domingo, julho 26, 2009



DIÁLOGOS QUE EU GOSTARIA DE TER ESCRITO - PARTE I

ALISSA
Por que nós paramos?

HOLDEN
Porque eu não agüento mais.

ALISSA
Não agüenta mais o que?

HOLDEN
Eu te amo.

ALYSSA (perplexa)
Você me ama?

HOLDEN
Sim, eu te amo. E não como amigo, embora eu saiba que somos bons amigos. E não de maneira fofinha, como nos filmes, aquela coisa falsa que eu sei que você não curte. Eu amo você. Muito simples, verdadeiramente. Você reúne o melhor de todas as mulheres que eu amei. Eu sei que você me vê como um amigo e que não devemos cruzar essa linha. Mas eu não posso levar isso adiante. Não posso estar perto de você querendo te abraçar. Não posso mais olhar nos seus olhos sem sentir vontade de te beijar, todas essas sensações que a gente sempre leu nos romances e nunca acreditou. Eu não posso mais falar com você e não expressar meu amor pela pessoa que você é. Eu sei que provavelmente eu estrague nossa amizade te dizendo tudo isso – mas não tenho essa intenção –eu precisava te dizer que eu nunca senti isso antes na vida. E se te dizer isso significa que não vamos mais nos ver, então isso me machuca. Mas eu não podia me permitir mais um dia sem te dizer isso, eu estava sufocado, e pelo seu olhar eu acho que eu fudi com tudo. Eu aceito que seja assim, mas eu sei que alguma parte sua, em algum lugar você está hesitando, e se existe um momento de hesitação, por menor que seja, isso significa que você também sente isso. E eu te peço para não ignorar esse sentimento, pelo menos por alguns minutos, tente enfrentar essa energia antes que você me dispense. Não existe ninguém no mundo que me faz sentir a pessoa que eu sou quando eu estou com você e eu arriscaria a nossa amizade para ter a chance de seguirmos em frente. Encontrar um lugar comum, entre eu e você. Você não pode me negar esse convite. Ainda que você nunca mais fale comigo depois dessa noite, por favor, saiba que a minha vida mudou completamente por sua causa e pelo que você significa para mim e eu te agradeço por isso. E não precisava de uma porra de um quadro na parede para me lembrar de você.

(Meu trecho preferido de Procura-se Amy, do Kevin Smith que também escreveu esse diálogo)

