quarta-feira, agosto 27, 2008

REINE SOBRE MIM de Mike Binder

“Pois você sumiu no mundo/
Sem me avisar/
E agora eu era um louco a perguntar/
O que é que a vida vai fazer de mim”
(João e Maria / Sivuca e Chico Buarque)

Você desaparece e eu me perco um tanto.
Você some no ar e me deixa transparente,
Sem saber do que virá.
Você não sopra o meu nome e eu fico em branco,
Sem etiquetas de identificação.
Você faz questão de me dizer sem palavras
Que todos os dias e todas as horas sem mim
Não fazem qualquer diferença
Em todas as suas horas de todos os seus dias.
Eu perco as contas,
Confundo e embaralho toda soma primária.
Eu emburreço.
Você não me dá notícias,
Não me escreve cartas,
Não me telefona.
Eu leio todos os jornais,
Vasculho a caixa do correio,
Analiso o fio do telefone incessantemente.
Eu procuro um sinal.
Você desembaralha a minha rotina
E eu não penso em revidar.
Você não aponta mais os caminhos.
Tudo é labirinto sem entrada, sem saída.
Eu me sinto terrivelmente sem destino.
Tragicamente amarrado no escuro.
Aflito e medroso.
Alvo fácil de qualquer pessoa que tenha amor próprio.
Patético, carente, um doente filho da puta.
Apaixonado.
Você brinca de me conduzir e eu aceito.
Você indica o caminho,
Ordena as ações
Enaltece os obstáculos.
Depois corta os fios.
Eu caio.
Você observa, senhor do castelo.

Depois eu acordo enjoado de você.
Dos seus olhos.
Dos seus braços fortes.
Do seu pau enorme.
Eu te chuto para fora da cama e você não reclama.
Você vai porque ir é da sua natureza,
Assim como ficar é da minha.
Você vai, eu morro um pouco
E enlouqueço mais dentro da cidade gorda.
Fumando a tua ausência crua.
Bebendo esse enjôo de te ver indo além
Seduzindo todo sorriso aberto
Vestindo o casaco da atenção alheia
Enquanto eu penso e arquiteto
Planos mirabolantes para envenenar
Quem se aproxima
Quem se interessa
Quem se aproveita
Quem qualquer coisa.
Engulo o ciúme, sufoco a raiva
Eu engasgo o querer e tropeço toda ausência
Com o que me resta de educação.
Já enlouqueci faz tempo
e ainda continuo do lado de fora.
Quando é que vão perceber?
Quando é que vão diagnosticar
Que você é essa doença interminável
Que toma conta de mim
sem tomar conta de mim?

Foda-se você
E todas as suas horas ausentes,
Todo o seu tempo ocioso
Seus banhos demorados
Seus quinze quilômetros de corrida
Foda-se você e seu i-pod touch
E a tua sabedoria intuitiva
E toda a minha burrice aparente.
Foda-se que eu saiba dos efeitos colaterais
E ainda assim, insista em querer você.
Foda-se a minha burrice cega, manca e sem dentes.

Um dia eu vou abrir a porta
Que vai me conduzir
Sem vacilo
Ao meu caminho só.
Sem qualquer sombra tua
Sem qualquer sobra minha.
Sem restos, carcaças, defuntos.
Um dia eu vou aprender um caminho
Meu
Pé depois de pé
Sem confundir os passos
Sem tremores nas pernas
Sem dúvidas gigantes
Que paralisam
Um dia eu vou olhar no espelho
Sem você no reflexo
E vou sentir pavor de não ser dois.
E vou sentir alívio de não ser dois.
Um dia eu vou assinar o meu nome
E descobrir que você foi o erro mais tolo
Que eu já cometi.
Que você foi a falha mais trágica
Que eu já persisti.
E vou sentir que em algum tempo
Eu fui deixando de ser para que você pudesse acontecer
Eu me apaguei para que você existisse
Tanto tempo que deixei de sentir
Deixei de saber como era.
Eu fui me transformando nesse objeto pobre
Sem brilho
Dizendo sim
Dizendo amém
Concordando
Agradecendo
Cavando buracos para poder ser quem eu sempre fui
Lá longe
Onde você não pudesse me ver
Onde você não pudesse existir
Onde eu pudesse ter paz
Um tatu
Oco e frágil
Do not touch.

