quarta-feira, julho 30, 2008

O PASSADO de Hector Babenco

Desceu as escadas confuso com o barulho de todas aquelas pessoas e de toda aquela música alta que balançava os corpos uníssonos. Desceu as escadas querendo sair daquele lugar, tentando manter a calma para que não fosse percebido. Faz muito tempo que ele não encara a noite lotada de gente animada. Seus últimos programas esbarravam em poucos corpos, como um cinema no final da tarde ou a casa de amigos próximos. Então essa sensação de multidão, essa nuvem de pessoas que a cidade tira de suas casas para confraternizar, lhe parecia novidade e causava algum espanto. Desceu as escadas ao som da batida da música, quase no mesmo compasso, quase sem sentir. Esbarrou em alguém, não saberia dizer se homem ou mulher. Não olhou nos olhos. Pediu desculpas e prosseguiu até que acotovelou, na afobação do desejo de evadir, o rosto de um estranho. Dessa vez precisou olhar nos olhos:

- Me desculpe.

Ganhou um olhar de reprovação que ao encontrar o seu olhar de pânico, perdeu a força e se transformou num ato impulsivo, acredito, que o fez ganhar um beijo no rosto. Como se dissesse qualquer carinho e sublinhasse que a noite agitada em lugares disputados é assim mesmo: a gente esbarra sem olhar, a gente pisa sem querer, a gente não enxerga ninguém e torce para que seja divertido.

- Você está bem?

Não me faça essa pergunta ele repetia sem dizer, deixando que os olhos mergulhassem na superfície azul dos olhos do outro. Não me faça essa pergunta complexa. Não me faça essa pergunta sem resposta, esse poço sem fundo, esse buraco preto infinito. Não me pergunte porque eu corro o risco de querer responder e eu não sei se você está sendo apenas educado ou exercitando a simpatia. Eu não sei se você vai querer saber de tudo o que aconteceu antes dessa escada. Antes dessa noite. Para eu te responder, eu teria que deixar você entrar na minha vida. Eu teria que entrar na sua vida e eu não sei entrar na vida das pessoas porque eu sou espaçoso e eu gosto de atenção. Então não me faça essa pergunta porque se você quiser ouvir a resposta, vamos ser mais do que apenas dois estranhos. Também não sei se você é mais um na multidão e só quer a noite e não a pessoa. Você quer a pessoa?

- Você está bem? – ele repetiu e dessa vez tocou as suas mãos frias.
- Eu só preciso sair daqui.
- Quer tomar uma cerveja lá fora?

Respondeu que sim com a cabeça. Por um momento, temeu que falar poderia lhe trair as intenções. Poderia dizer sim com muito entusiasmo, o que poderia lhe fazer parecer desesperado. Ou poderia ainda não ser enfático e assim pareceria descaso. Por isso balançou a cabeça e driblaram a saída e todas as pessoas daquele lugar escuro barulhento onde resolveu se aventurar, depois de tanto tempo ausente.

- Faz muito tempo que você não sai?
- Algum tempo.
- A gente desacelera.
- A gente desacostuma.
- Você veio sozinho?
- Deixei os amigos lá em cima. Não consegui ficar cinco minutos por lá.
- Essa confusão não é para qualquer um.
- Engraçado porque eu saía todo fim de semana. Tinha um grupo animado. Era mais jovem e eu não me importava, sabe? Eu enfrentava a noite. Eu compreendia esse rito da madrugada. Hoje em dia me parece tão assustador.
- O que te deixa assustado?
- Eu não sei dizer. Mas tudo me parece meio estrangeiro.
- Você não se encaixa.
- Eu poderia, mas seria exaustivo e não seria verdadeiro.
- Então por que você veio?

Abriu a lata da cerveja com calma. Antes de responder, ainda brindou em silêncio e recebeu o brinde em retribuição. Também em silêncio.

- Eu tive vontade. Acho que a gente não precisa anular o que nos causa desconforto. Ou medo.
- Tudo é uma questão de hábito, não é?
- Ou de desejo.

Eu não saberia explicar, mas começaram uma conversa boa sobre todas as coisas. Filmes, livros, televisão, pessoas em comum, o trânsito, a temperatura, os encontros furados, expectativas, contas, responsabilidades, segurança, família, mínimos óbvios. Falaram de amor. De amores. Amantes. Falaram de tanto o quanto podiam, com encaixe. Com aquela sensação nobre de falar e ser ouvido e deixar que o outro fale e seja ouvido. Com aquela generosidade da conversa que se olha nos olhos e estimula a próxima frase. Desperta o desejo de compartilhar. Algum pequeno segredo. Alguma grande banalidade. Não importa. O interessante é que dois homens conversavam e conversavam sem fim e sem medo em julho de dois mil e oito. Os amigos se aproximaram e se apresentaram. Insistiram para que eles os acompanhassem, vamos curtir essa festa! Sem êxito, se afastaram enérgicos e voltaram ao andar de cima, onde tantos dançavam também sem fim a madrugada fria. Lá fora era a palavra que abria as portas dos dois distintos rapazes. Era a palavra que informava e dava dicas, confundia o caminho, fincava as bandeiras, sintonizava a nitidez e ouso, a transparência.

- Como é que a gente nunca se esbarrou antes?
- Como, me diz?
- Tantos amigos em comum, tantos lugares em comum.
- E o que a gente faz agora?
- Boa pergunta.
- A gente pode dançar.
- A gente pode comer.
- Comer seria uma ótima.
- Ou dançar.