domingo, julho 12, 2009


UM CONTO DE NATAL de Arnaud Desplechin

- Vamos abrir outra?
- Vamos abrir outra!
- Sério?
- Por que não?
- Você não disse que sonhou comigo?
- Eu disse?
- Pelo telefone, mais cedo.
- Besteira. Sonhos desses que a gente deixa de lembrar no decorrer do dia.
- Você não teria me dito que sonhou comigo se não lembrasse.
- Tudo certo, eu me lembro. Podemos não falar sobre isso?
- Deixa eu encher teu copo. Me conta.
- Podemos não falar sobre isso agora?
- Fui visitar o Sérgio no hospital.
- E como ele está?
- Eu me senti tão mal. Na recepção eles me indicaram o número do quarto dele. No final do corredor, a enfermeira me disse. O corredor mais longo da história da arquitetura hospitalar. Incrível como alguém como o Sérgio tão cheio de vida, tão incrível, esteja internado daquela maneira. Quando eu entrei no quarto, houve um silêncio. Um silêncio desconfortável. O Márcio nem me cumprimentou. Eu entrei e ele saiu com os olhos quase saltando. De ódio, naturalmente. Dona Sônia me abraçou e disse alguma coisa carinhosa, terminando com ‘meu filho’. Ela sempre termina as frases que me diz com um ‘meu filho’. Quer café, meu filho? Que bom que você está aqui, meu filho. O Sérgio está morrendo, meu filho.
- Me conta como é que o Sérgio está. Você só falou de você.
- Não sei. Eu me aproximei. Aquela máquina assustadora de oxigênio. Aqueles fios. Soro, medicação, aqueles bips dos aparelhos. Eu me aproximei e ele fechou os olhos, como quem adormece. Acho que ele me viu, não sei. Eu coloquei a minha mão na testa dele. Suada. Eu fiquei ali, parado, observando o Sérgio. Imaginando onde é que poderia estar toda a alegria dele. O desejo enorme de viver que ele me alertou. Algum traço, algum vestígio. Mas ele dormiu. Depois eu me despedi e caí no primeiro boteco que eu encontrei. Sabe que deveria vender álcool no hospital? De vodka pra cima. O sujeito saía para espairecer, fumava um cigarro e tomava umas biritas antes de voltar ao quarto.
- Você já tinha bebido antes de me encontrar?
- Você me conhece. Duas garrafas para te deixar tonto. Vinte para me fazer ficar alegre.
- Nós já bebemos uns oitenta reais, cara.
- Você podre, eu quase alegre.
- Tonto, definitivamente.
- Você sumiu.
- Não vamos cavar motivo para brigar.
- Você sumiu. Desapareceu. Deixou de telefonar. Não apareceu mais nas festas. Nos bares. Nos aniversários. Você perdeu o aniversário do João. Um grande foda-se na verdade.
- Eu não quero ter essa conversa.
- Vai sair correndo? Vai entrar num táxi como da última vez? Por que você não me encara nos olhos e me diz o que há? Me diz.
- Nada, não há nada acontecendo. Essa mania ridícula de querer encontrar explicação em tudo. Qual o problema se eu não apareço? Não telefono? Que obrigação é essa agora? E se sentem a minha falta e se reclamam da minha ausência, por que não me telefonam? Por que não buscam por mim? Porque é mais fácil abrir a boca pra falar um monte de merda. Pra tentar justificar atos que não precisam de justificativa.
- Eu sempre te telefono.
- Não vou entrar, eu não vou entrar nessa competição tola. É tola. Parece que o tempo, a porra do tempo, faz com que a gente se desconheça. Deixe de lembrar como é o outro, como funciona o outro. A gente resolve esquecer que aniversários não são datas tão importantes assim e que foi também esse fato que despertou interesse anos antes, quando a gente mal se conhecia. Que era o máximo saber que o outro só saía para o bar ou para curtir quando sentia vontade. Era o máximo só fazer o que dava vontade. Autêntico. Mas a gente se acostuma. Ou enjoa. Ou enche o saco. E vira provocação. Vira um grande saco. Uma babaquice.
- Não é isso.
- Não me toque, por favor. Não me toque.
- Olha a cena, vai.
- Não há mais ninguém aqui. Olhe ao redor. Não há público. Não há cena.
- Me diz, vai. Por que você sumiu? Ou melhor, o que você sonhou comigo?
- Então não se trata de uma explicação. Você não quer saber os motivos. Você só quer provar que sempre consegue o que você quer.
- Eu me esforço.
- Não adianta o chamego. Deixa a minha mão quieta.
- Você não gosta mais de me fazer cafuné?
- Não. Nós estamos bêbados.
- Você está bêbado.
- Não posso.
- Me faz um cafuné, vai.
- Eu não posso.
- Não pode?
- Eu não posso tocar você. Cada vez que eu te toco, alguma coisa em mim se espatifa, se multiplica. Alguma coisa em mim morre com mais vontade de renascer.

(Silêncio)