Você desaparece e eu me perco de mim mesmo.
Eu confundo todas as direções
Eu acordo de noite
Durmo de dia
Eu escovo o cotovelo
Eu não lavo o cabelo
Eu deixo as portas escancaradas
Tomo banho vestido da cabeça aos pés.
Leio um livro de ponta-cabeça.
Eu deixo a intimidade de lado
Eu deixo a vida suspensa
Eu deixo
O pão apodrecer
Enquanto a vida parece murchar.
Até que você resolva aparecer.
Até que você resolva ventar.
Até que você resolva reinar sobre mim.

(para Fal Azevedo, logo após o seu Minúsculos Assassinatos e alguns copos de leite).

quarta-feira, agosto 20, 2008


VIOLÊNCIA GRATUITA de Michael Haneke

Foi assaltado por dois homens por volta das três horas da tarde. Relutou por alguns segundos, tentando acalmar a situação. Levou uma pedrada na testa e dois pontos na sobrancelha, além do sangue na camisa e o susto. Claro, o susto. Levaram o celular novo, que estava no seguro e também setenta reais porque ele ia comprar um livro. Não estava com a carteira, o único documento de identificação foi preservado no bolso de trás da calça que não foi questionado pelos dois rapazes negros de boa aparência e bem vestidos, que se aproximaram com muita serenidade no meio da praça movimentada.

Saiu do hospital com o rosto dolorido e voltou ao trabalho porque lá tinha deixado a mochila e todos os pertences que não foram roubados, amém. Ligou para a operadora e demorou quase quarenta minutos para explicar que fora roubado, que etc e tal e que precisava desligar o aparelho e bloquear a linha.

- Mas senhor, em caso de furto, é preciso um registro de ocorrência na delegacia mais próxima.

E com pouca paciência, depois de ter falado com mais de seis pessoas diferentes, ele quase chorou.

- A delegacia mais próxima fica muito longe do meu trabalho e eu não posso sair daqui – ele disse segurando o tom da voz. - Amanhã bem cedo eu faço o registro.
- Mas senhor, a ocorrência precisa ser feita no mesmo dia do roubo, senhor.
- Olha aqui, sua puta, chama a porra do seu chefe de merda que eu cansei de gente babaca que repete frases decoradas num curso mal feito, ministrado por pessoas incompetentes. Ou cancela a minha linha agora ou eu vou entrar com um processo contra vocês – explodiu sem freios.

Veio o supervisor. Depois veio o superior do supervisor que ele nem sabe o nome que se dá.

- Escuta, eu fui roubado. Tomei dois pontos na testa. Fui agredido. Pegaram o meu dinheiro. Levaram o meu aparelho que eu comprei com o dinheiro que eu ganho fazendo um trabalho que eu destesto. Eu não tenho que me justificar para vocês. Eu não tenho que dar nenhum tipo de satisfação ou me sentir culpado porque eu fui vítima dessa cidade estúpida. Eu só quero que você cancele a minha linha, porque a essa altura, o ladrão já deve ter ligado pra puta que me pariu e quem vai pagar por isso, sou eu. Porque até quando vocês cometem erros, a gente tem que pagar para ser ressarcido depois. Então, pelo amor de Deus, eu estou no trabalho, eu não estou em condições psicológicas e emocionais de ficar implorando por um direito que eu tenho. Cancela. Cancela agora porque essa conversa está sendo gravada e eu vou, eu juro que eu entro com uma ação contra vocês, por qualquer motivo que eu quiser escolher, porque já deu, entende?
- O seu celular está no seguro, senhor?
- Se você consultar o seu sistema, você vai ver que está.
- É que casos assim precisam ser comprovados, senhor.
- Eu vou comprovar. Qual foi a parte que você não compreendeu? Eu vou comprovar a porra toda, eu só não tenho como chamar o ladrão para testemunhar, porque ele não vai topar. Agora me diz com quem eu preciso falar para comunicar que eu tomei porrada na rua e eu preciso cancelar essa conta? Me diz.