Quando alguém conhece outro alguém que nunca ouviu falar antes, se houver atração, em pequena ou grande escala, se estabelece um ritual do envolvido em questão, de querer parecer melhor do que é. Os charmes se destacam. Os acertos se evidenciam. A parte bacana querida e fofa de cada um ganha contornos mais fortes e a gente deixa o lixo longe, empacotado e devidamente amarrado. A gente evita falar demais porque as palavras são provas importantes que podem ser usadas contra você, especialmente quando a gente menos espera. A gente evita opiniões maiúsculas, especialmente se a atração for igualmente maiúscula porque se o outro ousar discordar de ti e se for desprovido de senso de humor, alguma pequena avalanche há de atrapalhar o caminhar do enlace. A gente enfatiza a simpatia, a educação e a pacificidade. Sem perder a personalidade, a gente observa o território alheio e tenta fazer com que esse território, se interesse houver, sinta-se em harmonia com o teu terreno. Quando alguém conhece outro alguém que nunca ouviu falar antes e por alguma razão misteriosa e intuitiva, você quer prolongar a simpatia, a gente abre um tanto a mão do mundo real.

Com eles, não havia esforço ou cortesia forjada.Com eles era mais simples. E eu não sei explicar o motivo. Também não sei se existe algum motivo. Apenas mais simples.

- Me conta um segredo.
- A cadeira elétrica foi inventada por um dentista.
- Sério?
- Li isso em algum lugar e nunca mais esqueci.
- A gente pode se encontrar de novo?
- A gente deve se encontrar de novo.
- A gente deve.

Depois, em casa, ainda encantado, pensou na lógica do senão. Quando, por algum impulso, por algum desejo, quando a necessidade aponta e a gente quebra a rotina e a vida te sopra um sorriso, é preciso retribuir. Encantado, pensou em todas as noites de todos os dias, quando disse não. Pensou em todas as justificativas inúteis que deu aos amigos quando recusou seus convites. Pensou que pensar nisso não adiantaria tanto. Por tanto tempo foi assim. Por tanto tempo foi bom ser assim. Encantado, ligou o computador para checar suas mensagens. O coração acelerou quando ele clicou no endereço e havia uma carta dele.

A primeira.

segunda-feira, julho 28, 2008



Já está no ar o segundo texto da coluna Depois do Filme.
Deixem seu carinho.

sexta-feira, julho 25, 2008


THE SCIENCE OF SLEEP de Michel Gondry

Lembro que chovia forte.
Não lembro da imagem do dia,
mas as folhas das árvores ventavam forte.
Levantei febril, as extremidades pesando,
dificultando os pequenos percursos diários que sempre executei,
mas que hoje... bem, hoje, eu...
Quando acordei ainda chovia,
duas ou três pessoas ao redor e a luz da luminária muito forte,
pedi um copo de água e percebi que a minha voz não era ouvida.
Como se arranhasse as cordas, falar me doía a garganta.
Assim como engolir e eu sentia sede.
E eu sentia fome.
Quatro dias depois,
a febre não cedia e me fez faltar o trabalho,
me fez faltar o teatro, me fez faltar a vida.
Soro na veia.
Até que na emergência do hospital,
fui informado que deveria partir para um medicamento mais forte
e zerar o anterior.
Que as bactérias não estavam cedendo aos antibióticos.
Pelo contrário, estavam se fortalecendo.
Acho que papai ou eu mesmo,
elas estão se fortalecendo para derrubar quem?
Que exército é esse que luta contra mim dentro de mim?
Receitou, muito sério, uma injeção forte.
Depois fez uma brincadeira.
Depois receitou dez injeções de um antibiótico ainda mais forte,
que não é o mais caro, fez questão de observar,
que vai me derrubar para me levantar.
Na primeira aplicação, eu fiquei de bunda de fora,
porque injeções como essas precisam ser na bunda e quase desmaiei.
O estômago vazio,
a dor intensa ainda me impediam de comer, beber, engolir.
Dormi por horas e sonhei séculos de pesadelos.
Ando carente da beleza, leveza, delicadeza,
todas essas 'ezas' que sempre me entusiasmaram.
De maneira que ficar doente e não melhorar,
me causa a sensação de impotência.
Hoje vou fazer a terceira aplicação da injeção,
minha bunda vai estar de fora ainda por mais sete dias.
Mas não me espanta a bunda de fora.
Me espanta a recuperação lenta.
Veja você que depois de oito dias,
hoje é a primeira vez que consigo tomar uma sopa.
Dói menos, não tenho mais febre, mas o exército ainda luta para me derrubar.
Ele diz sério,
ele é muito sério e sua seriedade me desconcerta - que a amidalite foi aguda.
E eu sempre compreendi que com o agudo e o grave a gente canta uma canção.
A gente soma as vozes.
Mas ele me dizia amidalite aguda e essa virose,
essa virose, você já deve ter ouvido falar,
você precisa de repouso,
muito líquido, cumprir as aplicações do antibiótico,
bunda de fora e os remédios todos que eu prescrevi,
aqueles quase quinhentos reais que eu estou te fazendo gastar.
Hoje eu tomei sopa.
E sorri como uma grande vitória, como de fato foi.
Estou retornando ao paladar,
distinguindo os sabores dos sucos, da água,
dos próprios remédios, das sobremesas.
Descobri que me falta paciência para encarar a recuperação.
Porque ninguém espera de uma noite para outra,
acordar e desmaiar no meio da rua e perder o controle da vida,
dos compromissos, de tudo o que era até ainda agora.
E por menor que tenha sido,
surtiu efeitos enormes e me abriu os olhos para o desperdício.
Atenção ao desperdício!
Quando a gente não espera, a vida muda o jogo.
A gente não é avisado,
não dispomos de tempo para reavaliação,
é no movimento que a gente equilibra e cai sentado,
é no desequilíbrio que a gente acerta e ganha um coração,
que a gente chora e vira saudade.
Atenção ao desperdício: ao que é de isopor,
aos desafetos desnecessários,
aos gritos sem necessidade,
às palavras desgovernadas.
Resgatei ficando doente alguns obrigados e te amos que por algum motivo, estavam sendo desperdiçados, não usados.
Família e amigos são tesouros que nos movem adiante.
São carinhos fortes,
quase medicinais, quando de verdade.
Vou parar de escrever porque me falta o fôlego
e tenho mais uma injeção para tomar.
Aos poucos e no meu tempo,
a saúde vai preenchendo o espaço que sempre lhe pertenceu.
E as bactérias vão perder a batalha,
porque bunda de fora para dez aplicações
é um motivo mais do que justo.

segunda-feira, julho 21, 2008

Senhores leitores, à partir de hoje, assino a coluna 'depois do filme' no site da Revista Paradoxo.

