terça-feira, junho 30, 2009



BEIJANDO JESSICA STEIN de Charles Herman-Wurmfeld


I

- Há quanto tempo?
- Não sei precisar o tempo. Meses, semanas, não sei. O que eu sei é que quase todos os dias eu desço a rua e a gente se encontra na mesma esquina meio afobados, na correria dos minutos. A gente se encontra e desce a rua juntos, no mesmo horário. A gente caminha próximo um do outro até chegar à estação do metrô. E uma vez na plataforma, nós entramos no mesmo vagão. Quase sempre. Até que depois de vinte minutos, trinta, eu não sei do tempo, o Centro da cidade nos separa mais uma vez e nos perdemos pelo dia.
- Nunca houve contato? Você nunca se apresentou?
- Não.
- ele nunca disse nada?
- Nada.
- No mesmo vagão do metrô, uma vez, nós ficamos tão próximos. Tão cheio, tantas pessoas. Nós tão próximos, se eu me concentrasse um pouco eu poderia perceber o movimento da respiração dele. O perfume da barba por fazer. O Cheiro da pele e o ritmo do corpo ao se movimentar dentro do movimento do trem. Tão próximos. Eu percebia ele me encarar sem que eu o encarasse. E quando me enchia de coragem e o encarava, algo fazia com que nosso olhar não se encontrasse. Como as linhas do trem que não podem se cruzar. Como as linhas do trem que fagulham ao maior atrito. Existe algo de impossível entre nós.
- Elabore.
- O nosso olhar não se encontra diretamente, eu falo de olhos nos olhos, o reconhecimento. A retina identificando o outro como uma possibilidade real. Alguém para ancorar. Se a gente se olha, além do atrito, da fagulha, há também o anúncio de um acidente. De um provável acidente de percurso. Então nós nos percebemos e também nos acostumamos a descer a rua todos os dias, confortavelmente interessados um na presença do outro, flertando com a possibilidade, mas não passamos disso.
- De?
- De um desejo.
- Todas as suas relações são platônicas.
- Falar, me apresentar, entrar na vida, tudo isso seria desfazer o novelo.
- Realidade.
- O que eu quero dizer é que eu gosto da sensação que o mistério me causa.
- Você precisa de realidade.

II

Nós caminhamos juntos por quase trinta minutos e não trocamos muitas palavras. O teu telefone em urgência e eu entendo do querer, não compreenda essa observação como um irritado puxão de orelha. Em absoluto. Precisava caminhar, esse inverno carioca de céu azul que a gente se adapta e luta com as armas disponíveis. Mas eu precisava sair do teatro e enfrentar o asfalto, o início da noite, o vento gelado no rosto, as ruas pela frente. Eu precisava caminhar. Traçar um ponto de partida e algum destino e me deixar conduzir. Já sentiu vontade de ir em frente? Sem a preocupação com o horário, com os compromissos ou o universo ao redor? Ir adiante. Caminhar, sentir os músculos em ação, o corpo em movimento, quebrando a inércia. As ruas pela frente.

Eu não sei se você espera de mim alguma palavra. Justamente pelo fato de sempre te deixar muito claro o que penso. Ou quase sempre sinto. Histórias que se repetem me cansam. Cansam tanto a ponto de não querer mais. Porque já conheço os vícios, já decorei as reações, já estou treinado para reagir e nesse momento, tudo o que parece mecânico não me interessa. Sim, eu compreendo. A pessoa é outra, então tudo é diferente porque é outro amontoado de histórias que encontram tuas histórias e nesse encontro, nesse xis da caminhada, o enredo muda, os detalhes tecem novos cursos, a cadência é outra. A cadência sempre será outra porque o dia também é outro. Estou parecendo a Elisa Lucinda com o parem de falar mal da rotina, o que não me incomoda porque o discurso é o mesmo. A rotina não é um problema porque cada minuto é uma novidade, eu sei que estou sendo óbvio, mas ser óbvio justifica os meios, os fins e todo o começo.