Meia hora depois, o chefe comovido pela situação evidente, dispensou o rapaz. Arrumou a mochila. Fez outras ligações rápidas e desceu. Caminhou em direção ao metrô. Duas meninas se aproximaram. Mãos vazias:

- Passa a carteira, seu babaca.
- Chegou tarde, minha filha. Já me levaram dinheiro e telefone mais cedo.
- E essa mochila?
- O que tem essa mochila?
- Abre aí pra gente ver o que tem dentro.
- Olha só, eu posso dar uma de maluco e começar a gritar. Eu posso te enfiar a mão na cara e te machucar porque eu estou com ódio acumulado.
- Tu bate em mulher?
- Bato em ladrão safado com o maior prazer.
- Mas eu sou mulher. Posso chamar o guarda e tu se fode.
- Quer que eu chame o guarda com você?
- Muita marra, branquelo.
- Você quer me roubar e sou eu que tenho muita marra? Some daqui antes que eu perca a cabeça.
- Então paga um lanche ali.
- Desde quando vocês não comem?
- Faz tempo.

Pagou dois sanduíches para cada uma e dois sucos de laranja. As meninas nada disseram. Não agradeceram. Não se despediram. Não fizeram nenhum comentário. Guardaram a hostilidade. Camuflaram a falta de educação. Olharam com atenção quando ele tirou a carteira e puxou uma nota de dez reais para pagar o lanche. Mastigaram em silêncio suas histórias. Suas necessidades. Seus pequenos e grandes desejos. Depois sumiram na multidão apressada da mesma forma como apareceram.

Em casa, finalmente em casa, após o banho e a comida, ele ouve o interfone e atende. O vizinho invade a sua calma, sem dar boa noite, sem perguntar como foi o dia, sem querer saber se está tudo bem. O vizinho reclama que o carro está um pouco fora da faixa no estacionamento e que é assim todos os dias. Que encheu o saco. O vizinho fala muito baixo, mas não há a menor intimidade para a grosseria com que ele conduz a conversa. Então ele tenta sublimar, dizendo que hoje não foi um bom dia. O vizinho parece não se importar ou querer saber do seu dia e lista tudo o que lhe incomoda. Lista absurdos.

- Eu só espero que você não me culpe pela queda do Diego Hipólito.

E aos poucos, ele vai destruindo a calma que conseguiu conquistar, apesar do dia, apesar de tanto. Ele sente o sangue correr, o pescoço começa a ficar vermelho e ele grita e briga e bate as janelas e já nem mais ouve o que diz. Ele grita e fala palavrões e mesmo que o mundo se acabe, sua calma, sua paz fugaz foi demolida dois andares abaixo.

São onze horas da noite e a adrenalina é tamanha. São onze horas da noite e alguma sensação dentro dele parece querer explodir e é preciso que essa energia seja usada para que não o sufoque. São onze horas da noite e o suor escorre pela testa sem pudor. O que acontece com alguém que acumula toda e qualquer sensação de indignação no decorrer do dia e precisa explodir para que não imploda? Como é que o acúmulo do avesso dos fatos se transforma em desabafo? Quais as vias, qual o caminho mais seguro? É no grito, no tapa, na força, no laço? Revida-se? Não dá para sair por aí assaltando pelas ruas, matando o pessoal do atendimento ao cliente, alimentando crianças batedoras de carteira, degolando o vizinho grosseiro. Não dá. Revidar seria se transformar num sociopata. Seria cumprir as expectativas.

Ligou a televisão e encontrou o Brasil jogando vôlei de praia. Pensou que torcer resolveria os seus nós. Porque na torcida a gente grita, pula, a energia é exposta, liberada, justificada. Mas o jogo foi fácil e o Brasil infelizmente foi eliminado rapidamente. Então colocou o tênis e foi correr. Precisava dessa sensação de que alguma coisa estava sendo feita. Alguma medida estava sendo tomada para que ele não afundasse, sem conseguir dormir, sem conseguir sonhar. Foi correr. Colocou os fones no ouvido e foi, se deixando conduzir pelas canções. Pela noite quente, pela lua grande. Foi para queimar energia, para acalmar o coração, para sentir escorrendo toda sensação de irritação. Como quem vai embora, ele correu quarteirões inteiros, dobrou esquinas driblando putas, ignorando travestis e qualquer outra alegoria. Dobrou o cansaço, esgotado de vontades azedas de extravasar. Apenas extravasar.