Toda segunda-feira, quem tiver interesse, estou por lá.

O texto de estréia já está no ar.

Deixem seu carinho.

Um beijo

NUNCA É TARDE PARA AMAR de Amy Heckerling


- Senhor, digite a senha, por favor.
- Sabe o que é? Eu esqueci como é que faz.
- Não te passa nada pela cabeça?
- O mundo e seus miligramas me passam pela cabeça.
- Mas a senha...
- Eu realmente não lembro.
- A data do seu aniversário, senhor.
- Você vai me mandar um presente?
- De repente a data, os números, podem fazer com que o senhor se lembre.
- Não, eu jamais usaria um número tão óbvio.
- A senha, senhor, pode ser gerada com letras e com números.
- Eu sou um cara das letras.
- O nome do seu animal de estimação, senhor.
- Você não está ajudando.
- Você também não.
- Não me chame de você.
- Pois não, senhor.
- Quando eu criei essa senha, o Renato tinha me deixado.
- Eu lamento, senhor, que o Renato tenha lhe deixado. Mas eu não encontro relação com a senha que o senhor precisa digitar.
- Você não conheceu o Renato. Ele carregava um ar tão triste. O homem mais triste que eu já conheci.
- Senhor, tristeza não tem fim.
- Era lindo também. O homem mais lindo que eu já vivi.
- As feias que me desculpem, senhor.
- Moramos juntos por dois anos. Quase dois anos.
- Nada é para sempre, senhor.
- Um dia aquele homem lindo, tão triste, levantou antes de mim, arrumou as malas e me acordou.
- Acordar cedo é uma virtude, senhor.
- Gentil, ele era tão triste e tão gentil. Nós fizemos amor. Depois ele foi embora.
- Tem gente que vai para nunca mais, senhor.
- Nunca mais soube dele. Não é estranho você nunca mais saber de alguém que foi tão importante durante um temporada?
- É complexo, senhor.
- Então, faz tempo que eu não uso essa senha. Eu só me lembro que ela foi gerada nessa época.
- Se o senhor não se lembrar da senha, infelizmente não poderemos efetuar a nossa...
- Sim, eu sei. Quantas chances eu tenho?
- Três chances, senhor. Se na terceira tentativa, o senhor errar, o sistema trava e o senhor vai precisar solicitar uma nova senha.
- Não existe um telefone onde eu possa falar com alguém e resolver isso?
- Não senhor. Lembrando também que hoje é sexta-feira e caso o senhor bloqueie o seu acesso, o desbloqueio só será possível na segunda-feira.
- Animador.
- Lembrando também que eu estou prestando atendimento ao senhor, embora o horário do meu expediente tenha terminado.
- Obrigado.
- E eu tenho um jantar em algumas horas.
- Eu não abusaria do seu tempo, se realmente não fosse importante.
- Compreendo.
- Me conte desse jantar.
- É um jantar íntimo, senhor.
- Namorada, namorado?
- É um jantar íntimo, senhor.
- Certo. Fui indiscreto. Me perdoe.
- O senhor gostaria de fazer a primeira tentativa?
- Sim, vamos ver no que dá.
- Digite a senha, por favor.
- Certo.
- A senha é inválida, senhor.
- Eu digitei o sobrenome do Renato.
- Números e letras, senhor.
- Juntos?
- Sim senhor. A1, b2, c3 e assim por diante.
- Eu nunca vou lembrar.
- Se o senhor nunca vai lembrar, então essa conversa não precisa continuar. Certo?
- Mas eu ainda tenho duas tentativas, certo?
- Teoricamente. Mas como o senhor disse que nunca vai lembrar e a palavra nunca indica nenhuma possibilidade, ela encerra qualquer tentativa. Certo?
- Teoricamente. Muito sensato da sua parte.
- Sou um homem realmente sensato, senhor.
- Mas eu não sou. Aliás, sensatez nunca foi o meu forte.
- Percebo.
- Você é muito educado. E também paciente. Eu no seu lugar, já teria me colocado para correr.
- O meu dever é tentar ajuda-lo, senhor.
- Você é jovem. É isso.
- Da mesma forma que o senhor.
- Eu fiz trinta em dezembro. Você deve ter vinte e um. Acertei?
- Vinte.
- Dez anos são dez anos. Eu já fui mais paciente.
- Eu também.
- Segunda tentativa, nem pensar?
- Eu não vou expulsá-lo. Não faria sentido.
- Por que?
- Pelo mesmo motivo que eu deixei o senhor entrar.
- E qual foi?
- Não conto, senhor.
- Sensato e misterioso.
- Nem tanto, senhor.
- Agora você me deixou curioso.
- Peço perdão.
- Eu não me dou bem com curiosidade. Sensação de que ela corrói, ela vai soltando os fios do nexo e embaralhando o raciocínio. Curiosidade gera possibilidade. Plural, sabe?
- Sei.
- A certeza vira dúvida. Por que você não vai me expulsar?
- O senhor ainda tem duas tentativas.
- Por que você me deixou entrar?
- Porque o senhor é cliente.
- Não me chame de senhor.
- Eu gostei de você.
- Mas você não me conhece. Eu posso ser louco ou ter uma bomba na mochila.
- Ou ser um louco com uma bomba na mochila.
- Eu também gostei de você.
- Embora você não me conheça.
- Empate técnico.
- Eu realmente gostei de você.
- Eu realmente não sei a minha senha. Vou roubar um pouco da tua sensatez e voltar na segunda.
- A minha sensatez hoje me abandonou.
- Ou você é apenas um sedutor e diz isso para todos que entram aqui?
- Não daria tempo para dizer a todos, você sabe, é muita gente que entra aqui.
- Muita.
- E tem o circuito interno de câmeras. Se não fosse ele, eu seduziria muito mais. Sabe como é? Vinte anos, a gente atira para todos os lados.
- Depois a gente sossega. Passa a procurar sossego.
- Sério?
- Tem os dias de cio. A gente enlouquece, faz umas besteiras. Cio é cegueira. Você deve saber.
- Eu enxergo muito bem.
- Os meus óculos também.
- Depois que o Renato abandonou o senhor, aliás, você, não pintou mais ninguém?
- Ninguém fica sozinho se não quiser.
- Não é bem assim.
- Em resumo, depois que o Renato foi embora, ele desordenou um pouco do controle de qualquer ordem que eu achava que eu pudesse ter. Ele molhou o meu castelo de areia.
- Mas ninguém fica sozinho se não quiser.
- Sua ironia nem sempre é sedutora.
- Roda mundo, roda gigante, senhor.
- Depois dele eu não consegui, acho que é isso, não consegui mais dividir. Dá um medo, um baita medo monstruoso de acordar e não ter.
- Não é aí exatamente que está o encanto?
- Em perder?
- Em não saber.
- Eu não sei a senha. Me convida para uma cerveja?
- Eu menti.
- Não jogue água na entrada do castelo.
- Eu não tenho um jantar íntimo.
- Eu fico feliz.
- Te convido para comer. Não como desde cedo.
- Nunca é tarde para comer.
- Nunca é tarde para nada.