Histórias se repetem, meu caro. Os dias, nunca. Além do coração, o que me chamou a atenção antes de chegar até aqui foi o tamanho das tuas asas e o teu amor pela liberdade. A tua relação de intimidade com o momento, o instante de ser quem você é, sem espelhos, farsas ou complicadas tramas. Você, um homem de quase trinta anos, fã da cantora cor de rosa e carvão, tão interessado pela vida – dos grãos e da colheita – e pelas pessoas que se aproximam de mansinho. Tão atento, especialmente cuidadoso. Tão simples no embate entre o teu saber, tua mochila de verbos e o outro. Foi na clareza da simplicidade que pude observar tua liberdade nua, inteira, tão próxima, ao meu alcance. Então quando falo em repetições que me cansam, o mecânico e seus reflexos imediatos, eu quero te dizer para que não se perca de mim. Não se perca, enfim. A gente nunca sabe o que virá.

Não se perca, enfim. Para que se cumpram os retalhos da colcha que delicadamente e muitas vezes de maneira arrebatadora, começamos a tecer. Sem perceber.

III

Perdoe senhor, se teus olhos não me impressionam mais. É que o teu jogo repetiu os vícios. Deu game over e recomeçou sucessivas vezes. Eu busco a segurança da confiança. O abismo da certeza. Preciso ficar bem e estar ao lado de quem me faça bem. Quem me queira bem. Ao teu lado, as paredes afunilam. Ao teu lado, é preciso alimentar lobos a cada minuto. Despistá-los. Não quero ser trampolim. Ou impulso. Quero apenas ser o amigo ou o amor. Ou os dois. Tão inexato assim. Compreendi tuas sugestões mesmo sem as palavras exatas.

É hora do vôo solo.

Game Over.

Fatality.

sexta-feira, junho 19, 2009



COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ de Peter Segal

“in me all that fire is repeated,
in me nothing is extinguished or forgotten,
my love feeds on your love, beloved”
If you forget me / Pablo Neruda


Cheguei uma hora antes. Por que eu saí mais cedo do trabalho. Porque eu não queria correr o risco de me atrasar. Porque o metrô é tão rápido que a gente nem sente. Porque um monte de infinitos motivos que coincidiram nesse raro fato de chegar em algum lugar exageradamente adiantado. Eu sou sempre aquele cara que chega em cima da hora, na cola dos minutos finais. Com a testa suada, a respiração ofegante, o fone nos ouvidos, ávido pelo desejo de conseguir chegar antes do tempo marcado atingir a sua perfeição irreversível.

Depois eu sentei no degrau mais alto da escadaria incomparável do Teatro Villa Lobos e o Wesley passou caminhando para casa. Faz tanto tempo que eu não vejo o Wesley. Faz tanto tempo. Ele me deu um beijo no rosto e sentou na minha frente. Nós falamos de tanta gente em tão pouco tempo. Que fulano casou, que a outra foi embora da cidade, que aquele outro já teve um filho, que tantos e tantos nomes e pequenos comentários sobre os rumos que cada um tomou. Ou não tomou. Depois ele se despediu, te deixou um beijo e se misturou ao fluxo intenso de Copacabana.

Então eu comecei a pensar que encontrar alguém de muitos anos atrás, faz com que a gente encontre também outros nomes e outras sensações que a gente deixou por lá. Pessoas das quais nos afastamos. Pessoas que se afastaram. Algumas delas sem motivo algum. Outras delas porque as direções partiam, interrompiam por um momento, a convivência das nossas histórias. E nós dois. Eu pensei em nós dois. Mais uma vez em nós. Que vencemos a distância. Não nos deixamos levar por ela. Ela simplesmente passou e imunes, sem combinar ou dissertar ou sequer nos preocuparmos, ela se foi, como se não nos percebesse.

