segunda-feira, janeiro 26, 2009



AUSTRÁLIA de Baz Luhrmann


Desça do trem que daqui a pouco passa outro e a gente embarca na próxima ilusão. Acenda a fumaça e ilumine a noite. Hoje eu quero o momento presente, sem a preocupação com o calendário que vira a folha, inevitável percurso que se cumpre. Desligue a tomada e embole o teu fio nos meus fios de cabelo e a gente sorri alto como quem celebra o encontro. Vamos ver o sol e deitar na areia e sentir o corpo quente vermelho das ondas azuis quase verdes quebrando nos pés. Quem sabe ela não me manda uma garrafa com mensagem qualquer como nos filmes que assistimos tantas vezes sozinhos, tantas vezes em longo suspiro?

Desça do trem e me convide para uma loucura que me permita o movimento e vamos transformar todo texto antigo em um novo ato. Amar correr deixar olhar beijar abraçar observar ruborizar desafiar sentir permitir permutar tecer aproveitar. Vem que o verão começou e a cidade transborda a beleza das cores e toda essa geografia atenta para fazer parte do quadro. Quero compor uma canção para cantar com o violão que nunca aprendi e que será tua, somente tua, cava vez mais nossa. Deixe a noite virar dia e no brinde das taças a gente sente o pulso acelerar ao menor toque que é também o maior. A gente percebe que se encontrou, que no meio da correria, teu braço acenou e eu respondi ao teu chamado, ao teu convite sem lógica que me encanta como se tudo fizesse sentido, como se fosse mais simples.

Aqui é possível. Acredito que seja possível em todos os lugares, mas falo por mim: do umbigo que me autoriza. Sendo assim, aqui é possível o encontro e ousaria, o encanto. Embriagados, sem que esse seja um motivo a mais para te querer, eu me deixo levar e me deixando levar, percebo o quanto é frágil e delicada e enorme e também poderosa – fortalezas também podem ser frágeis – as nossas intenções. Sem aquela velha mania mascarada de querer parecer alguém que nunca existiu, teus olhos nos meus dispensam a cena de maneira inédita, debutamos juntos na apresentação de personagens que existem e que não são mais cena. Dispensamos a platéia. Apagamos os refletores e é no mínimo que a gente se esbarra. Que a gente sorri o encanto. Sem vaias, aplausos, burburinho, publicidade.

A soma da tua história na soma da minha história e somos duas pessoas que sequer imaginavam a possibilidade viva do um mais o outro. Um brinde em sorriso de olhos atentos que acontecem sem que precisemos de permissão. Ele vem. Eu vou. Tantos meses. Tantos. Eu respondo a tua pergunta dizendo que fico feliz pela confiança que gera em mim também confiança e é importante saber que posso cair nos teus braços. Que posso deitar nos teus braços. Que posso sempre optar pelo abraço. Na soma de tudo, a gente se encontrou. E percebeu que era motivo suficiente o bem querer.

Desça do trem e corra comigo um sorriso, escreva em conjunto um carinho, perceba que entre nós tudo é vivo e quente, verdadeiro e possível, real e indelével.

(Publicado na Revista Paradoxo, na coluna Depois do Filme)

quinta-feira, janeiro 22, 2009



FOI APENAS UM SONHO
de Sam Mendes


A noite acesa. Verão carioca. A cidade com vontade de reunir. Os bares, as ruas cheias, movimento. Gente.

- Posso sentar com você? – ele interrompe a garrafa pela metade.
- Como? – despertando.
- Eu posso sentar com você? É que as outras mesas estão ocupadas. E você tem essa cadeira vazia...
- Eu estou esperando alguém.
- Enquanto esse alguém não chega, eu posso te fazer companhia?

Olhos nos olhos.

- Olha – contrariado – não vamos complicar os fatos, certo?
- Uma cerveja? É o tempo da sua pessoa chegar. O bar está cheio. Se a sua pessoa for ciumenta, a gente finge que não se conhece.
- A gente não se conhece.
- Você pode dizer que quando chegou, eu já estava aqui e você sentou porque eu disse que já ia desocupar.
- A minha pessoa não é irracional. Seria capaz de compreender o... essa cena.
- Um cena, então?
- Você me entendeu.
- Uma cerveja bem gelada e dois copos, por favor.
- Você veio sozinho?
- Por que eu sinto que eu estou sendo acusado com a sua pergunta?
- Deixa eu reformular... Você não está esperando alguém?
- Tenho essa cara, né? De romântico.
- Cachorro pidão. Você tem cara de cachorro pidão.
- E os românticos são aqueles que sempre esperam por alguém.
- Sério?
- Por que não?
- É meio triste acreditar na idéia de esperar por uma pessoa imaginária, aleatória. É como esperar pelo Papai Noel, o coelho da Páscoa, esses personagens fantásticos.
- Julgado em praça pública pelo preço de uma cerveja gelada.
- Sabe que eu nuca gostei desses contos de fada?
- Sinto muito. Porque eu acho que toda criança precisa desse exercício de imaginação. Faz parte da construção do imaginário, da personalidade. Os medos superados. As bruxas. A luta justa pelo final feliz.