segunda-feira, julho 14, 2008


AS AVENTURAS DE MOLIÈRE de Laurent Tirard

Então o telefone tocou
E você foi dizendo intimidade
Embora sem eu te reconhecer
Sem eu lembrar de você
Até que usou uma palavra ponte
Que acionou a minha memória
E lembrei do início da minha história
Quando eu não entendia direito o meu desejo
E você surgiu, me revelando
Me descobrindo
Me despertando
Apresentando caminhos.
Lembrei de você no susto
Faz uns 10 anos ou mais
Que nos perdemos de vista
E eu fui ser artista
E nem sei que rumo tomaste...
Então você me convidou para ir
Ao seu apartamento em Botafogo
E senti um certo medo
Pois há anos não te vejo
E também não sabia que você tinha
Um apartamento na zona sul
Não sabia que você tinha os dígitos
Da minha casa, da minha cama ainda.
Que você se lembrava...
Confusão de lembranças
E de desejos
Você foi o primeiro homem
Que me enfiou o dedo.
Eu me aprontei pra você
Meio moleque:
Banho tomado
Perfume usado
Cabelo penteado e
À hora marcada,
Te esperei na saída do metrô
Como você combinou.
Aí você aparece de carro
Um grande carro caro
E me chama para entrar
E você está gordo
Dez anos depois, tão gordo
Que penso em te pedir pra parar.
Você gordo me parece outra pessoa...
Você rico e seu carro luxuoso
E seu enorme apartamento em Botafogo
E esses bens, que você não me diz de onde vêm...
Tudo isso te transforma num estranho.
Então não há papo entre a gente
Fica um silêncio
Constrangedor
Enquanto você me apresenta os cômodos
Como é enorme o seu corredor
Me chama para cama
Se despe na cama
E quer me tocar...
Como se eu fosse ainda aquele garoto
De tantos anos atrás...
Como se ainda tivesse todo o direito
De me querer por trás...
Entre nós existe tanta história
Porque viramos gente
Nesse espaço existente
E não há como ignorar
Que me sinto vulgar
Em te ver hoje e aceitar
Teu convite para comigo se deitar.
O que é? Vai querer me pagar?

Desculpe, seu apartamento é lindo
E você hoje está bem
E isso é bom pra você
Mas eu não vejo ninguém.
Tão grande quanto
Seu apartamento
É a sua solidão
Não há ninguém pra desfrutar
Essa nova história
Essa sala de estar
Essa vitória
De sair da lama
E do bairro onde sua irmã mora
E construir vida nova
Em ares de zona sul.
Onde estão seus amigos?
Onde estão seus amores?
Onde está sua família?
De que adianta
Tantos metros quadrados
Se não há uma única pessoa
Pra te ajudar a pregar um quadro?

Depois de algumas palavras
Você pega seu violão
E toca músicas lindas
Pra preencher o vazio
Que existe entre nós...
O vazio
Que existe ao redor
O fantasma do vazio
Que te assusta
E me assusta - pois também sou jogador -
E que nós tentamos ignorar
Com a música
A tv ligada
Conversas até sobre mulheres peladas...
Eu não sei o que vim fazer aqui
Não sei o que fazer em Botafogo
Com seu dinheiro e suas conquistas
Mas não quero compartilhá-las
À menos que você insista
À menos que você invista
E pra me comer,
Desculpe o que vou te dizer,
Você vai ter que emagrecer!

quinta-feira, julho 10, 2008


WALL-E de Andrew Stanton

“Se a gente vai ficar maluco por amor
É bem melhor que seja a dois
Pois sendo só é bem pior”
(Papo de Psicólogo/ Jair Oliveira)

Se você me perguntasse do cenário, eu certamente ia enrolar algum canto do Rio de Janeiro e possivelmente ilustraria porque as cores e a geografia dessas ruas, me permitiriam qualquer oratória inspirada. Mas talvez, se houvesse um momento, um pequeno momento de lucidez, eu hesitaria tentar descrever as curvas ou os tons ou ainda a atmosfera e focaria no que, para mim, naquele momento, me fez perder toda a noção de onde, como e quando: o teu olhar. Veja bem, não somente os teus olhos, mas o olhar. Que era manso e me interessava. Que parecia querer dizer alguma história que ainda não sei. Me contar algum fato, alguma dica apenas de quem você poderia ser. O teu olhar preto me interessava e no teu conjunto de formas e detalhes que me causavam uma serena curiosidade, era ele que me fazia perder o compasso.

