criou sem me consultar.
- Já entendi. Eu vou nessa.
- E vai sumir? Tô te dizendo para você observar com atenção.
- Eu vou nessa. Tenho uma crítica para entregar ainda hoje.
- Desculpa para fugir.
- Sabe uma coisa? Independente do futuro, se a gente continuar com essa... Relação confusa, eu te desejo alguém para amar, saúde todos os dias e que o improvável seja generoso. Se e a gente nunca mais se encontrar por aí ou se perder, eu te desejo alguém para amar, saúde todos os dias e que o improvável seja generoso.
- Senta aí, vai. Uma vez que seja, não dê o desfecho de sempre. Deixa eu te contar por quem ando apaixonado. Minha mais nova tara impossível.
- Eu tenho uma crítica para entregar.
- Vinte minutos, é só o que eu te peço.
- Sem implicar?
- Se você se comportar.
- Me conta.
- Não morra de rir.
- É famoso, então.
- Apresentador. Hetero. Deve ser casado, filho e tal.
- Então é platônico?
- Total. É só a minha mais nova tara das noites de domingo.
- Conta.
- Um metro e noventa e dois.
- Você gosta de homens altos.
- Já namorei baixinho.
- Mas prefere os altos, magros, elegantes.
- Elegantes misteriosos. É comentarista esportivo.
- Viciado em gente impossível você.
- E apresenta o Fantástico.
- Que safado!
- Não tenho culpa, é mais forte que eu!
- O Tadeu Schmidt é meu, você tira esse teu olho.
- De jeito nenhum, apaixonei, não posso fazer mais nada.
- Apaixonado? Por um apresentador? Não, isso não combina com você. Combina comigo, com você nunca.
- Isso que dá ser solteiro e passar as noites de domingo em casa. Até o Zeca Camargo eu tenho achado bonitinho.
- Você precisa sair, hein!
- Mas o Tadeu... Ele é tão... Sabia que ele é irmão do Oscar do basquete?
- Sabia, eu sei tudo sobre ele. Ele é meu.
- O rosto lindo, sereno, magrinho, elegante, deve ser perfumado.
- Vamos ver até onde vai a sua paixão...
- O que está em jogo?
- Vamos negociar. Tenho um microondas no depósito. Usado, mas funcionando.
- Jogo pesado.
- Eu te dou o microondas e você não vê mais o Fantástico nem fala mais no Tadeu para não propagar sua paixão e as pessoas não perceberem o charme dele.
- Não, não posso negociar meu tesão.
- Vai ficar sem comida aquecida, sem nescau quentinho na hora de dormir? E a pipoca, quanta pipoca você vai desperdiçar. Vai dar uma dor de cabeça. E o Tadeu vai continuar sendo meu. Já não chega os bonitões reais que você catou antes de mim? Deixe o meu imaginário em paz.
- Um microondas e o Fantástico domingo sim domingo não. Aceita?
- Talvez.
- Domingo sim domingo não e sem comentários sobre o charme dele, as roupas dele, o sorriso ou qualquer outra particularidade. Pode ser?
- Onde eu assino?
- Garçom, por favor, papel e caneta!