Olhos nos olhos.

- Um amigo meu ficou de aparecer.
- Eu estou sozinho.
- O que explica muita coisa.
- Você me julga deliberadamente.
- Exagerado o rapaz.
- Daniel, eu me chamo Daniel.
- Daniel, o príncipe das fábulas para crianças.
- Se você precisa tanto me etiquetar, que seja do seu jeito, então.
- Não é isso.
- Um brinde?
- Sim.
- Que a gente não precise se justificar o tempo todo. E saúde, sempre!

Oito garrafas mais tarde. O verão incendiando a madrugada.

- O teu amigo, o teu amigo misterioso.
- O que tem ele?
- Ele não veio.
- Não.
- Ele existe, aliás?
- Claro que existe.
- Vou pedir alguma coisa para comer. Preciso de sal.
- Por que eu inventaria alguém?
- Para parecer menos... como eu posso dizer... menos deslocado.
- Eu não sou tão óbvio. Sou?
- Você me fez uma pergunta. Finalmente.
- Você me confunde.
- Você é um tipo interessante, mas não em entenda mal.
- Mas não se trata exatamente disso?
- Disso?
- Desse rito. De aproximação. Corte. Sorrisos misteriosos. Um olhar mais atento. O ritual da conquista. A gente observa ao redor, marca o alvo, se aproxima e ao estabelecer contato, exibe todo o nosso arsenal irresistível de sedução. Que pode resultar em cama. Em sexo bom, daqueles de lavar a alma, enxurrada de sem vergonhice despudorada. Um telefone trocado. Um talvez outra vez. Um talvez nunca mais. Quem é que pode prever?
- Então para você toda tentativa de aproximação implica necessariamente em cama?
- No fim ou no início, não é esse o destino de todo novo encontro?
- Você deve ser ótimo na cama, então.
- Tenho alguma experiência.
- Então amizade, troca, uma boa conversa sem hora apara acabar, nada disso faz parte do seu repertório?

Olhos nos olhos.

- Qual é a sua, cara?
- Sério. Você deve ser a melhor cama dessa cidade, que faz com que toda a população queira se aproximar de você com a esperança acesa de conseguir uma oportunidade única de ser seu parceiro por algumas horas.
- Sua ironia me irrita.
- Eu fico me perguntando. Eu não posso ter sentado aqui somente para jogar uma conversa fora? De repente, eu tomei um fora da minha namorada. Eu posso ter vindo do apartamento dela, de onde eu saí com as malas que ela fez e deixou no corredor e para não enlouquecer de chorar, e para não incomodar nenhum amigo mais próximo com uma história que ninguém mais agüenta ouvir, eu resolvi parar o carro no estacionamento e dar uma caminhada pela Lapa. Para respirar. Pra tomar uma cerveja. Para conversar com um estranho, sem que eu queira levar ele para a cama. Só papear, matar o tempo, falar sobre qualquer assunto que me distancie da realidade. Será que tentar uma aproximação, uma amizade nova, será que se aproximar implica necessariamente em uma troca de favores? Eu faço a corte e pago o motel. Você aceita o convite e me come mais tarde.
- Eu sinto muito.
- Não sinta.
- Sério, eu não podia imaginar.
- Se eu quisesse sexo seria tão mais simples. Era só dar uma volta de carro pelo Centro. Putas, garotos, travestis, moleques. Seria tão mais fácil. Abrir a carteira, não falar uma palavra, camisinha e a gente cumpre o protocolo. Não existe nada mais assustador do que você perceber que terminou. Que não adianta nenhuma cena, nenhum apelo sincero, nenhuma outra carta de amor. Que nada surte mais efeito. É assustador perceber que você não provoca mais nenhuma sensação na pessoa que você amou por quatro, cinco anos. É como se você pudesse perceber a própria morte no colo do outro. Porque você não pulsa mais nos dias do outro. Você deixou de existir. Como é que a gente consegue seguir adiante sem enlouquecer, cara? E fazer a barba e escovar os dentes e pagar as contas. Como é que a gente deixa de chorar pelo próprio fim?
- Olha, eu acho que a gente bebeu demais, Daniel. Eu posso dirigir o teu carro, te deixar em casa. Depois eu pego um táxi.
- Eu não quero que você seja solidário.
- Eu só acho que nós bebemos demais. Eu sou duro na queda. Você não parece tão resistente.
- Eu não sou. Não sou nem um pouco resistente.