Eu nunca pensei no futuro sem você para dividir os dias. Talvez por esse motivo, o fantasma da distância não tenha nos deixado medo. Porque nós sabíamos ou pressentíamos que no encontro bacana de dois jovens rapazes estudantes de teatro, havia certezas e havia também imensas dúvidas sobre todas as certezas que a gente viu como um jogo de espelhos, se multiplicar no quarto escuro da adolescência atenta. Então não havia medo de se perder. De partirmo-nos. Oito ou nove anos depois ainda dividiríamos os nossos segredos. Nos escreveríamos cartas gordas. Jantaríamos juntos pelo prazer da companhia. Dormiríamos no mesmo quarto pela felicidade do saber-se juntos. Nos abraçaríamos na felicidade das conquistas para comemorar. Deixaríamos nossos telefones nos informar nossos passos largos pela noite adentro, pela vida afora. As dúvidas, as percepções, as nossas infinitas descobertas, aquele medo tal, aquela angústia outra, aquele pavor do fio da corda que nos arrepia, dividiríamos oito ou nove anos depois com aquela sensação potente do acontecimento inédito. Sorrindo as mesmas diferenças. Renovando o cuidado, a atenção, o carinho da percepção, todos os dias. Para que nos preservássemos do mofo, da poeira, do grande descuido que há por aí, do qual já fomos tantas e tantas vezes protagonistas e coadjuvantes.

Você me ensinou sem dar nenhuma explicação que cuidar exige dedicação. Eu acreditava que essa era uma lição compreendida. Depois você me disse sem usar nenhuma palavra que não é bem assim e que cada encontro é singular. Porque a combinação do outro ao encontrar ou se misturar às suas combinações, vão gerar um tipo de relação tal que nunca será igual em outra pessoa. Eu sempre lembro do filme do Adam Sandler que todos os dias faz com que a Drew Barrymore se apaixone por ele, ao acordar sem memória. Incansavelmente. Movido pelo querer bem que o amor nos brinda. Essa dedicação natural pelo outro, você me ensinou sem estabelecer regras ou regulamentar qualquer patifaria, não só nos renova os laços, mas nos faz melhores cavalheiros. Não no sentido hierárquico do melhor. A escala onde somos melhores, maiores e mais limpinhos que os outros. Melhores cavalheiros, no sentido de nos concedermos um fragmento a mais. Estender o braço para que alguém te puxe enquanto carrega o outro. Sem ter que anunciar, estampar ou fazer um livro de auto-ajuda, feito tola competição, das quais também já fomos protagonistas e coadjuvantes. Alguém melhor para si. E para o outro. Intimamente.

Nós éramos dois jovens rapazes que se descobriram no esbarrão pela cidade. Nos alimentamos da energia, da curiosidade, do desejo um do outro. E sabe-se lá como, permanecemos e viramos homens com barbas e volumes evidentes, confidentes e confiantes em histórias que se realizam. Tristes, apaixonadas, dramáticas ou imensamente divertidas. Mas histórias sempre reais. De carne, osso e quase sempre alguma fotografia para documentar, um porre para alegrar e uma ou outra carta para nos legitimar. Histórias que são escritas em uma escadaria de Copacabana, ao som da avenida movimentada e uma chuvinha fina que começa a se apresentar junto com a tua peça de teatro.

Te vejo no fim. Que sempre recomeça.


sexta-feira, junho 12, 2009



SUPERBAD - É HOJE de Greg Mottola

Era uma mão estendida, a palma da mão aberta de uma mulher,
e eu a segurei
”.
(Dez Coisas Verdadeiras/ Miranda July)


