sexta-feira, maio 29, 2009



A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER de Philip Kaufman


Eu não quero agir como um adolescente medroso que emburra a cara para ganhar a atenção. Eu não quero esse jogo óbvio onde tudo é calculado para que você me perceba. Eu não tenho mais vontade de repetir. Eu não tenho mais idade para agir de forma descartável. Não vou fingir que não me importo com você. Eu me importo com você. Eu não sei equalizar o meu querer gigante e descontrolado no meu corpo e nos meus movimentos. Não sei ainda o que fazer com a delicadeza avassaladora que me entrega. Ela me desconcerta, me desequilibra, o coração acelera e é difícil conter o meu querer, é como se eu precisasse socializar os meus impulsos, adestrar um vulcão, compreende assim? Eu atravessei a rua segurando todo o choro, insistindo que respirando fundo e mentalizando que eu precisava esperar abrir a porta de casa para sim, desabar, perder o equilíbrio, chorar meu desconforto, assobiar os meus medos.

Existe algo de insustentável no nosso encontro. Eu falo por mim. E talvez tragicamente insustentável. Por mais encantado e por mais amigo que eu queira ser, eu não posso ser o amigo que você quer que eu seja porque existe o desejo. Te quero ao contrário porque eu não sabia que te receber resultaria no agora. Eu tropecei no querer que me revelou um gostar irreversível, mas que não está ao meu alcance. Por razões que só nos dizem respeito, saiba, sei. Do irreversível, eu não vejo alternativas objetivas para nós dois. Eu não quero agir de forma precipitada e também não posso mais deixar você entrar e ultrapassar o meu desejo de te desejar. Deve haver algum limite para ser respeitado, embora eu não saiba onde está. É tão difícil aplicar a teoria na prática, porque o sentir é desgovernado e venta, espatifa, quebra, move, revira e depois faz sentido.

É preciso que haja uma ruptura.

Não digo virar as costas e fingir que nada houve. Não digo mudar o comportamento e fingir que todas as afinidades e festejos e todo o carinho não existiu. Existem. Desgovernados. Não penso em caras feias ou palavras rudes. Não penso em não saber de você. Mas penso no silêncio. Na ausência de palavras e canções e cuidados. Penso em fechar as janelas e a porta. Em voltar para dentro e não permitir que você avance e leve as minhas palavras na areia. Penso em romper. Abortar. Chegar ao teatro e ir direto para o camarim sem querer saber se você chegou, se vai chegar, se vamos ter tempo para uma conversa. Me despedir sem a angustiante sensação de quando vou te ver. Se o meu telefone vai tocar. Se. Eu não quero o se. Eu não quero.

É preciso que haja um tempo para dizer adeus.

Adeus e seja feliz. Resolva a tua vida da forma mais linda. Plante tuas sementes em jardins reais, onde seja possível o cuidar. Onde seja possível o colher. Eu não posso ser seu amigo agora. Não posso. Eu não quero ser seu amigo agora. Seria estupidez da minha parte insistir. Seria como me ferir consciente da dor. Seria procurar razões para chorar feito um tonto que mal enxerga o teclado e sente um abismo e percebe que há insatisfação para onde quer que olhe.

Seria amar um homem que não vai me amar. Outra dor insustentável.

Adeus e me perdoe que eu te diga adeus. Guarde as palavras e as canções. Mas não posso ter você ao redor. Não posso ter a ilusão de um você que não existe. Eu guardo esse encontro como um precioso presente que eu preciso recusar. Você é. E está. E vou te deixar ir. Porque eu preciso que você vá para eu continuar sem essa sensação insustentável cada vez que me aproximo, que te ouço, que te vejo.

É preciso.