Mais tarde, os dois no carro.

- Obrigado.
- Tenho certeza que você agiria da mesma forma.
- Obrigado.

Olhos nos olhos. O celular de Daniel alerta uma mensagem. Ele lê em silêncio:

“Sabe o que é um pajem? É uma espécie de babá e eu te digo isso só para concluir que você só fica satisfeito quando há alguém te pajeando, não importa se homem ou mulher bicha ou assassino. O que importa é a maldita atenção e essa estranha necessidade de parecer alguém que você não é.”

- Alguma coisa importante?
- Essas mensagens da operadora. Nada demais.

Quando Daniel se despediu do rapaz, foi surpreendido por um bom abraço.

- Meu nome é Flavio. Esse é o meu telefone. A gente pode papear um dia desses. Pegar um cinema.

Dois sorrisos. Uma despedida com tom de chegada.

segunda-feira, janeiro 12, 2009



RUMBA de Bruno Romy


Assisti a um filme que começava feliz com o casal apaixonado. Eles dançavam rumba juntos. Eles se encaixavam. E se entendiam. E se amavam de um jeito que só eles compreendiam. Eles não questionavam o que havia ao redor. Eles estavam juntos e isso se bastava. Não havia a necessidade de elaborar nenhuma teoria gorda para explicar o afeto que os atava. Porque aquela mulher mais aquele homem faziam o maior sentido juntos. O mundo lá fora funcionava em perfeita harmonia. Trabalhavam, pagavam suas contas, cuidavam da casa, das plantas, dos detalhes deles de cada dia. E dançavam.

Eu pensei em você. No nosso encontro improvável de antigamente. Eu era um moleque mais perdido. Você era a menina que descobria que a vida não era tão fácil. Nos esbarramos no início da adolescência, onde tudo é tão urgente e a princípio, definitivo. E com muita sorte, dentro de um ritmo muito particular e eu ousaria, íntimo, percebemos que juntos, dançando o ritmo de um, aceitando as escolhas do outro, os passos a quatro nos fortaleciam. Enchiam o coração daquelas sensações que a juventude nunca sabe identificar de imediato – e talvez dar nome ao sentir não seja tarefa para nós – e a dupla era promissora. Animada. Bonita. Festeira.

Depois eles sofrem um acidente. O homem perde a memória. A mulher perde uma perna. O filme continua a trajetória do casal com muito carinho, apesar de dificultar ao extremo a harmonia que sempre os guiou. Como é que um homem sem memória continua a amar a mulher que amou a vida toda? Como é que a mulher apaixonada pelo homem vai lhe conceder a próxima dança se ela não tem uma perna? Não importa, na verdade. Porque o que me fez querer te escrever foi justamente o fato deles conseguirem encontrar uma maneira. Porque se há o desejo de querer permanecer, não importa, nada importa, se existe o desejo, o tempo não muda tanto assim as coisas de lugar.

A gente compreende um detalhe. Ignora outros. Algumas preocupações perdem o sentido. Outras ganham intensidade. A gente aprende um novo jeito sem abandonar o clássico. Emburrece mais um tanto. E na boa troca de dois, a gente deixa a brasa acesa. Vez ou outra incendeia as intenções, como bons amantes. Vez ou outra deixa pegar fogo sem se preocupar, como bons amores. Mas não deixo apagar para que você não deixe apagar. Sem que seja uma obrigação, sem que seja uma tarefa para cumprir e apenas cumprir. É mais uma necessidade delicada de não querer se deixar partir. De contrariar o rumo que as relações atuais tomaram. Talvez. O importante é que eu sei que a minha dança será possível quando você estiver presente.

Quando eu saí do cinema, eu só pensava em te escrever. Embora não soubesse como escrever, quais as palavras usar, eu sabia que o destino era você. Porque você é a mulher da minha vida. Porque depois do incêndio, você é o meu bombeiro possível que limpa os destroços em troca de nada. Talvez de afeto. Porque a gente perde o ritmo, pisa um nos pés do outro, cai no chão e ainda dá gargalhada. Porque você me ensinou que é preciso descortinar quem se leva tão a sério. Se não há humor ou um sorriso, é para cair fora o quanto antes. Porque outros e outras vieram logo depois e ninguém conseguiu despertar o melhor homem que existe em mim. Porque você dança comigo. Porque você canta tão bem. Porque as tuas mãos cabem nas minhas.

Dizer eu te amo é ter alguém para acreditar.