- Você topa?
- Se eu topo?
- É, cara. Não ta afim?
- De? Eu não sei do que você está falando, mas de qualquer forma, não muito. Eu só estou acompanhando a minha sobrinha, eu prometi que vinha com ela em fevereiro. Aqui estou, arrependido, com febre e muita dor de garganta.
- Relaxa, vai. Eu só queria saber se você quer fumar um baseado com a gente.
- Então eu tenho cara de maconheiro.
- Não é isso, vai.
- Quem está com você?
- O meu namorado. E a tua sobrinha, onde foi parar?
- Lá na grade, na frente do palco. Com aquela camisa amarela dos Beatles.
- Agora ainda dá pra ver. Daqui a pouco, ela vai sumir com a multidão.
- Certamente.
- Você não vai assistir ao show com ela?
- Ela trouxe duas amigas. Nós combinamos um ponto de encontro, caso ela não se sinta bem.
- Então você não curte?
- O baseado?
- A banda, você não curte os meninos?
- Eu não conheço os meninos.
- Nossa, cara. Em que planeta você vive?
- No planeta onde adolescentes não oferecem drogas a estranhos?
- Eu já tenho dezessete.
- E seu namorado?
- Dezenove. Aliás, foi ele quem insistiu para que eu viesse aqui te convidar.
- Então posso considerar como um convite...
- Você sabe quem ele é, não sabe?
- Quem?
- O meu namorado. Você tava olhando para ele logo que nós entramos.
- Como?
- Tudo bem, eu não me importo. Acho até excitante. Nós somos bem liberais, sabe?
- Sei.
- Então, você topa fumar com a gente? Aqui é super tranquilo.
- Não sei.
- Diz que sim, vai?
- O seu namorado.
- O que tem ele?
- Onde ele está?
- Nós estamos do outro lado, ele está sentado no chão, ali, de camiseta vermelha. Viu?
- Vocês não têm vontade de ficar lá na frente?
- Ah, não. Nós viemos para curtir, sabe?
- Que bom.
- Então, esse negócio de ficar lá na frente se esgoelando, não é com a gente.
- Você são mais calmos.
- Mais reservados. A gente se entende.
- Se entender é importante.
- Então, você compra umas bebidas e encontra com a gente?
- Comprar bebidas?
- É, umas cervejas.
- O seu namorado não é maior? Por que ele não compra as cervejas?
- Você faz muitas perguntas.
- Vocês não têm grana, é isso?
- Dinheiro nós temos.
- Qual a idade dele? Sem mentir ou essa conversa não vai adiante.
- Ele tem dezessete. É que no bar não é como na entrada, que eles olham a identidade na correria. Lá no bar, eles analisam mesmo.
- Se me pegarem comprando bebida para menor de idade, eu posso ir preso. Você sabe disso, não sabe?
- Mas isso não vai acontecer.
- Bebendo cerveja, fumando maconha, quer dizer, para que serve o Código Penal?
- Porra, tu é advogado?
- O que há com a geração de vocês que não respeita a caretice alheia?
- Vamos curtir, vai.
- Desculpa lindona. Hoje eu estou fantasiado de tio responsável.
- Se ele viesse, seria diferente, não seria?
- Eu olhei o seu namorado. Por menos de dois, três minutos, não sei. Olhei como quem observa alguém interessante. Achei ele bonito, o rosto bonito, muito bonito. Depois ele sorriu e eu percebi no detalhe do sorriso aberto que ele era jovem. Jovem demais, agora eu sei. Depois eu o perdi de vista. E ele desapareceu da mesma forma que surgiu. Então se ele viesse me abordar talvez o interesse poderia ser diferente. Quem sabe? E eu me deixaria encantar pela juventude arrebatadora da sedução. Ou diria não, um suave não, da mesma forma, volume e textura como esse que eu te dei.
- Então você deve ser professor.
- Bom show para vocês.