- Eu vou embora.
- Dorme lá em casa.
- Eu quero ir embora.
- Tudo bem, sem problemas.
- Eu sonhei com você. Que eu fazia sexo com você. Não era nada pornográfico. Era sensual. Era sexual, natural, mas fazia o maior sentido. Eu sabia que eu estava sonhando e eu me ouvia dizer ‘é claro, isso faz o maior sentido, todo esse tempo’. A gente se encaixava, a gente tinha um ritmo de encaixe e isso era o mais excitante: descobrir um outro tipo de química entre nós.
- Era esse o teu grande mistério?
- O que você esperava? Que eu entrasse no bar e logo após apertar a sua mão eu dissesse que no meu sonho dessa madrugada, o teu pau estava na minha boca. É isso o que você esperava?
- Dorme lá em casa?
- Eu vou embora. Eu passo mal no meu banheiro. Eu durmo no chão do meu quarto. Choro esse desconforto sozinho. E amanhã curo a minha ressaca sem o teu eco.
- Se eu fizer uma coisa movido pelo impulso, você vai me odiar?
- Você enlouqueceu, cara? O que foi isso?
- Um beijo. Só a tentativa de um beijo.
- Eu não quero o seu beijo. Eu não quero. Me deixa ir embora? Por favor? Eu não tenho mais raciocínio, mais coordenação. Eu levanto, você me coloca no táxi. Simples.
- Por que eu não posso te beijar?
- Eu não sei. Eu não quero. É difícil pra mim. É impossível te explicar. Não é possível que você me entenda?
- Não faz sentido, na verdade. Não foi o que você sempre quis?
- Não. Dessa forma? Bêbado, patético, sem consciência para aproveitar? Vivenciar? Não, eu não quero assim. Fora de foco, descoordenado, me deixando levar por qualquer toque. Alguns anos atrás, eu embarcaria no teu beijo e provavelmente ia achar o máximo. Eu ia ficar orgulhoso e comentar com algum amigo mais próximo. Mas não faz sentido agora.
- Qual a diferença?
- A diferença é que eu ainda tenho algum respeito pelo sentimento que eu tenho por você. E não vou ferrar com tudo porque você resolveu ter um impulso, achando que eu te corresponderia porque eu sou tão devoto e tão submisso aos teus caprichos, que eu vou aceitar o teu beijo e depois dormir na sua casa. Não dá. Não pra mim. Não dessa forma. Eu não quero desgostar de você, mas se você me trata feito merda, fica muito difícil.
- O que você espera de mim?
- Que você me coloque no primeiro táxi que passar.
- Você vai jogar na cara que eu abandonei o Sérgio, não vai?
- Não. O Sérgio nunca foi problema meu. Ele não falava comigo, tinha as razões dele e eu respeitava. Sinto muito que ele esteja nessa situação. Mas esse é um problema seu. Agora, por favor, eu preciso sair daqui mas eu não consigo me equilibrar. Eu preciso da tua ajuda para...
- Eu te ajudo.
- Obrigado.
- Eu te ligo quando eu chegar em casa.
- Se eu não te atender, é porque eu dormi.
- Você me desculpa?
- Por todos esses anos?
- Pelo beijo.
- Pela tentativa do beijo. Sim, sem problemas.
- É muito difícil.
- Eu imagino. Mas sempre é muito difícil para cada um de nós. E a gente não se abandona.
- Por muito menos se abandona.
- Outra noite tive o pior pesadelo do universo. Só não foi pior porque você aparecia e me salvava. Era um lance meio super-heróico mesmo. Depois você me deixava em casa (voando talvez) e eu te agradecia banalmente. Sabe essa educação que nos é peculiar? Obrigado, por favor, com licença. E você ia embora. Depois eu acordei, de fato e vi o relógio, 3 da manhã. Não ia te ligar essa hora, quem costuma fazer isso é você e não vou roubar teu hábito. Mas é isso mesmo. A gente vive se salvando. No fim das contas, é tudo uma questão de ser salvo pelo outro e estar pronto para salvar. E isso é lindo.

quinta-feira, julho 09, 2009



O TEMPO QUE RESTA de François Ozon

Clementine: This is it, Joel. It's going to be gone soon.
Joel: I know.
Clementine: What do we do?
Joel: Enjoy it.
(C. Kaufman e M.Gondry)

Quero dizer antes que eu me cansei. De mim mesmo. De você mesmo. Desse encontro que parecia tão Romeu e Romeu, mas que se mostra um pastelão sem fins lucrativos e sem público. Eu cansei dos textos, das canções, cansei de procurar significados no eco de um cenário vazio e sem cor. Cansei de metáforas. Cansei de segundas, terceiras e quartas intenções. Não quero mais um olhar que me sugere mil possibilidades e não especifica nenhuma delas. Dispenso até o abraço quente, embora eu saiba que vou sentir falta e vou me contrariar, correndo para te abraçar. Quero dizer que eu gostaria de ter encontrado você em outras circunstâncias. E que também não ouso dizer que circunstâncias seriam essas. Seria como alimentar um leão magro. E precisaria de mais coragem. Precisaria é de álcool, de repente nem tanta coragem. Mas hoje é domingo e não bebi nada. Não sei se essa é uma maneira clara de te dizer o que sinto. Acredito que não porque ainda não sei o que te dizer, não encontrei ainda o jeito de organizar a bagunça dos armários. Ele é mais confuso do que tudo o que já arrisquei porque entra em contato direto com o subjetivo. Tudo o que na foi dito, apenas sugerido. Os olhares silenciosos acompanhados de um pensamento que não virou verbo e som. Tudo o que é de fato importante entre dois homens: o silêncio. Que aqui ganha significados não muito agradáveis ou definitivos. Ou descartáveis, vai saber?

Eu escrevo nesse dia branco. Sem saber. Cansado.

Existe um momento que é exaustivo quando a gente descobre que a pessoa que elegemos – quero ser abrangente, falo de um amor, um amigo, um confidente, um desconhecido – não é a pessoa que elegemos. Como se ela descontruísse a imagem que ele mesmo teceu. Ela, vamos abrir as porteiras da arena. Como se ela brincasse com o tempo. E fizesse você perceber que o desperdiçou. Eu me cansei de perder o tempo que resta.