Correr o deixou ainda mais excitado. Ainda mais furioso. Com sede extrema de vingança. Com o desejo de lutar. Ganhando ou perdendo, mas o desejo de poder escolher e lutar de igual para igual. Sem covardias. Sem grosseria. Sem nenhuma teia que confunda a visão. Chegou em casa e comeu. Jantou. Mastigou. Engoliu. Faminto, suado, absolutamente atento, como um selvagem. Tomou um banho gelado, na esperança de que pudesse, enfim, relaxar. Não conseguiu. Discou o número menos provável. Do outro lado do túnel, ele atendeu:

- Quero te fazer uma proposta.
- Faça.
- Eu quero sexo.
- Eu também quero muitas coisas.
- Guarde a ironia. Eu quero trepar até desmaiar. Eu tô com uma puta energia.
- Por que você não paga alguém?
- Porque você me conhece bem. Ensinar um estranho seria cansativo.
- Você me faz me sentir como uma puta.
- Eu não vou te pagar.
- Você acha que me ligando e me dizendo que quer sexo, eu vou abrir a porta da minha casa e te agradecer pelo convite?
- Eu te pago um táxi. Você chega em vinte minutos.
- Eu recuso.
- Eu quero você. Eu só quero sexo. A gente pode ficar sem se falar depois o tempo que você quiser. Eu não ligo que você tenha raiva de mim. Sinta o que você quiser. Mas hoje, agora, eu quero você. Eu quero entrar e sair de você. Eu quero que você entre e saia. Use a tua raiva. Eu vou usar a minha. A gente sabe que funciona bem.
- Falando assim, você realmente me deixa com raiva.
- Ótimo. Vai ser melhor do que eu imaginava.

Nem ódio, nem amor. O que houve foi sexo. Sexo sem compromisso. Sexo de tatear os corpos e testar os limites. Ir além do além. Sexo por puro exercício, por mera vaidade, por simples prazer. Sexo para que a noite termine e o tempo não passe. Sexo para sentir outra sensação que não a de agora. Para lavar a alma. Para deixar o corpo dolorido por dias. Sexo físico, sem medo, de fácil acesso. Dois homens íntimos e suas questões infinitas e pessoais. Sexo até não mais resistir. Sexo onde a explosão dos corpos é apenas o início da brincadeira.

Desmaiaram.

Quando amanheceu, ele acordou sozinho com o barulho incômodo de alguém batendo na porta. Era o vizinho da briga do dia anterior.

- O cano do banheiro estourou. Eu preciso da sua ajuda.
- Sinceramente, eu não te desejei isso – ainda sorri de canto de boca.

Ajudou o vizinho na urgência do inesperado. Ajudou porque sentiu vontade. Nenhum traço de nobreza havia nessa atitude. Poderia ter dito ‘não’ e batido a porta. Resolveu começar o dia com um ‘sim’. Quem sabe hoje o dia não amanhece diferente?

Até que ligou a televisão.

E a Argentina fazia o terceiro e humilhante gol no time de futebol masculino da seleção brasileira.

Lá do outro lado do mundo, algo também não ia bem.

sexta-feira, agosto 15, 2008


DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE de Richard Brooks


Você não sabe o meu nome
e exala uma intimidade forjada,
que me deixa atento.
Você sorri com charme
e passa a mão pelos cabelos.
O seu perfume convida.
Instiga.
Tenho a sensação que você sabe cada jeito,
cada movimento que vai te pintar muito mais interessante
do que você talvez seja
e eu vou permitir
porque eu quero saber até onde você está disposto a ir.
Eu vou permitir porque, quem sabe,
eu não resolva ir com você.
Eu nunca sei do que virá.