Depois de três dias te encontrando sem te dizer qualquer palavra, apenas correspondendo o que poderia não ser nada além de um olhar perdido, eu saí mais tarde do trabalho e não peguei o metrô no mesmo horário de sempre. Veja bem, eu não sei absolutamente nada sobre você. Além dos teus olhos escuros, tua pele clara e tua mochila azul, não existe fato algum que me entregue a certeza ou a esperança de que poderíamos, quem sabe, encontrarmo-nos outra noite, saindo eu do trabalho, saindo você de qualquer lugar que te ocupa algumas horas de dedicação e que te faz trilhar o mesmo caminho que eu, embora o destino seja diferente. E por qualquer ironia e também por qualquer sensação de alívio, os destinos precisam ser diferentes. Para que possam se cruzar.

Depois de três dias, eu não te encontrei. Voltei para casa sem te observar me observando, pensando que em alguns casos específicos, a gente precisa agir. Sair da posição inerte de observador e arriscar qualquer intenção, qualquer movimento de atenção, qualquer aleluia que nos salve. Voltei para casa, sem você, pensando que a cidade é grande e que por esse mesmo motivo, talvez eu nunca mais te encontre. Talvez nunca mais você. Porque eu não disse olá, meu nome é tal e pode ser que você pense que eu enlouqueci, mas eu gostei de entrar no metrô e encontrar os teus olhos pretos me esperando, eu sinceramente não sei era para mim que você dirigia o seu olhar ou se olhava para um ponto específico, onde eu apenas entrei no quadro e você não se importou muito ou porque não percebeu ou por não ter feito diferença, como se o lugar para onde você dirigia o seu olhar, não fizesse o menor sentido naquele momento e você estivesse pensando na tua vida que eu não conheço, eu não conheço a tua vida, ou apenas observasse o vagão, as pessoas ao redor e ao entrar no metrô, eu rasgasse a tua imagem, intruso do acaso, pirata sem razão de ser. O fato é que eu sou o fulano e dizendo o meu nome, eu passo a ser aquele cara do metrô que se apresentou, era noite e inverno e enquanto eu te soprava o meu nome, lá fora a cidade estava em movimento contínuo até a próxima estação. Sabendo o meu nome e te dizer o meu nome, indicava um futuro, um desejo de futuro, se você também me disser o seu nome e a gente permitir que o sol ilumine a varanda e as portas, que se foda que todas as minhas metáforas sejam óbvias, mas se você me acusar de louco, eu viro as costas e me misturo aos passageiros, eu sumo do teu campo de visão e volto a ser quem eu era antes de dizer o caminho, antes de te indicar qualquer sinal verde. E se você sorrir e me der atenção, e se você apenas sorrir, eu vou torcer para que você me diga o seu nome, eu vou sinceramente pedir para que você me diga eu sou o fulano. Essa é a primeira informação que você vai me dar e eu vou guardar, como um segredo, desvendando a curiosidade de saber como é o tom da tua voz e mais tarde, quem vai saber, o tom da tua pele e todos os outros tons que eu vou descobrir se você permitir, se eu quiser desvendar.

Uma semana depois, eu já voltava ao metrô sem o desejo de te encontrar e talvez usar assim DESEJO, não signifique, de fato, o que eu gostaria de dizer. Não que não houvesse. Havia. Mas existe qualquer ironia quando bagunçam com a nossa esperança, que a gente perde um tanto da gana, daquela sensação que nos fortalece. A gente quebra uma asa. Até que se recupere. Uma semana depois e quando eu já não esperava mais, de fato, qualquer faísca, submerso pelo péssimo dia ou apenas submerso:

- Você sumiu.
- Você também sumiu.
- Eu senti a tua falta.
- Eu senti a tua falta.
- Loucura isso. Três dias e a gente acaba criando o hábito.
- Eu também acho.
- Depois acaba entrando numa neura de que nunca mais...
- Exato, eu também, eu falo sério, não digo só para concordar. De que nunca mais você vai encontrar alguém. A cidade, os horários, a possibilidade do desencontro é muito maior.
- Exato.

Então, por qualquer safadeza da noite, por qualquer razão fatal, o Maracanã abrigava um jogo de decisão de campeonato e no exato momento em que finalmente ele se aproximou antes que eu pudesse saber sua presença, as portas do vagão cheio se abriram e muitos torcedores entraram empurrando, de maneira que nossos corpos, tão próximos, finalmente tão próximos, foram se afastando e se misturando à multidão animada. Onde estava cheio, ficou insuportável. Onde antes eu podia perceber seu rosto e o tom da sua voz, depois houve baderna e tantos corpos quanto o vagão podia suportar. Quando chegamos à plataforma do Maracanã, eu fui empurrado para fora do metrô e eu segui o fluxo, porque tentar retornar seria ir contra a maré. Seria tentar voltar, em vão, sabendo que eu não conseguiria. Sempre disseram que a multidão é mais forte que o indivíduo e eu não pude discordar. Eu não acredito, eu pensava e repetia e quase gritava que eu não acredito e qual é a de quem decide que os fatos aconteçam? Quem determina? Como é que fica? Eu não acredito. Quando eu saí do fluxo para retornar ao metrô, eu estava sob a rampa de acesso da entrada do estádio. De lá de cima, eu pude ver a lua. Eu pude ver as ruas. Eu pude respirar e dizer eu não acredito olhando o céu escuro, sentindo o vento frio cortar o rosto. O indivíduo precisa ser mais forte que a multidão. Um jogador decide um jogo, um jogador decide um jogo.