- Peça alguma coisa, qualquer coisa que a gente faz.
- Qualquer coisa mesmo?
- Só pedir.
- Então eu te peço para que você me deixe sozinho.
- Não vale, né?
- Você disse qualquer coisa.
- Sim, mas para tentar te convencer a ficar. Se você pede para eu sair, então eu vou ter que desistir de você.
- Não seria ótimo?
- Para quem?
- Você poderia estar conversando com outra pessoa. O tempo, você deve saber.
- Eu conheço o Cazuza.
- Então?
- Você é difícil.
- Eu compro as cervejas. Sem problemas. Eu compro e te entrego. Depois você some e vai encontrar o teu namorado. Vai lá deixar o álcool atlterar as tuas sensações. Ou pelo menos fingir que o álcool te deu coragem para você fazer um monte de coisas que o plano real nos inibe a maior parte do tempo. Depois vocês acendem o seu baseado e outra vez, fingem que ele acentuou as sensações, deixou a atmosfera mais sensível. E beijam-se loucamente a noite toda, a dois, a três, essa geração de vocês é tão plural. No sentido mais amplo que a palavra alcançar. Vocês não sabem o que ser. É tanta possibilidade. Eu não sou tão velho assim, mas eu não tinha tantas opções. E te confesso que o proibido, que esse grande e perigoso ‘não pode’ era mais saboroso porque a gente desafiava também pela curiosidade, mas muito mais pelo desejo de querer fazer parte.
- Então você vai comprar as cervejas?
- Se você me contar um segredo.
- Um segredo?
- Sim, mas um segredo que ninguém saiba. Nem seu namorado, nem sua melhor amiga ou sua mãe. Um segredo só seu. Que ninguém no mundo soube ou saberá.
- E você não vai me contar nada?
- Eu vou te comprar a bebida.
- As bebidas.
- Sim.
- Não é justo.
- Pois me parece.
- Eu não sei se eu tenho um segredo assim. Eu tenho dezessete anos, cara. Quem tem um segredo aos dezessete anos?
- Eu carregava alguns na sua idade.
- Todas as noites eu pego o metrô. Entre sete e nove horas. Eu moro bem pertinho da estação do Flamengo. Eu pego o metrô e vou até Copacabana. Depois eu volto para casa e vou dormir. Ou fico no computador conversando.
- Ninguém nunca te encontrou?
- Não. Eu gosto de olhar as pessoas. Eu gosto de ver que todo mundo tem um destino. Eu gosto de ver que essas pessoas cumprem os seus destinos. Isso me conforta, me causa alegria, eu não sei. Quando eu era criança...
- Ainda agora.
- Quando eu era criança, eu vi uma mulher de vermelho. Ela usava um vestido vermelho muito sedutor. Um vestido vermelho lindo. Sabe O marido da cabeleireira?
- É um dos meus filmes preferidos.
- Sério?
- Te confesso que me surpreende que você conheça esse filme.
- Então, ela usava um vestido vermelho como a mulher do filme. E ela cheirava bem. Um perfume que eu nunca mais senti. Um perfume... Ela entregava flores dentro do metrô. Ela não vendia, ela oferecia flores. As pessoas fingiam que ela não estava presente. Sabe essa coisa de ignorar o que nos incomoda? Mendigos, meninos na rua, malucos, então. Quase ninguém pegava as flores. E ela tinha um olhar doce, uma suavidade tão forte. A rosa que ela me deu não durou muito. Mas a sensação que ela me causou, eu busco ela todas as noites quando eu entro no metrô.
- Bela história.
- Obrigado. Você tem certeza que não quer ficar com a gente?
- Ficar?
- É, assistir aos meninos, conversar, pular, cantar, essas coisas de gente jovem.
- Eu vou para o bar comprar umas cervejas. Depois eu não sei.
- Nunca sabemos, né?