Você não conhece as minhas preferências
e parece querer concordar
com todas as palavras dessa conversa,
somente para me agradar.
Você não deve saber,
mas se você realmente só quer me agradar,
em algum momento eu vou descobrir
que você mentiu.
Entre a ausência de personalidade
e a presença da mentira,
não sei qual me desagrada mais.

Você é lindo.
Terrivelmente lindo.
Eu te diria sim
se você apenas se aproximasse
e me chamasse para ir com você.
Eu largaria o meu onde,
o meu quando
e te seguiria fiel.
Eu te seguiria e te seguiria sem fim.
Mas esse teu discurso,
essa sede de me parecer tão perfeito
e tão apaixonante,
tudo isso me faz lembrar de outros tantos
e de outras tantas máscaras
que não resistiram ao suor.
Desfizeram-se.
E revelaram pessoas
que não me despertaram quase nenhum interesse.
Ficou no encanto.
Depois ficou no físico.
Depois no sexo.
E por mais safado que eu seja
e por mais que eu goste de exercitar o sensorial,
quando é o sexo e somente ele que comanda qualquer relação,
então alguém falhou.
Eu falhei.
Você falhou.
E nós dois juntos não passamos de pau e bunda.

Por isso não queira parecer alguém
que você quer ser,
porque o agora é tão envolvente
e tão promissor, mas o depois virá.
O depois revelará.
Desse rito, eu cansei.
Porque você chegará
e me encantará com todos os seus truques
e eu vou te amar
e só depois de um tempo – eu não quero mais desperdiçar –
você vai descobrir que eu não sou esse cara
e que você também não é esse Paul Newman do Doce Pássaro da Juventude.
Então sorria e apenas sorria,
porque sorrindo eu não me sinto tão enganado.
Sorria e me proteja da noite funda
que sempre termina como ela começa: só.
Sorria e não me deixe tão só.
Sorria e me deixe tempo para que eu retribua.
Não me informe o teu currículo extenso.
Aqui não vale vaga.
Deixe que eu descubra, aos poucos, sem pressa
e fique surpreso e fique encantado e fique a fim de te ver depois.
E depois.

Eu não sei o teu nome
e o teu perfume me acende intenções de fogo, suor e desejos.
Mas eu não tenho mais idade para armadilhas.
Eu tenho idade apenas para me proteger.
Então não minta.
Não me impressione.
Não me cause alvoroço só para marcar o território.
Cão safado.
Vamos deixar a noite no lugar.
Vamos deixar o desejo agir.
Forçado eu não gosto.
Forçado eu não quero.
Forçado seria acreditar nas tuas frases feitas.
Me deixar levar pelas tuas mentiras inúteis.
E mergulhar.

Sorria e apenas sorria.
Deixe que eu te pague uma bebida,
Enquanto você sorri da vida lá fora.
Eu observo a tua juventude aqui dentro.
A gente permuta com ciência.
A gente se paga em comum acordo.
Você não precisa fingir ou querer fugir.
A gente deixa os móveis no lugar.
As intenções escancaradas sobre o balcão.
Feito gente bicho.
Feito gente prática.
Que não complica o simples só para se sentir adulto.
Tudo o que eu quero é que você sorria
E depois do fim, eu te pago o táxi.
E depois do fim, a gente vê como é que fica.
Quem sabe no depois do depois eu não engula cada linha
e reescreva cada frase?

Hoje eu sou apenas um cubo de gelo.

quarta-feira, agosto 06, 2008


NOME PRÓPRIO de Murilo Salles

Ele perguntou se havia algum problema em sair antes e me deixar no quarto. Eu respondi que não. Ele se justificou dizendo que ainda não se sente à vontade e alguém conhecido poderia passar no momento em que abríssemos a porta. Eu compreendi sem esboçar nenhuma reação grave. Ele vestiu a camisa e me beijou lento e inseguro. Deu satisfações pequenas, mesmo sem que eu pedisse: me deu o número do telefone, perguntou o meu, sugeriu uma cerveja na sexta-feira após o expediente e eu completei com pouco entusiasmo, uma frase automática, algo entre me liga e a gente combina. Antes de sair, parado na porta do quarto, ele me observou colocar o sapato, como se quisesse me dizer algo importante ou apenas algo, mas antes que eu perguntasse, ele saiu.