Eu poderia escrever sobre o tempo. Escrever sobre o tempo sempre será escrever sobre o tempo que resta. Sim, o filme do Ozon é melhor do que qualquer texto que eu venha a produzir. Ele é objetivo, a gente percebe desde o primeiro momento o abismo que se abre diante do protagonista. A gente sabe tudo o que vai acontecer, mas existe mais do que a delicadeza. Existe a condução da delicadeza. Avassaladora e inevitável com que a personagem encontra para se despedir. Ele faz todo esse trajeto sem a noção do tempo que resta. Encontra as suas maneiras, como cada um de nós. Sem saber do que virá, embora saiba. Não sabe na verdade quando virá. De que maneira, se em dia de sol ou chuva. Então eu me abracei e chorei sem freios. Acreditando no final do fim que se cumpre, previamente anunciado

Passei muito tempo em silêncio. Passei muito tempo disponível para todas as tuas armadilhas.

Nesse mesmo dia, enfrentei a cidade na quase madrugada. Enfrentei elegantemente te encontrar. E quando eu digo enfrentar, quero dizer abrir mão de tudo o que tenho percebido em relação ao que não previ, em relação a você, em relação ao espaço que existe. Então eu poderia te dizer dos mínimos óbvios que não estão em sintonia. Poderia te dizer que eu compreendo e aceito o não, de onde quer que venha. E quero dizer para que fiquem abertas as linhas, que estendi a mão. Eu estendi a mão. É possível encontrar diversos fins para esse ato simples e plural. Assim é.

Existe uma urgência umbilical em tudo o que eu toco ou percebo ou identifico.

Existe o tempo que vai de encontro e se impõe sabiamente sobre os meus ais.

Eu respeito o tempo. Eu respeito as urgências.

Eu te quero na minha vida. E quero que na minha urgência, compreendas.

Não sei ainda se na indiferença ou na tua polidez, existe a sugestão de tentar compreender o tempo. O nosso tempo.

Eu giro a roleta e te digo, se ela te escolher, há de escolher, que existe um tempo de vida para toda relação, para cada relação. Não. Mentira. Quero dizer que existe um processo, um espaço de tempo que existe para que se estabeleçam os laços. Querer somente não determina. É preciso querer e perceber o que o tempo vai conduzir. Sozinho, o tempo também não determina. É preciso a soma do querer mais a do receber mais o tempo mais a cidade disponível mais o mistério que existe com cada um que encontra cada outro.

Depois eu revi Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças e eu percebi que a gente desmorona quando alguém deixa se apagar. Percebi que a gente busca forças na alegria do outro e não se trata de apagar. Mas de trocar a ordem de lugar.

Avalanche de frases, hoje não. Hoje eu dispenso. Mas escrever provoca esse tremor de palavras, inevitável cachoeira, encontro com o destino. Eu escolho você e eu sei que quando a semana começar, ao sair de casa, vou te encontrar. Eu sei que a quando a semana terminar, ao entrar em casa, vou te encontrar. Eu tenho dois túneis para te ver. E dentro desses dois canais, dentro desse espaço, eu preciso ser claro. Não deixar a confusão natural de ser quem eu sou embaçar tudo o que há. Eu tenho dois momentos e de repente, se o telefone tocar ou se eu fizer com que algum telefone toque, o seu, fatalmente, a gente não arrisca um cinema? Um suco? Uma terceira via? Eu não estou falando em flores no buquê, futuro promissor, nada do que possa te causar dúvida.

Hoje eu giro a roleta, há de ser você, porque em algum momento, tudo se confundiu. Eu confundi o meu desejo ao te receber. E não sei onde você me confundiu. Quero dizer que é possível que o tempo de germinar, não tem a canção do Gil, Drão, acho lindo, mas esse tempo de germinar pode ser que não provoque... Flores, eu ia dizer. Prefiro reações. Não provoque reações. Quando alguém exerce beleza em outro alguém, algum movimento é parido, por menor e mais simples que seja. Se nada acontece, se o vento não é capaz de varrer, não é veloz o suficiente, a paisagem permanece. Como se não houvesse. Como se não tivesse. Como se não fosse. Fica tudo estático. Assim é.

Tudo pede um pouco mais de calma.

Tudo pede um pouco mais de alma, me disse o Lenine.

E eu acreditei.