Para Glauce
(publicado na Revista Paradoxo, na Coluna Depois do Filme)

sexta-feira, janeiro 09, 2009


O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON
de David Fincher

Existe um espaço dentro do universo do cinema onde acontece o fenômeno que nos atiça os maiores sonhos, nos faz compreender que o real também tem seu fascínio, mas que a injeção de fantasia, de tempos em tempos, movimenta os desejos. O fantástico possível. O absurdo em carne e osso. A fantasia mais improvável. As situações nunca imaginadas, as palavras nunca ditas, o onírico ao menor alcance, ao toque próximo do olhar, leve imaginação que nos proporciona ser sem estar.

Existe uma necessidade sem nome que nos alimenta de quando em quando, como um fenômeno incalculável, fascinante e potencialmente trágico que nos faz melhores homens. Que transforma o improvável em fato. Despe a fantasia e nos coloca em contato com o mundo real. E alguém não imaginado se transforma em pessoa carne e osso, lábios vermelhos e beijo quente e sexo suave que nos desperta os cômodos, que nos alarma que a vida é urgente e cheia de fogos de artifício que se acendem ao toque íntimos das mãos, ao delicado poder dos encontros, ao explosivo despertar de afinidades, ao amor, tim tim.

Quando a gente deixa de ser singular.

O ano é novo. A idade já não é tão nova. Essa virada que o relógio inevitável faz e que me deixa em harmonia. Todo aniversário cumpro quase um ritual de agradecer pelos meus mínimos, pelas grandes conquistas, pelos muitos desejos, por toda carinhosa lembrança. Um encontro sem palavras entre o homem e a grande vontade de querer bem. Das pessoas que viraram a esquina, dos que chegaram agora, dos que permaneceram. Dos que talvez estejam indo adiante. Gosto de chamar de os meus porque de fato, sinto assim. Sem acordos, contratos, prazos de validade. Os meus que aceitaram a delicadeza de permutar o bem querer. Entre as pedras e a poeira, toda a beleza que pode existir entre dois corações.

Meu caro, a vida vira todos os dias. Ainda não percebeu? Todas as direções permitidas. O globalizado do globalizado e onde é que a gente se encaixa mesmo? A textura de todas as cores ao alcance da retina. No piscar dos olhos, o olhar muda, quantas vezes por minuto somos capazes de observar? Eu sigo na multidão e olhando bem nos meus olhos, ainda sou aquele menino que só quer a paz de viver uma história com amor. Que seja possível e dentro dos meus limites, sem sublinhar ou tentar fazer um programa de televisão a cada acontecimento. Eu quero a soma. Sem fazer alarde, tecendo e colhendo o mesmo sonho dia após dia. O ano virou. E ali no finalzinho, eu descobri que de tanto desejar a fantasia perfeita que encaixava todos os sentidos, eu criei também um sonho improvável. Uma ilusão de cinema, uma projeção de um filme que eu já assisti inúmeras vezes. Mas não vivi.

E repito: não vivi.

Eu não vou te olhar mais como um personagem. Um galã à espera do movimento da câmera para estar em ação no seu melhor ângulo, com o texto decorado, diante da sua beleza irretocável. Eu quero a possibilidade. O pequeno possível. De roteiros e sensações roubadas, eu fico com o cinema. Porque ele não me engana. Ele me fascina. Me deixa estar sem ser, ciente. E eu sou alguém que precisa do jogo aberto para poder querer jogar. Essa falha na comunicação, meio sem forma, totalmente sem nome e de algum jeito estranho, interessante, causa mais fascínio normalmente em gente mais jovem.

Eu gosto de descobrir. Eu gosto de poder me surpreender redescobrindo. Eu compreendo que existe a cena. Mas eu não concordo que o texto e as sensações sejam as mesmas. Eu não sei repetir um momento. Ou beijar igual duas vezes. Eu não sei tocar alguém sem valorizar o segundo do toque. Nunca é da mesma forma. Nunca. Mas a textura, a intensidade, o suor que não trilha o mesmo caminho, os desvios inéditos, assim como as explosões inúmeras porque o momento é. Eu gosto de fazer com que alguém que eu amo sinta-se especial. Eu gosto dessa sensação de saber. Eu não tenho vergonha quando não sei o caminho. Pergunto, investigo, olhos nos olhos. Posso demorar, mas há o desejo. Eu quero chegar.

Eu não gosto de textos repetidos.
Não gosto de desperdício.
Ou cenas desnecessárias.
Isso talvez seja cinema.
Eu quero o que não é mais filme.
Da impossibilidade dos amantes que se cruzam,
o que eu quero é o amor.
Por isso eu não vou te olhar mais como um personagem.
Dessa falha dramática, eu tento domar as minhas arestas.
E completo no silêncio festivo dos meus trinta e um anos,
Essa sensação verdadeira de querer um mais o outro.
Simples assim. Complicado assim.
Isso deve significar alguma coisa.
Ao menos na vida real.