Resolvi tomar um banho e aproveitei o quarto do motel para relaxar e pensar um pouco sobre o meu desgoverno. Pensar um pouco sem ninguém para interromper ou interrogar. Pensar. Depois, me arrumei sem pressa, joguei fora os rastros mais óbvios da nossa passagem por ali, peguei a mochila e saí. Ao chegar na recepção, o rapaz, o mesmo rapaz de sempre, o mesmo rapaz de todas as vezes, sorriu irônico e disse:

- Seu amigo já foi.
- Sim, eu sei.
- Ele passou por aqui tão desconcertado.
- Nem todo mundo se sente à vontade.
- Marinheiro de primeiro viagem.
- Comentário ou pergunta?
- Comentário.
- Eu dispenso.
- Me desculpe.
- Não é para tanto.
- Ainda assim.
- Aqui estão as chaves.
- Não sei se você reparou, mas eu te dou sempre o mesmo quarto.
- Sempre?
- Todas as vezes que você aparece.
- Sempre.
- O mesmo quarto.
- Por algum motivo específico?
- Não.
- Diversão, apenas?
- Também não.
- Se todas as vezes que eu venho aqui, você lembra do meu rosto e sempre me dá a chave do mesmo quarto, eliminando a hipótese de você ser louco ou psicótico, algum motivo deve existir.
- A primeira vez que você veio eu achei que fosse sacanagem.
- Sacanagem é uma palavra irônica, nas circunstâncias atuais.
- Eu fiquei procurando a mulher.
- Eu nunca trouxe mulher alguma aqui.
- Exato.
- Eu não lembro a primeira vez que eu vim.
- Um rapaz mais ou menos da sua idade. Camiseta preta. Branquinho.
- Vou começar a considerar a hipótese do psicótico.
- Apesar de ser um lugar que recebe todo o tipo de público, você me intrigou.
- Como eu deveria ser?
- Você não parece...
- Você não me conhece.
- Eu não preciso te conhecer para saber o que você aparenta ser.
- Não parecer gay não significa não ser.
- Mas é curioso.
- A barba, deve ser a barba.
- Não é a barba. Ou o físico.
- Sensível o recepcionista.
- Dono.
- Ainda assim, sensível.
- A atitude. Sua atitude.
- Tenho atitude de quem come todas as mulheres da cidade?
- Você é masculino.
- Eu pareço um panda?
- Tem cara de que faz mulher sofrer.
- Talvez em outra encarnação. Eu devo ter trazido alguma porcentagem para essa.
- Todas as vezes que você entra aqui, enquanto você sobe as escadas, antes de chegar aqui na recepção, eu fico tentando imaginar o rosto dela. As curvas dela.
- Todas as vezes que eu entro aqui, você deve ter uma surpresa.
- Sempre.
- Te desaponto, então?
- Me surpreende. Porque esses caras são tão diferentes.
- Você é filósofo, cara?
- Fisicamente diferentes. Nenhum se parece com o outro.
- E por esse motivo, você vai bolar uma tese.
- Você não tem um tipo. Parece estar em busca.
- Não estamos todos?
- Talvez o seu padrão não seja masculino.
- Como?
- Talvez você tenha essa vida...
- Essa vida? Então eu tenho essa vida? Que tipo de julgamento é esse?
- Talvez você experimente tanto e não encontre o que você procura. Talvez uma mulher possa responder tuas perguntas.
- Não tenho perguntas, não tenho vinte anos e sérias questões sobre a vida, entende? Os dias são o que são e pronto. Não questiono mais, não me aborreço mais com essas questões inflamáveis.
- Como é que você pode eliminar essa possibilidade?
- Não estou eliminando nada. Saia dessa posição de janela indiscreta. Isso é desagradável. Isso me faz querer ir embora e nunca mais voltar aqui.
- Eu ficaria feliz.
- Se eu não vier aqui, eu encontro outro lugar.
- Eu ficaria feliz de saber que você encontrou algum sossego.
- Qual é a tua? Abre o jogo, vai. Qual foi a igreja que te enviou aqui para essa sessão de exorcismo?
- Esse rapaz que saiu antes de você.
- Sim.
- O nome dele, você sabe?
- O seu nome eu não sei.
- Eu também não sei o seu.
- Ótimo, fazemos parte de uma cidade sem identidade.
- Como é que funciona? Você marca os encontros aqui e quando chega, vê no que dá?
- Qual o teu interesse?
- Saber como funciona.
- Você faz com que eu me sinta agindo de maneira arbitrária.
- Por que será?
- Já estive aqui algumas vezes, é verdade.
- Vinte e oito vezes.
- A possibilidade do louco, também começa a ganhar força.
- Um recepcionista louco?
- Um dono de hotel insano.
- Vinte e oito vezes.
- Todas as vezes que eu paguei por um quarto, eu paguei porque quis pagar. Ciente. Em comum acordo com a minha companhia.
- Você usa esses caras e não sabe o que quer.
- Eles me usam da mesma forma.
- Não.
- Talvez na sua cabeça exista um mundo de putas e de santos, de pretos e de brancos, mas se você partir para a prática, vai perceber como a teoria não importa muito. Vira alegoria. Você não sabe quem eu sou e eu não sinto a menor vontade de me justificar. O que te faz se achar acima da moral?
- Não me comporto como você.
- Você é dono de um motel, cara. Teu dinheiro do café sai do bolso de gente que fode nesses quartos. Você paga as tuas contas porque as pessoas sentem prazer, cometem desejos e precisam de um lugar para isso.
- O fato de ser dono desse motel não significa que eu faça parte desse universo.
- O fato de ter vinte e oito parceiros não significa que eu tenha que gostar de mulher. Aliás, não significa mesmo.
- Alguém que busca tanto e não encontra, não sabe procurar.
- Enfia essa tua moral torta no cu.
- Você não precisa ser grosseiro.
- Preciso. Detesto gente que discursa sobre a vida alheia depois de cinco minutos e trezentas conclusões fechadas em si.
- Tenha uma boa tarde.
- Então é assim? Você se sente contrariado e encerra a conversa?
- Você tem alguma outra sugestão?
- Escolha um quarto que não seja o de sempre.
- Como?
- Escolha um quarto e vamos terminar essa conversa lá.