Eu lamento o fato de me despedir antes de qualquer possibilidade.

segunda-feira, maio 18, 2009




DESEJO E PERIGO de Ang Lee


Ele me conheceu na escada rolante na entrada do metrô. Eu digo que ele me conheceu porque foi dele o primeiro contato. Não fosse sua atenção, seríamos dois homens cariocas que passam um pelo caminho do outro sem sequer imaginar que um fragmento do momento poderia se transformar na história de nós dois. A barra da minha calça havia ficado presa entre os degraus da escada que me levaria saída afora da estação. Me contorcia e suava frio e cada vez mais enrolado, enquanto a escada ao lado rolava acima com seus olhos atentos ao meu desespero. Foi quando ele gritou ao passar por mim para que eu puxasse com toda a força que ela soltaria. Eu puxei. Ela soltou. E ele entrou na minha vida.


Ele desligou o telefone e meia hora depois eu cheguei. Encontrei-o com os olhos fundos e vermelhos. O hospital de madrugada me parece mais urgente do que já é. Ataque do coração, os médicos disseram. Estávamos todos jantando, falando sobre cinema, quando percebemos sua ausência, ele estava caído no corredor, ele me contou com a voz tão frágil. Três dias depois, acompanhei o velório do seu pai de mãos dadas, abraçado, atento, cuidadoso e igualmente frágil. Eu queria te agradecer, ele me disse. Interrompi em silêncio, apenas balançando levemente a cabeça. Carinho a gente troca, a gente tece, a gente faz brotar. Eu quis ficar ao teu lado. Eu enlouqueceria em outro lugar se não estivesse com você. Nos abraçamos tão forte e nem a chuva intensa nos desatou. A vida continua a mesma de todos os dias até que você percebe que existe alguém que quer o mesmo que você. E eu quis.


Ele me deu a chave do apartamento numa caixa enorme. Dentro da caixa enorme havia outra menor e outra menor ainda até que depois de seis ou sete caixas, eu encontraria aquela onde caberia a chave da porta da frente, outra da portaria e finalmente uma aliança. Seis meses depois, o apartamento era a soma de dois homens e era plural. Precariamente mobiliado, você sabe que me pagam mal e eu gasto muito, gasto com o que me dá prazer, já ouvi tantas histórias de pessoas que guardaram dinheiro por vinte anos e depois morreram, enlouqueceram, foram confiscadas ou roubadas. Então de que adianta escolhermos a mesa de centro mais cara da loja mais badalada da cidade se não vamos passar tanto tempo em casa? Ele me convencia e me contrariava e fazia todo o sentido que fosse assim. Ele me ensinou a ser mais simples. E eu compreendi e gostei.


Ele bateu a porta com tanta força que a madeira rachou e lascou. Quando é que perdemos a atenção e deixamos de nos ouvir? Por qual motivo o apartamento parece vazio e não falo de espaço físico, mas de nós, quando, depois de tanto tempo, nos descobrimos tão impacientes, intransigentes, descontentes? Dois dias depois, sentado no chão da sala, eu comprei o melhor vinho que encontrei, diminuí as luzes. E elas se apagaram.


Quatro anos depois, ele me liga e diz que eu preciso assistir o filme do Ang Lee. Quatro anos depois sem notícias. Quatro anos depois de vida partida, de planos desfeitos, de um adeus engasgado ao som de um tim tim qualquer numa madrugada sem fim dentro de um apartamento sem amor. Ele me falou do filme com tamanha paixão. Disse que achou lindo porque é universal, mesmo sendo tão específico. Que a gente espatifa até que um novo alguém atravesse a rua e tropece nos estilhaços e se reconheça ali e queira... recomeçar, eu completei. Ele falava com entusiasmo e eu já não ouvia com tanta atenção.