Desci a escada. Quando eu cheguei na estação, eu senti uma mão no ombro:

- Eu me chamo Luciano e caso um avião caia ou o mar invada a cidade, esse é o meu telefone.


quarta-feira, julho 09, 2008

DICAS DE JULHO

1 Angel de François Ozon

Eu gosto do olhar do diretor e eu torcia para assistir enfim, a atriz Ramola Garai protagonizando. A precoce Angel derrama todos seus desejos românticos numa prosa florida, que acaba por chamar a atenção de um bem conceituado editor de Londres. A fama logo é conquistada. A opção pela trama é o artifício utilizado pelo diretor François Ozon para recriar o estilo e o visual dos grandes melodramas de Hollywood dos anos 30 e 40. (baixado)

2 Sex and the City de Michael Patrick King

Eu li muita coisa óbvia por aí e ignorei. O fato é que o roteiro do filme respeita muita as personagens. Eu acompanhei os seis anos das meninas e eu gostava muito, especialmente as duas primeiras temporadas, quando elas realmente levam o sexo para as casas americanas em suas mesas de bar. A abertura é espertíssima, na apresentação das personagens. E por mais fútil que pareça, é a amizade entre essas mulheres, quem protagoniza o filme. (cinema)

3 A Vida dos Outros de Florian Henckel Von Donnersmarck

No início dos anos 80, a Alemanha Oriental continua a vigiar de perto seus cidadãos à procura de "subversivos". Interessado em uma bela atriz, o Ministro da Cultura ordena que a Agência de Segurança Nacional coloque escutas no apartamento que esta divide com o marido, um famoso poeta e dramaturgo. Porém, o agente designado para o trabalho, um homem absolutamente solitário, se envolve com a história do casal, num misto de inveja, loucura e perversidade. Imperdível. (dvd)

4 Zona do Crime de Rodrigo Plá

Filme mexicano com uma atmosfera quase claustrofóbica, que apesar de roteirizar a tensão de maneira quase didática, driblou os excessos e me interessou muito. Três assaltantes invadem um luxuoso condomínio fechado conhecido como "La Zona" e, depois de matarem uma das residentes, passam a ser perseguidos pelos demais habitantes do local, que decidem fazer justiça com as próprias mãos. Participação especial e luxuosa da atriz Maribel Verdu. (cinema)

5 Broken English de Zoe Cassavetes

Mesmo no exercício constante da escrita, os roteiros que mais me interessam são aqueles onde o texto é substituído pelo silêncio. Onde tudo está nas mãos dos atores, do diretor, das sensações e por fim e não menos importante, nas mãos de quem assiste. Embora aqui exista um blá blá blá que me lembrava o adorável Antes do Por-do-Sol, são os silêncios que mais me interessam. Aí a gente olha para a Parkey Posey, aos 30 anos, encontrando alguém improvável para amar. E suspira. (baixado)

6 Grace is Gone de James C. Strouse

Grace é morta em combate no Iraque e o John Cusack recebe a notícia e a cena, embora curta, revela muito da personagem. Então ele pega as duas filhas e resolve visitar um parque. O cara faz uma viagem longa de carro, como se nada tivesse acontecido e faz a felicidade das duas meninas. Como equilibrar o que desmorona cada vez mais? Não me acabei de chorar não, mas tenho o maior respeito pelo Cusack, que dá show de bola, em momentos dramáticos muito interessantes. (baixado)

7 O Pecado de Todos Nós de John Houston

Marlon Brando é um major que vê sua carreira em franca decadência, após o término da 2ª Guerra Mundial. Seus problemas profissionais terminam influenciando também seu casamento, que vive uma crise que é acompanhada atentamente por um casal de vizinhos e um recruta que nutre uma paixão platônica por sua esposa. A gente entende porque o Marlon Brando era o melhor. E a referência a homossexualidade do major, é extremamente inteligente e bem estruturada, justificando o final. Clásssico imperdível. (dvd)

8 Ondas do Destino de Lars Von Trier

Eu acho bacana o Dogma, gosto muito de alguns filmes desse movimento, mas nesse caso, eu preciso dizer que o filme não seria o mesmo se a atriz Emily Watson não protagonizasse a perturbadora Bess. Vítima de um acidente que o deixa paraplégico, seu marido vive na cama e ela, que conversa com Deus boa parte do tempo, é convencida de que pode curá-lo dormindo com outros homens e relatando-lhe as suas relações sexuais. (dvd)

9 Sweeney Todd de Tim Burton

Eu estranhei muito os primeiros minutos do musical do Tim Burton, mas depois de um tempo eu já estava perfeitamente inserido naquele universo. Johnny Depp em grande estilo, além de uma direção de arte primorosa. Após cometer seus crimes, um barbeiro assassino entrega os cadáveres das vítimas para sua parceira, uma padeira que queima as "provas" enquanto faz tortas. (dvd)

10 Exilados de Johny To

Faz muito tempo que eu quero falar sobre esse filmaço, que eu só vi porque o Chico mandou. Um membro renegado, que está tentando uma nova vida ao lado de sua família, passa a ser procurado por dois mafiosos. Mas os assassinos entram num dilema quando encontram dois antigos membros da máfia, cuja missão é proteger o alvo a qualquer custo. Uma simples e velha foto de infância nos revela a amizade que existe entre estes cinco homens. Existem umas 4 grandes cenas no mínimo, muito boas.