Sábado faz dois anos que estão morando juntos. Por isso não me fale em sentido. Ou ordem natural. Não me fale em cartilhas, roteiros, acaso ou nexo. Não me fale em moral. Ou essas palavras recheadas de intenções. Não encha a boca para falar de movimentos que você não compreende. Não sopre ironia por puro exercício. Não opine se eu não pedir e me livre de todo discurso ensaiado, copiado ou mofado. Entre na vida. Entre. Sente-se. Sinta. Não observe pelos olhos do outro. Não adote posturas para agradar. Entre na vida. Sinta. Sente-se. E experimente para poder opinar. Para negar. Para gostar. Para deixar. Para amar. Se você não erra, não acerta. E desse óbvio se alimenta tudo ao redor. Então seja. Entre. Sinta. Nesse ato de autenticidade, personalidades são construídas. E então a gente pode saber o que sentiu um dia. Para poder sentir outra vez. Diferente. Compreende o encanto da loucura?

segunda-feira, agosto 04, 2008


O texto da coluna poderia caber tranqüilamente aqui no blog.

sexta-feira, agosto 01, 2008

DICAS DE AGOSTO



1 Nome Próprio de Murilo Salles

Existe uma reunião de fatores que me levaram ao cinema para assistir os textos da Clara Averbuck, por quem eu tenho muita simpatia. O filme é bom, embora na minha mais sincera opinião, exista um excesso de material. O texto é tão bom que poderia gerar uma série. Mas imagine que você ficou duas horas e meia lendo um blog. Sem parar. Pode cansar. A Leandra Leal merece todos os prêmios do ano. E ela compreende tão bem o que está dizendo, que dá gosto de ver. (cinema)