E me sorriu o sorriso mais lindo.

A gente tem esse dom para o imprevisto que não se explica.


terça-feira, junho 02, 2009



DIVÃ de José de Alvarenga Jr.

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.

(Separação / Affonso Romano de Sant’Anna)


Faz um tempo que penso em escrever. Esse texto, eu digo. Não mais uma nova carta esbanjando simpatia e (ou) admiração. Não mais uma velha carta sublinhando a falta nova que você me faz. Penso em te escrever sobre o que sinto por nós dois. Deixando de lado o estilo trágico-sentimental – o que me desarma em absoluto. Me deixa um tanto vulnerável por não ter onde me segurar, caso eu precise te dizer a verdade. Te escrever sempre foi um exercício não só de paixão, mas de amor às palavras. Eu me descobri apaixonado pela maneira de te dizer, escrevendo desse amor. Então eu já abro esse parágrafo dizendo que você foi o homem que me abriu o chão, em terremoto sublime ao perceber que – e foi (e é) o responsável pelo meu exercício da escrita. Pelo amadurecimento dessa tarefa. Pela minha mais íntima dedicação. Meus momentos de intensidade sem medo. Sem sombras.


Quero te escrever sobre nós dois. Mas não quero retroceder o nosso encontro no tempo e dizer tudo o que vivemos de lá para cá. Não. A história de nós dois, nós vivemos. Eu quero te contar das elipses. Quero te participar dos silêncios. Das horas em que não estivemos juntos fisicamente. Da seqüência de acontecimentos que eu experimentei – e também você – quando não estivemos compartilhando. Eu, dentro da minha vida em outro cenário. Você, do seu lado da ponte, entregue ao teu roteiro. Quero te contar desse compromisso que a gente tem de ser um só. Da unidade de ser alguém e conseguir dar continuidade à nossa formação – que muda sempre porque estamos abertos ao que é novidade, ao que nos interessa. Te lembrar da beleza de ser indivíduo. Peça única. Um homem apenas. Que ao encontrar o outro, seja alguém para confiar a amizade, seja alguém para depositar o amor, transforma a vida. Brinca de construir para demolir e depois construir e depois faz de conta o que é realidade, leva a sério a fantasia. Essa soma, do um mais o outro – e sendo especialmente específico – eu mais você e a cidade. Mais o amor.


Faz um tempo em que penso. Sinto muita dificuldade de encontrar a forma, porque falo de um amor que não existe mais da forma como nasceu. Um amor transformado. Que nasceu da unidade eu e ao encontrar a unidade você, cresceu ou explodiu ou transtornou ou pariu beleza ou provocou erupções ou movimentou a minha vida ou te entregou uma oportunidade ou me extinguiu uma possibilidade ou nos fez felizes ou me fez entristecer. Falo de um amor que se transformou porque assim o tempo deixou, porque assim nós deixamos, porque conduzimos como bons cavalheiros, que durante algum tempo sustentaram o bem querer mais por comodidade do que satisfação. Mas que depois de uma temporada em quietude, meio no escuro meio sem cobrança, encontrou em nós, força e motivos para continuar existindo. Eu acordei decidido. Levantei e abri a janela e antes do sol me invadir, eu suspirei e compreendi que eu ia te escrever que a soma de nós dois, só foi possível porque nos respeitamos como indivíduos. No melhor e no pior. No sorriso e no choro com destino. No some da minha vida e no não sei viver sem você. Encontrou equilíbrio nos excessos de ambas as partes e no fino desejo de querer estar. Sacana antítese.


quando você chegou, tudo ficou melhor.
e isso é importante dizer.
talvez eu fosse outra pessoa sem você por perto.
talvez meus textos não existissem.
talvez eu não escrevesse.
porque não haveria quem me acionasse
quem me provocasse
quem me desafiasse de tal modo.
talvez eu não tivesse compreendido que um amor novinho pode ganhar asas
e se transformar em nós dois, abrigo.
qualquer assunto, qualquer momento, qualquer silêncio.
com você eu sinto que eu posso mergulhar sem receio.
por isso eu te digo que te amo.
porque é preciso dizer.
eu quero que você saiba.
te amo, meu abrigo.
assim, como um homem que eu nunca imaginei que eu pudesse ser.
e quero que você leia e releia.
porque tudo é frágil
e não sabemos, não sabemos do que virá.

então aceite como um segredo entre nós dois
e se eu sei um pouco sobre você,
você vai achar tudo muito confuso
mas vai sentir o coração em harmonia.
vivo. é isso o que importa.
obrigado por me ensinar e por aprender.
E por todas as partidas sem volta
Que nós arranjamos uma maneira de burlar,
Sem vergonhas que somos.