Agradecendo ao Thiago que me lembrou de fazer esse post.

quinta-feira, julho 03, 2008


FIM DOS TEMPOS de M. Night Shyamalan


- Me parece perfeitamente natural.
- Acho careta. Você tem essa necessidade quase intransigente de querer mostrar aos outros como tudo vai bem, como o seu emprego é bacana e todas essas coisas de última geração que você compra. Só que olhando nos teus olhos, encarando o reflexo do espelho, você sabe, eu sei que você sabe, que não precisa ir tão fundo para perceber que, meu caro, nem a melhor das estampas, nem qualquer cortina de seda para as janelas de madeira, vão fazer com que a gente fique bem.
- Nós estamos, bem, Marcelo.
- Não estamos. No seu universo perfeito, dentro da sua organização luxuosa e impecável, você pensa que nós estamos bem, que somos um casal de comercial de televisão. Nós não somos.
- Nós vivemos tão bem.
- Empurrando com a barriga uma relação que mal se sustenta com o afeto. Afeto, cara. Um mínimo óbvio para qualquer história.
- Da forma que você coloca, me faz acreditar que você não está satisfeito com a vida que levamos.
- Eu não estou. Todas as vezes que eu tentei ter essa conversa com você, nós fomos interrompidos pelo telefone, pela campainha, pelo filme na televisão, pelo cachorro que roeu o sapato, pela puta que me pariu e eu fui guardando. Sufocando. Deixando para depois.
- Você não precisa falar palavrão.
- É disso que eu estou falando. Por que é que eu não posso falar um palavrão dentro do meu apartamento?
- Não é isso.
- Eu não posso ficar nervoso, sair do tom, beber além da conta. Não posso dormir tarde ou chegar atrasado ou molhar o tapete do banheiro ou deixar o chinelo no chão. Quando eu morava com meus pais, eu tinha mais liberdade. Aqui tudo é muito controlado. Além da conta. Viver com você tem sido um exercício constante de tentar manter a paciência.
- Só não entendo esse tom exaltado.
- Quero falar alto, quero ficar nervoso, quero xingar, quero que você veja que qualquer angústia sufocada pode se transformar em raiva.
- Você sente raiva de mim?
- Sinto falta de realidade.
- Tudo o que nós construímos...
- Eu acho o máximo tudo que nós construímos. Só que em algum momento, eu fui me omitindo, fui deixando de participar, a gente se perdeu e nem sentiu. Você entrou numa obsessão particular com a decoração. No início, eu achava que era o teu arquiteto frustrado falando mais alto. Depois eu fui entrando nesse teu quadro de plástico, na tua vida perfeita.
- O que há de errado com a perfeição?
- A mentira.
- O que há de errado com você hoje?
- A verdade. Você se sente incomodado porque eu estou sentindo. Porque eu estou doido para discutir, para ter uma briga, quebrar esse vaso aqui.
- Esse vaso foi caro demais, tenha cuidado, por favor.
- Fique com o vaso, cara. Fique com essa imagem de bacana. Eu não quero mais. Não quero. Sabe o que nós parecemos? Dois gays que se renderam ao mercado da futilidade. Que já foram duros uma época e eram tão felizes e tão vivos. Que tinham uma televisão que precisava de porrada pra sair o som, mas que sentavam juntos para assistir um filme e comer pipoca. Hoje em dia, pipoca suja o tapete. Pipoca deixa cheiro pelos corredores. A gente parece aquela família negra de uma novela das oito que morava num condomínio de classe alta e todo o traço da raça deles, toda a beleza e toda a cultura absurdamente linda deles, foi suprimida, omitida, enquadrada no apartamento sem vida e comum de novela das oito.
- Eu não te entendo.
- Entende. Precisa entender. Não é possível que você não compreenda essa imagem que você criou. A vida que você quer viver é uma vida projetada. Como se a nossa personalidade, os nossos traços tivessem que se adequar ao espaço. Não o contrário. Eu não quero ser o seu robô de estimação. Não tenho mais idade para brincar de casinha.
- O que você sugere?
- Que você se olhe no espelho.
- Você sente saudades de ter menos dinheiro? De viver fazendo conta para chegar até o próximo mês?
- Eu sinto saudade da sensação de dividir os dias com você.
- Você divide os dias. A vida. A gente divide a cama.
- Nós habitamos o mesmo espaço.
- Você não pode estar falando sério. Eu vou tomar um banho. O pessoal deve estar chegando. Nós continuamos essa conversa outra hora.
- Eu não quero continuar essa conversa outra hora. Quero conversar agora.
- Mas o pessoal vai chegar. Hoje é a final do jogo no Maracanã. Nossos amigos...
- Seus amigos vão chegar. Meus amigos estão no Maracanã e eu só não estou lá porque eu quis, mais uma vez, tentar bancar o namorado bacana, compreensível, que faz todas as suas vontades, que só faz as suas vontades para não bater de frente, para não criar uma situação chata que vai acabar em briga. E todas as vezes que eu faço o que você quer, que eu engulo qualquer desejo, que eu anulo qualquer diferença, eu tô dizendo na verdade, que eu te amo. Que eu seguro a onda, qualquer onda, para estar ao teu lado, independente do programa, do lugar, das pessoas. Só que o que antes eu fazia porque eu queria fazer, foi perdendo o vigor. Foi perdendo o sentido. Você ou não percebeu ou achou que fosse da minha natureza, permitir. Ceder. Eu te digo que não é.
- Por favor, vamos conversar mais tarde.
- Não é da minha natureza perder a voz. Não faz parte da minha personalidade permanecer invisível para que você exista. Se a tua maneira de amar precisa desconsiderar o outro, eu não quero mais. Não quero.
- Você nunca me falou sobre isso antes.
- Eu já sinalizei de todas as maneiras. Eu já fui sutil, tentei te dizer da sua forma, elegante, inabalável, sem mostrar o lixo no tapete. E você sempre deixou para depois. Para depois. Exatamente como você está fazendo agora.
- Porque nós vamos receber gente em casa.
- Hoje nós vamos receber gente em casa. Amanhã alguém vai precisar de você. E assim, a gente vai sublimando qualquer rachadura. Eu cansei.
- Então fica assim?
- Fica. Você assiste ao jogo com os seus amigos. Eu coloco umas roupas na mochila e vou embora.