2 SherryBaby de Laurie Collyer

Drama bonito que colocou a Maggie Gyllenhaal na roda dos prêmios ano passado. Sherry Swanson volta para sua casa em Nova Jersey depois de cumprir três anos na cadeia. Ansiosa por reiniciar sua vida e principalmente restabelecer o contato com a filha, Sherry não demora a perceber que o retorno ao mundo fora da cela é bem mais complicado do que ela imaginava. Mais uma atriz que carrega o filme nas costas.(baixado)

3 Princesas de Fernando León de Aranoa

A atriz Candela Peña faz uma prostituta que esconde o trabalho da família. Ela passa o dia em um salão de beleza fofocando e reclamando das putas imigrantes que por ali trabalham. Um dia, ela conhece uma dessas meninas e as duas estabelecem uma relação de cumplicidade e amizade, que a faz mudar de idéia. Sensível e mais uma vez, filme para as duas atrizes mostrarem serviço. (dvd)

4 Garçonete de Adrienne Shelly

Foi um dos meus primeiros filmes do festival no ano passado e eu achei muito simpático. Primeiro porque a heroína é a mulher mais infeliz do mundo. Segundo porque ela engravida e detesta essa idéia. É a grávida mais insatisfeita do universo. Ela realmente odeia o bebê. Quando o médico entra em cena, uma química impressionante acontece entre eles. E o desfecho do filme, numa cena simples, Keri Russel mostra que superou sua Felicity.(dvd)

5 Kung Fu Panda de Mark Osborne e John Stevenson

Eu não senti o tempo passar, embora meu sobrinho tenha bocejado algumas vezes. É clássico e bem amarrado e a gente fica na torcida para que o preguiçoso panda dê a volta por cima e nos surpreenda. Rodeado de coadjuvantes que quase sempre roubam a cena, é o charme do panda que acaba encantando. Vi dublado e não doeu. (cinema)

6 Teorema de Pier Paolo Pasolini

Existe um estranhamento inicial e de cara, a direção já te insere num universo de elipses que quando se estabelecem, o filme fica fascinante. É um cinema clássico, onde a imagem conta a história e tudo o que eu posso dizer é que a beleza do jovem Terence Stamp é realmente devastadora, a ponto de movimentar e exorcizar cada mebro daquela família. Homens e mulheres. (baixado)

7 Senhores do Crime de David Cronemberg

Naomi Watts é enfermeira e cuida do bebê de uma moça, que morreu após o parto. Ao procurar a família da moça, ela acaba se envolvendo com o submundo do sexo, comandado pela máfia russa. Então ela esbarra no Viggo Mortensen e no Vincent Cassel. O filme precisa ser visto. Porque existe muita informação em cada personagem, que redimensiona a trama. E a cena de luta na sauna, na minha opinião, já é clássica. (dvd)

8 Uma Velha Amante de Catherine Breillat

É assim: um cara super pegador, amante de uma espanhola ovelha negra, marca casamento com uma loura gostosa e recatada. O pegador parece querer tomar jeito na vida e deixa de lado a tal espanhola. Bela surpresa porque a relação entre os protagonistas revela como o vício do amor e da luxúria podem bagunçar com as nossas escolhas. Asia Argento está muito bem e ela é minha coadjuvante do ano. (cinema)

9 Kiss the Bride de C. Jay Cox

Comédia leve, do mesmo diretor de Latter Days, que é um filme que eu gosto muito, pela maneira como observa as diferenças, que têm alguns momentos que sugerem uma discussão interessante sobre a sexualidade. Jornalista retorna à cidade para o casamento de seu primeiro amor com uma mulher. Vale pelas questões apontadas, mas não vai adiante pelo tom cômico que conduz a narrativa. Os melhores momentos são justamente os que discutem o trio, sem querer parecer engraçado. (baixado)

10 As Leis de Família de Daniel Burman

A maneira como o roteiro mostra a relação do pai advogado com o filho advogado foi o que mais me interessou. É conduzida com extrema delicadeza e revela sem dizer. Embora para nós, fique claro o que está acontecendo, para o jovem rapaz, submerso na sua vida e nos seus dias, só cai a ficha lá para o final. E eu fiquei encantado. (dvd)