Você foi o homem que me deu a chave da porta da frente e saiu por trás. Eu fui o homem que comprei o melhor vinho e te disse adeus. Mas houve algum momento, algum espaço entre o olá e o adeus, em que nós nos amamos e foi de verdade porque mudou a minha vida, revirou os meus passos, me ensinou e demoliu tantas idéias velhas, tantos pensamentos novos. Eu não posso te encontrar hoje. Eu não quero te encontrar. Porque eu não saberia olhar para você sem estar nos teus braços. E agora existe um novo alguém. Sempre há de existir um novo alguém, mesmo sem as chaves da porta da frente, porque eu não sei e não quero viver sozinho. Eu vou assistir o filme, isso é tudo o que eu posso te prometer agora. Mas nós dois, meu caro, nós dois somos tão específicos quanto universais. E embora encantador, isso é tudo.

(Publicado na coluna Depois do Filme, da Revista Paradoxo)

terça-feira, maio 12, 2009



O EQUILIBRISTA de James Marsh


Eu vou começar com a palavra ‘eu’ porque tudo o que eu vou te dizer é realmente em primeira pessoa. Então eu vou tentar abrir mão das metáforas mais óbvias – sabendo que não vou conseguir – que muitas vezes ilustram uma idéia ou sugerem um significado mais interessante, mas não são capazes de encarar o outro de frente e abrir o jogo de forma mais direta, mais imediata. Muitas vezes elas diluem o recado.

Quando eu me apaixonei por você, eu demorei algum tempo para admitir. Ou compreender. Você namorava um colega de elenco. Nós estávamos em cartaz de quinta à domingo. Eu não lembro exatamente a primeira vez que eu te vi, mas eu lembro que você chegou com um bilhete de advertência pendurado no pescoço. Do tipo ‘não toque’, ‘não se interesse por ele porque ele não está solteiro’. Tudo o que eu te disse por um bom tempo foi ‘boa noite’ e ‘até logo’. Eu evitei me aproximar. Não que você não fosse um homem interessante, mas perigos anunciados sempre atraem expectativas. E eu não queria confusão. Ou exposição. Até que você se aproximou.

De imediato, eu fui educado e receptivo. Depois eu comecei a me interessar pelo fato de te encontrar todas as noites na saída do teatro, esperando pelo teu amor. Você esperava todas as noites por um homem que não era eu. Eu sabia desse fato, mas ele sempre foi tão incrivelmente romântico que eu me deixei enganar. A peça terminava. Nós saíamos do teatro cansados e lá estava você. Sempre. Abrindo o sorriso como se entregasse flores. Todas as noites.

Nessa época, nenhum homem me amava. Ninguém me esperava na saída do teatro. Ninguém me lançava um sorriso. Secretamente, eu detestava o seu companheiro porque ele parecia não se importar com o fato de você estar ali, de quinta à domingo. Ele me parecia acostumado ao teu carinho inteiro. Incondicional. As pessoas se acostumam com atitudes carinhosas e muitas vezes passam por cima da delicadeza. Isso me deixa sinceramente puto. Um dia você me telefonou. E apareceu lá em casa depois de uma briga.

Tudo o que era unidade ganhou reflexo. Os meus dias comuns foram contaminados pela tua atenção que transbordava os espaços do meu apartamento. A minha intenção também transbordava e era de alegria e era de uma felicidade incontrolável. A gente foi se misturando, foi isso o que aconteceu. A gente foi se recolhendo, aos poucos, os pedaços. A ordem do dia não era mais cronológica porque eu só despertava depois de te abrir as portas. Eu só me apaixonei por você porque você sentiu paixão por mim. Eu não soube resistir. Ou dizer não. Eu disse sim e você sabia que eu diria sim, dispensando as perguntas tolas.

Quando você voltou para ele, eu fiquei sem saber durante muito tempo. Muitos meses. Eu não estranhei ou me surpreendi. Eu fiquei sem saber. Realmente eu fiquei sem saber de qualquer coisa. Embora eu sempre tenha repetido secretamente que fazia sentido você voltar para ele. Porque é essa a função do retorno. O retorno corrige equívocos.

(Publicado na coluna Depois do Filme da Revista Paradoxo)