- Embora?
- Vou embora, volto ao meu apartamento, fico sozinho para refletir, para ver como é que fica.
- Você não pode ir embora. O que eu vou dizer ao pessoal?
- Seja humano, cara. Diga que nós brigamos. Que eu saí de casa. Que você sente muito, mas que o clima não é o melhor para uma final de campeonato. Que o Fluminense talvez ganhe o jogo, quem sabe?
- Não faça isso comigo.
- Não faça uma cena. Porque eu sinceramente posso pensar se você está em pânico porque eu vou embora ou se você está preocupado com o que os seus queridos amigos perfeitos vão pensar.
- Não faça isso comigo.
- Talvez assim você quebre essa redoma. Talvez assim você possa pensar melhor que a vida que a gente leva talvez seja a vida que você quer levar. E se eu não estou incluído, entenda, o mundo não vai acabar. A cidade vai continuar violenta, absurda. Outras pessoas a gente vai conhecer. Vai pintar o amor. O amor de uma forma que vai fazer com que a gente se sinta... Eu não vou te desrespeitar dizendo como é eu entendo o amor. Eu pensei que você soubesse. Ou sentisse.
- Fique, por favor. Fique. A gente assiste o Flu. Recebe as pessoas. Depois a gente se acerta.
- Sabe o que me deixa anestesiado? É que eu te olho nos olhos, te digo que eu não estou feliz, te digo tudo o que já te disse e você me foge o olhar. Você parece não se importar, mais uma vez, comigo. Se você não me faz acreditar que você sente muito por nós dois, se você me pede friamente para ficar e fazer sala para torcer pelo meu time, se você pede só para fazer com que o quadro não se altere, eu não sei o que te dizer. Eu não sei. Eu te olho e sinto dor. Uma dor que não é física, uma dor de decepção.
- Você quer que eu faça uma cena? Ajoelhe, chore por você?
- Eu tinha a esperança de te olhar e ver teu rosto lindo. E mesmo que você ficasse mudo, eu entenderia se, de verdade, você sinalizasse qualquer manifestação que me fizesse perceber... Um olhar. Poderia ser um olhar.
- Voe me julga deliberadamente.
- Não estamos em audiência.
- Você me julga. E espera de mim alguma reação de filme, de novela. Eu tenho que te convencer? Agir de algum jeito específico para que você acredite em mim? Você me classificou de tal forma que eu te pergunto por qual motivo eu nunca percebi antes? Você me julga. Isso sim é padronizar. Esperar que eu me rasgue para que você acredite que eu estou sentindo. Pois eu sinto. De forma diferente da sua. Ou de qualquer outro.
- Não jogue as minhas palavras contra mim.
- Você quer ir embora?
- Eu vou.
- Então vá.
- Esse é o primeiro momento da noite em que nós estamos conversando. Você consegue perceber isso?
- Você reclama que eu quero te enquadrar em algum estilo de vida. Eu reclamo que você quer me enquadrar em algum estilo dramático de relação. De reação.
- Você nunca reclamou. Você sempre me disse que não gostava e que precisávamos mudar. Que eu precisava reavaliar. Os meus modos, o meu gosto por arte, por moda, por literatura. Que os meus filmes eram idiotas. Isso não é anular? Encarcerar? Goste do que eu gosto. Seja como eu sou. Entre no molde da minha vida. Não seja meu gigolô.
- Com você aqui, sem você aqui, eu vou receber as pessoas. Vou torcer pelo meu time. Vou comer, vou beber, no conforto da minha casa, ao lado de pessoas que gostam de mim. Eu adoraria que você ficasse. Permanecesse. Mas eu não vou fazer o que você quer.
- Por orgulho.
- Porque eu me respeito.
- Certo.
- Espero que o Fluminense ganhe.
- Você detesta futebol. Só se interessou porque os teus amigos gostam. Torcem. Eu espero que o Fluminense jogue. Perdendo ou ganhando, que ele jogue. De verdade. É isso o que me interessa. É isso o que nos separa.
- Você fica?
- Dois anos de relação e a gente descobre uma terrível incomunicabilidade. Incompatibilidade. Dois anos. Como é que a gente deixa dois anos nos trazer até essa sala?
- Sabe o que eu acho? Que todo esse teu discurso é para me deixar.
- Então a gente encerra essa noite e eu tomo ciência de que você não sabe quem eu sou. Eu vou assistir essa final com a pessoa mais importante da minha vida.
- Eu sabia que existia alguém.
- Com o meu pai. A quem eu venho deixando de torcer para estar ao teu lado.
- Não me diz mais nada?
- Eu não tenho nada a dizer. Acho que preciso de um tempo para recuperar o susto. Preciso de alguns dias para pensar. Alguns dias longe da cidade, embora dentro da cidade, para poder compreender que as estradas, enfim, trilharam caminhos diferentes e ousaria, caminhos opostos que nos distanciam em interesses e afetos. E se em alguns momentos tudo é fácil e divertido, em outros tudo parece frágil e bruto. Eu recuso a tua cerveja, a tua fumaça, esses artifícios que gente da nossa idade usa para abrir mão da realidade. Recuso consciente porque acredito que em alguns casos, é melhor optar pelo real como ele se mostra: violento, duro, pouco delicado. Abro mão da fuga do real, compreende? Prefiro os pés no chão, as asas fechadas, a porrada como ela deve ser: inteira. Vou atravessar a cidade sem qualquer anestesia. Os pensamentos como companheiros, idéias rompendo e partindo, decisões surgindo e me deixando, um grande ponto de interrogação que me deixa tão cansado, tão exausto, que ao chegar em casa, eu só vou precisar dormir tanto e tão urgentemente, que não devo nem sonhar. Muitas vezes eu tinha a sensação de que ao entrar no apartamento, ia ser surpreendido por uma nova disposição da mobília, uma nova cor nas paredes, alguma mudança que ia me deixar surpreso e mudar o nosso ritmo, essa atmosfera. Mas encontrava tudo como antes, o que também me sugeria segurança, alguma lucidez.
- A campainha.
- Eu saio pelos fundos.
- As suas coisas?
- Pego as roupas outra noite.
- As suas coisas?
- Só preciso das minhas roupas. Alguns livros da faculdade. O apartamento é seu.
- Não sei o que dizer.
- Trocar também é uma forma de aprender. Não embruteça. Não endureça.
- Preciso abrir a porta.
- Sério. Não endureça.